Esse capítulo é dedicado a uma menina chamada Isadora ... porque às vezes queremos fugir dos problemas de forma atabalhoada, e acabamos machucando quem a gente ama.
Daror & Míriel
Capítulo XXII – Tempos de Estio
Alguns anos depois ...
Como provavelmente a esmagadora maioria das gondolim, Míriel supusera que o extravagante dote de Harad em suas noivas advinha da necessidade de mulheres.
Não era bem isso.
Tendo perdido quase dois terços de sua população durante a guerra do anel, o que Harad visava era menos as mulheres do que os filhos que elas lhes pudessem dar, percebia cada vez mais claramente, fiando com as outras ao entardecer do Sûr, os homens chegando do trabalho para o lago, as crianças se lhes atirando aos braços e à água.
Acostumara-se com a nudez dos homens. Era com naturalidade que se despiam para mergulhar ao final de um dia de trabalho. Não estavam afeitos a fazê-lo próximo de onde as mulheres estivessem reunidas, ao abrigo de alguma sombra, mas não se preocupavam em esconder o que quer que fosse de suas vistas.
Já as mulheres não costumavam banhar-se na presença dos homens – não seriam importunadas, talvez no máximo espionadas por um olhar adolescente curioso mas distante, porém mesmo Aniá do Sul do Harad, que na hora da tradição dançava sem pudor, não tinha o hábito de exibir sua nudez para todo o Sûr – e se um marido pretendesse banhar-se com a mulher, procuraria fazê-lo num local mais reservado e num horário mais tardio.
Quatro anos após a noite do Pelennor, os haradrim deviam estar satisfeitos, pois como os oásis de outras Casas, o de Daror regurgitava de crianças. Parecia um viveiro de peixinhos multicoloridos àquela hora, pois todos os matizes podiam ser encontrados naquele cardume: do puro ouro de Naraor ao moreno profundo do sul do Harad de Batiá, a bisnetinha de Terair.
O sol poente rebrilhava na água espadanada pelos pés pequeninos que tentavam atingir a grande bóia, a verdadeira torre que era Daror no meio do lago, já alcançado por uns 20 bracinhos, ávidos por imitar os um pouco mais velhos e hábeis que escalavam aquela montanha para pular de sua cabeça, liderados por Naraor.
- Ele nasceu para ter muitos filhos – declarou distraidamente Thanaë, para ninguém em particular, tingindo de remorso o fio enlevado que Míriel vinha fiando.
O súbito silêncio entre as mulheres pareceu-lhe um eco do silêncio de seu próprio coração, preenchido pelos gritos alegres dos meninos ao fundo.
Se a algazarra das crianças era um encantamento às margens do entardecer, não o era à noite em sua tenda.
A intensa procriação tinha seus ônus, e para aliviar a carga de um fim de gravidez, de um filho recém-nascido, ou mesmo de um casal que precisasse de algumas noites de tranqüilidade, a mulher que estivesse de regras e não fosse se entregar ao marido geralmente acolhia um grupo maior ou menor de crianças durante uma semana.
- Estás de regras de novo? Mas há poucos dias essa tenda estava cheia! – reclamou Daror, cuja chegada aumentou ainda mais o alarido das crianças que o puxavam para suas brincadeiras.
Daror se jogava no chão entre elas para que subissem nele e depois caíssem nas almofadas quando se levantava. Também brincava que ia esmagar a todas de uma vez prendendo-as em seu abraço, e lhes retribuía as gracinhas de bater e morder abocanhando bracinhos e barrigas e sacudindo-os a rosnar como um cão feroz.
Eram brincadeiras rudes e selvagens, e claro que se machucavam; volta e meia algum comprimia um galo ou um joelho esfolado.
Mas mesmo tão pequenos, rapidamente continham o choro junto de Daror: bem antes que este cumprisse a ameaça de seu olhar. O Pai do Clã não gostava de manha, viesse de meninos ou de meninas, e antes de aprender a falar, os filhos de uma Casa aprendiam a respeitar seu Pai.
Míriel fitara horrorizada a sujeira que todos faziam na tenda com as castanhas que Daror lhes jogava. Mas pelo menos de boca cheia o barulho foi se acalmando, e ela os viu cair um a um sob a voz grave e calma que lhes contava histórias que certamente não poderiam compreender.
Daror também acabou adormecendo sobre as almofadas, entre os outros meninos, que espantosamente prosseguiam impávidos em seu sonhos apesar do motor que rugia ao lado.
Tanto melhor que deitada na cama, com todos os travesseiros empilhados sobre a cabeça, Míriel não seria impedida de dormir por aquela vibração.
