DAROR E MÍRIEL

Capítulo XIX – O Retorno das Minas

E novamente, depois de uma longa estação de espera, o grande animal despontou no horizonte do Sûr.

O mûmak vinha pesado, carregado de ouro, pois Daror não pensava em voltar à tortura das minas por longos anos, e os homens vinham cansados e magros, castigados pelo sol e tão secos e cobertos de areia que nem a parada no Haradwaith parecia ter sido capaz de repor a água da vida que haviam perdido naqueles meses.

Mas dessa vez o olhar de Daror não procurou por Míriel ao descer de Murdug, pois ela estava agarrada a ele antes que seus pés tocassem o chão. E não haveria cheiro ruim ou aparência gretada nem lábios partidos que a fizessem desgrudar dele naquela hora.

Daror olhou para ela com espanto, retirando o turbante que lhe cobria a cabeça e o véu com que até ele em vão procurara proteger o rosto naquela jornada escaldante, e nem a enlaçou, lembrando-se do vestido que terminara de arruinar com sua sujeira pestilenta da última vez, mas Míriel tomou-lhe a mão e a passou em torno de si, retendo-a em seu ombro, oferecendo-lhe apoio.

E como nem Terair, ao ver Daror tão exaurido, animou-se de tratar dos assuntos da Casa com ele, e Míriel pode conduzi-lo à tenda antes que tivesse tempo de repudiá-la, ou de aproximar-se de Mariän ou de quem quer que fosse.

A tenda estava convidativa e fresca, havia flores nos vasos, água e vinho para a grande taça de Daror, fruta, pão e carne, lençóis novos, muito mais almofadas coloridas - tecidos e tingidos pelas mulheres - e Naraor vestido como um principezinho, ajoelhando-se aos pés do Pai e levando a testa ao chão para ele quando Daror se sentou no largo banco de encosto e espaldar que Míriel fizera recuperar e forrara de almofadas, ajoelhando-se ela também e tirando-lhe as botas, e mandando que o menino as levasse para fora enquanto não fossem lavadas.

"Mas ele já está falando."

"Passei a estação ensinando-lhe" – disse ela oferecendo a um Daror pasmo a taça de água e descascando-lhe fruta, levando os gomos sumarentos à boca. – "Já quase recita a linhagem de Sua Casa, meu Pai" – falou Míriel na língua de Harad – "e não há que se preocupar agora, que a Casa de Daror está em paz, a colheita feita, a água da chuva correu pelos caminhos renovando o Sûr, e também os oásis menores, segundo Raanat, que Terair enviou a bater sua terras, Senhor da Casa."

E Daror mastigava tudo que Míriel lhe punha na boca, embora naqueles meses houvesse desaprendido de sentir o sabor do alimento entremeado à areia fina, já que não lhe ocorria o que dizer.

Porque ele não tivera esperanças.

Às vezes supusera mesmo que ela não seria capaz de esperar, e já estaria morta quando ele retornasse.

Mas parece que sua promessa lhe dera forças, a fizera reagir, até demonstrar gratidão, velando tão bem do que era seu.

Tocasse a cumpri-la, então, depois disso não podia fazer que desconhecia o quanto era um sacrifício para ela, estar com ele.

"Dentro de duas semanas seguimos para o Norte, está bom para você?"

Míriel sentiu voltar-lhe tudo, todo o desespero avassalador que achava haver vencido, o aperto na garganta, as lágrimas descontroladas.

Duas semanas. Duas semanas. Ele havia dito duas semanas. Míriel deu um nó em si mesma, travando o choro, empurrando-o estômago abaixo. Era quando lhe sorria que ele lhe sorria de volta, era sorrindo que ela teria alguma chance, e não com as lágrimas que o haviam afastado.

"Ficaremos juntos essas duas semanas?"

O sorriso dela era forçado e não escondia o sacrifício.

"Não" – respondeu Daror – "não precisa fazer o que não quer."

"Mas eu quero" – redargüiu Míriel, enlaçando o pescoço de Daror e sentando-se em seu colo com a coragem do desespero.

"Só por estes dias vou mandar Naraor para Hellë, está bom para ti?"

"Se é o que tu queres" – respondeu por fim um Daror atônito, engolindo em seco a fruta que quase entalara.

"Aonde vais?" – perguntou Míriel ao ver Daror levantar.

"Vou ... ao lago" – respondeu Daror cada vez mais zonzo.

"Ah sim! Claro! Então vou levar Naraor a Hellë" – disse – "Volta logo!"

"Sim."

A mente e o cansaço de Daror, entretanto, caminhavam a passos lentos. Ela estava feliz de voltar, mas o queria junto a si por duas semanas. Duas semanas por ele, para agradecer-lhe, ou duas semanas por ela, para desfrutá-lo? Ela o queria ou não? Ele era para ela um sacrifício, ou não? Tivera prazer com ele?

