Aleluia aleluia aleluia, aleluiiiiiaaaaaaa
Noites brancas
Capitulo 6 e Final
Quatro meses, talvez cinco, ele não sabia ao certo, desde o dia que voltara da Sibéria que achava ter perdido a capacidade de sentir a passagem do tempo. Todos os dias pareciam ser absolutamente iguais: tristes e tediosos. Jamais ele poderia imaginar que a ausência dela seria tão angustiante. Como a falta de uma pessoa pode deixar alguém com tamanho sentimento de vazio sendo que sua estada em sua vida não durou sequer uma semana?
O que lhe doía mais, ele não sabia identificar. Era a falta que ela fazia, ou era o fato de saber que a culpa pelas as coisas estarem como estavam era dele? Kamus só sabia que o misto das duas coisas era quase que insuportável.
Passou a viver por viver. Uma rotina quase que doentia, nada saia de seus planos, verdadeiro pavor de que as coisas saíssem de seu controle novamente. Estava mais metódico do que nunca, e sem a menor dúvida, muito mais rabugento.
- Ele nunca dá um sorriso? – Perguntou um dos garotos que estava na área de treinamento.
- Ainda bem que não sorri! Ele parece ser o tipo de pessoa que sorrisos são sinal de que as coisas estão piores.
Os dois meninos falavam baixo para que o cavaleiro não ouvisse. Mas era impossível que algo escapasse de um Cavaleiro de Ouro. Não iria brigar com eles, embora fosse sua vontade, mas nada que duas horas a mais de treinamento não pudesse corrigir. Ninguém deveria questionar sua forma de viver. Assim era o correto; nada de emoções, apenas muito trabalho, esforço e disciplina.
As duas horas extras de treinamento terminaram com os dois garotos sendo levados para a enfermaria devido ao completo esgotamento. Para Kamus os dois não passavam de moleques fracos sem a menor obstinação, mas para o resto dos dourados, que assistiram a sessão de tortura que fora o treinamento, o cavaleiro de Aquário estava à beira de um colapso nervoso, e surtaria a qualquer momento. Ninguém pode negar o sofrimento por tanto tempo, quanto mais ele adiasse a "dor de cotovelo" pior para ele, e para todos que com ele conviviam.
- Hyoga volta amanhã, provavelmente trará notícias da mãe, quem sabe assim ele não melhora um pouco. – Comentou Aldebaram com um tom esperançoso.
- Na minha opinião, as coisas só vão piorar com a chegada dele. Kamus vai se recusar a perguntar qualquer coisa e nem vai permitir que o Hyoga entre no assunto. Ele está é precisando de tomar um porre e enterrar esse sentimento de vez. Se em quatro meses a mulher nem deu sinal de vida é porque não dará mais. – Shura falou com convicção. Mas todos fizeram silêncio com a aproximação do aquariano.
Kamus não parou para falar com os amigos, simplesmente pegou sua camisa que estava sobre a arquibancada e saiu sem lhes dar nem um olhar de reprovação, apesar de saber que, nos últimos tempos, ele era o assunto principal das doze casas, para não dizer de todo o Santuário.
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- Tem certeza que não quer ir comigo? Tenho certeza de que a senhora seria muito bem recebida.
- Lá é o seu lugar, meu filho, não o meu. Não há nada para mim no Santuário, além disso, ainda tenho algumas coisas para resolver, como a compra da casa em Athenas. Não quero ficar no Santuário, mas também não quero ficar longe de você, isso nunca mais! Promete que vai me visitar nos fins-de-semana?
- Prometo que vou vê-la todos os dias se for possível. Também não quero mais ficar longe. Esses quatro meses não foram nada perto da saudade que eu tinha.
- É mesmo! Ainda temos muito que aprender sobre o outro. Estranho, não é? Somos mão e filho, mas às vezes ainda sinto que aquele abismo está entre nós. Perdi tanto tempo de sua vida que acho que nem todo o resto que ainda temos para viver será o suficiente para resgatar o que foi perdido.
- Não diga isso, mãe. Agora nada mais irá nos separar e em breve não mais nos lembraremos do tempo em que ficamos separados.
