Sentimento Nefasto
Carta 3
Shura a Aioros
Em Atenas
Agradeço seus conselhos. Refleti bastante a respeito deles, e mesmo assim, a dor não aliviou. Esta sensação que corrói minha alma, arranca também, as noites serenas e o dom dos Deuses, a razão.
Confesso, perdi o que nos torna 'superiores' aos outros animais, fui assistir ao velório de Juanita. Realizaram a cerimônia em uma capela no coração do cemitério, alguns me receberam com olhares viperinos. Ignorei-os, precisava fitar Juanita pela última vez, a eternidade a aguarda!
A saudade dava lugar ao mistério, a dúvida rondava a atmosfera da capela, todos aqueles urubus preferiam saber quem cometeu tal crueldade com ela. Minha Colombina... Experimenta agora o manto negro do esquecimento, ao passo que desfruta da volta ao mundo das idéias.
Sim! Esquecimento! Tenho certeza que além de mim, apenas seus pais lamentavam sua morte precoce, todos aqueles espectadores hipócritas se mantinham ali com o único intuito de coletar informações. Seres desprezíveis! Uns acusavam-me de tirar a vida de quem mais amei, outros duvidavam do Arlequim... Aos poucos, Aioros, vão-se formando os suspeitos.
Minha paciência esgotou, não suportava mais aquele ambiente. Aproximei-me do corpo onírico de Juanita. No seu rosto, estampado o medo. Pensei em dar-lhe um último beijo, a ocasião não me permitiu. Juanita, serás eternamente bela, até que o último verme alimente-se de tua carne e não reste nada do que fostes, apenas cinzas.
Sai daquele antro. Desci um pouco até chegar na ala dos indigentes. Não precisei procurar muito, foi fácil encontrar, ali estava o 'túmulo' de meus pais. Eram pobres, miseráveis. Tiveram direito a um único buraco no chão, e pronto, foi plantada a semente!
Nossos corpos são inorgânicos, exalamos não somente odores desagradáveis, apodreceremos um dia, como qualquer fruta que cai do galho. Ainda assim, insistimos que devemos ser enterrados vestidos, adornados de jóias falsas que 'conquistamos' em vida. Têm pessoas, meu caro Aioros, que antes de sepultar seus parentes pintam suas unhas, fazem a barba do defunto! Cemitérios existem para ocupar espaço na cidade, não é mesmo, Aioros?
Meus pais faleceram quando eu ainda era uma pequena criança. Inocente como qualquer outra, achava que apenas descansavam. Ascendi um cigarro, minhas lágrimas secaram faz anos, minha dor apagou. Sentei ao lado da 'sepultura' deles, olhei para o céu a procura do monte Olimpo. És grande, minha deusa! Tu levaste a vida de meus pais, deste fim ao sofrimento deles. Como teu cavaleiro, minha posição deveria ser fria, impassível. Agora erro, Atena, primeiro tentei tirar a vida de tua hospedeira, e nunca deixei de amar Juanita. Sei também, que jamais esquecerei dela.
Minha mãe, meu pai! Sinto inveja dos senhores, quisera eu ter morrido em vosso lugar!
Sai do cemitério, fui visitar uma das ruas histórias de Marid, disseram-me que ali foi encontrado o corpo de Juanita. Ao chegar, encontrei o Arlequim.
Despeço-me aqui, Aioros. Assim que souber, enviarei-te notícias sobre o caso.
Seu amigo,
ShuraMadrid, 30 de Abril, 1987
N/A - Perdão pela demora a atualizar! Meu pobre computador adoeceu, passou alguns dias no SUS mas já está ótimo, pronto para outra! D
