Parte III – Final

Snape estava cercado por vários aurores, em pé, na frente do velho quadro de Dumbledore. O diretor não estava lá.

- Que ultraje trazerem esse homem aqui! – exclamavam os outros diretores.

Até que o dono dos cabelos e barbas brancos apareceu na moldura, encarando aqueles que estavam na diretoria. Seus olhos, depois de irem aos de Hermione, correram para Snape e se detiveram nele por um tempo. Snape baixou os olhos; não podia encarar o velho diretor; o único que confiara nele.

Dumbledore abriu um sorriso amistoso e comentou:

- Eu já havia me esquecido o poder que uma mulher exerce sobre um homem!

Hermione sorriu; mais ninguém entendera o comentário.

- Então, Severo... Parece que eu errei feio – disse Dumbledore, parecendo bem humorado. – Esqueci de lhe dar algo por que lutar... Esqueci que só o amor, como eu mesmo sempre disse, é capaz de tirar uma pessoa das sombras... Felizmente, havia alguém que conseguiu aprender comigo o bastante para terminar o que eu devia ter começado.

O silêncio era muito pesado. Snape conseguiu erguer o olhar e encarar o diretor.

- Eu gostaria de saber o que o levou a me trair, mas não tenho pressa. Conte quando estivermos sós, ou quando achar conveniente – disse Dumbledore.

- Vai perdoar esse comensal? – perguntou Moody, irritado. – Dumbledore, ele...

- Eu sei o que ele fez – disse Dumbledore. – Adiantou em alguns minutos a minha morte. A poção que bebi na caverna era fatal. Nem o grande mestre de Poções seria capaz de reverter o feitiço. Ele me traiu. Ah, sim, ele o fez. Mas não existe ninguém que não mereça ser perdoado, por pior que seja. A pessoa apenas precisa... pedir perdão.

Todos olharam para Snape, que olhou para Hermione e depois para Dumbledore.

- Trair a Ordem e, principalmente você, foi a pior coisa que eu fiz na minha vida. Como se eu tivesse uma – resmungou Snape, a contragosto. – Eu só... Eu... apenas fui para o lado em que achei que morreria mais rápido.

A última frase dele causou espanto em todos, inclusive em Hermione. Ela nunca poderia imaginar que era aquele o motivo da traição dele.

Mas Dumbledore parecia entender.

- Severo, Severo... Eu realmente cometi um erro muito grave... Perdoe-me. Eu achei que poderia deixar as coisas acontecerem naturalmente entre você e sua salvadora, mas agora vejo que eu devia ter dado um empurrãozinho...

Hermione olhou para o diretor, que dava uma risadinha abafada.

- Dumbledore! – exclamou ela. – Como você...?

- Eu conheço Severo muito bem – disse Dumbledore, calmamente. – Voldemort poderia não saber o que ele pensava, mas eu bem sabia...

Snape arqueou a sobrancelha, mas nada disse.

- Calma aí – disse Rony. – Vocês estão querendo dizer que... A Mione... e o professor Snape... e...

Ele fez uma careta; todos olharam para Hermione, inclusive Snape.

Ela cruzou os braços e disse:

- Você chegou a essa brilhante conclusão sozinho?

- Ah, desculpe, mas do jeito que o professor Dumbledore falou parecia que... – começou Rony.

- Ora, Ronald, parece que pelo menos uma vez na sua vida você entendeu certo – pilheriou Hermione.

Um "OH!" uníssono foi ouvido; Snape balançou negativamente a cabeça. Peso na consciência.

- Eu não mereço isso... – ele murmurou.

- Ah-ah-ah, não mesmo – disse Hermione, com um riso. – Mas, mesmo assim, eu faço. Obrigada, Dumbie.

Dumbledore assentiu com um sorriso calmo.

- Você ajudou um traidor – disse Moody para Hermione. – Talvez seja melhor nós a determos até o julgamento dele – e indicou Snape com nojo.

Snape olhou-o com seu olhar altivo e disse naquele tom letal:

- Tente a sorte.

Moody debochou.

- Ele lutou sozinho contra quinze comensais para me livrar de um estupro coletivo, Moody, acredite que ele consegue dar um jeito em você – disse Hermione, pondo-se entre os dois. – Agora, sem brigas, crianças. O Sevie vai a julgamento e eu vou defender ele. Alguma dúvida? Querem que eu desenhe?

O clima ficou estranho; Harry e Rony mal reconheciam a amiga.