- Bem, eu não vou me lembrar mesmo, afinal estava em coma – Nastássia deu um leve sorriso e tocou a face do filho – Fui uma privilegiada de certa forma, não consigo imaginar o quanto você sofreu.
- Vamos parar de pensar nisso. O que importa é que estamos juntos... graças ao Kamus!
Ao ouvir o nome do Cavaleiro de Aquário o semblante da jovem se escureceu no mesmo instante. Ainda era muito doloroso pensar no quanto fora enganada, embora sua consciência fosse rasgada pelo fato de saber que o filho estava certo. Se não fosse Kamus, talvez ela estivesse morta, ou passasse a vida sob aquelas águas geladas sem nunca mais ver o filho, e também não...ela não queria pensar naquilo.
- Ele tem o direito de saber! – Hyoga falou de uma vez e sua voz parecia irritada.
- O que? O que foi, querido, parece perturbado? – A voz de Nastássia deixava claro o seu medo quanto ao que filho estava falando, mas tentava transparecer surpresa e tranqüilidade.
- Mamãe, por quanto tempo a senhora acha que pode esconder isso? São quatro meses, quase cinco. Acha que eu não reparei que a senhora só usa roupas largas. Ele tem o direito de saber! Não pode tirar isso dele, podem não ficar juntos, embora eu ache que sua raiva já passou do limite do razoável, mas ele tem que saber que vai ser pai!
Os olhos azuis se encheram d'água e instintivamente as mãos foram até o ventre onde uma pequena protuberância já era percebida. Ela não queria que o filho soubesse, pelo menos por enquanto, pois sabia que a reação seria exatamente essa.
Hyoga foi até a mãe e a abraçou com carinho. Não queria deixá-la perturbada, principalmente em razão de seu estado, mas achava que ela estava sendo tremendamente injusta com Kamus. Ele mentiu porque estava perdido com os acontecimentos e ele sabia que o mestre tinha enorme dificuldade em lidar com coisas que saem do normal, mais ainda quando estas coisas mexem com seus sentimentos. Ele nunca mais havia tocado no assunto com sua mãe, pois sabia que ela sofria muito, mas agora as coisas não podiam ser negligenciadas.
- Ainda me dói tanto! Não sei se estou preparada para vê-lo.
- Mãe, este homem salvou sua vida, te entregou seu filho, mostrou à você um lado que ele não mostra nem mesmo para as pessoas mais próximas, ele ama, disso eu tenho absoluta certeza ou ele jamais teria se envolvido, pois apenas um sentimento muito forte faria com que o Kamus se comportasse fora de sua frieza habitual e de forma tão descuidada – deu um leve olhar para barriga da mãe - Porque você insisti com esse martírio?
- Não acha que agora é tarde? Ficamos meses longe, não posso simplesmente aparecer e lhe dizer que estou grávida e que sinto falta dele e que queria que ficássemos juntos... – A própria Nastássia estava surpresa com as coisas que dizia, não havia percebido seus próprios sentimentos até o momento que começou a falar deles. – E se ele estiver com outra pessoa, se me desprezar?
Hyoga não conseguiu conter uma gargalhada leve.
- Ele não tem outra pessoa, na verdade ele nunca teve uma pessoa, pois sempre evita se envolver sentimentalmente. Jamais irá desprezá-la por estar grávida porque é a pessoa mais responsável que eu já conheci em toda minha vida e a últimas notícias que eu tive do Santuário é que ele está tão amargurado com a situação que cerca de cinco garotos foram internados vítimas de esforço exaustivo. Kamus está de mau humor, e isso só acontece quando alguma coisa está deixando seus sentimentos bagunçados.
A jovem loira deu um sorriso aberto com as informações ouvidas. Estava ansiosa em ver o cavaleiro, por mais que tentasse negar.
- Acha que ele ficará feliz em saber que estou grávida. Pelo que você diz, ele é um homem muito sério e frio, será...
- Ele não vai caber em si de felicidade, a frieza dele é só fachada para amedrontar discípulos, inimigos, amigos, parentes...
Nastássia arregalou os olhos, assustada, mas assim que viu que Hyoga gargalhava com sua reação ela se acalmou e deu um sorriso tímido. Não dava para prever qual seria a reação de Kamus, mas havia apenas um jeito de descobrir.
