Capítulo XXX - O ATAQUE DE UMBAR
O Alarme de Hamur
-Deixa-me ir contigo – pedia ainda Míriel.
-Arre! Já lhe disse que não, mulher, está surda à minha sentença? – Impacientou-se Daror, a pintura vermelha de guerra tingindo seu rosto numa máscara feroz.
-Mas as mulheres de Harad conhecem da batalha, tu mesmo o disseste! Tua mãe, tua irmã ...
Daror agarrou Míriel pelos braços e sacudiu-a:
- Não ouviu minha sentença? Não vai e cale a boca! – berrou.
A mulher finalmente silenciou-se; sim, acataria a sentença de seu Pai, como era dever de todos os seus filhos, mas não esconderia a contrariedade que deixou luzir em seus olhos.
- Conhecerás da batalha – sussurrou o amante por baixo do guerreiro, desgostoso de partir deixando atrás de si um conflito com a amada – Daror te promete.
Voltara a tratá-la por tu, e a enamorada brilhou nos olhos de Míriel.
- Promete?
- Prometo, bem-querer – Daror continuou aos sussurros, como se quisesse esconder de todos e de si mesmo aquele querer bem que não deveria encontrar espaço num Chefe haradrim vestido para a guerra – quando houver tempo para nos prepararmos e não quando temos de sair às carreiras no socorro de um vizinho – acrescentou. – Nem é uma batalha de verdade, só estou a conduzir Murdug na correria que Hamur está sem Mûmak.
- Mas se nem é uma batalha de verdade ...
- Não recomece você ! – Daror perdeu a paciência de vez, dando as costas a Míriel e saindo da tenda para juntar-se aos seus guerreiros.
Armas guardadas de lado durante cinco anos haviam tido seus gumes afiados aquela noite, depois que o mensageiro de Hamur chegara reclamando o empréstimo do velho mûmak em nome de todos os laços de aliança que ligavam as duas Casas irmãs do Harad.
Nenhum compromisso de aliança precisaria ser alegado para que os filhos da Casa de Daror socorressem à necessidade da Casa de Hamur. Nem cinqüenta anos transformariam em pastores e agricultores os ferozes guerreiros de Harad, muito menos cinco. O alarme de que corsários de Umbar se haviam aventurado dentro do território da Segunda Casa foi recebido com silvos e assobios selvagens: uma refrega, uma vingança.
Um aperitivo do que os haradrim aspiravam executar em um futuro nada distante.
A massa ansiosa pela batalha mal aguardava por Daror em frente à tenda, e ovacionou a personificação da guerra em que se transmutara o rosto do Chefe do Harad.
- Cuida da Casa enquanto Terair não volta – foi tudo que Daror pode dizer à Míriel antes de ser levado pela torrente humana que abarrotou as mastodônticas torres de combate do enorme animal.
Parece que, em todo lugar, pouco mais sobrava à mulher que cuidar da casa enquanto os homens estivessem fora na guerra, no Norte como no Sul, pensou Míriel.
- Mas nem! Terair foi é bater os caminhos ATÉ A CASA DE HAMUR, ao invés de os caminhos do entorno da Casa de Daror – declarou categoricamente Hellë, quando o velho capitão não deu sinal de retorno em alguns dias.
- Mas se a sentença de Daror falava em bater os caminhos, meu sogro fez exatamente o que lhe foi ordenado – defendeu Aniá, brava com a insinuação da outra.
- Ora! Nem isso faz interesse para nós agora! – ralhou Míriel – de volta ao trabalho que há muito que fazer! – mandou.
A trégua da presença dos homens serviria ao menos para que o preparativo dos víveres para a viagem fosse adiantado. Seria uma jornada longa, e não de todo prazerosa para uma Míriel que não tinha qualquer nostalgia de seu passado, e no que pudesse preferiria manter distância do que estivesse ligado a ele.
