Capítulo 3 - Parada em Jamiel


Que voe por todo mar e volte aqui pro meu peito...

Se você for, vou te esperar o pensamento aqui só fica em você aquele dia,

um algo mais, algo que eu não poderia esquecer

— Mestre Mu! Não esperava vê-lo tão cedo! — cumprimentou o jovem parado à porta, cortando lenha. — Por que o senhor não avisou que viria? Eu teria ido caçar algo pra comermos!

O rapaz alto à sua frente em nada lhe lembrava o garotinho que treinara desde a infância. Os cabelos ruivos estavam na altura dos ombros e uma franja rebelde caía sobre as sobrancelhas, ocultando um pouco os olhos dele. O corpo definira-se, e mostrava-se forte sob a malha da veste que usava. Mu sabia que logo ele estaria pronto pra ocupar-lhe o lugar. Sempre soubera disto, mas não o menino.

— Não é necessário preocupar-se com isso , Kiki. Não estou com fome. — falou com certo cansaço na voz. — Alem do mais, eu trouxe algo pronto da vila pra nós. — olhou sério pra ele. — Nós teremos uma longa conversa hoje, mocinho. E acho bom que minhas ferramentas estejam no lugar!

O jovem sorriu, maroto.

— Ora, Mestre MU, o senhor sabe que eu sempre cuido de tudo quando o senhor está fora. E sou muito cuidadoso...

Bum!

Ouviram o barulho de algo de vidro se quebrando. Correram pra dentro de casa.

— Oh, não, meu experimento! — queixou-se Kiki.

— Oh, não minha cozinha! — resmungou Mu. — inda bem que cheguei a tempo de parar seu experimento!

Vermelho , Kiki tentava se explicar.

— Está bem, está bem. Eu já entendi. Limpe tudo isto e quando terminar, vá lavar-se que vamos jantar juntos. Amanhã estarei indo pra o Japão. — virou-se e ia saindo, quando ouviu o grito de felicidade do menino.

— Viva! Eu poderia ir também, Mestre? Por favor, Mestre! — seus olhinhos castanhos brilhavam como se Mu dissesse que iriam pra Lua. — estou morrendo de saudades de todos!

De costas, Mu disse:

— Me convença mais tarde, me dê um bom motivo pra deixá-lo ir comigo. Agora, apresse-se.

Subiu as escadas em direção a seu velho quarto. As coisas estavam na mesma disposição. Algumas pegadas porém indicavam que o discípulo andara por ali. "Kiki, você não tem jeito..."

Deixou a caixa da armadura no chão, sorrindo ao lembrar-se do comentário de Saori. Não tinha intenção de levá-la. Sua armadura. O protegera tantas vezes, porém não mais que Atena.

Dormir. Era isto que queria. Dormir um pouco antes do jantar.

— Kiki, você está muito bom mesmo pra arrumar o que bagunça. Ainda bem. Pensei que não tivesse te ensinado direito.

— Mestre Mu, por que quer conversar comigo? O que eu fiz de errado?

Mu sorriu internamente. Ele sempre ficava apreensivo após alguma imprudência e sabia que o Mestre jamais brigaria com ele se estivesse bravo. Logo, agora estava esperando a repreensão.

— Você já colocou a mesa...Muito bem. — falou o jovem Mestre, sentando-se. Por meio de sua telecinese disse-lhe que se sentasse logo.

— Pronto, Mestre. — os ofuscantes olhos brilhavam quase em adoração em sua direção. Não pode deixar de sorrir. Apesar de não ser perfeito, Era assim que o menino o via.

— Bem, tenho uma surpresa pra...

— Já sei! O senhor vai me deixar ir ao Japão?

— Kiki. Seja mais paciente e termine de me ouvir primeiro, está bem. — falou, tocando na comida. — Em breve, teremos uma nova discípula aqui. E você vai ter que me ajudar, porque não creio que um santuário seja um bom lugar pra se treinar telecinese, entre outras coisas.

— Calma, mestre, deixa-me ver se entendi. O senhor está dizendo que termos u-MA discípu-LA?

— sim, ela tem dez anos de idade e a treinarei pra amazona.

O rapazinho ficou um pouco triste. Mas sorriu em seguida.

— Bem, então, eu acho que teremos que limpar o quarto do terceiro andar pra ela, não?

Mu riu. O quarto do terceiro andar na era usado desde que ele era uma criança também. E era a maior quantidade de escadas pra subir.

— Imaginei que talvez você pudesse ficar com ele, já que é uma menina que virá, e você já esta muito grande para o quarto que lhe dei.

— Ah, ao mestre, aí já é demais.

— Não acha que está um pouco abusado?

O menino-homem fechou o rosto. Não estava gostando nada disto.

— Está bem mestre.

— E já que concordou tão rápido,vou lhe dar dois presentes. — disse, levando a colher aos lábios.

— O quê? O queê?

— Um: pode ficar com meu velho quarto, mas limpe o do sótão, afinal terei de dormir em algum lugar quando estiver aqui.

A boquinha se abriu.

— Dois: deixe tudo ajeitado, pois ficaremos algumas semanas de folga, hospedados na casa da senhorita Kido.

— Yes! Vou poder rever os amigos que fiz no orfanato! Muito obrigado Mestre Mu, vou agora mesmo arrumar seu quarto.

Parou no meio do caminho.

— Não, não por meio de seus poderes. Ponha a mão na massa...

— Não é isto mestre... Por que ficaremos na mansão?

— Bem, talvez porque sou convidado dela... E não conheça nada daquele canto do mundo.

— Só por isso? — falou o menino.

— Kiki.

— Sim, Mestre.

— Vá arrumar meu quarto.

Ele riu, marotamente.

— Humm... cuidado , Mestre Mu...

— Kiki!

O menino desapareceu de sua frente.

— Onde estava com a cabeça quando disse que poderia treinar outro... – murmurou enquanto terminava de jantar.

Continua...


Bjs!