Capítulo 2. Devo ir ao Japão
O vento traz você de novo
O vento faz o meu mundo novo...
— Aioros. — disse sorrindo a jovem de cabelos cor de lavanda quando viu o cavaleiro de Sagitário. — Que bom vê-lo tão cedo aqui, em minha casa. A que devo a honra da visita?
O homem sorriu de volta. Sempre a considerara sua garotinha, desde que a salvara anos atrás. Não podia deixar de sentir-se extremamente responsável por ela, embora ela já tivesse vinte e um anos. "Faz tantos anos e eu a vejo como aquele bebezinho que levei nos braços... Atena... Minha filha...Aquela que nunca tive."
— Bem, imagino que nem esteja aqui... — Ela riu da cara dele. Aioros ficou sem graça e ela indicou-lhe uma cadeira próxima à dela, desculpando-se. Balançou um sininho e uma empregada apareceu imediatamente. — Kiara, traga chá para nós, por favor. E peça pra não sermos interrompidos, sim?
— Sim, senhora. Com licença.
Voltou então novamente sua atenção para Aioros, que continuava viajando no passado. Mas ele falou desta vez.
— Ainda me lembro quando você era um bebê... Não consigo tirar aquela imagem da mente. Era sempre tão fofinha... — desta vez foi ela quem corou violentamente. — Foi por pouco tempo, é verdade, mas... É verdade! Você era um bebê lindo! Pena que não pude acompanhá-la crescer, como fez o senhor Mitsumasa Kido, aquele abençoado que a levou pra longe daqui...
Saori inclinou-se pra frente tocando de leve na mão do cavaleiro com a sua, enluvada. Como se desse conta deste fato, retirou a fina peça e segurou a mão dele.
— Eu o tenho em alta conta, Aioros. Eu realmente agradeço...
— Mas eu não disse isso esperando retribuição... — disse, cortando-a. — Era o meu dever protegê-la! E continuarei a fazer isto até que a morte venha me buscar, de uma vez. Como um cavaleiro deve fazer! — disse, com ênfase.
Saori assentiu com a cabeça, e não deixou passar o que via nele há muito tempo.
— Como um pai deve fazer com a sua filha.
O cavaleiro não pode deixar de sorrir, corado, com a garridice que ela dissera aquilo, tão naturalmente.
— Sempre junto de mim...Fico muito feliz que esteja aqui... — suspirou, e ele olhou-a de soslaio. Sorrindo da cara dele, ela falou: — Estou bem, não se preocupe...Por favor. — estreitou os olhinhos verdes, que pareciam ter estrelinhas dentro. — É que às vezes são tantas responsabilidades... Eu às vezes queria poder... — perscrutou-o com o olhar, como se quisesse a aprovação dele — Poder ser outra pessoa, Aioros. E descansar um pouco. Se eu estiver no Japão, há os negócios da Fundação, que apesar de bem dirigidos, precisam de que eu vá dar uma olhada de vez em quando, e faça auditorias, para que a herança de vovô esteja sendo usada da maneira que ele determinou... E aqui, sempre alguma irritante querela, e todos me tratam como se eu fosse uma estranha, distante...Até mesmo meus amigos... É difícil... — uma lágrima correu do rosto precocemente amadurecido de Saori Kido. — Eu me sinto tão só. — chorava, tremendo o corpo todo.
Isto bastara para que o sábio cavaleiro levantasse da cadeira e a abraçasse, com muito carinho, passando a mão em seu cabelo. Enquanto permitia que ela desabafasse, observou a saleta de chá que ela mandara fazer algum tempo depois de completar dezoito anos. Em formato circular, com uma imensa abertura para o coliseu. Não podia divisá-lo bem, mas a vista era belíssima. A decoração extremamente vitoriana chegava a doer naquele ambiente tão sagrado para ele, mas ele apoiou. Saga chiou, mas ele bateu o pé. Ela poderia fazer o que quisesse, estavam no século vinte, não na época de Buda, como ele dissera na época. Na extremidade direita havia uma pequena estante com livros preferidos dela, alguma pinturas, outras fotos... As paredes eram cobertas de lilás, com bordas rosas próximas ao teto. Do outro lado, havia uma cristaleira francesa, presente de Kamus, quando este viera ver as reformas. Belas peças de cristal e uma coleção de porcelana chinesa da dinastia Ming (n.a. teorias...) enfeitavam e davam aos convidados dela uma impressão de voltar no tempo...
