DAROR & MÍRIEL
Capítulo XXVII - TEMORES
Daror era capaz de conduzi-la ao prazer apenas com os dedos, e aquela descoberta foi um deleite para Míriel durante alguns dias ... até perceber que era o único prazer que estavam tendo, pois o seu homem não a possuíra mais depois daquela manhã.
- Daror não me quer mais?
- O que é isso, florzinha? Daror te adora.
- Então toma-me forte, Daror.
Daror imprimiu mais paixão ao seu beijo, colando o corpo de Míriel a si e percorrendo-o com as mãos.
Mas, depois de alguns momentos, foram só as mãos que a tocaram, e Míriel as afastou.
- Daror, te quero todo.
- Sou todo teu, bem-querer.
- Te quero todo dentro de mim.
O olhar de Daror hesitou sobre o dela, antes de confessar com um suspiro:
- Estou cansado, florzinha.
- Cansado? Como assim, cansado? – a reação expontânea de Míriel foi de pura indignação: a mais absoluta desonra para uma mulher de Harad era ter seu oferecimento recusado ... Ademais se prometera que nunca mais iria chorar, as mulheres do Harad, como Aniá, nunca o faziam, era mais fácil vê-las engajadas numa disputa com o marido - Cansado de mim, é o que queres dizer?
- Arre! Dá-me um pouco de paz, Míriel. – impacientou-se Daror, dando-lhe as costas.
O que estava acontecendo com ele?
Estúpida! Estúpida! Estúpida! Bem feito! Tanto fizera que, incapaz de retirar-lhe o favor do bem-querer sem retirar-lhe o favor do desejo, Daror lhe retirara os dois, era isso!
O que estava acontecendo com ele? Merda! Ansiara tanto, ardendo por ela noite após noite em que lutara para transformar em ódio e crueldade o amor que o dominava, esforçando-se para querer o mal aquela que só sabia querer bem.
Agora temia a fúria da própria paixão, o arrebatamento que o tomava quando tomava a ela, que o dominara aquele dia, se era preciso ter tanto cuidado para não machucá-la ... começava com esse pensamento de cuidado ao menor sinal de desejo ... e aí vinha o resto, o sentimento de havê-la machucado, de imaginar o sangue escorrendo pelas coxas brancas, de supô-la com dor, e de sentir-se um monstro ... fora tudo uma mentira dela, sua mente sempre soubera, mas em seu coração ... transformara-se numa verdade...
Desejara Darai durante toda a juventude de ambos, mas nunca perdera o controle. Nunca desejara mulher alguma com a força incontrolável do desejo que manifestara por aquela estrangeira delicada como a lua, que fados insondáveis o haviam levado a desposar.
Míriel passeava nua arrumando a tenda, ante a indiferença de Daror. Se soubesse como se sentia humilhada.
Ela se exibia nua aos seus olhos, sem que ele conseguisse de si mesmo uma reação. Se soubesse como se sentia humilhado.
Aprendera com ele: Míriel enrolou uma toalha ao corpo e foi banhar-se ao luar.
Daror não pôde se furtar a imitar o gesto que ela tantas vezes tivera de seguí-lo.
- Não precisa me seguir, não vim procurar nada além de um banho.
- Vim só zelar para que não se afogue, mulher estúpida.
Daror sentou-se na margem, olhando-a desanimado. Insinuava-lhe cada vez mais claramente a própria insatisfação, a filha da Lua perversa, enquanto a deusa da Terra escarnecia da desonra em que a falha de virilidade dele punha os dois. Nem lhe ocorrera algo assim ... mas será que era isso que Thänae procurava com tanta insistência nos lagos? Será que Mahor não a satisfazia? Mas tinham já três filhos.
Bem ... ela tinha três filhos ... O primeiro nascido poucas semanas depois de Naraor, de cabelos castanhos como os da mãe, e pele mais clara que o da menina e do caçula, que traziam sim bastante traços de Harad, mas, será que necessariamente de Mahor? Com a mulher passando tantas noites no Sûr?
Thänae era realmente tentadora. Não valia uma pepita de ouro, meia gema lascada, mas como era bela, como sua disponibilidade era provocante ... e Daror pulou dentro d'água buscando o alívio solitário do pensamento na leviana mulher de seu primo.
Thänae forte, Thänae leviana. Thänae que não importava e poderia ser tomada sem medo, traspassada por sua arma, estocada após estocada, e gritaria apenas de prazer, muitos antes dele, muitos depois...
