DAROR & MÍRIEL
Capítulo XXIV – COBRAS
Uma mulher para amar? Fora isso que Daror dissera que procurara no Pelennor?
Uma mulher para amar, e não uma mulher com quem ter filhos?
Ao menos não mais do que aquele que ela já trazia consigo.
Ele não se importava. Daror não se importava que Naraor não fosse seu filho. Também já ponderara o assunto, e simplesmente concluíra algo diverso: a seu tempo, caberia a Naraor provar o próprio valor; e Daror não duvidava que o filho eleito por seu coração viesse a fazê-lo.
E ele a amava. Daror a amava.
Ou pelo menos a amara.
Ele a amara, e ela simplesmente não vira isso.
Poderiam ter sido felizes todos esses anos.
Poderiam ter sido felizes por todos os anos vindouros.
Mas não ...
Alguma coisa a levara a passar todo esse tempo se digladiando com dificuldades que só ela via.
Que só ela criara.
Quanto desperdício!
Tomara por luxúria e condescendência o que era amor de homem e mulher.
Como fora tola.
Achara que lhe faria um bem, e só lhe fizera mal.
Pusera a felicidade dele à frente da sua, e jogara a dos dois ao vento.
Daror estava triste e infeliz e não estava bem.
Como queria consertar todo o dano que só agora compreendia que causara ao coração escondido no corpo tão poderoso que julgara invulnerável.
Precisava fazê-lo, tinha de fazê-lo.
Como já fizera antes.
Míriel virou-se para Daror na cama.
Apercebera-se de sua chegada e sentira quando estrado e colchão gemeram ao seu peso.
Mas a mão grande e quente não viera buscá-la.
Isso não era bom sinal.
A gondolim mordeu os lábios finos. Por que fazia essas coisas? Pusera-se de costas para Daror, irritada da razão que o favoreceu quando suas regras finalmente chegaram, após mais um rebate falso ao qual ela quisera desesperadamente se agarrar.
"- Não me respeitas como inimigo nem me queres como amigo se me dás as costas, Míriel, não faz isso" – já lhe dissera ele vezes sem conta, virando-a para si com a paciência inesgotável que reservava somente para ela.
O-oh! Estava mesmo aborrecido, deitado na cama mirando o teto, os braços cruzados sobre o peito.
Mas também, que idéia, trazer-lhe uma menina!
Mais que um atestado de desistência, uma menina que ficasse permanentemente ao lado de Míriel, que não pudesse assumir funções de homem, seria um marco vivo de sua própria inutilidade, da carga que era para Daror.
Mas naqueles tempos a idéia de sua infertilidade ainda não ocupara todos os espaços da vida de Míriel
Ainda havia espaço para Daror.
Para ter em foco o amor que a unia a ele, e que este sim ela já sabia reconhecer.
O amor dela por ele.
Que lhes seria suficiente.
Que manteria o favor dele nela.
E que por fim lhes traria o tão desejado filho.
Pois movida por seu amor, ela o enfeitiçava...
Como o faria agora, debruçando-se languidamente sobre o torso emcimado por dois braços firmemente cruzados.
- Daror está zangado com a florzinha dele?
Os braços continuaram presos ao corpo inerte, e os olhos de Daror não demonstraram o esforço com que eram mantidos indiferentes, mas a respiração do gigante tornou-se mais longa e lenta.
- Por que Daror fica zangado com a florzinha dele? – os dedos de
Míriel passearam do peito para o rosto de Daror.
- Daror não sabe que a florzinha é boba?- os dedos de Míriel percorriam agora a boca de Daror. Eram os primeiros gestos de seu feitiço de amor.
Um beijinho depositado sobre os lábios, e o gemido dele não poderia mais ser contido.
Dois beijinhos, e o nó dos braços dele seria desatado, à medida em que estes não conseguissem mais evitar de envolvê-la.
Três beijinhos, e ele seria seu.
Três beijinhos, era o quanto bastava para o amor de Míriel vencer a zanga de Daror, fazendo do Rei poderoso, escravo do desejo por ela, do guerreiro invencível, presa mansa da mulher.
