Capítulo Dois
Àprimeira claridade do amanhecer, o ar era enevoado, como um sonho prestes a se desvanecer. Raios de sol passavam pelo dossel dos carvalhos e faiscavam no orvalho.
Era o seu momento predileto. Ao amanhecer, quando as demandas ao seu tempo e energia ainda não haviam começado, ele podia ficar sozinho, podia acalentar seus pensamentos. Ou simplesmente ser o que era.
Emmet Swan nunca vivera em outro lugar, só em Desire. Nunca desejara. Conhecia o continente, visitara cidades grandes. Até viajara para o México em férias uma ocasião, numa decisão impulsiva. Portanto, podia-se dizer que já estivera em outro país.
Mas Desire, com todas as suas virtudes e defeitos, era o seu lugar. Nascera ali, numa noite de vendaval em setembro, trinta anos antes. Nascera na enorme cama de carvalho com baldaquino em que agora dormia, o parto feito pelo pai e por uma preta velha, que fumava um cachimbo de sabugo de milho e cujos pais haviam sido escravos domésticos, pertencentes aos ancestrais de Emmet.
O nome da velha era Miss Effie. Quando ele era bem pequeno, Miss Effie gostava de lhe contar a história de seu nascimento. Como o vento uivava, o mar subia em fúria. Dentro da casa, na cama de baldaquino, a mãe dera à luz como uma guerreira, projetando-o para os braços à espera do pai com uma risada.
Era uma boa história. Houvera uma época em que Emmet podia imaginar a mãe rindo enquanto o pai esperava, pronto para segurá-lo.
Agora, a mãe já partira há muito tempo e a velha Miss Effie já morrera. E há muito tempo que o pai não queria pegá-lo.
Emmet foi andando pela neblina cada vez mais rala, entre as árvores imensas, com líquen vermelho e rosa nos troncos, através da claridade tênue e do ar frio que tanto favoreciam as samambaias e juçaras. Era alto e musculoso, os cabelos eram escuros e curtos, a pele dourada, os olhos castanhos. A boca era firme, de quem tendia mais a remoer do que a sorrir.
Era outra coisa que as mulheres achavam fascinante... o desafio de fazer aqueles lábios se contraírem num sorriso.
A ligeira mudança na claridade sinalizou que tinha de voltar para Santuário. Era tempo de começar a preparar o café da manhã para os hóspedes.
Emmet sentia-se tão contente na cozinha quanto ficava na floresta. Era outra coisa que o pai achava esquisita. E Emmet sabia — com algum divertimento — que Charlie Swan especulava se o filho não seria gay. Afinal, se um homem gostava de cozinhar para ganhar a vida, devia haver alguma coisa errada com ele.
Se fossem do tipo de discutir abertamente esses problemas, Emmet teria lhe dito que podia gostar de criar um merengue perfeito, mas ainda preferia as mulheres para fazer sexo. Apenas não se sentia propenso a qualquer intimidade!
E essa tendência para se afastar das outras pessoas não era uma característica da família Swan?
Emmet avançou pela floresta, tão silencioso quanto o cervo que passava por ali. Um trio de corças bebia no rio, na claridade tremeluzente, em meio ao silêncio profundo.
Ainda havia tempo, pensou Emmet. Sempre havia tempo em Desire. Ele se permitiu a indulgência de sentar num tronco caído para contemplar o desabrochar da manhã.
A ilha tinha apenas pouco mais de três quilômetros no ponto mais largo, cerca de vinte quilômetros de uma extremidade a outra. Emmet conhecia cada palmo, a areia esbranquiçada pelo sol das praias, os pântanos ensombreados. Adorava as depressões entre as dunas, a umidade maravilhosa, as campinas com a relva ondulando, margeadas por pinheiros novos e carvalhos imponentes.
Mas, acima de tudo, amava a floresta, com seus bolsões de escuridão e seus mistérios.
Conhecia a história, sabia que outrora algodão e índigo cresciam ali, cultivados por escravos. Seus ancestrais ganharam fortunas. Os ricos iam se divertir naquele pequeno paraíso isolado, caçando cervos e porcos selvagens, recolhendo conchas, pescando no rio e no mar.
