DAROR & MÍRIEL
Capítulo XXXIII - A MARCHA DO RETORNO
A marcha pelo Harad
Míriel esquecera-se do trabalho que um bebê representava. Mesmo sobre o Mûmak, o pequeno não parava de engatinhar, agarrando-se às pernas das mulheres, a tentar por-se de pé.
- Pois trata de olhar esses dois também, senão tu és a próxima a apanhar – berrou Daror ao passar-lhe Naraor e Batiá, não sem antes esquentar-lhes os traseiros por estarem brincando de pular de uma torre a outra do animal.
A mulher quis responder-lhe que de nada adiantava tratá-la assim, que isto não lhe faria crescer olhos à nuca para vigiar aqueles impossíveis. Mas, para os homens, que não tinham esse encargo, era sempre muito fácil falar...
Naraor e Batiá, entretanto, logo dormiram, abraçados a consolarem-se das palmadas recebidas, e bem Radir, de bucho cheio, encontrou o sono no embalo do colo de uma tia. O Crepúsculo já se fazia, e Míriel soube que aquela seria mais uma noite de viagem. A marcha para o Norte estava muito atrasada, parando em cada Casa do caminho para refazer-se, abastecer e incorporar cada vez mais membros ao já imenso grupo, em sua maioria crianças.
Daror procurava então ganhar tempo entre uma capital e outra conduzindo os animais apinhados de mulheres e crianças de noite como de dia, seguidos a pé pelos resistentes guerreiros.
- Não querias conhecer da batalha? – perguntara-lhe Daror. – Pois prova agora do ritmo de uma campanha.
A frente ganha nas noites de Marcha, contudo, era perdida nas recepções sempre festivas dos demais Chefes a Daror, e das reuniões de deliberação que os Senhores que não seguiriam insistiam em ter com ele.
Meu pobre menino – pensava Míriel – É apenas um homem, não vêem como está já cansado – lamentava-se intimamente, levando uma manta para o condutor solitário sentado sobre a cabeça do grande animal.
Seu abraço também o aqueceu, e Daror não resistiu a beijá-la longamente.
- Vais conduzir a noite inteira?
- Raanat já conduziu ontem.
- Raanat dormiu sobre a cabeça de Murdug ontem, isso sim.
- O animal sabe o caminho, mulher.
- Então porque não nos ocupamos de fazer outra coisa agora? – sugeriu Míriel, já tomando do que lhe interessava.
- Larga daí, mulher doida, que não há cobertura sobre nós.
- Mas já estão todos a dormir, e se abrires tuas calças, nenhum verá o que há de ocorrer sob as minhas saias.
- Já disse para largar, mulher terrível – riu o menino, afastando-lhe as mãos. – não teremos onde nos lavar depois, porquinha.
- Oinc! Oinc! Oinc!
- Não te lembras que, há cinco anos, eras tu que me chamavas de porco?
- Oinc! Oinc! Oinc! – insistia
- Arre! Sossega – ordenou, virando-a para que se recostasse em seu peito – Dar-te-ei um bom castigo quando pararmos, que minhas bolas vão doer o resto da noite – admoestou abraçando-a.
- Mas nem! Estás é com muitos pudores, guardando-te de mim como tu me acusavas de fazê-lo há cinco anos. – suspirou, resignando-se à modorra inevitável do balançar do grande animal, a qual não lhe deixava de trazer memória do enjôo que a acometera na viagem de vinda para o Harad.
A marcha da vida
Oh sim! Daror lhe providenciara um bom castigo, vez que as crianças encontraram entretenimento e cuidado de outros no Oásis de Calépsir, sorria Míriel, recostada nos braços cujas mãos ainda a percorriam.
Extravagância para um homem que passava por tanta vigília e esforço quanto Daror atualmente ... Mas se estava a querer vê-la pedir arrego, muito se enganava ele, deliciava-se Míriel ao sentir as mãos reproduzindo a concha de seus seios e brincando com os contornos de suas ancas, enquanto Daror beijava-lhe a barriga suave e repetidamente.
Movera-se de forma a melhor executar as carícias, fazendo Míriel contorcer-se em cócegas ao cantar-lhe no umbigo.
- Pare! Pare! – gritava Míriel sem fôlego de tanto rir, debatendo-se até que Daror a abraçasse novamente, e seus olhos risonhos se encontrassem.
- Daror – suspirara então.
- Míriel – respondera-lhe no mesmo tom, ainda rindo – Míriel feiticeira, estive tão ocupado ... Não irias me contar?
- Contar-te o quê? – sorria lânguida.
- Do que só agora percebo, bem-querer, se bem que já vinha reparando ...
- Reparando em quê, Daror? – Ria Míriel sem entender.
- No arredondar-se de teu ventre.
- Agora está a me chamar de gorda? – Mas nem, queria mesmo era pilheirar dela.