Hum ... aquilo lhe fizera bem ... Na verdade não era a primeira vez que se deixava levar por aquela tentação em pensamento ... Thanaezinha má ...
Daror voltou o olhar agora mais sereno para Míriel, que teimosamente continuava nadando para longe e para o meio do grande lago, de onde acabaria não conseguindo voltar sozinha ... sua flor frágil, delicada, birrenta e adorável.
Daror surgiu embaixo do corpo que Míriel jamais admitiria que estava ficando exausto ... será que nunca conseguiria atravessar o Sûr? Ele simplesmente fez-se à tona de costas: era um barco remando calmamente, e ela sua passageira, que Daror levou de volta ao ponto de partida e enrolou na toalha.
- Quem te disse que eu já pretendia me secar?!
Daror suspirou, subitamente saudoso da esposa chorona e assustada de seus primeiros anos, e tomou-a nos braços depois de envolver-se numa toalha também.
- Está na hora de dormir.
- Não sou uma criança para tu me dizeres que está na hora de dormir.
- Então para de se comportar como uma.
Míriel se debateu, mas Daror a prendia...e...e lhe sorria...e talvez...
Mas apesar de seu sorriso, da paixão terna de seus beijos, foi com aquele cuidado enervante que ele acariciou seu corpo, e somente com seus dedos que lhe proporcionou alívio.
O que, naquela noite, ambos acharam que, ainda que insatisfatório, era melhor que nada.
- Aviso-te logo uma coisa: para o Norte eu não volto!
- Ai Míriel, será que não me podes dar um pouco de paz? Que história é essa?
- E não tens justificativa para me repudiar! Perdoaste meu erro, e não te podes valer dele como motivo, e já que declaraste para todo o Sûr que não o farias por eu ser estéril, não podes voltar atrás de tua sentença!
- Não entendo onde está querendo chegar, mulher. Pára de gritar.
- Está muito enganado se acha que vou deixá-lo livre no Pelennor.
O retorno ao Pelennor? Já? Isso mesmo! Quase cinco anos se haviam passado...
- E nem se continuares com esse teu castigo...
- Achas que a estou castigando, Míriel? Talvez esteja! Talvez esteja mesmo, porque Míriel me fez uma coisa horrível! Míriel me fez conhecer o medo, e até então Daror não havia sido apresentado a ele. À ira, à vingança, à fúria, à dor sim, mas não ao medo!
Queria sim, queria dar-lhe paz.
Fora educada, criada para isso: proporcionar um ambiente de calma e elegância a um marido nobre, mas não o conseguia, simplesmente desaprendera de refrear-se. Acordava todos os dias jurando que o passaria sem uma reclamação, uma briga, mas logo sua irritação crescente aflorava, até que Daror se afastasse...
Não! Não agora...não era possível que estivesse obtendo involuntariamente aquilo que por tanto tempo se enganara em pretender: nunca suportaria perdê-lo, ser repudiada por ele, ver-se entregue a outro, sabê-lo com outra mulher...
Era a pior parte, imaginá-lo com outra. Daror era homem de Harad, não poderia ficar tanto tempo sem mulher. Nos longos anos de preparação para a Guerra do Anel, tivera primas como amantes, ele mesmo lhe contara, só não se casara devido a obsessão de vingança em que vivia naquela época.
Daror tinha uma amante, só podia ser ... Estaria aguardando o Pelennor para devolvê-la a Gondor sem ter de aturar seus escândalos? E lá arranjaria uma nova esposa para o marido traído, para não afrontar ou ver sofrer um capitão e amigo como Tunir?
- Fui procurar Mariän hoje e não a encontrei, sabe dela Tunir? – perguntou Míriel ao ver Tunir e Raanat desmontarem dos cavalos com que haviam saído em patrulha.
- Estou fora há dias, como poderia saber, Míriel?
- Deveria prestar-lhe atenção, é o homem dela, não é?
Tunir aproximou-se de Míriel, retirando o turbante, e olhou-a de uma forma muito séria.
- Mariän gosta muito de si, Míriel, diz que entrevê em você mais do que tem-nos sido dado perceber – o tom de voz de Tunir não trazia raiva, mágoa ou reprimenda, mas Míriel sentia-se como uma criança culpada ao escutar o que dizia. – Há alguns anos, Míriel, esse tipo de insinuação poderia levar à morte de uma mulher pelas mãos do marido em algumas Casas do Harad. E embora Daror haja proibido essa prática contra qualquer uma das mulheres do Norte que precisa mostrar intactas ao Rei de Gondor, ainda assim eu não gostaria de ver minha mulher decepcionada ao saber-se de alguma forma exposta pela leviandade de alguém que tem em alta conta.
