DAROR & MÍRIEL

Capítulo XXVI - AFOGADOS

Mas como?! Ela vira o desejo nos olhos dele, no rosto dele, em todos os músculos de seu corpo. Daror quase gozara só de olhar para ela.

Ele vinha se aliviando sozinho, ela o conhecia, mas ele preferiria mil vezes em sua companhia ... era sua mulher, seu bem-querer ... Não se permitiria nunca mais ser uma bela caixa cheia de merda.

Míriel dominou a humilhação e a vergonha antes que elas a dominassem, ele não o proibira? Pois provaria que não mais se envergonhava, de nada, e saiu correndo nua atrás de Daror pelo Sûr.

Estava no lago, é claro!

- Daror! – chamou Míriel, sem resposta, para o corpo que nadava para o meio do lago.

- Daror! – gritou pulando na água atrás dele.

- Daror, me espere! – Míriel puxava com os braços e empurrava com as pernas as águas em que sua felicidade se distanciava.

– Daror! – chamava engolindo água, empregando toda a sua força, indiferente a que todo o Harad a ouvisse: errara e pediria clemência, não estava agüentando aquele castigo.

Puxa, empurra.

Puxa, empurra.

Respira, engole água, tosse...

Daror estava cada vez mais distante, para desespero de Míriel ... Não podia fugir dela agora, tinha tanto para lhe dizer!

Míriel gritou quando a cãibra imobilizou sua perna, torcendo-lhe o corpo dentro d'água.

Estava com a cabeça virada para o fundo do Sûr, batendo os braços sem saber em que direção, sem conseguir voltar à tona onde havia ar, apavorada de se afogar e cada vez se afogando mais, o pânico impedindo-a de boiar, os braços perdendo as forças e a garganta enchendo o corpo de água pesada ao invés de ar leve que faz flutuar.


Parara, desistira ... ou então fora maquinar outra coisa.

Detestava os artifícios de mulher, dos quais era presa tão fácil.

O mais forte guerreiro.

E o mais fraco também.

Praga.

As odiava.

E as adorava.

Especialmente as piores.

Especialmente a ela.

Quisera tanto.

Quase a tomara tantas vezes em que ela tentara.

Estremecera ao toque suave.

Fraco.

Precisando controlar-se para não acorrer-lhe como um cachorrinho mendigando afago.

Querendo acreditá-la arrependida, saudosa, apaixonada.

Praga!

Praga! Praga! Praga!

Merda!

MERDA!

Devia tomar a outra de uma vez, e lembrar-se de que uma mulher é igualzinha a outra mulher.

Sendo que Thanaë não lhe inspiraria qualquer dúvida, apenas certezas.

Jamais poderia confiar nela, e também nunca se importaria ... uma mulher para ser usada como usava aos outros, para enfiar até as entranhas sem preocupações ... e ainda estaria livrando Mahor de boa ...

Daror olhou para trás, para ver Míriel retornando à margem.

Nem sombra dela.

A última vez que a vira estava no meio do lago, qualquer das margens era distante, não poderia tê-las alcançado tão rápido.

Míriel era péssima nadadora.

E Daror nunca nadou tão rápido na vida, nunca atravessou tanta distância por sob a água.

A água do Sûr que era tão escura naquele ponto fundo, àquela hora da noite ...


Míriel acordou sob o castigo de Daror, as mãos descendo-lhe nas costas voltadas para baixo, expulsando água dos pulmões e do estômago, até os dois estarem totalmente cobertos de vômito, o vento frio enregelando a pele molhada, as tripas postas para fora sob a força de Daror até que este se certificasse que não havia mais uma gota da água do lago dentro dela.

Daror mergulhou com Míriel nos braços para limpá-la e correu com o corpo frio para a tenda.

Era difícil enxugá-la, pois Míriel não conseguia ficar de pé, os cabelos encharcados atrapalhando ainda mais a empreitada.

Daror deitou-a na cama com os cabelos totalmente molhados.

A cobertura da manta e a aproximação do braseiro que Daror alimentou não foram suficientes para clarear os lábios roxos.

Míriel tiritava em choque, e Daror enxugou-se e deitou ao seu lado, envolvendo-a em seu abraço sempre quente, friccionando-lhe as costas geladas, transmitindo à cabeça encostada em seu peito toda a força vital de sua pulsação, acalentando o espírito assustado de Míriel junto a si, como a uma menininha, murmurando-lhe com a voz grave uma canção de ninar no idioma de sons profundos do Harad.