Mas Daror era seu presente e seu futuro, e por nada se separaria dele, menos ainda por um passado que não lhe deixara saudades.
Ai Daror! Quase uma semana de ausência, e sem notícias! Ela faria ver àquele pulha!
Mas o coração de Míriel apertou-se a pensar no seu querido, seu gigante, seu menino.
Oras! Haveria de estar tudo bem com ele!
Quem ou o que seria páreo para o Grande Daror?
Qual força da natureza poderia fazer fraquejar aquela fortaleza?
O Ataque do Sûr
- E teu pai te bateu, Zabeth?
- Nem! Meu pai nunca me castigaria de verdade, mas minhas mãos estão esfoladas como se tivessem sido açoitadas, de tantas tarefas que minha mãe arranjou para mim. Disse que antes de me dar ares de mulher, tenho de assumir obrigações de mulher.
- Não parece tão mau.
- Mas não termina nunca! Por mais que eu lavre, limpe, passe, arrume e cozinhe, no dia seguinte há ainda mais que fazer! Estou exausta, era melhor que tivesse apanhado.
Assim como Maxel, Zabeth não era mais a criança que deixara Minas Tirith há cinco anos, o calor e a liberdade do Sur os fizera crescer rápido.
Rápido demais para a mãe de Zabeth, para quem, aos treze anos, uma menina deveria ainda estar brincando de bonecas, e não de provocar os rapazes.
Zabeth não precisaria de qualquer esforço para atiçar os jovens do Sur. O Sol de Harad alourara seus cabelos ao mesmo tempo em que amorenara sua pele, a vida ao ar livre fortalecera a exuberância do corpo que despontava, os costumes do oásis a deixaram impetuosa e expontânea, e o calor do Sul completara a obra fazendo-lhe vir as regras anos antes do que ocorria com as mulheres do Norte, como muitas mães nesses dias começavam a constatar espantadas.
Quase horrorizada, a mãe de Zabeth viu o fato ser comemorado e louvado pelo pai adotivo da menina, que simplesmente vangloriou-se orgulhoso aos outros homens do Sür, os quais ofertaram colares e pulseiras a nova jovem, exortando-a a dançar à noite para o povo reunido em volta do tablado, com direito a bailado com todos, a começar pelo Grande Daror.
Aquela noite subira à cabeça da menina, era o que pensava a mãe. Ao invés de guardar recato, a mocinha exibia-se pelo Sur a menear as cadeiras, distribuindo sorrisos, flertando...
Por mais que a vigiasse, parecia que a filha lhe escapava entre os dedos, aproveitando-se de cada mínima distração da mãe para estar com algum rapaz, cada vez em situação mais afastada.
- Não conhece nada da vida! – gritava-lhe a mãe.
- Nem a conhecerei no que depender de você! – retrucava Zabeth.
- Não tem idade para isso! – desesperava-se a mulher.
- E qual é essa idade, então? – desafiava a filha, correndo embora da tenda e da incompreensão da mãe. Lá fora o mundo a chamava, e somente palavras doces dirigia aos seus ouvidos. Que pensava a mãe afinal? Já era uma mulher, tinha treze anos. TREZE ANOS!
E não era cega.
Nem surda nem burra. Sabia como nasciam os bebês.
Sabia que os homens deitavam-se por cima das mulheres.
Sabia que o mais das vezes elas não desgostavam disso, e que os homens o apreciavam muito.
Era isso que os rapazes queriam dela, também sabia.
E, embora não estivesse disposta a ter filhos agora, ardia de curiosidade para entender, experimentar aquele acontecimento que não conhecia de todo.
Fora por isso que aceitara a corte de Sendir, agora inegavelmente um homem de Harad, forte, moreno e másculo.
- Mas não quero pegar barriga – deixara claro.
- Não acontecerá nada que tu não queiras – prometera ele.
De fato, nada do que aconteceu aquela noite foi contra a vontade de Zabeth.
