DAROR & MÍRIEL

Capítulo XXXII - A LEOA DE DAROR

Os homens agitaram-se e apressaram o pesado passo dos Mûmaks carregados ao avistar de longe a quantidade de fumaça que subia do oásis.

Tunir, entretanto, não precisava de explicação alguma, compreendera tudo ao deparar-se com as tendas em brasas e com as mulheres ativas, levando e trazendo bandagens.

Portanto compreendeu também quando Mariäm correu para seus braços, num pranto atípico.

- Tive tanto medo. – disse ela por fim, quando conseguiu falar algo, ainda em seu colo.

- Eu sei, eu sei.

- Não ... – chorava ainda, à sombra da árvore para a qual Tunir a conduzira – tive medo de nunca poder lhe dizer ... que ... que ... permaneceria contigo após o retorno.

- Sei que permaneceria, Mariän – riu o capitão.

- Sabe?

- Sei. Permaneceria, permanecerá – sorriu ele – nos entendemos, não é mesmo?

- Sim, nos entendemos – respondeu Mariän num abraço e num beijo que demonstravam muito mais que o profundo entendimento mútuo que haviam encontrado um no outro.


- O que não entendo é o que houve com Míriel, a face dela ...

- Míriel tomou um banho de sangue quando cortou a garganta de um, e simplesmente não teve tempo de lavar-se adequadamente até agora em meio a essa correria.

- Pois quanto mais demorar a fazê-lo, mais trabalho terá, pois o sangue do inimigo seca, encrua e mancha.


Por mais que esfregasse, não saía; e não tinha tempo agora de preocupar-se com isso: era preciso salvar o que pudesse dos víveres, separando o que pudessem dispor para a viagem do que deveria ficar para suprimento das mulheres feridas, adiantadas na gravidez ou com filhos recém-nascidos que ficariam no Sür com suas famílias - bem como das fortes guarnições que Daror deixaria protegendo suas terras.

Além disso era preciso providenciar abrigo, roupas e o mais necessário entre tantos que os haviam perdido, no que Míriel achou serventia para muita coisa encostada que trouxera de Minas Tirith.

E, por fim, havia o bebê.

E havia Batiá.

- Cadê minha mãe? – perguntara a menina de volta ao Sûr.

- Em toda a sua volta – respondera Daror num gesto largo que abarcava todo o horizonte, para onde o vento conduziria as cinzas de Aniá.

Batiá franzira o cenho sem entender, um tanto contrariada: a mãe era dela, que direito tinha de ir fazer parte do entorno assim?

Demorou um pouco para que a compreensão de que a mãe não mais voltaria se abatesse sobre a menina.

Mais do que demorou para Míriel perceber que seu coração seria para sempre da filha que o destino lhe fizera chegar desta forma.

Assim sendo, Míriel amou também o irmão do qual não a separaria, fazendo-se mãe de ambos antes mesmo que a insanidade de Hadair e o abatimento de Terair o confirmassem.

Corria então de um afazer a outro com Radir preso às costas e à menina ao alcance dos abraços com que esforçava-se para lhe combater o abatimento, secundada por Naraor, que no afã de animar a pequena companheira inventava toda sorte de traquinagem, para incremento do azáfama de Míriel.

- Arre! Vocês dois, voltem aqui já! – chamava inutilmente ao vê-los partir às carreiras para reunir as cabras que haviam soltado.

- Daror! – bradava então se o soubesse por perto, pois desde logo esteve patente que era ao pai que ambos devotavam obediência verdadeira, e não a ela.

- Arre tu, mulher! – berrava por sua vez Daror, - Não podes continuar assim! – tomando do que estivesse à mão para esfregar-lhe a face.

- Ai! Estás a tirar meu escalpo – reclamava ela em meio ao vigoroso esforço de limpeza do gigante.

O escarlate ganhara lugar no rosto de Míriel durante aqueles dias, até chegar ao ponto em que não se comentava outra coisa no Clã e entre os vizinhos que por lá passavam, vindos das Minas ou achegavam-se na solidariedade haradrim com o suprimento de tantas necessidades: Míriel batizara-se com o sangue do inimigo durante a batalha, perfurando suas gargantas com os próprios dentes para bebê-lo ainda quente. Naquela noite, transformara-se numa leoa, e era bem o que a marca em seu rosto mostrava: a testa ressaltada de uma leoa, seu focinho e maxilares, em meio ao que brilhavam na noite os olhos verdes felinos.

Muito tempo passou até que aquela tintura se desvanecesse.

Em verdade, olhos que se fixassem no rosto de Míriel seriam capazes de vislumbrar a sombra daquelas manchas até o fim de sua vida.

De enxergar em sua face os traços de uma leoa.

A Leoa de Daror, logo passaram a chamá-la.


- E tu o aprecias, não é mesmo?

- Mas nem! É o povo que fala, que vou fazer?

- Podes vir aqui – respondeu Daror deitado à cama, espalmando a mão no lugar ao seu lado – vou te mostrar o que os leões fazem com as leoas.