DAROR E MÍRIEL

Capítulo XX – SEMENTES AO SOL

O CONSOLO DE DAROR

"- Ai! –" Gritou Míriel, quase deixando cair Naraor que se agitava sem querer largar do pai para ir dormir.

"- O que foi! –" alarmou-se Daror retomando o filho ao ver o colo de Míriel falsear.

"- Nada –" Míriel apertava os dentes, mas Daror já flagrara o gesto reflexo de segurar o pulso.

Daror passou o menino a quem estivesse perto, e dessa vez fez calar sua manha com um olhar feio. Voltando-se para Míriel, puxou-a para junto da fogueira e examinou detidamente o pulso que fora ferroado pelo escorpião.

Apenas a pele prendia os ossos. O braço inteiro tremia em espasmos e a falta de carne chegava a desenhar aos olhos agora atentos um sulco no dorso da mão direita dela, cujos dedos apresentavam-se até ligeiramente curvados, parecendo deformá-la.

Não vou chorar! Não vou chorar!

Ainda que Daror me recrimine por haver-lhe escondido minha mão.

Ainda que me culpe.

Ainda que me repudie.

Não vou chorar!

Daror não a recriminou, não a culpou e não a repudiou, apenas enfaixou o punho do queixo trêmulo.

Tomou-a normalmente aquela noite, sem demonstrar qualquerrepulsa de sua mão aleijada.

Dormiu.

Roncou.

Comeu fruta e pão ao acordar.

Estava se vestindo quando de repente perguntou-lhe:

"- Já me viu lutar de espadas?"

"- Uhm ... não."

"- Estão sempre a me chamar e faz tempo que não vou. Isso não é sábio, Daror é capaz de tomar uma coça dos rapazes novos que não tem esposa e passam a noite a bater-se até a exaustão."

"- Não me admira que não esteja entre eles –" sorriu Míriel, terminando de vestir-se também.

"- Uhm ... Vem comigo –" decidiu Daror, pegando-a pela mão. "- Talvez se apiedem de me humilhar em frente à minha mulher –" gargalhou sobraçando suas espadas.

Realmente a qualquer hora podiam-se encontrar rapazes se batendo pelo Sûr, e os dois filhos de Tunir treinavam com o neto de Terair nas proximidades, sob os olhos da esposa do último, que parecia apreciar o espetáculo.

Por mais que se esforçasse, Daror não tomou surra alguma. Era simplesmente bom demais, e muito alto e forte, impossível de ser atingido sem uma aproximação que qualquer oponente saberia insensata, e nem os filhos de Tunir nem muito menos o neto de Terair eram principiantes na arte da espada.

"- Ah! Mas não podem desistir assim –" disse-lhes Daror quando nem os três juntos conseguiram fazer-lhe frente "– Olhem; vou providenciar-me um contrapeso: mulher! –" ordenou "– Vem cá."

Míriel aproximou-se sem entender muito bem quando Daror virou-a de costas para si e com a mão em seu estômago colou-a ao seu corpo, estendendo o braço por sobre o braço dela e pondo-lhe a espada na mão sobre a qual fechou a sua, chamando os rapazes de volta à luta.

Também eles não entenderam bem o que acontecia, mas mesmo assim empunharam as espadas.

Míriel assustou-se quando as lâminas se chocaram, o barulho tão próximo, a vibração reverberando em seus ossos, e quis fugir, mas Daror segurou-a firme contra o seu corpo, defendendo-os dos ataques simultâneos.

"- Afaste as pernas – "comandou "– senão vamos ser desequilibrados."

"- Acompanhe Daror, Míriel, seja minha extensão, e não meu pior inimigo."

"- Gire agora."

Seu pulso vibrou durante o resto do dia, e à noite Daror teve de enfaixá-lo de novo, após massageá-lo com andir para conter a inflamação.

No dia seguinte, porém, levou Míriel para a mesma brincadeira sem graça e violenta.

E no seguinte também.

E quando ela lhe disse que não se agradava daquilo, Daror disse-lhe que ele se agradava, e muito.

Assim, Míriel não teve outro remédio a não ser acompanhá-lo para o compromisso ao qual a obrigava, e ao invés de vestido, pôs também calça e camisa – roupagem que já se tornara habitual entre tantas de suas conterrâneas naquela vida ao ar livre.

Todos os dias Míriel praguejava, primeiro para si mesma, depois abertamente, pois era uma dama e não um moleque para gostar daquela brincadeira.