Exceto o raiar da aurora surpreendê-la ainda fora de casa, impedindo-a de esconder da mãe seu retorno tardio.
Se o pai não lhe bateu, a mãe não se furtou a fazê-lo.
- Sua irresponsável! Louca! Pondo-se em perigo!
- Não havia perigo – tentava-se defender a menina – estava com Sendir! Estava com Sendir!
- Vê?! – voltou-se a mãe para o marido – Estava com o filho de Tunir, ela diz, e depois que ele não a quiser mais irá ter com o filho de outro, e outro, e outro, e outro! Onde isso vai parar?
- Não é como tu falas – redarguiu o homem, mas uma ponta de preocupação em seu tom, talvez pelo bem estar da filha, talvez pelo desacorçoamento da mulher ... – o homem de Harad não é assim. Sendir não a desrespeitou, não foi filha? – Perguntou voltando-se para a menina.
- N-não – babuciou ela, um tanto o quanto em dúvida sobre o significado da pergunta.
- Vê?
- Vejo! Vejo muito bem! Vejo um bando de cachorrinhos correndo atrás dessa ... destrambelhada até engravidá-la, quando então todos sumirão para suas patrulhas, seus afazeres na fronteira e ela ficará só com uma criança nos braços, como ... como ... como tantas – desatou a mulher a chorar.
- Não está só – acercou-se o marido.
- A mãe de uma criança sem pai está sempre só – afastou-se a mulher – É seu destino ... Volto para Minas Tirith com Zabeth e com nossos filhos e cumpro o meu. Ficarei sozinha se não estiveres ao meu lado nessa questão.
Não seria difícil que a mulher decidisse por ficar sozinha em Minas Tirith com os filhos. Não dispondo de seu peso em ouro.
O pai de Zabeth foi pedir satisfação a Tunir.
Os dois soldados se respeitavam e, próximos na idade, não deixavam de ser considerados cordatos e ponderados.
Mas eram haradrim, e a defesa de suas famílias quase terminara numa refrega.
Entretanto, Tunir logo entendeu que o velho companheiro, que não tivera a sua sorte, e perdera todos os filhos na Guerra do Anel, os jovens que levara para a campanha e os menores que haviam ficado no oásis de Or, era movido sobretudo pelo receio de perder também a nova família.
E na verdade, nenhum pai ou mãe gosta de uma filha grávida antes de casar.
"Todos os rapazes mais velhos longe do oásis, nas Minas de Ouro em busca de dotes para as noivas do Norte.
E os pais de ambos também longe."
Nada mal para o jovem Maxel, tão enamorado de Zabeth quanto ignorado pela menina quando cercada de admiradores mais velhos.
- Nada de homens para mim por agora – respondera-lhe ela com uma seriedade patética à sua proposta de brincarem juntos – Meus afazeres não me deixam tempo.
"Um homem. Ela o considerava um homem.
UAU!"
- Deixa que te ajudo – mostrou rápido o menino que ali estava um homem de decisão, tomando-lhe do cesto e correndo a ir estender a roupa, e também da cabaça, com que logo providenciou leite de cabra e água para o banho dos irmãozinhos de Zabeth.
Maxel na verdade era bem jeitoso com crianças, numa prática estimulada por Mariän, que fizera por onde obter a participação dos filhos, todos homens, nas tarefas domésticas.
E afinal, na companhia de uma amiguinho da idade da filha a mãe de Zabeth não via mal. Maxel era um bom menino de Gondor, filho de uma mulher de princípios.
- Não acredito que convenceu minha mãe a deixar-me vir - sorria a menina na garupa do cavalo, enlaçando gostosamente a cintura do conterrâneo.
Maxel perguntara à mãe de Zabeth se deixaria a filha ir a um piquenique. Não fizera referência a que o passeio resumia-se a eles dois, é claro, nem tampouco que não se daria no Sür.
