DAROR & MÍRIEL
Capítulo XXVIII - A FUSÃO DAS DEUSAS
Aniá dera a Hadair um filho, e Dillin veio do sul com uma grande comitiva para comemorar a perpetuação do nome de Terair, o maior mestre espadachim da história de Harad, o capitão dentre os capitães de seu povo, respeitado de todos os Pais de Harad, mesmo daqueles que curvara à União imposta por Raor.
Dillin trouxe muitas de suas filhas de sangue puro consigo. Mocinhas que a caravana da reconstrução vira com 12 ou 13 anos agora aproximavam-se da idade do casamento, e os Pais das Casas próximas simplesmente apareceram com seus filhos solteiros para a festa que punha o Sûr em grande agitação.
Daror não pudera evitar de sair numa grande caçada para alimentar toda aquela gente. Abater com as setas da Casa os pássaros que passavam migrando não estava mais mesmo sendo suficiente. Os peixes que a chuva fazia os afluentes conduzirem ao Sûr também não duravam muito mais que a estação em que chegavam ... e mais de uma vez Míriel tivera de controlar seu despeito ao ver Daror discutindo com Mariän sobre os rebanhos e criações que pretendia adquirir no Norte.
Mariän cujas ponderações eram então ouvidas com atenção pelos homens do Sûr e até pelos Pais de outras Casas, aquela filha de comerciante.
Míriel baixou a cabeça, envergonhada. De que lhe servira, ser a filha de uma família nobre, a não ser para transformá-la numa inútil? Eram as outras mulheres que sabiam como tirar o couro e as tripas dos animais negros do tamanho de bois que Daror e seus homens trouxeram, temperar os antílopes, fazer fornos sob o chão para assá-los. Elas é que rapidamente aprenderam a fazer os doces de Harad, com castanhas e frutas secas, as compotas de mel e frutas, o pão chato sem fermento, os molhos de ervas e a coalhada de sal em que este era mergulhado.
O máximo que fazia era organizar as tarefas, reconhecendo a habilidade de cada uma e direcionando-as, atentando para que detalhes como o suprimento de água, vinho, pão e frutas frescas fosse renovado a cada dia nas tendas das Casas visitantes, providenciar que suas roupas fossem lavadas, seus animais cuidados e alimentados, e que a tenda de Daror estivesse sempre pronta a receber tantos Chefes que precisavam falar-lhe.
A faina incessante não deixava de ser um refúgio, assim como a alegria da agitação e dos namoros que se estabeleciam rapidamente entre os jovens, até mesmo as disputas surgidas entre os rapazes enamorados de uma mesma moça.
Era engraçada a facilidade com que uma confrontação rebentava entre os homens em razão de alguma mulher.
Mas as autênticas filhas de Harad eram mesmo estonteantes, pensava Míriel, maravilhada com a graça das dançarinas que se agitavam no tablado, Dillin gargalhando, sentado ao lado de Daror, ao ver as ofertas dos jovens nelas trazerem à sua Casa em uma noite anos de labuta nas minas.
Míriel distraidamente encostou-se mais em Daror, para subitamente sentir que o haradrin esta lá por inteiro.
Seus olhares se encontraram, e os lábios de Míriel voaram para os de Daror, sequiosos.
O beijo dele retribuiu toda a paixão da boca dela, como há bastante tempo não acontecia. Míriel gemeu e Daror também, abraçando-a fortemente.
Mas, quando seus rostos se separaram, em meio à expressão risonha de tantos Senhores sentados à volta, a reação dele fosse ao que fosse não estava mais lá.
Os olhos de Míriel estavam úmidos, e os de Daror estavam baixos.
Míriel levantou-se para longe do tablado.
Queria sair correndo dali.
Queria correr para longe, longe de tudo aquilo que não conseguia entender.
O beijo de Daror fora tão apaixonado, tão ardente; ela sentira as mãos dele apertarem o seu corpo, demonstrando toda a força do seu amor, como ele fazia antes.
Não fora por Mariän que ele se fizera empolgado aquela noite, fora pela dança das mocinhas, como um dia fora pela dança de Aniá. Daror era homem de Harad, de mulheres ardentes, e não de uma mulher tão séria e ponderada como Mariän.
Que tola fora. Tunir estava presente nas reuniões em que os Chefes conversavam sobre suas necessidades, e todos eles ouviam-na com a mesma expressão de respeito de Daror. Mariän era uma mulher útil, não uma mulher sedutora, não era para ela que Daror se voltara.
