Capítulo 2:

Cosa Nostra

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A primeira coisa que Saga Gemini aprendeu a respeito da Máfia foi que a mesma não se resumiria a organizações e negócios ditos como criminosos. Em parte, de fato era, e a Santuário em especial se especializara no lucrativo e cobiçado ramo do contrabando de drogas ilícitas. Mas não. Não era só isso. Algo complexo, um submundo coberto de artimanhas e códigos que deveriam ser seguidos na risca. Um submundo que não se sustentaria sem um pulso firme comandando-a e que não se sustentaria sem aquilo que lhe ensinaram que era o mais importante: Influencia.

Influencia na política, na polícia e até (ou principalmente) na justiça. Uma Máfia-Estado, onde os mafiosos consolidam sua interferência e dos quais passam a representar seus interesses criminosos no Estado.

No entanto, havia algo que não podia ser controlado, extorquido, comandado por de baixo dos panos. Algo que conseguia ser ainda mais influente e poderosa que a própria Máfia, porque agia diretamente sobre a opinião do povo comum. A mídia, a tão temida mídia, a única que conseguiria arruinar até mesmo com uma organização como a Santuário.

E o que Saga mais temia já começava a acontecer. Por conta do desespero de um dos participantes de mais baixo escalão da Santuário, acabaram por um fio ínfimo a terem toda organização escancarada nos jornais e televisões. E por mais que a situação parecesse controlada, a sensação constante de insegurança continuava presente. Quem estava fazendo aquilo não iria parar tão cedo.

- Então, meus caros. – Saga disse, com um carregado tom de sarcasmo na voz, sentado displicentemente sobre uma das elegantes poltronas dispostas no cômodo. – Chamei vocês dois porque precisamos conversar.

Reuniões daquelas eram quase obrigatórias no meio mafioso da Grécia. Os três chefões das três máfias que comandavam Atenas, que possuíam além da rivalidade um acordo mútuo. Nenhum deles interferiria nos negócios um dos outros. Um acordo simples, prático, que até então funcionava muito bem. Até então.

- Jura? – Ironizou Julian Solo, chefe das organizações Solo e que cuidava do ramo dos cassinos e jogos de azar. Aparentava ter mais ou menos a mesma idade de Saga, e sua lábia se sustentava no seu charme estonteante. Alto, de rosto marcante e cabelos longos loiro escuro, de beleza indiscutível. O que tinha de bonito, tinha de poderoso. Não media esforços pra chegar aonde quisesse. – Achei que você só queria beber vinho conosco. A propósito, eu quero mais uma taça, por favor.

Saga estalou os dedos, sem tirar os olhos das duas pessoas a sua frente. Um senhor bem vestido apareceu no mesmo instante, com uma garrafa de alguma bela safra de vinho nas mãos. Assim que serviu Julian, a mulher ao seu lado fez um gesto para que lhe servisse também.

- Julian, Julian... O assunto deve ser sério, não é, Saga? – Disse a mulher, Hilda de Polaris, aquela que comandava o mais perigoso tipo de negocio, o comércio de armas. E a própria conseguia ser tão perigosa quanto. Era bonita, com cabelos loiros que caiam feito uma cascata em suas costas. De porte austero, Hilda intimidava. Mais do que qualquer um dos outros presentes na sala.

- Seríssimo, Hilda. – Pontuou Saga. – Sério até demais.

Julian bufou, e virou os olhos. – Saga, eu não tenho todo o tempo do mundo, não enrola.

- Calma, Julian, calma.. – Disse, de maneira bem devagar, propositadamente para irritar ainda mais Julian. – Antes de mais nada, preciso explicar umas coisas a vocês. Algo que ocorreu recentemente e que não está me deixando dormir.

- Mesmo que eu te ache bonito, e você sabe o porque, não me interessa como você dorme ou não. – Julian disse, arrancando uma risada de Hilda. Saga sorriu, inabalável. – Prossiga.

- Um subordinado meu, um garoto esforçado mas que é muito volúvel por motivos pessoais, acabou deixando escapar algumas informações sobre a Santuário para um jornalista qualquer. – Explicou, com calma. – A principio acreditei que o jornalista o extorquira, mas depois ele mesmo confessou os motivos dele.