Daror mirou seus dedos arrebentados, sentiu sua língua áspera na boca, pensou em como se sentia seco. Chamou um menino e ordenou:

"Corre a dizer a Mariän de Tunir para encontrar-me no lago, pois preciso de falar com ela."

A FLOR DO CIÚME

Mariän agachou-se na beirada do Sûr, em frente ao corpo submerso de Daror.

"O que se passou com Míriel na minha ausência? Ficou feliz assim só da promessa de voltar ao Norte?"

"Pelo contrário, Daror, se há uma coisa certa é que Míriel não quer voltar ao Norte. É minha opinião que se recuperou acima de tudo na esperança de reaver o seu favor. Mais não sei, porque por alguma razão decaí do favor dela."

"Decaiu do favor dela? Como?"

"Não tenho certeza, mas acho que se tomou de ira contra mim depois que lhe disse que iriam separar-se."

"Vim trazer-lhe toalha, Daror" – assomou Míriel.

"E pode sair, Mariän, a mulher de Daror sou eu, eu lhe faço companhia. Não fique tomando-se por conta de que alguma separação aconteceu, nem que seja tão certa de acontecer."

E à retirada de Mariän, surpreendendo Daror de novo, Míriel despiu à luz da Lua o corpo de que tantas vezes ele dissera que gostava, de forma a que o visse bem e por inteiro, como nunca o expusera tão voluntariamente.

Míriel então sentou-se na margem do lago e estendeu os braços, pedindo que Daror a ajudasse a entrar na água. Mãos enormes circundaram sua cintura e Míriel projetou-se para apoiar as mãos nos ombros mais que largos, aproximando os seios do rosto dele, fazendo-o descê-la para a água rente a si.

Pernas brancas e longas enlaçaram Daror, e ele sentiu como se a própria Lua branca o envolvesse.

E Daror, que à sua maneira passara em tristeza os últimos meses, quis voltar a sorrir mesmo com a boca aberta em ferida pelo deserto profundo – embora tudo que tenha conseguido foi fazer sangrar as rachaduras.

Mas de volta à tenda, Míriel passou-lhe leite de andir nos lábios, no rosto e na cabeça, e massageou-lhe todo o corpo imenso, e isso levou tanto tempo que Daror dormia quando ela terminou.

Ao escutar seu ronco, o medo de tê-lo perdido, de ter perdido definitivamente o seu favor assomou a Míriel mais uma vez ... mas Daror estava dormindo com o semblante pacificado, quase como se sorrisse, e embora acordasse tarde no dia seguinte, o que não era de seu feitio, havia sim um sorriso nos olhos que despertaram para Míriel

E Daror bebeu água e comeu fruta e pão, recostado à cama, pegou do andir e untou os dedos e o membro olhando para Míriel, que se achegou mais ao corpo dele, pondo uma perna por sobre as suas. E Daror não perdia o tempo de viver do homem do Harad em dúvidas.


Antes que a primeira semana se findasse, Daror perguntou a Míriel se ela queria mesmo retornar ao Norte.

"Oh não, Daror! Claro que não! E também não quero o seu ouro, nunca quis ... só peço que ... se me repudiar para tomar outra esposa ... não me force a casar com outro."

"Do quê está falando, mulher louca?"

"É que ... Mariän disse ... isto é, Mariän falou ... deu a entender ... eu acho que ela acha que você pretende desposá-la!"

E os lábios quase curados racharam novamente, de tanto que Daror gargalhou e riu do que ouvira.

"Mariän ... certamente ... não pensou isso ... esse tipo de coisa ... não ... só uma cabeça totalmente sem juízo como a sua ... minha florzinha desmiolada."

Míriel não sabia se sentia alívio ou ira com o escárnio de Daror ao seu pensamento.

"Fica me chamando de florzinha como se ... como se não me levasse a sério."

Daror riu mais ainda.

"É para levar a sério, Míriel, uma idéia dessas?" – mas ele sorriu e a abraçou – "Minha florzinha, minha florzinha ciumenta, minha florzinha boba ..."

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NOTA DA AUTORA: E finalmente, depois de uma longa estação de espera, pareceu-me a melhor forma de começar um texto que chega com tanto atraso ... acho que estou arriscando perder definitivamente todos os meus leitores, mas é que as tribulações do caminho foram muitas, muitos os contratempos, tantos que as recomendações ficaram ainda mais restritas, mas não sem antes prestar contas a uma certa dama élfica que nos está roubando a esperança, e que previu que Míriel viria a tomar consciência do poder de sua feminilidade.

Esse capítulo é especialmente dedicado a Nimrodel Lorellin

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