Para quem então?
Ou talvez para ninguém, fosse só um problema entre eles dois.
Queria ter alguém com quem conversar sobre isso. Alguém que depois não expusesse a ela ou a Daror, no que lhe houvesse sido contado.
E só lhe ocorria uma pessoa que fosse capaz de ouvir sem julgar, fornecer algum conselho sensato, e depois calar sobre o assunto.
Mariän.
Que praga!
- Está procurando alguém?
Daror mal reconheceu Thanäe. Vestira-se para a festa não como uma mulher de Gondor, mas quase como uma dançarina de Harad: saia larga presa aos quadris por um cinturão de pedrarias, corpete de ouro e gemas recoberto apenas por um xale, o cabelo castanho que a noite fazia quase negro entrançado de ouro.
Belíssima.
- Estou procurando minha mulher.
- Porque, então, não pára de procurar?
Thanäe encostou-se nos braços que Daror cruzara sobre o peito, e ele simplesmente não pode evitar de olhar para dentro do decote tão próximo.
Se não honrava Míriel, não podia pretender que permanecesse ao seu lado, mas, se possuísse Thanaë, quem sabe conseguiria...
- Fique longe do meu homem, sua mosca varejeira! – gritou Míriel, chamando a atenção de toda a festa que se dispersava, ao arrastar Thanäe pelos cabelos.
Daror quedara simplesmente atônito por vários momentos com a súbita aparição de Míriel, tanto que, quando finalmente dera alguns passos para apartar a briga, as duas estavam cercadas pelas mulheres do Sûr, exortando a dama da cidade alta.
A frágil Míriel.
A esguia Míriel.
A branca Míriel.
A delicada Míriel.
A Filha da Lua etérea
A florzinha branca que no momento estava batendo com a cabeça da outra no chão, fazendo-a beijar a areia seguidamente, o sangue escorrer do nariz.
- Sua falsa! Leviana! Me apunhalando pelas costas! Cobra!
A nobre senhora estava em cima de Thänae, ensopapando-a sem chance de defesa, quando o marido veio em socorro da esposa.
Míriel, porém, só a largou quando Daror chegou-se também e segurou a mulher pela cintura.
- Controla tua mulher, Daror!
- Controla tu a tua, Mahor! – bradou Míriel, sobraçando um tufo de cabelo da outra – Que se essa mosca varejeira fica revoando em volta dos homens das outras, é tu que precisa se preocupar!
Daror não falava nada, afastando Míriel lentamente da cena, enquanto Mahor voltava-se em ira para Thänae:
- Que história é essa?!
- Invenção dessa louca!
- Míriel não iria bater em você sem motivo...
Enquanto Mahor arrastava Thänae para casa, o braço de Daror mais abraçava que segurava Míriel, maravilhado, afastando-se lentamente da aglomeração satisfeita - Thanaë não era mesmo muito popular entre suas irmãs do Norte.
Após suceder a Raor, Daror obtivera mais que o favor, obtivera o oferecimento de várias primas precocemente viúvas, e até de algumas tias na mesma situação; mas ter duas exóticas beldades estrangeiras era mais do que jamais sonhara em seus delírios de rapaz.
Ver Míriel batendo-se por ele com aquela ferocidade, então ...
- Tu estás te divertindo com essa situação? – virou-se a mulher para ele, nada divertida.
- EU?! Eu não! Eu até fui lá apartar a briga.
- Só depois que Mahor chegou. Daror estava favorecendo aquela mulher!
- Eu?! De jeito nenhum, florzinha, se Daror estivesse favorecendo Thanaë, não teria deixado Míriel bater-lhe tanto.
- Deixou que eu a enfrentasse sozinha!
- Isso era briga de mulher. Daror não tinha nada a ver com isso.
- Daror tinha tudo a ver com issso. Míriel e Thänae estavam brigando por causa de Daror! – Gritava Míriel, avançando agora para cima de Daror e batendo-lhe com os punhos fechados, em frente a todo o Harad.
- Ai! Ai! Daror não fez nada! Daror não fez nada! – Ria Daror recuando para a tenda ante os golpes da até então sempre contida em público Míriel.
- Daror estava esfregando os olhos nos peitos de Thanaë! – Míriel continuou batendo até Daror cair em cima da cama.