Passavam-se dois meses desde o dia em que haviam estado na sala de Dumbledore. Finalmente, era o primeiro dia de julgamento. Snape estava com os punhos amarrados de modo a machucar muito, mas ele não se importava. Estava sentado no banco dos réus. Hermione ainda não chegara. Todos estavam lá; alguns murmúrios começavam por todos os lados. Esperavam-na.

Finalmente, em cima da hora, Hermione entrou no salão e sentou-se em seu lugar.

O Ministro da Magia, que seria o juiz daquele julgamento, cumprimentou-a com um aceno de cabeça.

- Bom, estamos aqui para julgar Severo Snape pelo assassinato de Alvo Dumbledore – disse o Ministro. – A defesa e a acusação já estão preparadas. Podemos começar.

Todos se sentaram, inclusive o juiz. Moody era a principal testemunha de acusação e foi o primeiro chamado.

- Bom, o Snape é um traidor desgraçado – disse Moody irritado. – Tudo que ele fez foi matar o único bruxo que confiava nele. Será que a Granger vai propor que esse fato seja desconsiderado? Ele tem que apodrecer em Azkhaban!

Em seqüência, as testemunhas de acusação iam sendo chamadas. Snape não protestava, não respondia às provocações. A última grande testemunha foi Harry, que contou exatamente tudo o que tinha acontecido na Torre de Astronomia.

Todos os que assistiam ao julgamento já falavam em condenação ao beijo do dementador, mas então era a vez de Hermione levantar-se. Todos os olhos fixos nela, inclusive os de Snape, que não fazia idéia do que ela pretendia e duvidava que ela conseguisse salvá-lo. Só desejava poder estar com ela mais uma vez antes de morrer.

Ela pegou um livro grosso, empoeirado, pesado e antigo e leu uma passagem, em alto e bom som:

- A traição, mesmo com efeitos de morte, pode não ser punida com a morte, caso o traidor tenha sido perdoado pela vítima. É dado ao réu o direito de demonstrar arrependimento, mas não apenas com palavras.

Hermione, sem erguer o olhar, passou três folhas e leu outra passagem:

- Qualquer traição em caso de guerra pode ser perdoada com uma pena leve a ser discutida, caso o traidor tenha ajudado de alguma forma o lado por ele traído, depois da traição. É uma forma de consertar os erros antes que estes tenham sido apontados.

Ela, então, passou para as últimas páginas do livro e leu, com um tom triunfante:

- O traidor que, porventura, tiver condições de provar seu arrependimento e tiver um defensor disposto a apostar sua vida nele, será, sem direito da acusação a revogar o pedido, transferido para isolamento, a que só seu defensor terá acesso.

Hermione fechou o livro e, colocando-o em cima da mesa, encarou o Ministro, que tinha um ar incrédulo, como todos ali, e disse:

- Constituição Bruxa Britânica. Eu, Hermione Jane Granger, me proponho a ser a defensora de Severo Prince Snape.

Vários murmúrios começaram e o Ministro pediu silêncio. Curvando-se para frente, ele encarou-a e perguntou:

- Você tem plena consciência do que está fazendo, garotinha?

Hermione deu um sorrisinho triunfante e disse:

- Tenho sim, Ministro. Sou maior de idade e tenho todo o direito de fazer esse pedido. O réu atende a todas as condições exigidas pela Constituição.

- Não tenho o que fazer – disse Screamgeour, olhando todos à sua volta. – A Constituição está acima de mim. Nenhum bruxo está acima da Lei. Concedo a Granger a defensoria de Severo Prince Snape.

Hermione sorriu e olhou par Snape, que mal sabia como agir. Vários olhares reprovadores encaravam Hermione, e mais ainda quando ela abraçou-o.

- Eu disse que conseguiria, não disse?

Snape ensaiou um sorriso e sussurrou com sua voz letal:

- Lembre-me de nunca duvidar de você outra vez.

- Você finalmente vai sair das sombras... – ela disse, com um sorriso alegre.

- E você foi a luz que me mostrou o caminho certo – tornou ele, beijando-a ali mesmo, provocando um "OH!" uníssono.

Snape foi transferido para uma espécie de casa de campo. Não tinha como sair de lá, mas nem precisava. Hermione ia visitá-lo com freqüência. Às vezes, ela trazia alguma boa notícia, como o fato de que, se ele continuasse sem tentar escapar, ela poderia fazer um pedido de conceder a liberdade a ele.

Luz e sombras estavam juntas. Mas agora, a luz reinava sobre as sombras.

Fim