- Estás num belo caminho – ponderou Daror.
- Oras! – parou de rir e começou a defender-se – São os dias sobre Murdug, sem outra atividade, é só isso!
- Ah claro! – ria-se e ria-se Daror – E esses peitos e ancas?
- Está bem! É verdade! Se querias irritar-me, conseguiu – afrontou-se Míriel – realmente engordei com essa imobilidade, seguida de festas e banquetes nas paradas, e se isso te desagrada ...
- Desagradar-me? – Daror a encarava entre a dúvida e a mais completa incompreensão.
- Mas se não te desagrada ... Que estás a olhar-me com essa cara?
- Míriel, como poderia desagradar-me de estares prenha?
- Prenha? Prenha?! Que prenha, Daror! Definitivamente tua brincadeira passou dos limites! Sabes que não posso ter filhos e como este assunto me aborrece! – bradava Míriel no ápice da irritação.
- Que sei eu de que não podes ter filhos, mulher destrambelhada? E que é isso que acontece com teu corpo então?
- Acontece que engordei, pronto! Sempre não me achastes magra demais, sem peito?
- Exatamente! Estás com um par bem redondo agora, mesmo quando deitada, e Míriel não tem seios quando está deitada, as mãos de Daror ficavam tateando sem nada encontrar.
- Pois podes bem tirar a mão daquilo que não gostas, então – a irritação evoluíra para a fúria e Míriel erguia-se agora com os punhos voltados para o céu, esbravejando.
- Arre! Não é por estares grávida que podes ficar intratável, mulher geniosa – ergueu-se por sua vez Daror.
- Arre tu! Pare de dizer que estou grávida!
- Mulher burra! Louca! Escolha desgraçada que um dia fiz! – praguejou Daror – Toma medida do que fazes, tua brincadeira é que está cansando a Daror agora.
- Que brincadeira? Quem faz tudo para irritar Míriel é Daror, com essa história de gravidez!
- Arre! Que estúpida tive a infelicidade de desposar – grunhiu Daror – Quando foram tuas últimas regras, sua louca?
- Foram ... foram ... ah, nem lembro, e nem diferença alguma faz, que nunca foram regulares.
- Quando foram tuas últimas regras, Míriel? – Daror cruzara os braços sobre o peito para repetir a pergunta.
Míriel respirou fundo – Foram antes do início da viagem, se quer saber, mas isso não quer dizer que estou grávida.
Daror agarrou-lhe um braço e arrastou Míriel para junto do espelho.
- Mira-te – foi tudo que disse.
Ai!
Ela engordara mais que supunha.
As roupas já lhe vinham a apertar há algum tempo, é verdade, mas nem prestava muita atenção a isso ... Daror tinha razão, estava mesmo gorda. – Míriel baixou a cabeça, resignada.
- Realmente engordei demais, mas volto a emagrecer, conforme agradar a Daror.
- Míriel – sussurou-lhe o gigante, nus, abraçando-a – Míriel, flor da maior tolice, mais encantadora ... – Daror encostou-se às costas de Míriel , fazendo-a ver-se de perfil, tomando-lhe da mão e levando-a a percorrer o próprio ventre em frente ao espelho – como podes querer negar o que teu corpo afirma, bem-querer? Estás prenha, e não é de pouco.
Fúria então transmutou-se enfim na mais absoluta ira, quando Mïriel afastou-se o suficiente para se por de frente a Daror e declarar-lhe:
– NÃO ESTOU GRÁVIDA!
Mas a estas palavras uma testemunha até então silente manifestou-se, num pontapé tão formidável que fez Míriel conduzir as duas mãos à barriga.
A mulher boquiaberta olhou para o próprio ventre, onde uma visível sequência de chutes era utilizada para exprimir a opinião do outro interessado no assunto.
Quando Míriel finalmente voltou seu rosto para o rosto de Daror, a triunfante expressão do marido que prova sua razão à esposa fê-la entender-se definitivamente derrotada.
Perdera aquela discussão.
E ainda teria de aguentar o ar de "eu não falei?" de Daror pelo resto da viagem.
Míriel quedou-se na cama, tomada por um acesso de riso histérico.
Era só o que lhe faltava: deixar Minas Tirith com um filho no ventre, para lá bem voltar com outro, imensa como um Mûmak, aos olhos de sua mãe, do Rei Elessar, da Rainha Arwen, de toda a cidade e de quem mais estivesse lá para o assistir.
Havia uma irônica justiça na situação em que se veria forçada a reencontrar tudo e todos aqueles dos quais há cinco anos fugira, para esconder sua gravidez e seu constrangimento, e Míriel não conseguia parar de rir.
Enquanto Daror ria com ela.
Unidos na marcha da vida.
Pois o Senhor de Harad e a Dama de Gondor haviam encontrado a felicidade juntos.