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Os socos marcavam a peça de gelo diante do homem que treinava com o semblante sério e inalterável. Apesar do esforço de mais de uma hora de treinamento, nem mesmo uma gota de suor descia pela pele alva; Kamus era inabalável, pelo menos aparentemente. Miro fez questão de trazer a notícia pessoalmente só para terminar com a dúvida de algo era capaz de abalar aquela "torre de gelo".
- Não está pensando em por os garotos para fazer isso, está?
- Muito provavelmente! Mas com certeza não é para palpitar nos meus métodos de ensino que você está aqui. Se for para dizer que o Hyoga chegou, não perca saliva. Mais tarde vou me encontrar com ele para passar o treinamento dos discípulos mais jovens. – Kamus não desviava a atenção o que estava fazendo, mantinha os socos sem nem olhar para o amigo.
- Então você não quer saber que ele veio acompanhado de uma loira escultural, que neste momento está na porta da casa de Aquário parecendo estar muito ansiosa em falar com o seu guardião...Então eu vou indo...
Miro sentiu que algo o puxou de volta e logo ele estava cara a cara com Kamus que o segurava pela gola da camisa.
- O que foi que disse, Miriano?
- Não vou repetir se não me soltar. Você esta começando a ficar abusado. Não sou nenhum daqueles moleques e se continuar a me tratar com hostilidade, vai receber do seu próprio veneno.
O aquariano o soltou no mesmo instante e deu a Miro um olhar suplicante. Ele não poderia estar brincando com uma coisa tão séria. O Cavaleiro de Escorpião sabia o quanto que para ele aquilo era importante.
- Ela está lá em cima.Vá logo e resolva isso de uma vez porque ninguém suporta mais o seu mau humor.
Kamus nem ouviu as últimas palavras de Miro, sua mente estava coberta pela imagem de Nastássia e única coisa que ele queria era chegar à sua casa o mais rápido possível.
Nastássia sentia a mão suar frio e as palpitações em seu coração pioraram consideravelmente quando viu o cavaleiro surgir subindo rapidamente as escadas que o levavam até ela.
Ela se preparava para começar a falar à medida que ele se aproximava, mas a cada passo que ele dava ela sentia boca mais seca e o coração mais apertado. Como ele pediria desculpa e falaria do seu estado, ele poderia estar magoado também e nem querer ouvi-la.
Quando ele estava nos últimos degraus ela tomou coragem para cumprimentá-lo e começar a falar, mas nem mesmo o oi saiu de sua boca, pois seus lábios já tinham sidos selados pelo beijo apaixonado que Kamus lhe deu assim que consegui alcança-la.
Ele a puxou pela cintura para aprofundar o beijo e logo os braços dela transpassavam o pescoço do cavaleiro. O beijo estava cheio de ternura e saudade; tão intenso quanto à paixão que os dois tentaram inutilmente negar nos últimos meses.
Foi quando Kamus teve ainda mais vontade de estreitar a aproximação que ele percebeu o estranho volume no ventre da loira, volume que não existia. Ela parou o beijo para fita-la, e a encontrou com os olhos fechados, os lábios vermelhos ainda esperando que a carícia continuasse.
Ela abriu os olhos para ver se descobria porque ele não a beijava mais e o encontrou com o rosto sério. Ela logo percebeu que ele havia sentido sua barriga. O medo fez com que os olhos dela se enchessem de lágrimas, depois daquele beijo tão apaixonado, ela não estava nem um pouco preparada para rejeição.
- Foi para isso que veio? Para me mostrar o quanto eu fui irresponsável aqueles dias? – Ele perguntou com a voz grave.
- Não! Quer dizer, sim! Não, ai...- Ela mordeu os lábios nervosa. As lágrimas corriam pelo rosto perfeito. – Era isso também, mas não só isso. Kamus tente entender eu estava magoada e com medo, você sabe muito bem que a última vez que estive grávida a recepção não me foi nada boa. Não o conheço direito... não sabia o que fazer...
Ela estava tão apavorada que chegava a tremer. Kamus ficou desconcertado com aquilo. É lógico que ele ficou com raiva por ela ter demorado tanto tempo em lhe dizer o que estava acontecendo, mas sabia que ele tinha sua parcela de culpa naquele episódio e não mais estava disposto a por seu orgulho à frente da sua felicidade, muito menos da felicidade dela.