- E você acreditou assim tão fácil? – Hilda falou, bebericando o vinho e fitando Saga, curiosa. – Eu ao menos não acreditaria em alguém que fizesse isso com a Asgard.

- Ele é volúvel, mas é ingênuo, Hilda, minha querida. – Saga explicou. – E fez isso porque uma terceira pessoa o convenceu a fazer o que fez. Segundo ele, essa pessoa ofereceu ajuda na busca pela irmã desaparecida dele, e ele acabou caindo. Mas isso não vem ao caso, o que eu preciso é fazer uma pergunta a vocês.

- Pois bem, faça. – Hilda pediu, educada porem seca.

- Essa pessoa sabe das nossas organizações, e está tentando exclusivamente ferrar a Santuário. Preciso que vocês sejam sinceros e me digam se algum de vocês está metido nisso.

Julian sorriu, e pousou a taça de cristal vazia sobre a mesinha de mogno no centro da sala.

- Está duvidando da nossa integridade, é? – Perguntou, cruzando os braços. – Pois então, também duvido da sua. E da sua, Hilda. Porque tem algum outro grupo querendo entrar no ramo dos cassinos e vocês dois sabem que eu detesto concorrência.

Saga percebeu Hilda se inquietar na poltrona em que sentava, mas não comentou nada. Até porque ele e ela estavam quase que juntos naquela situação. Umas conexões aqui, ali, e ambos arranjaram um negócio pequeno (comparado aos de Julian), porém lucrativo. Não chegaram a comentar nada um com o outro, mas ambos sabiam, e mantinham essa cumplicidade muda.

- Então temos um problema! – Saga exclamou. – Eu não confio em vocês, Julian não confia nós. Hilda, confias na gente? – Perguntou, não contendo uma risada. A loira riu, e com os olhos brilhando, fez um gesto negativo com a cabeça. Até Julian não agüentou, e quando já haviam visto, estavam os três rindo por um motivo bobo de uma situação séria. Talvez o vinho já tivesse começado a subir á cabeça.

- Mas então... – Saga retomou a linguagem "séria", mesmo que continuamente colocando a mãona boca para evitar o riso. – Hilda, algum motivo em especial?

- Nenhum em especial. Só acho que vocês são dois crápulas! – A loira disse, já gargalhando desde o inicio da frase. Julian acabou cuspindo um pouco de vinho e Saga segurava o abdome, rindo de se acabar. O senhor que servia as bebidas ao grupo virou os olhos, ao fundo da cena.

- Ai, Zeus, assim vocês me matam... – Julian disse, com a mão no peito e a cabeça apoiada para trás, no encosto da cadeira. Depois chamou com um estralo de dedos o senhor bem vestido do vinho e logo em seguida apontou mais uma vez para a taça de vinho na outra mão. – Quero mais!

- Nós definitivamente não prestamos, garoto Tang. – Saga disse, inclinando a taça com elegância para ser servido mais uma vez. Hilda fez o mesmo. – Mas precisamos fazer alguma coisa a respeito...

- Eu sei, Saga, e eu já havia pensado nisso. - Julian respondeu, já mais "dentro de si", mas ainda com um sorriso cínico no rosto. – Numa solução a longo, ou curto prazo, não sei.

- A, é? – Saga indagou, franzindo a testa. Estava ali uma coisa que não esperava. – O que?

- Já que nossa querida Hilda não tem motivo, pelo menos nesse momento, para nos achar dois crápulas... creio que a solução para nós é a infiltração de gente da nossa confiança na Máfia de cada um.

Bingo. Julian acertara em cheio aonde Saga gostaria de chegar. Já havia pensado na possibilidade de fazer Aldebaran "vigiar" a Solo e a Asgard, no entanto não havia pensado na possibilidade que Julian gostaria de fazer o mesmo.

- Já havia pensado nisso. – Saga disse, sorvendo-se de um gole da bebida. – Ia perguntar se vocês dois estavam de acordo com isso.

Saga percebeu os olhos de Julian brilhar. Ele tinha algo em mente, e sabia que não ia gostar nada disso.