- Míriel feiticeira – rendia-se ele então, reclinando-se a beijar o corpo que abraçava, esquecido do que o aborrecera momentos atrás.
Sim, feiticeira, orgulhava-se ela.
Míriel, senhora do feitiço dos três beijinhos.
Funcionava sempre.
Mas não estava funcionando agora.
Terair e os homens, que tinham de lidar com o mau humor do Pai da Casa o dia inteiro, olhavam-na com acusação, e nem mesmo Hellë e Thänae lhe dirigiam a palavra nas tardes de fiação à beira do lago.
Daror também não brincava mais com as crianças e nem queria saber delas em sua tenda.
Mas, apesar do que dissera, também não queria mais saber de Míriel.
Mesmo nas noites quentes, dormia de calças, e sempre de costas para ela, inexpugnável ao toque e ao beijo de Míriel.
A dama da Cidade Alta punha-se bela e solícita, mas todas suas tentativas de sedução fracassavam.
- Daror – chamou meiga quando se recolheram – estou a tua disposição, se me quiser...
- Não te quero – açoitou-a rapidamente Daror, com a veemência dos que querem acreditar. - Disseste-o bem, é tu que estás a minha disposição, e não o contrário, como sempre deveria ter sido – era o haradrin ríspido que falava agora, e não mais o menino enamorado. – Mas esta noite, teus encantos traiçoeiros não estão a me apetecer. Preferia mais a rosa selvagem, que não disfarça o que é, cujos espinhos estão lá para quem quiser ver, ao invés da pele macia de flor branca que esconde veneno que entra pela própria mão daquele que a acaricia.
Ela não sabia se o que lhe machucava mais eram as palavras ou o tom de ódio com que eram ditas.
Daror já a tratara com impaciência, já lhe esbravejara com os punhos voltados para o alto quando em ira, já despedaçara móveis e utensílios na frente de Míriel. Até já lhe lançara ofensas.
Mas nunca se utilizara das palavras contra ela como se quisesse realmente feri-la.
As asas de borboleta de seus olhos começaram a tremer.
- Não ouse chorar! – Daror agarrou seu rosto brutalmente, como se quisesse arrancá-lo fora de sua face. – Nunca mais ouse chorar em minha frente. Não acredito em suas lágrimas mentirosas, não passam de mais um artifício da mulher traiçoeira que você é, como tantas que conheci.
Daror largou-a com um empurrão, fazendo visível esforço para não esganá-la.
- E deixe-me dormir - ordenou socando os travesseiros, pondo um fim aos ardis de alcova de Míriel. Voltando-lhe as costas em grande desprezo mais uma noite.
As costas de Daror.
Muralhas talhadas em pedra.
Muralhas de carne retalhada.
Muralhas que não cediam às carícias que não tinham sensibilidade para perceber, por mais que Míriel estendesse às mãos àquela barreira, em busca de seu favor perdido.
Era como se as sentisse pela primeira vez.
Como se só agora as enxergasse.
As costas de Daror eram como um mapa: vales, encostas, leitos secos de rio, estradas ... uma duna após outra de cascalho, uma topografia acidentada e áspera.
Os músculos estavam por baixo, mas o que deveria ser pele, era uma manta feita de remendos de couro esfolado.
Quanta dor havia ali!
Quanta dor havia nele.
E ela nunca fora capaz de enxergar.
Como ele precisava do amor dela!
Agora compreendia.
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Noites se passaram até que Daror voltasse o rosto para trás, para perguntar o que acontecera aos olhos marejados.
- Suas costas...
Daror delongou a atinar a que ela poderia estar se referindo.
Até que se lembrou do que sempre estivera ali.
E Míriel parecia só ter visto agora.
Quando provavelmente lhe parecera ser de alguma conveniência.
Cobra sem guizo.
- Disposição de meu Pai. – grunhiu Daror, voltando a dar-lhe as costas com desdém.
- Seu Pai?
