DAROR & MÍRIEL

Capítulo XXIX - OS PREPARATIVOS DO RETORNO

- Voltar?! Para aquela gente cheia de merda? Não mesmo! Nem que perdesse o teu favor. Procuraria outra Casa onde me abrigar, mas não retornaria para aquela vida mesmo.

- Por que fala em perder o meu favor? Meu favor cresce em ti a cada dia.

- É mesmo? Mostre-me.

- Estás impossível – riu Daror – tornaste-te mesmo uma mulher de Harad.


A questão, contudo, permanecia no pensamento de Daror:

- Mas, e as outras mulheres?

- Estão satisfeitas com os maridos, têm filhos, têm ouro, por que nos deixariam?

- Seriam ricas em sua cidade agora.

- É verdade. Seriam as prostitutas mais ricas da história de Gondor, mas não teriam o favor de ninguém, e entre os haradrim gozam de ambos tesouros.

- Poderiam ter uma vida mais fácil fora do deserto.

- A vida de grande parte delas é mais fácil hoje do que era quando deixaram Minas Tirith.

- E aquelas que não faziam trabalho e viviam na corte?

Míriel voltou-se para Daror e respondeu:

- Essas foram conquistadas pela perícia dos amantes de Harad.

Daror soltou sua gargalhada:

- Pela paciência dos amantes de Harad, tu deverias dizer... pelo menos no teu caso – suspirou ele.

- Hoje em dia Daror é bem recompensado pela paciência que teve naquela época.

- Longe disso, olho para ti hoje, e não consigo acreditar que tive tanta paciência, tu pusestes à prova todos os limites do homem, mulher.

Mas Míriel não sossegava até que Daror lho demonstrasse da maneira de Harad.


- Tenho mesmo de ir? – suspirava Míriel, mais uma vez no abraço do amante.

- Queres ver-te livre de mim?

Míriel rira em resposta.

- É claro que tens de ir Míriel. És a minha mulher e és prima do rei, testemunharás pelas mulheres que não puderam retornar.

- Não sou prima do rei, Daror, mal o conheço.

- És mais aparentada com ele que qualquer outra – declarou Daror – Precisarei muito de ti lá. – disse olhando-a sério nos olhos.

Então Daror tinha uma missão para ela.

Em que pesasse o desconforto que representaria confrontar-se com sua antiga existência, saber que o Pai de Harad lhe designara uma missão especial, um papel especial no retorno dos cinco anos, trouxe à mente de Míriel, por sua vez, uma questão que as vezes lhe ocorria.

- Foi por isso que me escolheste no Pelennor? – voltou-se para a face do corpo ao qual ainda se recostava.

- Talvez – sorriu-lhe o menino de volta – Pelo menos é melhor que o motivo que palreiam as gentes.

- E qual é?

- Que Daror escolheu a mulher mais magra para pagar o menor dote – respondeu rindo.

Míriel tratou de esmurrar aquela face risonha até que o abraço que a envolvia toda a detivesse, para diversão de ambos.


- Daror?

- Fale.

- Qual foi a razão?

- Que razão?

- Porque me escolheste no Pelennor.

Apenas o silencio expressivo dos olhos de Daror sobre Míriel respondia o que era tão difícil de explicar em palavras, mas tal resposta apenas levou Míriel a prosseguir.

- Por que eu? Havia tantas mulheres.

- Havia muitas mulheres – suspirou o gigante - Daror viu – acrescentou - ... mas só enxergou Míriel – disse por fim, sabedor de que esta era a verdade de seu destino e de seu coração.


- É como estou a dizer-te, Daror, tive de castigar a Sunir por desacatar-me. Enfezou-se por não ter comprometido toda economia de que dispunha pela noiva filha de Dillin de que se enamorara.

- Rapazes enamorados cometem desatinos, Tunir.

- E dias depois quase que chicoteei Sendir também. Um homem de quase 20 anos querendo brincar com uma menina ainda cheirando a leite.

- Não te questiono, amigo.

- As mães dessas meninas que começam a ficar mocinhas têm receio, Daror, são até capazes de partir por isso ... Os folguedos da nossa juventude se foram com as primas roubadas: essas meninas de hoje são muito poucas e bobas, enquanto os rapazes a consumir-se sem alívio nesses anos de fogo são muitos.

- Já disse que não te questiono, Tunir: quantos mais forem às Minas em busca de dote para noivar os filhos, melhor; mas se Mahor os acompanha, fico só com Terair de capitão, e o velho louco está cada vez mais insano.

Tunir riu:

- Terair não é um lavrador; prefere as noites de campana do que o abrigo de uma boa tenda: sua paz está na guerra.

- Pois se é isso, pergunto-lhe: que razão tem Mahor para ir?