- Eu estou de acordo, Saga. – Respondeu, fitando-o ainda com aquele brilho no olhar. – E você, Hilda?

- Vocês que são loucos, vocês que se entendam. Já percebi que isso aqui já virou pessoal, prefiro não me meter nisso.

Julian tomou uma expressão séria, e virou em direção a Hilda. – Mas vai, Hilda.

A loira engoliu o ultimo gole de vinho, com receio nos olhos. – Porque iria?

- Porque eu não confio em você também. – Explicou, deixando a taça de lado e cruzando os braços, sério. – E desconfio de você também. Não seria justo com o Saga.

- Ele tem razão, Hilda. – Saga interferiu. – Ao menos eu não aceitaria.

- Muito menos eu.

Acuada, a loira aquentou com a cabeça. Saga e Julian sorriram, e o primeiro retornou a falar:

- Então, estamos acertados. – Sorriu. – Algo a falar? Julian?

O loiro sorriu. – Sim.

Saga desejou não ter perguntado aquilo. Algo lhe dizia desde o inicio que Julian co0nseguiria virar o jogo para ele, e ele mesmo acaba concordando. – Hm?

- Creio que tenhamos que combinar quem queremos infiltrados. – Disse, sorrindo, e Saga engoliu em seco. – E a pessoa que eu quero na Santuário, cunhado, é Kanon Gemini.

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Certa vez, falaram-lhe que é preciso ter paixão para fazer qualquer coisa. Qualquer tipo de trabalho e serviço.

Afrodite não tinha paixão por aquilo. Amava. Amava e odiava ao mesmo tempo fazer o que fazia.

Amava por sentir prazer e odiava por não se sentir culpado. Matava pessoas mas não sentia peso algum na consciência. Pelo contrário.

Ajeitou o sobretudo branco que vestia assim que empurrou a porta do carro com uma certa violência e sentiu o vento forte lhe bater na face, balançando os longos cabelos louro-platinados. O clima ainda era aquele típico meio termo de outono, e já amaldiçoava o verão. Odiava o calor, e odiava a perspectiva de não poder usar mais aquele sobretudo.

Colocou uma das mãos por cima do bolso, para garantir se o que precisava estava ali. Olhou em volta, e se deparou com uma rua deserta ainda no fim de tarde, quando o céu já não é tão claro mas ainda sim não é completamente negro quanto á noite. Era a situação perfeita.

Caminhou decido pelo beco mal iluminado. O lugar fedia e chegava a dar nojo de olhar. Feio, fétido, detestável. Afrodite segurou com força o tecido pesado do casaco que vestia, não por medo (isso, jamais), mas como uma tentativa fracassada de se proteger da feiura daquele beco.

Murmurou algo em sueco, sua língua natal, procurando com os olhos o endereço do apartamento que anotara mentalmente. Quando deparou com uma portinhola cinzenta e imunda com um numero torto na parte superior, a franziu a testa e tomou coagem, mentalmente, para se aproximar. Com muita má vontade, e fazendo uma careta desgostosa, deu três batidas na porta.

Não recebendo nada em resposta, empurrou com a ponta dos dedos a porta, que se entreabriu. Limpou a mão no casaco como se quisesse se descontaminar, e deu uma examinada pela fresta da porta o interior. Escuro, porém vazio. Estranhou, mas chutou a porta do mesmo jeito. Entrou o mais rápido que conseguiu, e examinou atentamente o lugar.

Conseguia ser pior que o beco em que se localizava. Sujo era a palavra que melhor poderia descrever. Mesas viradas, paredes amareladas descascando e chão de madeira pútrida. Não viu uma, ou duas, mas sim um ninho de baratas em diversos cantos do lugar. Nojo.

- Quem é ? – Perguntou uma voz anasalada, vindo de um corredor minúsculo.

Afrodite não respondeu.

- Quem é?! – Tornou a perguntar, com grosseria, o homem. Apareceu das sombras, e o sueco controlou a vontade de rir. Como poderia um homem daqueles ter algo a ver (contra) a Santuário?