Mas o menino conhecia um oásis lindo a Oeste.
E a menina vira surtir em si o efeito da corte inusitada do amigo de infância, estando tomada de muito agrado da companhia dele. Na verdade, sentia-se mais confortável com um namorado da sua idade do que com os rapazes mais velhos, junto aos quais tinha receio de parecer tola.
Aquele seria um dia memorável.
Estor, o único cavalo deixado no Sür pelos homens que partiram atabalhoados a socorrer Hamur, rasgava a areia num galope alucinado, seus dois cavaleiros formando um único vulto de vestes negras, agarrados um ao outro após os momentos de terror que haviam passado na fronteira Oeste.
O grito de Zabeth ao deparar-se com o sentinela morto denunciara a presença das duas crianças aos invasores que serviam-se do que haviam saqueado do posto avançado para repor as forças antes de prosseguir rumo ao Sur ... Que os outros idiotas perecessem ao avançar no território da Segunda Casa de Harad antes de atingir a capital onde o que de alguma serventia poderia ser encontrado. A grande coorte não teria como passar desapercebida, e o socorro de Daror ao velho aliado de seu Pai era certo, bem como a sede de vingança de seus homens.
Já o comandante esperto de uma tropa pragmática aproveitaria a primeira oportunidade para separar-se de tais suicidas, e trataria de avançar sem tanto alarde pela terra de Daror, cuja capital, bem mais próxima, certamente estaria desguarnecida nas circunstâncias, se alguma coisa se sabia do temerário povo de Harad.
Pois era do conhecimento geral que Daror espalhara os Filhos de sua própria Casa no serviço de outras, bem como não escapara aos espiões de Umbar o grande esforço que conduzira tantos homens às Minas naqueles dias, desguarnecendo ainda mais uma terra que definitivamente não era mais tão rica em varões quanto fora em outros tempos, graças, aliás, às artes de traição e dissimulação de mercenários como ele.
Dissimulação era a palavra chave. Segredo, surpresa, e subitamente dezenas de bandidos pareceram cercar o cavalo, impedindo a fuga do cavaleiro haradrin.
Para Zabeth, seria para sempre a perícia e coragem de Maxel que encontrara um meio de esquivar-se dos corpos que lhes barravam o caminho, das mãos que já se estendiam para eles.
Para Maxel, o mérito caberia eternamente aos instintos do cavalo, e tão somente.
Quanto da opinião de Estor, cada vez menos restavam na Terra Média, aquela altura, que pudessem vir a compreende-la.
E tal só teria chance de se dar, de qualquer forma, se o corcel rasgasse o deserto num galope alucinado, que mais do que por a salvo os dois cavaleiros que formavam um só vulto sobre si, garantisse a todos o tempo para as providências possíveis.
Ao ouvir pouco mais do que o início do rápido relato que os jovens faziam a ela e às demais mulheres, o olhar de Míriel voltara-se para o cavalo. Era preciso avisar Daror daquela traição o quanto antes, mas como, se o animal certamente só poderia ter coberto aquela distancia com tal rapidez valendo-se de todas as suas forças, o único cavalo de que o oásis dispunha naquele momento?
Mas o animal simplesmente a olhara de volta, e a mulher vislumbrou a resposta de que necessitava em seu semblante.
Sim.
- Maxel – voltara-se Míriel sem delongas – conhece o caminho de Hamur?
- Sim, Minha Mãe – respondera o menino sem pestanejar – já o percorri com meu pai. – Tunir o era para o rapaz agora mais do que o primeiro marido de sua mãe jamais o fora.
Míriel olhara para Mariän, e esta acedera.
- Toma de Estor e não pára de correr até encontrar Daror e contar-lhe do que viste, então.
- Sim, Mãe – respondeu o menino, que partiu tão logo o cavalo bebeu alguma água ao tempo em que ele mesmo encheu o próprio cantil: eram seres do deserto, e não haveriam de precisar de mais enquanto não cumprissem da sentença que lhes fora ordenada.