E Daror gargalhou até ficar sem ar de vê-la levar alarmada a mão à boca de onde os impropérios começavam a sair sem que Míriel inicialmente percebesse

E ainda que seu pulso houvesse doído até se resignar, nem assim Daror a liberara daquela tortura com que cismara em iniciar os seus dias.

Como se ela não tivesse mais o que fazer.

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Foi pensando em tudo que tinha de fazer aquele dia ao invés de desperdiçar seu tempo de viver ali, que o golpe de Sendir fez a espada cair no chão.

Não a pesada espada de Daror, mas uma menor que ele escolhera, mais adequada à empunhadura de Míriel.

"- Não estavas prestando atenção! –" admoestou-a Daror. "- Pega a espada –" ordenou à mulher que já se abaixava, um pouco espantada da arma haver escapado da mão forte dele.

A não ser que não fosse ele que a estivesse segurando.

Mas apenas Míriel.

E ela ergueu-se com grande desconfiança no olhar que voltou para Daror.

"- Acho que já estás boa de bater-se sozinha –" disse o Pai da Casa rápido, fazendo sinal para Sendir antes que Míriel pudesse falar.

Apesar da vontade de dizer-lhe que aquilo não tinha cabimento, que ela não gostava ... A defesa foi um gesto automático.

Daror mantinha os braços cruzados sobre o peito, deixando Sendir atacá-la, deixando-a defender-se sozinha, não a protegia nem mandava o filho de Tunir parar.

Mesmo quando ela caiu no chão, apenas mandou que se levantasse e passou a orientar a sua defesa:

"- Afaste as pernas Míriel, mantenha o equilíbrio."

"- Erga mais o braço, flexione o cotovelo."

"- Não tanto, mantenha a defesa fechada."

Quando o jogo terminou e os rapazes se afastaram, Míriel voltou-se enraivecida e ofegante para o tranqüilo Daror:

"- Já te disse que não gosto disso."

"- Desde que assumas a responsabilidade de deixar tua mão inutilizar-se, faz o que quiser."

Míriel olhou para a mão que empunhava firmemente a espada, mais forte do que jamais fora.

AS PARCEIRAS DE DAROR

Agora era Míriel que procurava o treino todo dia, insistindo em bater-se até mesmo com Daror, se outro oponente não estivesse disponível.

"- Nem! Assim não! Não quero que me deixes vencer fácil! –" reclamava Míriel, atacando-o e ao mesmo tempo batendo o pé descontente no chão, para demonstrar seu desagrado da condescendência de Daror.

"- Vês! Não deves descuidar comigo! –" bradava uma orgulhosa Míriel ao marido enfeitiçado, que sorria com a lâmina encostada ao pescoço. "- Tenho-te rendido agora!"

"- E quê Míriel pretende fazer comigo?" – ofegou Daror.

Míriel demandou que lutassem em dupla, como Hadair e Aniá, pois agora não seria mais seu contrapeso, mas sua parceira, e Daror chegou a lembrar da época em que fazia dupla com Darai para divertimento de Raor.

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Ao baterem os inimigos, Daror erguia a irmã nos ombros, dividindo o aplauso e o favor de seu pai.

Desde sempre tinha que dividir suas glórias com ela, de tê-las eclipsadas pela irmã, na verdade, pois Darai não era só uma grande espadachim e campeã, mas cada vez mais bela e provocante, e era natural que as atenções se voltassem para seu jeito atrevido e gracioso, enquanto Daror parecia não parar de crescer nunca, e freqüentemente fosse até um alívio ver as atenções recaírem sobre o tesouro de Raor que sobre os pés e mãos desproporcionais que tentava esconder encolhendo-se nos cantos.

Gostava quando seu pai o chamava para estar no meio dos homens, é claro. Então estufava o peito e postava-se atrás do trono de Raor, figurando a pujança de sua casa. Mas cedo ou tarde alguma palavra sua acabava por despertar o riso dos Senhores, como tolices de criança proferidas pela boca de um homem adulto.

Já as sentenças que Darai proferia, sentada nos joelhos de Raor, podiam até despertar riso também, mas de um outro tipo, não de troça, e sim de admiração ou encantamento de sua empáfia, de seu destemor.

No entanto, quando lhe dava na telha, Darai podia saltar do colo do pai e juntar-se às outras crianças, correr, gritar, saltar ... Desabalar-se pelos oásis, brigar com os garotos de sua idade também, coisa que Daror não podia fazer, pois se sentia esquisito, tão grande em meio a eles.