Baixo, magro e macilento, ele parecia um enfeite que complementava o visual decadente do apartamento. Parecia que não comia a tempos, vestia roupas tão puídas que parecia que a qualquer toque desmanchariam. Chegaria a ter pena (ou talvez apenas desprezo) se não fosse sua obrigação. Aquele homem ali devia a Santuário por não pagar o que devia. E não importava em que situação ela se encontrasse, se se comprometeu em pagar, ou cumpriria com a divida ou com a vida.

- Quem é, merda! – Tornou a perguntar o homem, com raiva. Afrodite sorriu.

Puxou a Magnum pesada e cuidadosamente polida do bolso do sobretudo e apontou para o homem.

Ele não conseguiu esboçar nenhuma reação antes que Afrodite mirasse e acertasse em cheio sua cabeça.

O corpo tombou e caiu no chão. Uma poça vermelho vivo cresceu no piso de madeira e Afrodite tirou uma rosa branca da manga. A jogou em direção ao corpo permaneceu ali até ela se sujar completamente de vermelho.

Com o mesmo nojo de outrora, abriu a porta e desapareceu.

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O jato de água gelada do chuveiro tocou o rosto de Shura como gelo que toca uma superfície quente. Esperava que aquilo ao menos melhorasse a sensação de incomodo que a falta de nicotina estava causando em si, no entanto, sem resultado. Sentia-se tonto, quase febril.

Virou a cabeça para o lado, encharcando os ombros, braços e o peito bem torneado. Respirou fundo, olhos fechados e as mãos arranhando a própria pele, como se quisesse que a ducha surtisse mais efeito. Deixou a água molhar-lhe os cabelos e passou as mãos pelos mesmos, tirando as mechas teimosas grudadas em sua testa.

Nicotina. O que seu corpo e sua mente precisavam era isso, não água gelada.

Girou o registro, deixando as últimas gotas cair já nos cabelos molhados. Dentro do boxe, buscou com uma das mãos a toalha mais próxima, e enxugou-se o mínimo possível. Ainda nu, saiu do boxe, encharcando o chão com as gotas d'água que escorriam pelo seu corpo. Enrolou a toalha brança em torno da cintura, e assim caminhou até a sala.

Shura olhou pesaroso para o maço de cigarros que chegava a implorar para ser aberto em cima do apoio do sofá.

Mal saíra do banho e os sinais da falta daquele vício dos infernos já voltavam ainda mais á tona. Insone, não dormira um minuto sequer desde a noite em que colocara a decisão em prática, no entanto, aquele infelizmente não era o único sinal da abstinência de nicotina que sentia. Uma náusea que não passava com remédio algum, uma agitação que não só o impedia de dormir como o impedia de se concentrar em qualquer coisa, uma ansiedade infundada que o fazia andar de um lado para o outro, uma irritabilidade que era visível em qualquer lugar canto de seu apartamento. Mais bagunçado do que normalmente era, já que morava sozinho e não era o tipo mais organizado de pessoa, o lugar era tomado de móveis fora de lugar e coisas jogadas no chão. Até mesmo a Excalibur, a preciosa espada samurai de Shura, jazia jogada num canto, arremessada num momento de fúria incontrolável.

Nunca pensara que aquele a falta dos cigarros aparentemente inofensivo que fumava desde a adolescência poderia perturba-lo tanto.

Jogou-se contra o sofá e afundou a cabeça nas mãos. A cabeça girava, os olhos pesavam por um sono que, por mais que quisesse, não chegava de jeito nenhum. Não poderia ficar assim. Precisava dormir, repor as energias, não de uma tragada de cigarro. Uma boa tragada. Uma tragada que chegava a entorpecer, acalmar. Podia até sentir de novo a fumaça adentrando-lhe as narinas e...

Passou as mãos pelos cabelos úmidos, batendo um dos pés no chão num ritmo despropositado e que irritaria qualquer um. Iria passar, sempre passava. Ao menos era o que os ex fumantes diziam, com o peito inflado de orgulho por ter passado os "dez dias decisivos" . Não eram eles que falavam, que depois de dez dias, já era quase certo que a pessoa pararia de vez?

Shura riu, riu de si mesmo, porque de um modo ou de outro sabia que aquilo não era para ele. Ele, que chegava a ser mortal quando se tratava de serviços sujos, não conseguia vencer a ele mesmo. Não conseguia vencer ele mesmo na dependência estúpida por aquele maço estúpido parado ao seu lado.