Ele a abraçou forte e vez com que a cabeça loira se apoiasse em seu ombro. Ficaram em silêncio até que ele sentiu a respiração dela voltar a normal e os soluços cessarem. Deu um leve beijo no topo dos fios dourados antes de falar de forma sussurrada e doce.
- Não quero mais brigar com você. Não faz idéia do quanto senti sua falta, nem acredito que vocês estejam aqui!
- Também sentiu tanta falta do Hyoga?
Kamus riu antes de responder.
- Bem, é claro que senti, eu acho! Mas eu estava me referindo a você e meu filho.
- Filha.
- Hum? Filha? Como sabe que é uma menina?
- Fiz o ultra-som há duas semanas. Preferia que fosse um menino?
- Para ser sincero! Eu vivo em um lugar onde existem 20 homens para cada mulher. Uma menina é, simplesmente, perfeito.
Os dois voltaram a se beijar e Nastássia nem soube precisar como foi parar na cama do cavaleiro, onde os dois passaram toda a tarde se amando e matando a saudade.
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Um ano depois...
Kamus tivera muita dificuldade em entender porque Nastássia se recusou a casar antes que de Lavínia nascer, mas quando viu sua pequena filha entrar na igreja segurada pelo irmão ambos fazendo o papel de dama de honra e pajem, ele agradeceu pela insistência dela.
A cena era absolutamente mágica para seus olhos.
A menina, de sete meses e meio, era loirinha como a mãe e Hyoga, mas os olhos eram de um azul mais escuro assim como os do pai e as sobrancelhas bifurcadas estavam lá, para não deixar dúvidas.
Nastássia lhe foi entregue por Miro, como não poderia deixar de ser. Ela estava radiante e mais linda que nunca.
A cerimônia foi festejada com toda pompa e nenhum dos convidados se lembrava de ter ido a um casamento onde os noivos pudessem estar mais felizes. Desde o retorno de Nastássia, Kamus era uma pessoa muito mais alegre e descontraída e, por incrível que pareça, era um mestre muito querido ainda que não houvesse deixado de ser rígido.
Sentada num banco da varanda do salão de festa, Saori descansava de um pouco depois de uma boa sessão de dança. Foi quando ela percebeu a presença de mais alguém, uma mulher de uma beleza rara e marcante, que ela sabia perfeitamente de quem se tratava.
- Gostando da festa, Athena?
- Para mim não há satisfação maior que ver a felicidade de meus cavaleiros.
- Eu sei disso e foi em nome de nossa amizade, que já dura tantos milênios, que eu quis fazer de seu aquariano um homem um pouco mais aberto a felicidade. Ele é um grande cara, mas precisava de um empurrãozinho.
- Está me dizendo que... foi você que armou tudo isso?
- Você sabe muito bem que era impossível que Nastássia estivesse viva após tantos anos, mas sabe, ela teve uma vida muito triste e soube amar acima de tudo que a machucou, ela merecia esta segunda chance. Não é você mesma que vive dizendo que o amor tudo vence? Bem que você só poderia ser a deusa da sabedoria. O amor venceu a frieza e a desilusão e olha que casalzinho fofo eles fazem hoje!
Athena deu um sorriso de concordância. Ela viu a mulher se levantar para ir embora.
- Meu trabalho aqui está terminado! Lá vou eu tentar seduzir mais corações humanos. Fique bem, Athana!
- Fique bem e obriga, Afridite.
A mulher sorriu e desapareceu da mesma forma que surgiu deixando Athena com a esperança de quem um dia a missão dela também pudesse terminar tão bem quantos as de Afredite. Nada melhor do que ser a deusa do amor e da beleza e só ter que lidar com o melhor dos sentimentos humanos.
E FINALMENTE, O FIM DE UM FIC MEU! EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
Muito obrigada a todos que leram esse fic. Eu adorei escrevê-lo. Bem, quero aproveitar e dizer que sempre que eu fizer um fic com o Kamus, tenham certeza que a mulher vai ficar grávida, afinal se ele já engravidou até o Milo, ninguém pode duvidar da alta capacidade reprodutiva dele.
Beijos para todos e até a próxima.
Analuisa,