Realizavam bailes animados no salão principal, à luz de velas em candelabros de cristal, jogavam cartas na sala de jogos, enquanto bebiam o melhor bourbon sulista e fumavam enormes charutos cubanos. Entregavam-se à indolência na varanda, durante as tardes quentes de verão, enquanto escravos serviam limonada gelada.
Santuário se tornara um enclave do privilégio, um testemunho de um modo de vida condenado ao fracasso.
Mais fortunas ainda haviam entrado e saído das mãos de magnatas do aço e da navegação, que haviam transformado Santuário em seu refúgio particular.
Embora o dinheiro não fosse mais como era, Santuário ainda resistia. E a ilha continuava em poder dos descendentes daqueles reis do algodão e imperadores do aço. Os chalés eram bem afastados uns dos outros, por trás de dunas, à sombra de árvores, de frente para a faixa extensa do estreito de Pelican. Passavam de geração em geração, garantindo que apenas umas poucas famílias podiam reivindicar Desire como seu lar.
E assim permaneceria.
O pai reagia aos incorporadores imobiliários e ecologistas com a mesma veemência. Não haveria resorts construídos na ilha, e nenhum governo, por mais bem-intencionado que fosse, seria capaz de convencer Charlie Swan a convertê-la numa reserva nacional.
Era o monumento do pai a uma esposa infiel, pensou Emmet. Sua bênção e sua maldição.
Os visitantes apareciam agora, apesar da solidão... ou talvez por causa disso. Para manter a casa, a ilha, o monopólio, os Swan haviam transformado parte de sua casa numa pousada.
Emmet sabia que Charlie detestava, ressentia-se de cada passo dado na ilha por um forasteiro. Era a única causa de uma discussão entre os pais, ao que ele podia lembrar. Renne queria abrir a ilha para mais turistas, atrair mais pessoas, instituir o tipo de turbilhão social que seus ancestrais haviam outrora desfrutado. Charlie insistia em manter a ilha inalterada, intacta, controlando o número de visitantes e de hóspedes que passavam a noite na pousada, como um avarento que conta moedas. Fora isso, ao final, Emmet acreditava, o que afastara a mãe... a necessidade de contato com mais pessoas, mais rostos, mais vozes.
Por mais que o pai tentasse, no entanto, não seria capaz de conter as mudanças, assim como a ilha não podia conter o mar.
Ajustamentos, pensou Emmet, enquanto as corças se viravam, tomo uma unidade, e desapareciam entre as árvores. Ele próprio não queria saber de ajustamentos, mas no caso da pousada haviam sido necessários. E a verdade era que ele gostava de administra-la, gostava do planejamento, execução, rotina. Gostava dos visitantes, das vozes de estranhos, de observar os diversos hábitos e expectativas, de ouvir de vez em quando as histórias de seus mundos.
Não se importava com as pessoas em sua vida... desde que não tivessem a intenção de ficar. De qualquer forma, não acreditava que as pessoas pudessem ficar a longo prazo. Renne não ficara.
Emmet levantou-se, vagamente irritado porque uma cicatriz de vinte anos começara a pulsar inesperadamente. Ignorou o fato, virou-se e seguiu pela trilha sinuosa que subia para Santuário.
Quando saiu das árvores, a luz era ofuscante. Atingia os borrifos de um repuxo, transformando cada gota num arco-íris. Ele olhou para os fundos do jardim. As tulipas desabrochavam em profusão, como era de esperar. As alpínias-rosa pareciam um pouco desanimadas e as... como era mesmo o nome daquela flor púrpura? Era um jardineiro medíocre, na melhor das hipóteses, com um esforço incessante para cuidar do terreno. Os hóspedes pagantes esperavam jardins bem cuidados, como também esperavam antigüidades brilhando e boas refeições.
Santuário tinha de manter condições excelentes para atraí-los, e isso significava horas intermináveis de trabalho. Sem hóspedes pagantes, não haveria meios de manter Santuário. Por isso, pensou Emmet, lançando um olhar irritado para as flores, era um ciclo interminável, uma cobra engolindo o próprio rabo. Uma armadilha sem a chave.
— Agerato.
Emmet ergueu a cabeça, num movimento brusco. Teve de contrair os olhos contra a claridade do sol para focalizar a mulher. Mas reconhecia a voz. E irritou-se por ela ser capaz de se aproximar por trás dele daquela maneira. Mas também sempre considerara a Dra. Rosalie Hale como uma pequena irritação.