Tunir retirou o turbante, examinando-o com grande interesse ao enunciar:

- Êh, não sei direito, parece que vai repudiar Thanaë.

- Ah ... – fez Daror, subitamente muito interessado no horizonte – Então vão logo, com os rapazes solteiros e seus pais, que o tempo antes de partirmos para o Norte é curto, as criações que trouxemos já se acabaram e a fome será nossa companheira de viagem se delongarmos.


Atulhando 2 mûmaks e quase todos os cavalos da Casa de Daror, metade dos homens de seu Clã partiu ligeira para as Minas: e assim com mais ouro Daror ficava respaldado para a aquisição de rebanhos, cavalos, víveres e para o pagamento dos casamentos desfeitos, se algum homem fosse pego desprevenido.

Todos os filhos das várias Casas de Harad que haviam feito uso da riqueza de Daror prometiam reembolsá-lo, mas a prioridade do seu líder era repovoar suas terras, e não suas arcas. Em verdade tinha esperança de que poucas das uniões se desfizessem: mas a sentença absurda que pronunciara há 5 anos atrás, e que parecera-lhe na ocasião a única forma de atrair as gondolim e suplantar-lhes os receios, por certo despertaria ambição ao tempo de ser cumprida.


Dois dias depois do grupo partir, chegou ao Sûr num trote rápido o grande animal de Hamur, conduzido pelo filho deste, Ramur:

- Mas nem, Daror! Podiam ter-nos esperado! Também nosso rapazes estão para casar, e as filhas do Sul estão saindo caras demais.

- Não tanto quanto o dote que ofereceste por Darai no Pelennor.

Ramur fechou a cara à observação e grunhiu qualquer coisa sobre seu Pai ser grato a Daror por não ter aceito a fortuna que o filho o fizera oferecer aquela noite no Norte.

Muitos filhos de muitas Casas haviam passado pelo Sûr rumo ao deserto profundo nos últimos meses. A muitos Daror emprestara seus animais na condução de Raanat ou Hadair, mas o fato é que o Senhor do Tempo correra desesperado para os rapazes sacrificados nos fortes da Fronteira Norte ou engajados nos distantes trabalhos de recuperação e fortificação de todo o Harad que Daror determinara aos Pais das demais Casas, e todos esperavam sua recompensa agora.

- Vais buscar dote para uma tua noiva também? – perguntou Daror com o filho no colo, ao despedir-se do grupo que já partia no amanhecer seguinte.

- É, pode ser. – Respondeu o príncipe evasivamente – Meu pai deseja um neto.

Até Daror já ouvira o velho Hamur queixar-se da falta de netos, e Ramur era o único filho que lhe restara da outrora vasta descendência. Seria bom que realizasse logo o desejo do velho patriarca, embora Daror suspeitasse que o herdeiro da 2ª Casa tinha uma noiva difícil em vistas.

Não fora o seu o único coração de que a jovem Darai se adonara, Daror sabia disso.

- E Naraor, pai, quando terá uma noiva?

- Tu?! – gargalhou Daror, apertando a criança em seus braços – Tu ainda estás muito novo para isso.

- Naraor não é mais um bebê, pai, me põe no chão que estou ficando esmagado que nem o cabritinho sufocado da sua história.

História da infância de Daror, que abraçara o cabritinho não até sufocá-lo, mas até quebrar-lhe o pescoço: fim de seus dias de pastorear as cabras de Raor, incumbência imediatamente repassada a Darai, tão enérgica quanto o irmão, porém menos desastrada. Daror fora mandado para o cuidado dos grandes animais de guerra, que não correriam tanto risco em suas mãos.

- Pois tu não passas de um meu cabritinho todo branco! – gritou Daror ao ver o filho desabalar-se pelo Sûr tão logo o pôs no chão, certamente para ir ter com outros dos primeiros filhos do retorno e, claro, com Batiá, mais jovem e mais danada de todos, sair a subir nas árvores, saltar na grama, tudo na correria da energia inesgotável daquela idade sem carga.

- Disse-lhe para não ir brincar junto às pedras negras? – gritou Míriel de longe.

- Êh ... Disse sim, dá-me um pouco de paz, mulher. – Tunir lhe traria algum escorpião das Minas. Trataria de inocular Naraor depois da visita ao Norte. Os olhos atentos das mães estavam por todo Sûr, mas quem realmente podia cuidar todo o tempo de onde uma criança estava? Nas saias da mãe, como Míriel queria, é que não haveria de ser.


NOTA DA AUTORA: Como qualquer menção a Darai costuma fazer aflorar comentários saudosos, há um capítulo excluído de D&M que a tem como protagonista principal; aqueles que se interessarem em recebê-lo só precisam mandar uma mensagem para o meu e-mail