Capítulo 3 - Devo ir ao Japão, parte 2
Aioros olhou-a espantado. Depois do que ela lhe dissera esta manhã, achara-a tão frágil. Talvez estivesse errado.
— Atena, eu... Nós não vamos atrapalhá-la. — falou um Shion arrasado. A garota nunca falara daquela maneira com ninguém. Muito menos com ele.
Os outros cavaleiros engoliram seco. O olhar dela estava tão frio, e eles temeram literalmente por suas vidas. O que a levara a agir daquela maneira?
— Espero que tenham entendido. Eu não gosto de ser repetitiva. — Observou os rostos. Alguns impassíveis. Mas a grande parte espantada. Franziu o cenho, ainda mais aborrecida. — Bem, partirei pela manhã. Agradaria-me não ser interrompida ou procurada durante à tarde. — virou-se e saiu da mesma forma que entrou. — Com licença.
As respirações pareciam ter sido suspensas até ouvirem a porta fechar atrás dela.
— O que... acabou de acontecer aqui? — falou Milo, num murmúrio surdo.
— Parece-me que a garotinha cresceu, Shion, e quer o seu próprio espaço. Apenas isto. Apesar de ser a reencarnação da deusa Atena, ela teve uma vida completamente diferente da nossa. Ela não quer escapar de suas responsabilidades nem nos ofender. Quer apenas tomar conta de sua própria vida, sem ter que dar satisfação a um bando de homens velhos que a "cerceiam" o tempo todo. — disse um sábio Shaka, retirando-se, seguido por Mu. — Ela nunca seria uma adolescente pra sempre. Vocês deveriam ter-se dado conta disto há muito tempo. Há mais necessidades ali do que todos nós juntos poderíamos suprir. Por mais que amemos e a queiramos proteger, devemos deixá-la livre. Senão, poderia acontecer o pior. E imagino que você saiba o que é. — falou incisivamente olhando pra Shion e Aioros. — Se Dokho estivesse aqui diria a mesma coisa. Ela não é mais uma menina. Atena precisa encontrar seu próprio caminho entre nós. E não façam esta cara de desamparados. Estão muito velhos pra isso! — terminou, fechando a porta ao passar.
O silêncio era palpável naquele ambiente. Ainda podiam-se ouvir os ecos das botas de Shaka e de Mu pelo corredor.
— Talvez eles estejam corretos. — falou Aioros, abaixando a cabeça. — Vamos ver o que acontecerá.
Ainda sentia o coração bater descompassado. Jamais levantara a voz pra qualquer um deles antes. É certo que eles com certeza lamberiam o chão se ela pedisse, mas NUNCA ousara fazer o que hoje fizera. Discordar de uma decisão deles, seus cavaleiros de ouro. Levou a mão ao coração. Respirou fundo. E continuou andando, sua natureza orgulhosa a impediria de pedir perdão, ao menos por enquanto. Encostou-se num pilar, próximo à entrada de seu quarto. "Por que eles não me tratam como uma pessoa normal? O que fiz pra merecer tanta frieza e cuidado seco? EU não quero isto pra mim... Não quero!" Enfiou as mãos no rosto, chorando. Os cabelos, que estavam presos num coque, começavam a se desprender. Ela foi escorregando pela parede até acocorar-se no chão. Droga, por que falar se ia se arrepender?
Uma mão pousou em sua cabeça, descendo até a sua face molhada. Ela ergueu o rosto. E tentou sorrir.
— Desculpe-me. — falou, num sussurro. — Eu não queria ser tão... Grossa e deselegante. Mas, eu não...
— Está tudo bem, senhorita Kido. Temos momentos de fraqueza. E a senhorita tem sua própria vida, nós sabemos disto. Mas é difícil deixá-la andando por aí sozinha. Somos um bando de homens protegendo sua deusa, nos comportando ainda como se tomássemos conta de uma garotinha. Não percebemos seu crescimento, tão envolvido estávamos em nosso próprio cuidado. Mas vamos superar isto. Não estamos no século dois ou três. Não é, Mu?
Ela viu que este parara a uma distância dela e de Shaka. Enrubesceu. E não sabia bem por que. O cavaleiro assentiu com a cabeça.
— Eu sinto tanto. — sentou-se no chão. — Estou cansada de ser tratada como se fosse um objeto de luxo. Se eu por acaso vier a morrer, isto não é o normal em pessoas mortais? E talvez seja por que já tenha cumprido minha missão. Estou errada, Shaka?