Fez menção de puxar o maço com uma das mãos, mas voltou atrás. O encarou por alguns instantes e por fim o pegou. Não, não dava. Simplesmente não dava. Era maior que ele.

Já sentia de novo o contato aconchegante do cigarro em seus lábios quando ouviu o celular tocar, dentro do bolso do casaco pendurado na cadeira da cozinha, a alguns metros dali. Amaldiçoou quem quer que fosse o idiota que ligara e com um aperto, largou o cigarro recém aceso no cinzeiro ao lado aonde até alguns minutos atrás jazia o maço.

- Quem é? - Perguntou, assim que atendeu, sem sequer dar um "alô". A resposta fez esvanecer a vontade de fumar, e não conseguiu evitar um meio sorriso. – Fala, Pandora.

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A faixada do Crownwall Hotel, no coração de Londres, pareceu convidativa e aconchegante aos olhos de Milo.

Sentia-se em casa na Inglaterra. Mesmo que o sangue em suas veias fosse completamente grego, ali se sentia melhor do que em qualquer lugar da Grécia. Fechou os olhos e respirou fundo, buscando sentir o aroma que o clima quente proporcionava naquela sua tão familiar cidade. Não evitou de sorrir, ao abrir os olhos novamente e se deparar com céu azul escuro e salpicado de estrelas.

Animara-se como nunca quando Saga lhe dissera que logo após o roubo em Roma, ele e mais os dois (que naquela situação ainda não havia conhecido) se dirigiriam a Inglaterra, a fim de ir em busca do colecionador de quadros do qual o nome fugia-lhe a cabeça. Não importava, ao menos aquela noite. Chegaram de uma viagem cansativa e complicada e estava em fim em terra firme. Em casa.

- Se não quer ser atropelado, sai do meio da rua. – Ouviu Camus dizer, a sua direita, num tom seco.

- Não seria má idéia... – Aiolia alfinetou, já parado em frente ao hotel.

Milo respondeu com o dedo médio erguido. – Vá a merda.

Aiolia fechou a cara. – Vá você.

Camus virou os olhos, Milo podia adivinhar, de saco cheio das brigas dos dois. Não tão de saco cheio quanto Milo estava de Aiolia, mas ainda sim bastante incomodado. Milo riu do jeito sério do outro, e em poucos passos já se encontrava a frente dos dois que o esperavam. Camus puxou o loiro pelo pulso, visivelmente impaciente, e Milo sentiu-se automaticamente constrangido com o contato quente da mão do outro sobre sua pele. No entanto, por alguma razão não tentou (ou não queria?) se desvencilhar.

- Quer tirar o pai da forca, Camus? – Perguntou, rindo da pressa infundada do outro. – E as malas?

- Não. – Respondeu, sem mais. E apontou a cabeça para o lado, indicando o gentil taxista que se dispusera a carregar as poucas malas dos três. Aiolia conversava de maneira animada e o ajudava com as próprias malas. Milo pensou se já havia existo pessoa pelo qual tivesse tanta, tanta antipatia.

- Oh, sim. – Franziu o cenho, assim que pararam a caminhada apressada para dentro do Crownwall. O clima dentro do hotel era gostoso, a decoração tinha um toque vitoriano, com uma certa predominância do tom marrom do mogno que cobria todo o lugar. Várias poltronas e sofás convidativos eram dispostos em quase toda a extensão do salão do hall de entrada, e uma lareira acesa (sabe se lá porque) imponente numa das paredes. Uma atendente simpática e sorridente se dirigiram aos dois, já parados em frente ao balcão.

- Bem vindos ao Crownwall Hotel! – Disse, animada. Ajeitou o uniforme cor de vinho que vestia e tornou a levantar os olhos para os três (já que Aiolia já despachara o taxista e se encontrava apoiado displicentemente no balcão, ao lado das malas) . – Os senhores tem reservas?

Camus fez que sim com a cabeça e Milo evitou de rir. Não é que era uma graça o jeitão sisudo do ruivo?