— Agerato repetiu ela, sorrindo.
Sabia que o aborrecia e considerava isso um progresso. Levara quase um ano para conseguir pelo menos essa reação.
— A flor que você está olhando — acrescentou ela. — Seu jardim precisa de algum trabalho, Emmet.
— Vou providenciar.
No instante seguinte, Emmet recorreu à sua melhor arma. O silencio. Nunca se sentira completamente à vontade com Rose. Mas era apenas pela aparência, embora ela fosse bastante atraente para quem gostava do tipo loiro e ezuberante. Emmet achava que era por causa de sua atitude, que era o oposto direto da delicadeza. Ela era eficiente, competente e parecia saber um pouco de tudo.
Sua voz transmitia o que Emmet julgava ser o modo de falar da alta sociedade da Nova Inglaterra. Ou, quando ele se sentia menos vaidoso, de uma droga de ianque. Realçavam os olhos azuis e o nariz um pouco arrebitado. Os lábios eram cheios... a boca não era grande. Era apenas mais uma coisa irritantemente perfeita em Rose.
Emmet esperava sempre receber a notícia de que ela decidira voltar ao continente, fechar o chalé que herdara da avó e desistir da idéia de manter uma clínica na ilha. Mas ela permanecia, mês após mês, pouco a pouco inserindo-se na estrutura da ilha.
E deixando-o cada vez mais irritado.
Rose continuou a lhe sorrir, com aquela expressão provocante nos olhos, enquanto empurrava para trás os cabelos cor de trigo, que caíam sobre os ombros.
— Uma linda manhã.
— Ainda é cedo.
Ele enfiou as mãos nos bolsos. Nunca sabia o que fazer com as mãos na presença de Rose.
— Mas não cedo demais para você.
Ela inclinou a cabeça para o lado. Era mesmo divertido contempla-lo. Há meses que Rose esperava fazer mais do que contemplá-lo, mas Emmet Swan era um dos nativos daquele pedaço de terra que ela tinha dificuldade para conquistar.
— Imagino que o café da manhã ainda não esta pronto.
— Não servimos antes de oito horas.
Emmet tinha certeza de que ela sabia disso muito bem, pois aparecia com freqüência.
— Acho que posso esperar. Qual é o especial esta manhã?
— Ainda não decidi.
Como não havia meio de se livrar de Rose, Emmet resignou-se quando ela passou a acompanhá-lo.
— Meu voto é por waffles de canela. Eu poderia comer uma dúzia.
Ela esticou-se, entrelaçando os dedos com os braços estendidos por cima da cabeça.
Emmet fez um esforço para não notar os seios grandes e firmes projetando-se contra a camisa de algodão. Não notar Rose Hale passara a exigir um enorme esforço. Ele foi para o lado da casa, passando pelo caminho de conchas esmagadas, entre as flores da primavera.
— Você pode esperar na sala de estar dos hóspedes. Ou na sala de jantar.
— Prefiro sentar na cozinha com você. Gosto de observá-lo cozinhar.
Antes que Emmet pudesse pensar em alguma objeção, ela subiu para a varanda cercada de tela e passou pela porta da cozinha.
Como sempre, a cozinha estava impecável. Rose apreciava essa qualidade num homem, da mesma forma que apreciava um bom tônus muscular e um cérebro bem exercitado. Emmet possuía as três qualidades, e era por isso que ela se interessava pelo tipo de amante que ele seria.
Imaginava que acabaria descobrindo, mais cedo ou mais tarde. Rose sempre se empenhara para alcançar um objetivo. Tudo o que precisava fazer agora era continuar a desgastar sua armadura.
Não era por desinteresse. Ela já percebera a maneira com que Emmet a contemplava nas raras ocasiões em que o surpreendia com a guarda baixa. Era pura obstinação. O que ela também apreciava. Os contrastes daquele homem eram mesmo divertidos.
Rose sabia, ao sentar no banco ao lado do balcão da cozinha, que ele falaria muito pouco, a não ser que fosse estimulado. Era a distância que mantinha para os outros. Sabia também que Emmet lhe serviria seu café extraordinário, lembrando que ela tomava puro. Era a sua hospitalidade inata.