— Claro que não. Porém, — disse ele sentando-se a seu lado e convidando Mu a fazer o mesmo. — devo pedir-lhe, humildemente, que vá acompanhada.
— Sei, humildemente... — ela riu. — Não vão me convencer. Não quero ir com ninguém.
— Então, talvez queira receber-me em sua casa.
Shaka e Saori olharam para Mu.
— Ora, eu não iria direto com a senhorita, porque preciso ir a Jamiel encontrar-me com Kiki e prepará-lo pra nossa nova discípula. E depois, eu... Preciso de... — olhou pra Shaka, como se pedisse uma idéia, que o outro prontamente lhe deu. "Férias" —...Umas férias longe daqui. Prometo que não vou ficar andando atrás da senhorita. E não seria tão ruim assim, poder conhecer mais um lugar no mundo que não o Tibet e as Cachoeiras de Rozan. — terminou dando um sorriso, capaz de derreter a mais fria geleira.
Saori olhou pra ele, indecisa. Talvez, ele queira me agradecer por aquele dia... Não, não era isto. Só queriam acompanhá-la de qualquer jeito. E foram tão jeitosos ao pedir isto. Não poderia dizer-lhes não. Havia quase uma súplica nos olhos dos dois. "Devem ter se digladiado pra ver qual deles iria... Eles são tão calmos... Chega me dar sono..." riu de si mesma.
— E então? — perguntou Mu.
— Está bem. Mas, por favor, não me apareça de armadura na porta de minha casa. Eu seria capaz de esganá-lo. — gracejou ela. Suspirou. — Bem, podem ir dizer a Shion que conseguiram.
— Shion não sabe disto, Atena! — riu o cavaleiro de Virgem, acompanhado por Mu. — E acho bom que ele nem saiba, porquê lhe chamei a atenção por sua causa, dizendo que deveríamos deixá-la ir sozinha. Na verdade, nem sabia que Mu se ofereceria pra ir. Vim nesta intenção.
— E está aliviado por não ter que me aturar fora daqui, não é?
— Não diga tolices, Atena! Você é uma boa companhia...
— Tão orgulhosa e arrogante quanto você, né, meu amigo? — falou Mu, esperando uma reprimenda por parte deles.
— Agora você é quem diz tolices. EU, depois de Atena sou a pessoa mais humilde e simpática de todo Santuário... — disse muito sério. De repente, começou a rir. E logo os problemas foram esquecidos. Continuaram conversando até que a jovem espreguiçou-se.
— Bem, acho que já a importunamos demais com nossa presença, Atena.
— Ao menos por agora, por favor, me chamem de Saori... — implorou ela.
— Certo, Saori. Agora, devo ir até meus discípulos, torturá-los um pouquinho... — falou um Shaka desconhecido pra ela. Afinal, ela também não conhecia todos os seus cavaleiros tão bem como imaginava. Ela olhou pra ele com olhos arregalados... — Estou fazendo uma pequena brincadeira.
— Claro que está... Eu posso confirmar isto. — falou Mu, se arrependendo ao ver os olhos azuis de Shaka abrirem-se em sua direção.
— Na dúvida, não ultrapasse. Nunca ouviu isto, MU? Vamos, você pode ir brincar um pouco também. Com licença, At... Saori.
Ambos saíram, meio que discutindo entre si. Ela sorriu. Eles todos eram muito diferentes uns dos outros. E cada um tinha algo que lhe era muito caro. Lembrou-se dos olhos de dois de seus cavaleiros. "Já sei que não vou descansar enquanto não for me desculpar" /i, porém um brilho malicioso passou-lhe pelo olhar. "Mas será bom se preocuparem mais um pouquinho... De lá ligarei pra eles". Levantou-se ajeitando o vestido. Foi andando de braços cruzados, pensando no que tinha de fazer. "Ligarei pra Tatsumi pra preparar o quarto de hóspedes para o Mu. E pra marcar meus compromissos..."
A tarde logo passou, encontrando-a ainda presa ao telefone. Logo estaria voando pra casa. Sua casa. "Preciso descansar. E sei que lá poderei fazer isto..." , refletiu, jogando-se na cama de roupa e tudo. "Estou exausta". Os olhos verdes piscaram algumas vezes, antes de fecharem-se completamente, entregando-a ao sono.
Continua!
Oi! Aqui mais um capítulo das minhas viagens com Saori...rs. Tudo bem, não são tão bacanas como as Viagens de Gulliver, mas eu me esforço!
Um beijo pra Camilinhahh e Isa SAn!
Bjs