- Ao contrário de mim, meu Pai não poupava castigo à pele dos filhos em erro. – Foi o máximo de resposta que Míriel jamais obteve dele.
- É meu!
- Não! É meu, me dá, Darai!
- Esse punhal é meu! Larga, Daror!
- Larga você, antes de se machucar, menina!
A lâmina finalmente escapou das mãos da garota, não sem antes cortá-la.
- Viu, agora você se machucou, vai doer.
- Não está doendo! Não está doendo!
- Está sangrando, menina boba!
- É meu! Devolve! – Gritava Darai em ira.
- O quê vocês estão aprontando? – Bradou Raor, dirigindo-se à sala onde os filhos gritavam.
Ao ouvir a aproximação do pai, subitamente Darai começou a chorar.
- Ai Pai, Daror me machucou! – correu a menina com as mãos ensangüentadas para o pai.
- Ai que mentira! Como você pode ser tão mentirosa Darai? – gritou Daror indignado.
Raor pegou no colo a filhinha que sangrava, as mãos pingando sangue, as roupas e o rosto tintos de vermelho, e olhou para o menino com o punhal cheio de pedrarias na mão.
- Corre a buscar o rebenque de seu Pai, moleque.
Daror desabalou a cumprir a ordem de Raor. Dessa vez Darai receberia sua cota por ser tão mentirosa.
O menino entregou o açoite ao pai e ajoelhou-se aos seus pés com a testa no chão, aguardando a sentença.
A sentença de Raor estalou nas costas do filho.
Daror rapidamente puxou a camisa pelo pescoço e aprumou o corpo para a posição de castigo. As costas retas, as mãos sobre as coxas, sentado nos calcanhares.
Seria ele que receberia a ira de Raor, percebeu quando seus olhos baixos encontraram os olhos baixos de Darai ao seu lado, e ela lhe mostrou a língua.
Cobra.
Raor não lhe pronunciara sentença de início, seriam vinte chibatadas, a sentença só ao final. Os filhos de Harad aprendiam a contar sendo castigados.
- Por te voltares contra tua irmã!
Mas o couro continuou comendo as costas de Daror, havia mais um erro a atentar.
- Por machucares uma mulher de tua casa!
Daror era um menino forte, mas prendeu a respiração quando o pai não parou em quarenta.
- Por arriscares dano à beleza da filha de teu Pai!
O pai estava muito zangado consigo.
- Por não zelares por ela, quando era tua obrigação!
A surra continuou, mas Daror perdeu a consciência antes de conhecer da próxima razão.
- Mamãe – chamou o menino febril.
- Estou aqui, meu filho – a palma fresca pousou sobre o rosto de Daror
- Mamãe, o papai ainda está muito zangado comigo?
Ravai segurou o rosto do filho com as duas mãos.
Mesmo com apenas 8 anos, Daror já era grande demais para ser pego ao colo, e nem isso seria possível no estado de miséria em que suas costas se encontravam, tinha de ficar de bruços na cama, era a única posição possível para ele.
Não poderia ser abraçado.
Tudo que Ravai poderia fazer era segurar-lhe o rosto entre as mãos.
Daror ardia em febre
- Enquanto meu filho não estiver bom e de pé, tu não terás o meu favor, Raor.
"Ai mamãe" Daror quisera dizer "Não brigue com o pai por minha causa."
- Veja, mamãe, já estou de pé, Daror já está bom.
- Agora beije sua irmãzinha – ordenara Raor
A essas palavras, a pequenina Darai enlaçou o pescoço de Daror e deu-lhe um beijo estalado na face.
Ante o olhar de Raor, Daror abraçou a cinturinha da irmã e estalou-lhe por seu turno um beijo na bochecha.
- Assim é que seu pai gosta – sorriu Raor para o filho, puxando Ravai para si.
Na satisfação dos pais, Daror beijou novamente a irmãzinha.
Era sua princesinha, o tesouro de sua Casa, e prometera a Raor que sempre zelaria por ela.
Ia ser de agora em diante um bom filho e um bom irmão.
Nunca mais queria decepcionar tanto ao pai com seus erros.