Baixou os olhos para a cabecinha em seu ombro. "Quisera eu poder aliviar o seu fardo, Atena... Mas..." De repente uma idéia...Meio fabulosa, mas... não custava tentar.
— Por que não tira umas férias, não sei, faça um cruzeiro, vá conhecer o Saara, escale o Everest... — ele riu da própria idéia, e arrancou um bufo dela, que pode considerar um riso. — Saori, estou brincando, mas já pensou na hipótese?
Ela balançou negativamente a cabeça, ainda baixa.
— Não seja tão obstinada... Você será avisada incontinenti caso haja algum problema, por menos que seja... Talvez seja estresse... Está na moda ficar estressado... — ela riu novamente.
Neste momento a empregada entrou trazendo o chá e dizendo que havia uma ligação internacional pra senhorita. Saori suspirou profundamente, engolindo algumas lágrimas. "Não adianta tentar correr, tudo sempre estará do jeito que sempre foi... Como sempre tem sido..."
Ergueu-se do sofá, indo em direção ao belo telefone dourado sobre a escrivaninha.
— Alô?...Também é muito bom ouvir a sua voz, Tatsumi... Sim, não se preocupe... Hum... Quando?... Sei, espere um momento. — abriu uma gaveta e tirou de lá um caderninho verde. — Sim, está aqui, em minhas novas correspondências... Está bem. Mas, existem meios mais rápidos de me avisar do que este não acha?... — ela sorria ao ouvir as desculpas do pobre mordomo. — Eu já disse que estou bem, Tatsumi. Não se preocupe. Você é muito útil aí onde está... Certo, prepare tudo pra próxima semana. Eu irei. Até logo. Sim, sim... Até logo.
Suspirou novamente. "Deste jeito meu sopro vai todo embora com tantos suspiros..." Virou-se e viu Aioros passando as folhas de uma revista feminina que ela passara a assinar a poucos meses... Desde que olhara pras próprias unhas e elas estavam tão feias que se questionou se ainda era uma moça rica, de boa família...com dinheiro para ir ao manicuro... Mas, mais que isso, quis voltar pro colo... E jogou-se no sofá sobre ele, fazendo a revista voar.
— Ah...continua o cafuné... — pediu ela, mais vermelha que um pimentão. Ouviu-o gargalhar, mas ele pôs-se a mexer no cabelo dela novamente, enquanto bebericava o chá.
"Como pode... num dia eu consolo um amigo, no outro, sou consolada... Talvez deva ser assim... Não consigo suportar sozinha... nunca precisei me preocupar antes, mas, agora..."
Ficaram assim um bom tempo, em silêncio, quebrado apenas pelo impiedoso vento que entrava pela janela aberta. Era final do outono, e tempo refrescava. A manhã já estava quase na metade, quando a porta foi entreaberta e Mu entrou, ficando meio desconcertado com a cena que descrevemos acima. Seu rosto ficou pálido por um momento, e ele não sabia se saía ou se mandava a empregada pro outro mundo por tê-lo mandado entrar sem anunciá-lo.
Aioros o viu e sorriu. Atena, no entanto, continuou com o rosto oculto no ombro dele.
— Pois não, Mu? —perguntou, numa calma que indignou ainda mais o cavaleiro de Áries. Mas ele também manteve a sua.
— Mestre Shion o espera no salão principal. Pediu que eu viesse chamá-lo e à senhorita Saori.
— Atena não está se sentindo bem, de modo que irei sozinho. — ele sentiu a cabeça dela balançar afirmativamente e desprendeu os braços dele, a fim de que ele pudesse se levantar. — Descanse, minha querida. Depois conversamos.
— Sim. — A voz dela era um murmúrio sentido.
E Mu deixou passar despercebido este detalhe. Mas quem era ele para ficar conjeturando os motivos, as conseqüências... Simplesmente aceitou e deu licença pra que Aioros passasse, e, fazendo uma singela reverencia (que ela desprezou de propósito), saiu da saleta.
Aioros caminhava a sua frente. Ele imaginou o que estaria pensando... Até que...
— Espero que não se trate de nada que ele possa resolver... Shion anda tão dependente ultimamente... acho que foi o matrimônio, não acha Mu?
— Não posso afirmar, Aioros... Você tem estado mais próximo dele que eu nos últimos meses... — respondeu secamente um estranho Mu.