- Thanaë é que estava esfregando os peitos nos olhos de Daror. Daror é inocente.
- O olhar de Daror não estava nem um pouco inocente! Até os peitos de Míriel pareceriam grandes se eu os suspendesse entre tanto pano, como aquela mosca varejeira faz! – Míriel estava sentada em cima de Daror, apontando-lhe um dedo acusador.
Míriel rolara pelo chão, e o perfume da terra de Harad impregnara seus cabelos, seu corpo suado...
- Ai, florzinha, não há que se zangar, Daror prefere os seus. Daror prefere os seus – sorria Daror, haviam-se fundido de alguma forma, as deusas, e a filha da Lua do Norte não lhe parecia agora menos filha da Terra de Harad por isso.– Daror só olhou porque eles estavam tão ... à mostra; mas Daror prefere os peitinhos de Míriel. - Míriel sentiu as mãos de Daror por baixo de sua camisa, acariciando seus seios. - Mostre-os para Daror, Míriel, mostre-os para Daror. – Desgrenhada e colérica, ela nunca lhe parecera mais preparada para o amor do homem.
Míriel arrancou as mãos de Daror de seu corpo. Ela o iria matar agora. O iria matar, ofegava.
- Mostre seus peitinhos para Daror, Míriel, mostre.
Nem no grosseiro idioma de Harad havia palavras para expressar a indignação de Míriel, menos ainda com Daror supondo que poderia dobrá-la com o ardil baixo que a fazia sentir por sob suas calças.
Um ardil baixo, grande e duro, cuja simples vibração já a fazia involuntariamente vibrar também.
- Daror já disse para Míriel que os peitinhos dela são muito pequenos.
- Ah, mas os bicos ficam grandes e duros quando Daror os toca, e Daror adora. – Daror tateou por Míriel novamente, tendo suas mãos novamente expulsas do corpo da mulher suada e cheia de poeira, a carne da outra ainda sob as suas unhas.
- Estão grandes e duros agora, Míriel, não podes esconder.
Os tapas de Míriel transformaram-se em unhadas com as quais ela esperava arrancar os olhos e dilacerar a carne daquela abominação, daquele monstro que ... a enfeitiçara.
Durante tantos anos locupletara-se intimamente de possuir todo aquele poder sobre ele.
Com que direito Daror exercia o mesmo poder sobre ela?
Indiferente aos golpes, Daror subitamente agarrou-lhe os cabelos, trazendo a boca de Míriel para a sua.
Míriel debateu-se, e os lábios de ambos se rasgaram nesse encontro violento, em que cada um bebeu o sangue do outro.
Sequiosamente.
Ainda que a orgulhosa Míriel não quisesse se dar por vencida
- Não pense...que vai ter o meu favor...assim tão fácil.
- Ai Míriel, Daror não fez nada, não negue o seu favor para o pobre Darorzinho.
- O pobre Darorzinho?
- O pobre Darorzinho. O pobre Darorzinho precisa do favor de Míriel, precisa dos peitinhos dela, os peitinhos mais provocantes que Daror já viu.
- Só os peitinhos?
- O resto de Míriel também. Daror precisa de toda Míriel. Toda Míriel só para ele.
- Míriel também precisa de Daror, e só para ela.
- Daror é só de Míriel.
- Só de Míriel?
- Só de Míriel. Daror é prisioneiro dos peitinhos dela.
Talvez aquele fosse o único homem de Arda capaz de mesclar na mesma expressão um desejo ardente e um sorriso encantado.
Um sorriso vitorioso que poderia estar escarnecendo dela: como desejava o que lhe estava sendo oferecido agora! Sentindo que a calça dele se iria puir indisfarçavelmente no lugar onde ela estava se esfregando qual gata no cio.
Pois o trabalho de cerzir seria mesmo dela! – concluiu de qualquer forma, usando das unhas para dilacerar desta vez a vestimenta de Daror, qual um demônio enlouquecido dos tempos antigos.
- Ai Daror! – gritou ao sentir a boca dele a despi-la e honrar seus dotes de campeã, tudo ao mesmo tempo.
Desta vez não haveriam cuidados e perfumes, cabelos escovados e vestidos.
Apenas homem e mulher.
- Ai Míriel, Daror te quer demais ...
- Ai Daror...preciso tanto...esperei tanto.
- Ai-ai Míriel. Ai-ai Míriel.