Míriel nem ousava se mexer no abraço de um Daror que apenas ressonava, não mais roncando, e não tardaria a acordar.

Sua garganta parecia incapaz de articular qualquer som.

Fraca!

Precisava falar! Dizer a ele. Gritar-lhe ... Harad era para os fortes, e Daror também era para uma mulher forte, que soubesse lutar por ele, e não para esse estorvo ambulante que não conseguia nem manter-se à tona de um oásis manso.

Míriel decidira-se.

Não seria mais aquela mulher.

Seria a mulher que Daror necessitava.

Forte.

Capaz.

Feroz na defesa de seu amor e de sua felicidade.

Tinha certeza de que ele a amava.

Não iria desperdiçar vida ou amor.

Não era do feitio do povo de Harad.

E ela era do Harad agora.

Era Míriel de Daror.

E mostraria isso a ele.

Ai! E teria de começar tudo de novo.

Não se poderia valer do desejo dele; não após ter estado babando vômito à sua frente na noite passada.

Daror abriu os olhos para seus olhos, e a preocupação que demonstraram foi mais uma prova evidente.

O brilho dos olhos verdes levou a mão de Daror à face dela, para ver se havia febre.

Não, Míriel estava bem, e por um instante o Senhor do Harad quis esquecer a própria sentença e retomar a felicidade que conhecera com sua flor branca.

Mas a expectativa da mulher era transparente por demais, e o gigante desconfiou de mais um ardil ... será possível que fingira-se matar só para desesperá-lo, para reaver o favor que perdera exatamente em razão desses artifícios?

Daror levantou-se bruscamente, e Míriel levantou-se também, tropeçando na toalha enroscada em seu corpo, na manta em que fora aconchegado.

- Daror de Harad, meu Pai, eu peço sua clemência! – arrancou de sua garganta as palavras, caindo ajoelhada, a testa sobre os pés dele.

- Sem o teu favor eu estou vazia, sem as tuas mãos eu estou gelada, sem a tua força eu estou fraca! – Míriel abraçou-se aos joelhos de Daror, lutando ferozmente contra as adagas fincadas em sua garganta, cortando a voz que saía a dolorosos arrancos.

- Meu erro é minha dívida, mas eu apelo para que em sua misericórdia o Meu Pai marque meus erros na minha pele e não na minha vida.

- Eu o amo, Daror, e sem ti o ar não tem perfume, a comida não tem gosto e nem a água sacia a sede. Pelos erros terríveis que jamais repetirei, eu peço e acato qualquer sentença, agora como em frente a todo Harad, mas não me repudie nem afaste-se do meu amor. Clemência de Harad para sua filha, Meu Pai!

Daror ouvia surpreendido a fala desconexa, muitas vezes incompreensível. Quase encolhendo-se, incapaz de conduzir Míriel para longe de suas pernas com as mãos, pois, ante o dorso nu e as declarações da mulher, estas já mal conseguiam esconder o que se revelava.

Míriel pôs-se de pé.

- Pela minha vida eu imploro a ti, Daror, pois sem ti ela nada vale.

E Míriel pela segunda vez na vida atirou-se aos lábios de Daror, tentando escalá-lo como os pequenos faziam, e Daror teve de liberar sua ereção para segurá-la, ou ficaria sem boca, tal a fúria com que Míriel a estava devorando.

E assim o Grande Daror foi encurralado pela frágil Míriel, e caiu de joelhos sob o poder com que ela o envolvia.

Nessa posição seus rostos ficavam nivelados, e com os pés no chão Míriel impôs o ritmo de sua paixão a Daror, ao mesmo tempo em que o sufocava com seus beijos.

As mãos dele, então, renderam-se, colando seus corpos e acariciando rudemente os seios que tanto ansiara tocar na noite anterior.

Ao final de tudo, quando a cabeça de Daror jazia escondida em seu colo, Míriel apiedou-se dele, porque entendeu que a amava, e que só sabia dar-se inteiramente, não podia separar o desejo do amor, e a cada vez que a tomava era mais ela que possuía a ele do que o contrário.

- Tenho a sua clemência, Meu Pai?

A cabeça do encurvado Daror, escondida no colo de Míriel, apenas aquiesceu.

- Tenho ainda o favor do meu homem?

Daror revelou os negros olhos rasgados para os olhos verdes acima, brilhantes como se lágrimas houvesse neles.