Entre a chegada e a partida não ocorrera mais do que o tempo necessário para que a notícia da invasão se espalhasse pelo oásis do Sür.
A defesa de Sûr
A Terra e a água de sua Casa conspurcadas - Míriel sentia-se encolerizar.- Os grãos que semeara e colhera, os depósitos que enchera com o suor do seu rosto.
A riqueza que custara tanto sacrifício a Daror buscar! O ouro com que o Pai de Harad contava para refazer os rebanhos de seu povo, garantir-lhe a sobrevivência.
As crianças que acalentara, a terra que arara, os grãos que colhera ... o oásis de sua gente ... o povo de seu Pai.
Os filhos de seus homens! De repente Míriel sentiu o coração congelar.
Seus filhos!
Seu povo!
Que lhe importava seu triste destino de mulher nas mãos dos saqueadores frente ao destino cruel que os numenoreanos negros certamente dariam às crianças de um povo que queriam ver extinto?
Míriel olhou à volta, as mulheres enxameando de lá para cá, chorando atarantadas, sem saber o que fazer, reunindo em torno de si as crias, buscando certificar-se de que estavam bem.
Para quê? Agora não havia tal necessidade, embora depois não fosse haver sentido.
- Escutem-me! Escutem-me! Calem-se!
Ninguém escutava a voz de Míriel, as mulheres voltando-se em seu desespero para a dúzia de rapazolas que se armava como se sozinhos pudessem dar combate a uma centena de mercenários.
Míriel viu a corneta de Guerra de Harad nas mãos do filho mais novo de Mariän.
- Assopre, Danael, assopre!
A trombeta soou sobre as águas, cantando seu canto de resistência às intempéries.
- Filhas do Sûr, parem de chorar e escutem-me! Correndo de um lado para o outro somos presas fáceis.
- E quê devemos fazer, Míriel, render-nos a fazer parte do saque que vai ser levado?
- Preocupa-me menos o destino do que os corsários de Umbar possam querer levar, do que daquilo que certamente querem destruir.
Silêncio desesperado ... aquilo a que Míriel se referia já passara pela cabeça de muitas.
Umbar não odiava o Harad que cobiçava, odiava o povo que o impedia de apoderar-se dele; aliara-se a Sauron para aniquilá-lo e não deixaria uma nova geração haradrin florescer para renovar o poderio da nação no que pudesse evitar.
As crianças indefesas seriam passadas no fio da espada. Os gritos e o choro recomeçaram.
Míriel tomou a corneta das mãos de Danael e soprou um gemido débil, que pouco a pouco, entretanto, transformou-se num chamado longo por atenção e respeito.
- Escutem-me tolas! Chorar não vai salvar nossos filhos... O Sûr é grande, mas a corja de Umbar vem preparada para invadir tenda por tenda, separando as mulheres que possam lhes interessar das crianças que não lhes interessam de maneira nenhuma.
- Já sabemos disso.
- Esperam encontrar-nos indefesas, após haver afastado nossos homens à traição, é assim que agem.
- Não somos indefesas, não todas nós, mais da metade das mulheres aqui sabe manejar uma espada.
- Míriel, não podemos fazer frente a uma coorte de guerreiros!
- Para dar tempo de afastar meus filhos do Sûr, eu posso!
- Eu também! – A voz de Mariän fez-se ouvir quando esta se postou ao lado de Míriel.
- São só uma corja covarde de cães famintos, podemos dar-lhe combate por muitas horas – falou a bravia Aniá do sul do Harad. – Diga-nos o que tem em mente, Míriel.
- As mulheres pejadas ou que não sabem lutar tomam de água e provisões para levar as crianças aos oásis próximos, guiadas pelos meninos mais velhos; sob o frescor da noite, podem se adiantar na busca do refúgio que já garantiu a sobrevivência dos menores uma vez.