Ela deixou-o permanecer em silêncio por algum tempo, enquanto tomava o café, em pequenos goles, da caneca fumegante que Emmet pusera na sua frente. Não estava caçoando quando dissera que gostava de observá-lo na cozinha.
Uma cozinha podia ser um reduto feminino tradicional, mas aquela era toda masculina. Assim como o cozinheiro, pensou Rose, com as mãos enormes e peludas, o rosto decidido.
— Adoro esta cozinha.
Emmet batia alguma coisa numa enorme tigela azul e limitou-se a soltar um grunhido. Rose considerou que era uma resposta. Saiu do banco e foi se servir de mais café. Inclinou-se, roçando de leve em seu braço, e sorriu ao ver a massa na tigela.
— Waffles?
Ele mudou de posição. O cheiro de Rose o perturbava.
— Não era o que você queria?
— Era sim. — Ela levantou a caneca, sorrindo por cima da borda. — É sempre bom ter o que você quer. Não concorda?
Seus olhos são incríveis, pensou Emmet. Acreditara em sereias quando era pequeno. Todas tinham os olhos como os de Rose.
— É bastante fácil conseguir se você quer apenas waffles. Emmet recuou, contornou-a e pegou um aparelho de waffles num armário por baixo do balcão. Virou-se, depois de ligá-lo na tomada, e esbarrou em Rose. Numa reação automática, levantou a mão para seu braço, a fim de ampará-la. E deixou-a ali.
— Está me atrapalhando.
Ela se adiantou, apenas um pouco, satisfeita com o frêmito que percorreu seu corpo.
— Pensei que podia ajudar.
— De que maneira?
Rose sorriu, deixando o olhar baixar por um instante para os lábios de Emmet.
Qualquer uma. — Por que não?, pensou ela. E pôs a mão livre no peito de Emmet. — Precisa de alguma coisa?
Ele sentiu que seu sangue corria mais depressa. Os dedos apertaram o braço de Rose antes que pudesse se controlar. Pensou a respeito... e como pensava a respeito! Como seria empurrá-la contra o balcão e tomar o que ela insistia em oferecer?
Isso tiraria o sorriso daquele rosto.
— Você está na minha frente, Rose.
Mas ele ainda não a largara. Era sem dúvida um progresso incontestável, pensou Rose. Por baixo de sua mão, o coração de Emmet estava acelerado.
— Estou atrapalhando você há quase um ano, Emmet. Quando pretende fazer alguma coisa?
Ela percebeu que os olhos de Emmet faiscaram antes de se contraírem. Sua respiração acelerou em expectativa. Finalmente, pensou Rose. Inclinou-se para ele.
Mas Emmet baixou o braço e recuou. O movimento foi tão inesperado e abrupto que ela quase tropeçou.
— Tome seu café, Rose. Tenho muito trabalho.
Emmet teve a satisfação de constatar que apertara um dos botões de controle. O sorriso de Rose desapareceu. As sobrancelhas delicadas quase se uniram. Por baixo, os olhos se tornaram sombrios e furiosos.
— Qual é o problema, Emmet?
Com extrema habilidade, ele despejou a massa no aparelho aquecido de waffles.
— Não tenho nenhum problema.
Ele lançou um olhar rápido para Rose, enquanto baixava a tampa. Ela estava vermelha, os lábios contraídos. A fúria em pessoa, refletiu Emmet. Ótimo.
— O que mais preciso fazer? — Ela bateu com a caneca, o café espirrando sobre o balcão impecável. — Preciso entrar nua aqui?
Ele quase sorriu.
— Uma idéia e tanto, não acha? Eu poderia aumentar as diárias pelo espetáculo extra. — Emmet inclinou a cabeça para o lado. — Isto é, se sua nudez for atraente.
— É sensacional e já lhe dei várias oportunidades de descobrir isso pessoalmente.
— Creio que eu gosto de criar minhas próprias oportunidades. — Ele abriu a geladeira — Quer ovos com os waffles?
Rose cerrou os punhos. Lembrou a si mesma que fizera o juramento de curar, não de machucar. Virou-se e murmurou, enquanto saía pela porta dos fundos:
— Enfie os waffles no rabo.
Emmet esperou até ouvir a porta bater, antes de sorrir. Calculou que levara a melhor naquela pequena batalha de vontades e decidiu se recompensar com os waffles que seriam de Rose. Passava-os para o prato quando a porta foi aberta.