Aioros parou imediatamente e virou pra ele, inclinando um pouco a cabeça. Franziu a testa e fez uma cara engraçada:
— Você está com ciúmes de minha relação com Shion?
Mu ficou azul na mesma hora. Mas não o respondeu malcriado como queria...
— Não diga tolices, amigo. Apenas... Ora, ele tem a mulher pra cuidar e eu já estou bem crescidinho pra ficar agarrado nele, não acha?
— Nós nunca crescemos o quesito "preciso de afeto". — falou o rapaz, virando-se e entrando na sala do Mestre, deixando Mu pra trás.
Durante toda a reunião, ele não disse uma só palavra, apenas pensando no que poderia ter acontecido para Atena estar naquela situação com o cavaleiro... Sacudiu seus pensamentos... Não era da sua conta o que as pessoas faziam ou deixavam de fazer... é assim que ele era. Por que esta fissura em saber...
— E, então Mu? O que acha?
—... — só então percebeu que Shion falava com ele. — Desculpe-me, Mestre, mas... eu... não ouvi a pergunta...
— Perguntei se poderia treinar uma moça, que virá pra cá em breve. Crio que o treinamento de Kiki está na reta final, e você poderia nos ajudar com os novos candidatos... O que me diz? — Vendo que o ex-discípulo não dizia nada, falou: — Poderia me responder depois da reunião, enquanto pensa?
— Sim, Mestre Shion. Desculpe-me.
— Sim, o quê?
— Eu treinarei a garota. — suspirou. — Quantos anos ela tem?
— Dez.
Mu arregalou os belos orbes verdes.
— Mestre, dez anos! É só uma criança... — percebeu que falara mais uma asneira. "Claro, todos geralmente são crianças..." — Me desculpem. — esfregou as têmporas, meio irritado consigo mesmo — Eu não estou me sentindo muito bem hoje.
— Agora que você disse, a gente acredita. — gracejou Milo, que também participava da mesa. — O meu futuro pupilo tem sete, não sei porque está tão assustado! Treinou o Kiki desde pequeno, treinou muito bem, o moleque é um exemplo aqui dentro do Santuário... O que teme, Mu? Você devia é tirar umas férias... Têm andado tão estranho de uns tempos pra cá... Nem sai com a gente mais...
— Não estou com medo... Mas não sei como Kiki irá reagir com uma criança pela casa... Desculpem, mais uma vez... Estou sendo irracional.
— Realmente, isto é um assombro... — riu Aioros. — Milo está certo, Mu... Você precisa descansar... — olhou pra Shion, como se quisesse dar por encerrada a reunião. — Shion, se não tiver mais nenhum problema a apresentar, poderíamos...
— Um momento, Aioros. — falou uma voz feminina, adentrando o salão como uma rainha. Era Atena.
Todos fizeram uma reverencia à jovem, que sorriu. Aioros indicou-lhe uma cadeira à seu lado.
— Obrigada. Eu gostaria de aproveitá-los todos reunidos para dizer que me ausentarei do Santuário durante algumas semanas. Não é necessário preocupações exarcebadas, — falou ao ver as cabeças voltarem-se todas na sua direção. Sorriu, inclinando a sua um pouco, sorrindo.— São apenas negócios na Fundação que preciso resolver incontinenti no Japão.
Shion tocou de leve na testa.
— E imagino que vá dizer que quer ir sozinha?
— Sim. Vê algum problema nisto? — inquiriu, um pouco arrogante.
— Sim, senhora. Isso me incomoda um pouco. Sabe que...
— Sim, eu sei, Shion. Sei exatamente o que vai dizer. São sempre as mesmas palavras. Tenho certeza de que posso me virar sozinha. Não preciso que fiquem me circinado o tempo todo! — irritou-se. Não estava de muito bom humor naquela manhã. — Não quero nenhum de vocês atrás de mim, entenderam bem? — falou num tom autoritário, que espantou a todos.
Continua...
N.A. Olá a todos que se deram o trabalho de ler minha pequena história... Não percam o próximo capítulo...( eu sou péssima de propaganda...XD!)
Um beijinha para Isa San e Camilinhahh, eu sempre digo que me emociono quando comentam, bem ou mal , as fics...TT..Ai, sentimental eu sou...
Muitos beijos e até a seman que vem se Deus quiser.