-Eu não vou fugir como uma mulher... – começou um dos meninos, logo silenciado por um cascudo da mãe. Os rapazinhos do Sul e do Norte volta e meia exploravam as proximidades da Casa, sabiam guiar-se em direção a elas fosse pelas estrelas, fosse pelo Sol, eram os guias que a salvação dos menores necessitava.
- As mulheres que sabem pegar numa espada ficam e dão combate ao inimigo juntas. Não esperam resistência dessa ordem, podemos surpreendê-los pelo tempo necessário para que a fuga alcance o deserto, não lhes deixando ânimo para prosseguir numa jornada com o único fito de matar crianças; inflingiremos dano suficiente para que antes desejem apenas retornar o quanto antes para o seu covil miserável.
- Sim! – era o que as mulheres se diziam: se havia alguma esperança, estava no plano de Míriel, ao qual agora se apegavam, rapidamente enchendo cantis, agasalhando os filhos para o frio noturno do ermo e dispondo provisões apressadas.
O primeiro impulso de grande parte delas, claro, era juntar-se à fuga ... mas esta seria demasiado breve e da mesma forma inútil se o grupo que ficasse na retaguarda não tivesse condições de oferecer resistência tal que impusesse um golpe de monta aos invasores; estes acabariam por alcançá-las rapidamente, mais desprotegidas ainda no descampado que no oásis, e as pernas curtas das crianças que já podiam correr, assim como as das mães carregadas dos filhos de colo precisavam de todo o tempo de que pudessem dispor para alcançarem alguma dianteira.
- É uma forma de garantir também que nenhum destino cruel se abata sobre nós. – Sorriu Mariän.
- Certamente – sorriu-lhe Míriel de volta – pereceremos todas.
Mais mulheres do que as que realmente sabiam lutar ficaram, depois de despedirem-se sem lágrimas de seus pequenos, admoestando-os a correr. Cada mulher e rapaz que partia levando ainda dois, três, até quatro bebês amarrados ao corpo. Mulheres, rapazes e espantosamente crianças marchando acelerado para a sobrevivência, sem choro ou reclamação que sua muito pouca idade fizesse prever, prontos a encarar uma adversidade que ainda nem entendiam direito acompanhados das tias e primos mais velhos, no costume de Harad que fazia de todos os membros de uma mesma Casa, uma família.
- Que demora é essa, Hellë? Avia-te daqui!
- Também sei pegar em armas, Míriel.
- Mas estás novamente pejada, coelha de Raanat, achas que não sei?
- Preciso escolher entre esse e os outros.
- Precisa é guiar essas tolas com seu espírito sempre prático e cheio de esperança. Segue com elas e empresta-lhes sua força, não deixa que parem, que fraquejem, e mais a frente faz com que se separem para oásis diferentes, aumenta as chances de nossas crianças. Vai, Hellë!
Como para corroborar as palavras de Míriel, Aniá, após entregar-lhe seu filho recentemente desmamado, deu um forte empurrão à amiga de todas, fazendo-a tomar o rumo do deserto aos tropeços.
Seu sacrifício era sua única estratégia, mas a belicosa Aniá tratou de delinear as táticas que o alongassem o suficiente para torná-lo útil.
- O tempo está contra nós, mas podemos deixar entreaberta a tenda do ouro da Casa... pensarão que tentamos nos abastecer dele antes de fugirmos, e sua cobiça os conduzirá a uma armadilha antes de seguirem para nos capturar. Vamos embeber o couro em óleo inflamável, e atear fogo quando estiverem lá dentro, e atear fogo igualmente às outras tendas em que terão entrado, de resto devemos combater juntas, mas em pequenos grupos, de formas a que a derrota de todas não ocorra ao mesmo tempo. Vamos resistir até o fim.
- Vamos resistir até o fim!