Míriel mordeu os lábios quando Tunir se afastou, vermelha até a alma...estivera tecendo uma intriga, acusando sem provas uma mulher ao seu marido. É que Mariän era tão considerada...tinha-lhe não só ciúme, tinha-lhe inveja de sua segurança, de sua firmeza, da capacidade que demonstrara mesmo nas ocasiões de urgência.
Nem Mariän, e nem Tunir, davam-se à confiança de se fazer alvo daquele tipo de comentário: porque não ficara de boca fechada? Tunir certamente estava inocente nessa história.
E se se queixasse a Daror, agora? Míriel sentiu congelar em meio ao sol. Ai! Daror ia se aborrecer muito com ela se soubesse que ofendera seu capitão...e que desconfiava de... Ai! E se aquilo fosse o motivo que estavam aguardando?
- Burra! Estúpida!
- Quem? – Ria Raanat, ainda desarreando os cavalos que bebiam na margem do Sûr.
- N-nada, ninguém – respondeu nervosamente a mulher surpresa com a presença do marido de Hellë, que havia esquecido.
- Ah bom. Pensei que estava se referindo a alguma dessas criaturas idiotas que desconfiam dos amigos sinceros enquanto defendem as mulheres falsas que estão com o punhal prontinho para enfiar-lhes às costas.
- Do que está falando?
- De nada, nem de ninguém – sorriu-lhe Raanat afastando-se com os cavalos, embora seus olhos a mirassem ainda por alguns instantes.
O quê ele quisera dizer com criaturas idiotas que confundem amigos com inimigos e vice-versa?
Daror fazia com que Naraor se recolhesse à tenda.
Talvez fosse uma forma de fugir dela.
Ou talvez ele encontrasse no abraço do menino que fazia adormecer o carinho que não mais havia entre ele e a mulher, refletia Míriel, confusa mas cansada, enquanto terminava de fechar sua camisola de laços.
Fora a camisola favorita de Daror desde a primeira vez que a vira com ela. Parecia um menino desembrulhando um presente ao desfazer cada lacinho que a fechava de cima à baixo, que prendia as mangas, e que ao mesmo tempo ocultava e revelava seu colo. Chegara a dizer que era ainda melhor do que tê-la deitando-se nua ao seu lado.
Míriel respirou profundamente a saudade do seu bem-querer, lembrando-se das vezes em que se ausentara realmente, nas viagens às outras Casas, nas inspeções de fronteiras e defesas, na captura dos dois outros grandes animais com os quais agora sua Casa contava - um deles emprestado a Hamur, depois de adestrado, pois alimentar 4 mûmaks era algo que não deixava de pesar para uma Casa. – Rememorando o ardor com que se devotava a ela ao final dessas jornadas, ocasiões em que seu homem de Harad lhe voltava tão cheio de desejo que chegava a urrar de prazer ao tomá-la. Cobrindo-a com as pedras de cada Casa em que estivera: diamantes, safiras, águas marinhas, esmeraldas...sempre uma para cada dia de ausência, fazendo-lhe prova de que não passara um só deles sem pensar nela, mandando-lhe então fazer as jóias mais suntuosas, extravagantes – e de gosto duvidoso – que se pudesse imaginar, e querendo-a ver por semanas deitar-se ao seu lado com todas elas, para que lhas pudesse tirar uma a uma.
Tivera seu favor ardente por tantas vezes, tão continuamente, que não chegara a imaginar realmente como seria ficar sem ele, como seus nervos clamariam pelo contato profundo e total, o prazer de sabê-lo seu.
Devaneando, nem percebera que Daror já deitara, e surpreendeu-se com seu olhar sobre si.
Às vezes parecia que ele até evitava olhá-la, temeroso de mais uma confrontação com a irritação agoniada de Míriel.
Mas as memórias haviam-na deixado apenas melancólica aquela noite, e o olhar curioso de Daror parecia perceber isso.
Parecia também querer saber no que ela estava pensando, mas não se arriscaria a determinada resposta ...
Entretanto, vendo-a calma, Daror bateu no peito e abriu-lhe os braços, chamando Míriel para junto de si.