Se insistisse, acabava por machucá-los. Mais de um ombro destroncou, mais de um braço quebrou, e soube que não era justo nem bom, e afastou-se dos menores juntando-se aos bem mais velhos.

Havia muito de bom nisso, pois entre os mais velhos estavam as primas mais velhas, cujos jogos iam além do beijar e do mostrar; mas também mais maliciosas, muitas vezes eram cruéis, quando não acabavam casando logo e partindo-lhe o coração ainda muito tenro.

"- Ai, Talyssia, tu me prometeste."

"- Mas que não estou preparada, acaricia-me mais Daror."

"- Assim prima? Assim está bom para ti?"

"- Ai, Daror, Darorzinho, me toca assim ..."

"- Ai Talyssia, não estou agüentando, não ... ahh ... ahh"

"- Êh garoto bobo, nem estava te tocando ainda."

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"- Tu queres o meu favor, priminho?"

"- Ai Nitá, tu me darias o teu favor?"

"- Ah, isso depende de ti ..."

"- Queres alguma coisa de Daror, minha prima? Dizes e terás."

"- Tu te baterias por mim, Daror?"

"- Bater-me por ti? Nitá bonita, sou teu campeão; na festa de anos de Ravai todos os campeões que vierem serão curvados a ti."

"- Não precisas de curvar-me todos os campeões, Daror."

"- Ah não?"

"- Mas há um moleque de Virck, Tarick.. "

"- Tarick é o segundo filho do Pai de sua Casa, e é muito mais baixo que Daror."

"- Se tu pensas assim... –" e Nitá virou o rosto para o outro lado, amuada.

"- Êh prima, estou a dizer algo que não está bom? –" disse Daror tentando abraçá-la e puxar-lhe o rosto para si, mas Nitá arrancou-se de junto de Daror e começou a fungar.

"- Está chorando, prima? O que houve Nitá?"

"- O filho de Virck que não queres bater tentou forçar-me o favor da última vez que esteve aqui."

"- Ele te forçou, Nitá? Machucou-te? Hein? Fala Nitá!"

"- Não, não chegou a isso ... mas bem que tentou."

Na noite do dia em que os filhos de Virck pisaram na Terra de Raor, Tarick beijou a areia aos pés de Nitá.

Daror levou uma surra monumental do Pai às vistas de todos os Senhores de Harad.

E Tarick levou Nitá para ser sua mulher.

FLORES DO DESERTO

Aniá, a mulher do neto de Terair, como a grande parte das filhas de Harad, sabia manejar a espada, e treinava com Míriel sem poupá-la, briosa do valor do seu sangue e do seu dote.

Nessa época, Tunir achou por bem que aquilo que se aprende não se perde, e Mariän concordou com ele, indo juntar-se a elas, no que Míriel encontrou íntima satisfação em derrubá-la o quanto pode; embora Mariän não fosse do tipo que se queixa, mas que se levanta e aplica-se ainda mais.

Já Hellë achou apenas que seria divertido, e nem mesmo a orgulhosa Aniá, nascida na Casa de Dilin, deixava de ter a simpática Hellë como amiga, e pediu ao avô de seu marido que as treinasse.

"- Nem! Perder meu tempo com mulheres estrangeiras que choram por qualquer coisa."

E foi apenas asistir a proficiência da neta, mulher de seu amado Hadair, único descendente vivo de todos os filhos que Terair sacrificara nas guerras de Raor, batendo as três juntas.

Mas nas veias de Terair pulsava o sangue do mestre, e eram tantos erros que não conseguiu se conter até corrigi-los todos, enquanto Tunir e Daror disfarçavam o riso, e as mulheres do Norte quase entravam em choque, em contato direto com a arrogância absoluta da indelicadeza haradrim de Terair, desconhecedoras da grande maioria das pragas que jorravam de sua boca.

Quando Terair percebeu o que fizera, entretanto, Tunir e não Daror ponderou com ele que era da tradição de Harad que as mulheres conhecessem da espada parra defender-se quando os homens estivessem fora usando do arco na caça ou na guerra.

Ao cabo muitas mulheres aprenderam o manejo das armas no Sûr.

E a mão de Míriel não mais doeu, e até ganhou mais firmeza na roca, sem perder a suavidade, fiando fios delicados mas cada vez mais resistentes, como ela mesma estava se tornando.

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NOTA DA AUTORA: Após um mês sem conseguir fazer nada melhor com esse capítulo, acabei decidindo-me a impingi-lo a vocês do jeito que está - hábito tornado contumaz ... não é de admirar que os reviews mingúem.

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