E por sem sentido que pudesse parecer a idéia de correr para o deserto carregando ouro, foi exatamente o que os corsários pensaram que as mulheres haviam feito ao deparar-se com o oásis aparentemente vazio, as mulheres ocultas nos arbustos e nas copas das árvores pela noite e pelos véus e turbantes que as fariam ser confundidas com os temíveis guerreiros de Harad.
Haveria tempo para correr à captura delas depois de encherem de ouro seus bolsos e de água suas gargantas sedentas do caminho escaldante que percorreram em ziguezague na sua traição, e o golpe certeiro de Aniá abateu muitos piratas presos na tenda incendiada, da qual o grupo liderado pela habilidosa guerreira impediu que saíssem incendiando um barril de óleo fervente em sua entrada, o qual acabou explodindo na morte horrível a que a ganância conduzia.
Os homens que bebiam e urinavam junto à sagrada água do Sûr não tiveram tempo de entender o que acontecia, surpreendidos por guerreiros que pareciam suplantá-los em duas vezes o seu número, pulando para a água e vendo-se cercados por todas as margens ... para ser abatidos pelas flechas certeiras de cinco filhas de arqueiros de Gondor que, com o estímulo dos maridos de Harad, nunca haviam esquecido as lições aprendidas junto com os irmãos.
Outras tendas incendiadas, entretanto, deixavam escapar os mercenários que as haviam invadido ... O maldito Daror não deixara sua terra totalmente desguarnecida, ainda havia homens de Harad guardando-a então, só lhes restava enfrentá-los; os haradrim não teriam clemência com os corsários de Umbar, sabiam estes.
Desordenada, a batalha tomou lugar em meio ao incêndio do Sûr em muitas frentes e durante muito tempo, tochas incendiárias arremessadas em meio aos homens cada vez que estes formavam um grupo coeso.
Embora o desespero com que lutavam os grupos opostos fosse igual, os filhos de Harad começaram a perecer em vários pontos, incapazes de continuar a resistir aos golpes fortes distribuídos pelas espadas de Umbar, e, ao contrário do comportamento que sempre demonstraram ao seu inimigo, recuavam ao ver-se em menor número.
Se não fosse a confusão, o alarido de dor dos queimados, o tinir das espadas, eles teriam percebido antes o quanto eram agudos os gritos dos inimigos atingidos...
- Mulheres! São mulheres! Estamos lutando com mulheres!
Nenhuma das poucas combatentes que restavam ao Sûr, retirando-se para as sombras a cada desvantagem, para atacar logo depois, reagrupadas, desconhecia a situação desfavorável em que as punha essa descoberta dos cães, aliviados do peso que o temor do respeito a um inimigo mais forte os mantivera até então.
Eram elas a caça agora, véus e turbantes arrancados, pernas rijas impedindo sua fuga, as investidas dos piratas utilizando-se de suas próprias estratégias para isolar suas defesas até desarmarem e subjugarem cada uma, prometendo-lhes toda sorte de tortura sob a espada e o fogo depois que as estuprassem.
- Não essa, essa beldade de Gondor levarei comigo, para reaprender a ser dócil como uma boa pérola de Númenor – lambeu o rosto de Míriel um hálito fedorento de dentes podres que imobilizara o corpo que se debatia.
Míriel escoiceou o saco daquele monte de asco que a agarrara, mas sua fuga foi muito breve, sua face atingida com uma força que a fez rodopiar, os cabelos livres agarrados por uma mão que a fez dobrar-se, enquanto a outra apalpava-lhe brutalmente o seio.
Foi a chance que seu punhal teve de rasgar-lhe a garganta de ponta a ponta, tomando um banho de sangue.
Míriel caiu no chão, mas não encontrou forças no corpo que combatera durante a noite e a madrugada inteiras para levantar.
O mundo ribombava e tremia ao seu redor, enquanto desfalecia.