E, não só o jeito, era obrigado a admitir, como todo o conjunto também. Camus era atraente, e desde o primeiro dia o achara possuidor de um charme sem tamanho. Era alto, com um corpo visivelmente bem delineado, com cabelos ruivos compridos e olhos num verde de dar inveja a qualquer esmeralda lapidada. E não podia negar também que lá no fundo (ou não tanto) queria se dar bem com ele. Melhor do que se davam, já que infelizmente o ruivo charmoso tinha um gênio terrível.

- No nome de quem? – Tornou a perguntar a atendente.

- Camus. Camus Albert. – E a moça franziu as sobrancelhas. – Como o filósofo, mas ao contrário.

Ela riu, daquela forma robotizada que normalmente os atendentes riem, e digitou algo no computador com uma agilidade e velocidade espantosas. – Pronto, três quartos separados, certo?

Camus acenou positivamente com a cabeça. A moça chamou alguém com um aceno e poucos segundos depois um garoto sorridente já havia se postado ao seu lado. Tinha no máximo dezesseis anos, usava um uniforme típico de valete, vermelho e cheio de botões na parte superior. Ainda vestia luvas brancas e tentava ajeitar na própria cabeça um chapeuzinho da mesma cor. A sua descendência oriental era evidente e usava os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo curto. Com feitio doce, o garoto disse:

- Bem vindos! Deixem-me ajudar com as malas... – E segurou todas ao mesmo tempo. Quando as ergueu do chão Milo teve quase certeza que ele cairia de lado. Era pequeno, quase frágil, e era impossível saber de onde tirava forças pra carregar todas aquelas malas ao mesmo tempo. – Uh, pesadas!

- Bastante! – Aiolia disse, ajudando o garoto com uma ou duas malas. Desatou a puxar uma conversa com o mesmo, deixando Milo e Camus um pouco para trás:

- Hm, Camus "Como o filósofo só que ao contrário"... – Disse, fazendo graça, e recebendo em troca um olhar repreensão quase furioso. - Será que você podia fazer o favor de soltar a minha mão?

E do nada, ver Camus corando, constrangido, valera mais a pena do que voltar a Londres.

O ruivo soltou o pulso de Milo e evitou olha-lo. Murmurou alguma coisa que Milo não compreendeu e cruzou os braços e pode perceber suas bochechas corarem violentamente.

- Ora essa... – Resmungou.

- Ai, sabia que você resmunga demais? – Disse, andando de costas e rindo. – Relaxe e aproveite a viagem!

O que Camus respondera Milo não escutou. Tratou de virar as costas e seguir correndo atrás de Aiolia e do valete simpático do hotel antes que o ruivo pudesse fazer qualquer reclamação. Ao menos Milo saberia aproveitar aquela viagem muito bem, ao seu favor.

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Máscara da Morte olhou para o relógio pendurado na parede a alguns metros, impaciente. Se havia uma coisa que detestava mais que tudo, era atrasos. Já havia perdido as contas de quantas horas já estava ali esperando, sentado numa mesa de canto de uma cafeteria qualquer no centro de Atenas. Já havia perdido as contas também de quantos cafézinhos já tomara no meio tempo.

Descafeinado, expresso, cappucino, frapuccino, com chocolate... Não duvidaria que tivesse experimentado todos os tipos diferentes de café que havia disponível naquele lugarzinho detestável. Porque pegara antipatia instantânea no exato momento que uma das garçonetes lhe pedira gentilmente para apagar o cigarro.

Passou as mãos pelos cabelos de modo que os arrepiava ainda mais. Porque Afrodite demorava tanto?

- O senhor precisa de mais alguma coisa? – Perguntou a garçonete, que aparecera de surpresa, e Máscara fechou a cara.

- Que você suma daqui. – Falou, sem sequer levantar o rosto. Ela murmurou algo que soou como "Mas que grosso!" mas Máscara ignorou completamente, bebendo o ultimo gole da xícara mais recente de café. O sorriso cínico de sempre reapareceu em seu rosto quando o líquido desceu quente por sua garganta.

