DAROR & MÍRIEL

Capítulo XXV - Castigos

Noite após noite Daror oferecia a Míriel a paisagem de suas costas.

Noite após noite Míriel fitava as histórias ali escritas.

O que Daror poderia ter feito de tão terrível para ser punido assim? E por um pai do qual até hoje falava com respeito e emoção, quase com veneração.

Raor das Sete Guerras, que uniu o Harad sob sua espada e deteve a ameaça de Umbar.

O próprio Daror lhe contara que fora com prisioneiros feitos nessas guerras que ele, Tunir e uns outros poucos aprenderam a língua comum.

Há uma eternidade era com os corsários que Harad comerciava, que lhes vendiam as artes contrabandeadas do Norte em troca do seu ouro.

Mas a ambição dos piratas crescia, e volta e meia uma incursão traiçoeira tentava tomar aos haradrim oásis que pudessem servir de base para a expansão de Umbar em direção às minas, pilhando rebanhos, frutos, mulheres ... Por isso as filhas de Harad dominavam a espada, e por isso Raor fora ao Norte buscar laços comerciais com Gondor, pois os corsários do Sul nunca foram de confiança, e há muitas gerações o povo do deserto se afastara das costas à mercê dos navios, embora Daror tivesse sido levado por seu pai para conhecer o mar e os escombros das cidades que os haradrim anteriormente construíram à sua vista.

- E o que foi feito desses prisioneiros, Daror? Foram trocados por filhos de Harad aprisionados por Umbar?

- Não, Míriel, o homem de Harad morre antes de cair prisioneiro ... mas algumas filhas sim, Raor libertou em barganha vil ... - hesitou Daror antes de prosseguir, como se o assunto lhe fosse penoso, o que não era habitual - Entretanto, depois de um tempo, preferiu matar a todos os que restavam ... Uma mulher que é tão forçada perde o dom da vida, e acaba procurando a própria morte no deserto...

Menos Darai sem fraqueza, sangue e espírito de Raor, pensou Daror.

- Por isso não se toma mulher à força entre meu povo, desrespeita a memória de quem padeceu. – dissera ele.

Ah, como gostaria que a tomasse à força agora! Que exigisse do seu corpo a paz que ela ansiava por lhe dar.


--//--

Não a queria. Não a queria mesmo.

Não agora.

Não agora quando o tempo favoreceria a que Míriel se utilizasse das noites de intimidade para enredar Daror mais uma vez, fazê-lo voltar-lhe o seu favor por completo novamente.

Não, Daror se guardaria, se conteria até não poder mais de desejo, até o dia de repudiá-la.

De devolvê-la no Pelennor.

Ele a devolveria tão arrombada que nenhum homem nunca mais poderia preenchê-la.

Não a machucava?

Pois então.

Noite após noite Daror oferecia a Míriel a paisagem de suas costas.

Noite após noite Míriel fitava as histórias ali escritas.

Pensava que começara a entendê-lo a partir das marcas impressas em seu corpo, recriando como podia a trajetória do menino instruído pela chibata a se tornar mais forte que o açoite.

Assim se formava um chefe de Harad, sob a intempérie.

Para conduzir seu povo por elas.

E contudo ...

A ela ele deixara conhecer um outro.

Um menino.

Que colocara o amor acima da descendência, e não se furtara a proclamá-lo com todas as letras, mesmo quando ela o renegara.

Quantas vezes o renegara, duas, três?

Daror, meu amado, não te causarei mais nenhum mal, serei teu consolo e teu refúgio, agora sei ... Toma o que é teu Daror, eu sou tua, sou tua, volta-te para mim, meu amor...

Mas, mesmo dormindo na mesma cama, não havia como fazê-lo aproximar-se, voltar-se para ela.

Por noites infindáveis.

Em que Míriel supunha que o entendia.

Quanto mais mirava o castigo de ambos, mais se convencia.

Menino tolo e transparente.

Não iria esconder-lhe que a amava virando-se de costas.

Como ela nunca mais se esconderia atrás de dúvidas inúteis e sacrifícios desnecessários.

Por que haveriam de irmanar-se na dor dos castigos.

Se errara, e estava em dívida, queria pagá-la de vez e seguir com sua vida.

E não teria vida de verdade longe de Daror.

Seria essa sua proposta.

Míriel percorreu os caminhos ásperos das costas de Daror com beijos, na linguagem que ele lhe ensinara.

Far-se-ia entender de qualquer maneira.

Usaria de todos os argumentos.

Sobre os joelhos, alcançou o rosto apoiado em tantos travesseiros que as costas de larga envergadura demandavam, pousando as mãos nele, chamando o menino através do toque suave.

Daror ainda de costas agarrou os pulsos de Míriel e voltou-se, prendendo-os à cama, aquela víbora.

Que recorrera ao seu derradeiro recurso.

E estava completamente nua.

Surpreso, Daror percorreu com os olhos o corpo que brilhava na tenda escura como a lua no manto da noite, sentindo nos punhos que ainda segurava a pulsação acelerando, uma onda de calor estremecer o corpo da mulher, os lábios se entreabrirem para o seu beijo, como as pernas dobradas estavam entreabertas para o seu desejo.

E a saliva não pode descer da garganta de Daror, os músculos retesados na agonia do que queria e do que não queria fazer agora, ao ver os bicos dos seios de Míriel duros oferecendo-se a ele

O homem de Harad não desperdiça a vida, mas naquele momento Daror teve certeza de que fizera uma promessa que não poderia cumprir...prometera que a teria sem amá-la, e Daror soube que não poderia se partir assim...que só sabia amar por inteiro, sempre fora o que ansiara, o que procurara e sempre fora a sua desgraça...

Míriel se havia aberto toda, e até fechara os olhos em antecipação.

Mas Daror levantou-se da cama deixando-a sozinha na tenda.


NOTA DA AUTORA: Entre este capítulo e o anterior estava previsto um outro que, entretanto, fugiu totalmente ao meu controle; desviou-se por um caminho que tomaria tempo demais para reconduzir ao ponto onde este começa, bem como traz uma Míriel ainda muito imatura, o que já não seria aceitável neste ponto da história. Aos que se interessarem, porém, basta solicitar o material extra pelo e-mail .