A vibração dos próprios pensamentos entretanto, de há muito que não havia como abafar. Thänae certamente não tinha intenção de atingi-la, como as mulheres volta e meia acusavam. Seus comentários nada mais eram que o óbvio que Míriel também percebia.
Não era mais a alma frágil e desorientada que se desmanchava à dor. Era cada vez mais uma alma ponderada que aceitava sua inevitabilidade sem se deixar abater.
Quase uma alma forte o suficiente paradecidir.
Fora a presença vital de Daror ao seu lado que lhe transmitira essa segurança.
E Míriel queria retribuir-lhe todo o bem que fizera a ela, dando-se toda a ele, e por inteiro.
Mas não lhe dera o que ele mais precisava.
Filhos.
Filhos fiéis que liderassem suas forças quando Daror ficasse mais velho.
Filhos suficientes para aliviar-lhe das cargas e permitir-lhe uma trégua de tantas obrigações de Pai do Harad.
O Harad que Daror unira sob sua liderança inconteste.
Filhos que mantivessem sua obra.
Herdeiros que não pudessem ser contestados.
Ao contrário do menino que dormia sobre a barriga dele agora.
O único filho que dera a Daror era um bastardo.
Ninguém deixaria de fazer as contas; de reparar em seu cabelo cor de ouro, em sua pele clara, em seus olhos verdes, de notar que não havia uma gota do sangue de Daror nele, nada.
E seu ventre secara.
Diziam-lhe que não, que deveria esperar.
Esperara anos, vendo as outras barrigas crescerem no Sûr.
Menos a sua.
Daror não poderia esperar eternamente: um filho leva uma vida inteira para crescer.
Mais de uma vez insinuara a possibilidade, e até a conveniência de que ele a repudiasse por uma mulher fértil, e que o fizesse rápido, pois uma criança demora muito a crescer.
- Para que essa preocupação agora? Quantos anos acha que tenho, mulher?
Que idade teria Daror? Seu rosto era tão desfigurado, tão cheio de cicatrizes, tão curtido pelo sol ... Daror poderia ter qualquer idade.
- Quantos anos tem Daror?
- Daror foi concebido no verão, faz anos na primavera, por isso Daror gosta de flores ... não tenho 30 anos, Míriel.
Míriel não conseguiu esconder seu espanto
- Mas ... pensei que já era Pai de Harad há muitos anos.
- Desde que tinha 18 anos.
- Dezoito anos? Mas isto é muito jovem.
- Nunca fui jovem. Não tive tempo. Só tive tempo de cometer erros, e meus erros arrastaram consigo todo o Harad. Por isso também nunca vou ter tempo de descansar. Não tenho o direito, eu destruí o Harad, eu devo soerguê-lo. Nunca tive e nunca terei tempo de ser jovem, é por isso que pareço um velho para Míriel.
- Velho? Não é um velho para mim, Daror ... quando sorri, seu sorriso é tão alegre, é o sorriso de um menino ... queria fazê-lo sorrir mais vezes.
Queria-o demais, mas realmente mentira sobre estar de regras. Raramente aliviaria a carga das outras se não o fizesse, vinham sem regularidade, num fluxo de poucos dias...
Seu corpo não funcionava direito, cada atraso angustiante acabara sendo apenas mais uma frustração para ambos, até convencê-la: não aconteceria mais.
Se o amava, precisava deixá-lo ir.
Precisava encarar a verdade, e fazer Daror encará-la também.
Mas como, se Daror chegara a passar-lhe uma descompostura frente a todo o Clã, quando se exasperara com a insistência dela, declarando que se recusava a repudiá-la em razão de sua presumida infertilidade e a proibira de tocar no assunto novamente, sob pena de castigá-la?
Se queria ajudá-lo, precisava ser forte.
Ela é que teria de tomar a iniciativa de afastar-se, e com uma justificativa que ele não pudesse recusar.
Faria tudo de forma acertada: nada de choros, de envolver os outros em seu sofrimento. Submeter-se-ia sim a um outro homem, depois que Daror a repudiasse, de alguma outra Casa, e afastar-se-ia com seu filho para que Daror pudesse reconstruir sua vida com outra.
Outra que pudesse lhe dar tudo que ele precisava, que fizesse por merecer tudo que Daror oferecia em troca.
- Quando tuas regras vão embora? – sussurrou Daror em seu ouvido ao encostar-se nela.
- Tem paciência Daror – devolveu-lhe Míriel, entre a delícia absurda e a dor insuportável.
- Ai Míriel, bem-querer, Daror não sabe ficar sem ti – disse ele apertando o abraço.
