DAROR & MÍRIEL

Capítulo XXXI - OS FUNERAIS DE UMA GUERREIRA

A escuridão ainda dificultava a procura quando Daror finalmente encontrou o cabelo que refulgia à luz da lua, misturado à terra vermelha profundamente sulcada pela pisada de Murdug.

Daror ajoelhou-se junto ao corpo magro, caído rente à grande pegada em que jazia a cabeça, sem coragem de erguê-lo e enxergar a face do crânio esmagado pela ira do mûmak.

Porque tiveram de ser seus aqueles tempos de ira, onde o amor não poderia encontrar uma morada segura? Porque o Harad o fizera tão forte, apenas para sobreviver a tudo que amava?

O gigante finalmente tomou nas mãos o corpo inerte da mulher, da sua mulher, e virou-o cuidadosamente para si, amparando a cabeça que temia que se desprendesse do resto, esfacelada.

Uma massa vermelha disforme e sangrenta, era tudo o que restava do lindo rosto da filha da lua.

Daror procurou em seu coração alguma ira, algum sentimento de vingança atrás do qual se esconder, se refugiar.

Mas tudo que encontrou foi o vazio de permanecer num mundo em que não lhe restava mais nada.

- Míriel – gemeu Daror, abraçando o corpo em que agora caíam os pingos grossos das lágrimas que retivera por toda a vida, despejando-os por aquela que não nascera para fazer parte dela.

Chuva? Estava chovendo? No Sûr?

- Minha Míriel.

- Daror?

- Míriel?!

Viva? Como?

Mas a voz que o chamou de novo soava forte, por sob o bolo de carne coberto de areia que era o rosto que Daror não quis tocar com medo de comprometer ainda mais os ferimentos.

- Daror? – As mãos dela por sua vez tateavam o rosto molhado dele, sua cabeça lisa, a face imberbe, a boca mais uma vez rachada pelo ar seco. - As crianças?

- Ainda não encontramos seus corpos; as tendas ainda estão ardendo.

- Mandei-as para o deserto, Daror, para refugiarem-se enquanto enfrentávamos os corsários.

- Nossos filhos estão vivos?

- Sim.

- Naraor?

- Sim. Manda buscá-los.

- Agora!

- Daror.

- Quê?

- Manda só alguns homens a fazê-lo. Não devemos nunca mais deixar nossa Casa desguarnecida.

- Certo. – Era isso mesmo, pensou Daror: por mais que tantas experiências malsucedidas o aconselhassem a pesar suas decisões, a impetuosidade de Harad o guiava no sentido contrário. A única vez em que funcionara fora no Pelennor, sob a revelação de Darai. Era bom receber o parecer e a ponderação de mais alguém, compartilhar a carga.

- Daror?

- Bem-querer?

- Não ... não enxergo – balbuciou Míriel, só então se apercebendo de que não conseguia distinguir imagem alguma à frente de seus olhos.

- Calma, está ferida, não toque – disse Daror detendo a mão que Míriel dirigira às vistas – há muita terra misturada à carne, vais te prejudicar ainda mais esfregando a ferida – disse, já carregando-a nos braços para junto ao lago onde acorriam os haradrim com as mulheres feridas.

Com as próprias mãos Daror verteu água delicadamente no rosto de Míriel, de onde a areia começou a escorrer, sangrenta como a aurora, até que a mulher impaciente mergulhou o rosto na água; sentia a face extremamente dolorida sim, mas não tão ferida.

Seu corpo, apesar de moído, simplesmente sabia-se muito melhor do que o cuidado excessivo de Daror pressupunha. Se estava viva, certamente o mûmak não a pisoteara, como supusera o marido, seu rosto devia ter resvalado para dentro da grande pegada logo após a passagem do grande animal.

Míriel deu-se por completamente satisfeita quando pode abrir seus olhos e estes enxergaram.

- Vejo – disse voltando a face escarlate para Daror – era só terra.

- Não, Míriel, é sangue, muito sangue.

- Mas não é meu sangue – sentenciou a mulher, dando a entender que estava bem e que o serviço de ambos era necessário junto às realmente feridas.

Eram muitas, com costelas quebradas, cortes profundos e corpos perfurados.

Mas aqueles que acreditam num Deus Único, podem também acreditar que suas bençãos e sua misericórdia se estendem a todos.

Já aqueles que acreditam que cada povo tem o seu deus, podem acreditar que o deus guerreiro de Harad retribuíra o empenho de suas novas filhas.

Com exceção de algumas poucas e muito lamentadas bravas mortas, a maioria das mulheres que combateu a batalha do Sür escapou com vida.

Com exceção de algumas poucas e bravas.


- Dará funerais de guerreiro a uma mulher?

- Morreu como um guerreiro, terá funerais de guerreiro. Aniá foi sempre uma guerreira, até o final, todas as mulheres que pereceram esta noite

"Porque o capitão de Or partiu para a batalha em Hamur esquecido de deixar a Casa de Daror protegida" – a sentença não dita pairou no ar entre Daror e seu capitão mais antigo, seu Mestre, o homem mais velho de Harad, seu guerreiro mais famoso e violento vivo.

Afinal a acusação já havia sido feita por Hadair, que enlouquecido de dor ao encontrar o lindo corpo de sua esposa mutilado, seu rosto moreno recortado, os olhos furados à faca, voltou-se contra o avô, esquecido de que este era o possuidor de sua linhagem, e detentor do direito de tomar de volta a vida do descendente que a desonrasse.

O velho guerreiro já vira mortes terríveis e incontáveis, dentre as quais a de muitos entes queridos, de amigos, de filhos, de esposas, e certamente não seria a morte de uma nora que iria abalá-lo.

Mas as palavras de Hadair o fizeram, e o ainda mais velho Terair não foi capaz de erguer sua espada para calar aquela acusação, enquanto Mariän tentava consolar o jovem tenente, explicando-lhe que Aniá já estava morta quando os cães de Umbar lhe vilipendiaram o corpo cuja alma partira nos braços dela, cercada de inimigos, mas ferozmente feliz na certeza de que pusera seus filhos e todas as outras crianças da Casa à salvo. Perdera a batalha, mas ganhara a guerra.

Nada consolaria jamais o marido daquela última imagem de sua mulher, entretanto, e Hadair saiu pelo Sur a procurar inimigos vivos para estripar.

- Procura embriagar-se de sangue ... sabe que a sede da vingança não é saciada assim – compadeceu-se Daror, contendo o pensamento de sua ventura, de sua ventura imensa de encontrar Míriel com vida.

- Supuseram que era esposa de Daror – esclarecia ainda Mariän.

- Quê?

- Reconheceram-na como uma mulher do Sul de Harad ... como uma princesa da tradição, supuseram que tal mulher só poderia ser de Daror.

Também Daror saiu à cata de homens vivos entre as dezenas de feridos espalhados pelo oásis em que o fogo ainda ardia em vários pontos, decapitando-os.


E assim foi que o sol se pôs e o sol nasceu no azáfama de cuidar dos feridos sem descuidar dos mortos com honra.

Ao anúncio da alvorada, os homens conduziram nos ombros os corpos de cada uma das guerreiras às piras funerárias, cuja fumaça somou-se à que ainda subia das tendas incendiadas.

Os olhos de todo o clã reunido ardiam ao mirar o sol vermelho pelas chamas quando, Daror e Míriel à frente, os filhos da Casa ajoelhados conduziram a testa ao solo em homenagem à bravura daquelas que haviam atingido a honra mais profunda de morrer em defesa de sua Casa.

Foi a primeira vez na história de Harad que uma mulher recebeu funerais de guerreiro.