A porta de vidro barulhenta da cafeteria sequer havia sido aberta e Máscara já sabia que entraria ali alguns segundos depois. E não deu outra. A porta se abriu e adentrou aquele que Máscara considerava a criatura mais bela que jamais existiu. Afrodite, com os cabelos loiros completamente bagunçados pelo vento, mas ainda assim mais belo que qualquer pessoa presente ali, logo o avistou, e veio em sua direção em passos rápidos, com uma Pandora a encalço.

- Demoraram. – Limitou-se a dizer, sorrindo cinicamente. Afrodite retribuiu e sentou-se ao seu lado. A primeira coisa que fez foi jogar a cabeça platinada para trás e suspirar. – Hm?

- Você não tem nem noção do buraco que eu tive que me enfiar. – Disse, massageando a testa com uma das mãos. – Horrível, imundo.

- Imaginei. – Falou, passando o braço por trás de onde Afrodite se sentara. Fitou Pandora e em seguida apontou com a cabeça para a cadeira do outro lado da mesa. – Senta.

Pandora virou os olhos e se sentou. Arrancou alguns olhares da clientela masculina por conta do vestido negro justo que usava. Seus cabelos mostravam a mesma ação ingrata do vento, mas ainda sim soltos, caindo-lhe nas costas, tão lisos e pretos que lembravam tinta.

- Eu fiquei no carro, mas a rua já era decadente. – Disse, apoiando os braços brancos sobre a mesa. Empurrou uma mecha de cabelo para atrás da orelha e se inclinou levemente em direção dos dois. – Mas o Afrodite foi rápido...

- Como sempre. – Máscara disse, numa tentativa, a sua maneira, de fazer um elogio. Afrodite riu.

- Oh, eu preciso dormir. – Reclamou o sueco, e o italiano franziu o cenho. – Dormir.

- Mas ainda não. – Bufou Máscara, cruzando os braços. – Pandora, ligou para o Shura?

A moça afirmou positivamente com a cabeça. – Enquanto o Afrodite fazia o serviço. Ele já, já chega.

- Pff. – Resmungou. – Se vocês demoraram todo esse tempo, imagina ele.

Pandora teve vontade de perguntar o porque da aparente antipatia do moreno por Shura, mas conteve-se. Não era tão próxima assim do italiano para se atrever a perguntar algo tão pessoal.

- Ah, Máscara da Morte... ainda não entendo o porque você não vai com a cara dele... – Afrodite suspirou, Pandora agradeceu internamente pelo loiro fazer a perguntar e saciar a sua própria curiosidade. Mas estranhou o tom sarcástico na voz do sueco.

Máscara inquietou-se na cadeira, com uma pra lá de visível perturbação. – Precisa dizer porque?

- Se estiver a fim de satisfazer minha curiosidade... – Disse o loiro, chamando a garçonete com uma das mãos. – E a da nossa querida Pandora, claro.

Máscara resmungou pela milésima vez no dia. – Ele é estranho. Fala de maneira ridícula e teatral e ainda foi capaz de...

- E quem seria normal nesse mundo, Máscara da Morte? – Perguntou Shura, que aparecera de surpresa e encarava a todos com uma expressão enigmática. – Você, que se pudesse colecionaria cabeças?

- Quem sabe. – Respondeu, não olhando-o nos olhos. Sabia que não era a pessoa mais normal que poderia existir, mas nada se comprava ao estranho e misterioso Shura. O espanhol de falas complicadas e atitudes incomuns. O moreno que usava de meios antiquados e (até Máscara precisava admitir) estilosos de executar assassinatos que cometia.

- Shura, senta. – Pandora interrompeu, antes que Shura ou Máscara pudessem falar qualquer coisa mais. O espanhol a olhou de cima a baixo, e ela fingiu que não percebeu. – Senta que nós quatro precisamos conversar.


N/A: Tenho que ser sincera, sequer reli o capitulo. Pardon qualquer erro grotesco ou qualquer coisa que tenha aparecido, é que eu to postando correndo mesmo! Então, espero que tenham gostado! Cortei a conversa final no climax, porque eu queria postar hoje mesmo... mas... ó, ja aviso que a fic vai ser gigante 8D

PREPAREM-SE XD

Tá, agora vou indo.

Sorry a demora, e me contentem com reviews!

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