- Aprende a esperar – meio que gritou Míriel, empurrando-o para se afastar.
Daror não era solo fértil para mal-entendidos, e logo seguiu-a para a tenda.
- Outra mulher fica com as crianças agora. Não podes ainda estar de regras, já faz mais de uma semana, que está acontecendo, Míriel?
Míriel não baixou os olhos, nem estes se encheram de água, mas antes da firmeza com que encarou Daror em seu intento.
Não importava o quanto fosse cuidadoso, seu menino tinha mesmo receio de poder quebrar o brinquedo dele, como quebrara tantos outrora.
- Não são bem regras, mas estou sangrando e sentindo dor. Daror tem me machucado por dentro
Embora fosse o que pretendia, o olhar atordoado dele não deixou de feri-la.
O que não pretendia foi o toque dele em seu rosto, o beijo terno em seus cabelos, seu abraço quente, seu pedido mudo de perdão.
- Daror fica por demais inebriado de sua flor.
- Não me aperte assim, Daror, está me amassando – Míriel reagiu violentamente contra a própria fraqueza, procurando mais uma vez livrar-se do abraço de Daror.
Prender a única cujas manhas tolerava já havia se tornado um ato reflexo, e Daror segurou-lhe os braços nus revelados naquela noite pelas mangas curtas do vestido de seda verde que ela finalmente reformara.
Segurou-os bem onde já havia outras marcas de seus dedos enormes na pele branca.
Daror atentou para os diversos matizes: das mais recentes quase roxas, às marrons que se desvaneciam.
A cútis nívea estava toda marcada da força de seu amor, maculada por ele.
- Tu tens a dívida da minha desatenção, bem-querer – quase desculpou-se o Senhor de Harad – vou te mandar fazer uma jóia com pedras da cor dos teus olhos, para nunca mais vê-los tristes. Queres um bracelete ou um colar?
- Quero meu dote, Daror.
- Teu dote? Como assim? Queres ir embora do meu amor?
Mas Daror não queria realmente ouvir a resposta àquela pergunta.
- Não Míriel, não precisa... Tenho sido desatencioso, sei que estou em dívida contigo ... assim que a viagem acabar começo a construir-te teu palácio ... não terás mais que viver numa tenda ... e trago mobília de verdade, da madeira da tua terra para te sentares ... e uma cama sólida para não dormires num estrado de campanha, Míriel ... vamos comprar tantos vestidos quantos quiseres ... todas as jóias ... – pela primeira vez era ele e não ela que estava em agonia, hesitando, procurando as palavras – .. não tem medo, nunca mais Daror se descuida, eu te prometo, não acontece mais...não acontece nunca mais do meu amor voltar a te machucar...
O amor dele nunca a machucaria. Não como estava machucando agora, quando ele segurava suas mãos em tormento, o medo estampado no rosto contendo o abraço impresso em cada músculo retesado. O grande senhor implorando como um pedinte; a ela, que tudo o que queria era ceder.
- O amor de Daror não foi feito para Míriel. Míriel tentou e Daror também tentou. Vejo que é chegado o tempo de procurares uma nova flor, e eu um novo jardineiro.
A mão que Míriel não pode evitar de estender não alcançou o rosto que o ódio afastou de suas últimas palavras, de sua decisão proferida com tanta segurança e frieza.
A mão que Daror não pode evitar de levantar para descer-lhe em cima acabou por imobilizar-se em frente ao ombro, fechando-se, e Míriel viu a cabeça de Daror se lhe curvar, como as cabeças dos senhores de Harad se curvavam somente a ele.
- Seja feita a sua vontade – pronunciou uma voz estrangulada antes de se retirar.
NOTA DA AUTORA - Havia duas opções: tirar esse engodo do ar, ou assumir que não passa do rascunho de uma história que talvez um dia eu venha a escrever.
Fiz a segunda opção.
Quem sabe assim eu não me sinta envergonhada na notável companhia de:
Kwannom – HALDIR E HALETH – VERSÃO REVISADA (ou devo chamar de MÁSCARA DOURADA?); O COMEÇO DO FIM e BOCA SUJA (tradução generosa e politicamente incorreta);
Nimrodel Lorellin – CRÔNICAS ARAGORNIANAS (!)
Mestra SadieSil – O DESTINO DE MUITOS
L. Eowyn– SE VOCÊ PARTIR (poesia em prosa)
Kiannah - ESTRELA SILENCIOSA (Romance, aventura, espadas e flores amarelas)
Doce Pequena Soi - IDRIL NÚMENESSË