Alice posou por um momento. Tanto ela quanto Emmet sabiam que era mais por hábito do que uma tentativa de impressionar o irmão. Os cabelos de Alice eram mais uma confusão de pontas para todos os lados, castanhos escuros. Combinava com seu tom de pele, que era leitoso, com uma insinuação de rosa por baixo. Alice herdara os olhos castanho-esverdeados do pai. Naquela manha, estavam escuros, da cor de mares turbulentos, já realçados com todo cuidado através de rimei e delineador.
— Waffles... —A voz era um ronronar felino, que ela praticara muito, até se tornar uma característica. — Devem estar uma delícia.
Sem se impressionar, Emmet cortou um pedaço e pôs na boca. É meu.
Alice jogou a cabeça para trás e adiantou-se, fazendo beicinho, irresistível. Pestanejou e sorriu quando Emmet pôs o prato na sua frente.
— Obrigada, querido.
Ela estendeu amão para a face do irmão e beijou a outra. Tinha o hábito de tocar, beijar e abraçar, no que era diferente do resto da familia. Emmet podia lembrar que Alice, depois que a mãe fora embora , passara a se comportar como um cachorrinho, sempre saltando para os braços de alguém, à procura de aconchego. Mas também ela tinha apenas quatro anos na ocasião. Ele deu um puxão nos cabelos da irmã e entregou-lhe a calda.
— Mais alguém já acordou?
— Já sim. O casal no quarto azul está se mexendo. E a tia Sue entrou no chuveiro.
— Pensei que ia atender os hóspedes durante o café da manhã.
— E vou — respondeu Alice, com a boca cheia.
Emmet levantou uma sobrancelha, enquanto olhava para o roupão da irmã, curto, fino, entreaberto, de cores exuberantes.
— É o seu novo uniforme de garçonete?
Ela cruzou as pernas compridas e enfiou outro pedaço de waffle entre os lábios.
— Gostou?
— Poderá se aposentar com as gorjetas.
— Tem razão. — Alice soltou uma meia-risada, empurrando os waffles no prato. — Esse tem sido o sonho de toda a minha vida... servir comida para estranhos e retirar seus pratos sujos, guardando as moedas que eles me dão para poder me aposentar com todo esplendor.
— Todos nós temos pequenas fantasias.
Emmet pôs uma caneca com café ao lado da irmã, acrescentou creme e açúcar. Compreendia a amargura e o desapontamento, mesmo que não concordasse. E, porque a amava, inclinou a cabeça para o lado e perguntou:
— Quer ouvir a minha?
— Provavelmente tem alguma coisa a ver com o concurso de melhor receita de Betty Crocker.
— Bem que isso pode acontecer.
— Eu queria ser alguém, Emm.
— Você é alguém. Aalice Swan, Princesa da Ilha. Ela revirou os olhos, antes de pegar a caneca com o café.
— Não agüentei um ano em Nova York. Nem uma droga de um ano.
E quem quer ficar lá por mais tempo do que isso?
A própria idéia deixava-o arrepiado. Ruas apinhadas, cheiros por toda parte, ar abafado.
— É um pouco difícil ser atriz em Desire.
— Se quer saber minha opinião, querida, eu diria que está fazendo um ótimo trabalho. E se pretende ficar de mau humor, leve os waffles para seu quarto. Está estragando minha disposição.
— E fácil para você. — Ela empurrou o prato, que Emmet pegou antes que caísse do balcão. — Tem o que quer. Viver no meio do nada, dia após dia, ano após ano. Fazendo sempre a mesma coisa. Papai praticamente entregou a casa a você, a fim de poder circular pela ilha durante o dia inteiro, para ter certeza de que ninguém muda de lugar um grão sequer de sua preciosa areia.
Alicelevantou-se, abrindo os braços.
— E Bella tem o que ela quer. Uma fotógrafa famosa, viajando pelo mundo inteiro para tirar fotos. Mas o que eu tenho? O que eu tenho? Um patético currículo, com alguns comerciais, um punhado de pontas e um papel principal numa peça em três atos que saiu de cartaz na noite de estréia em Pittsburgh. Agora, estou outra vez presa aqui, servindo comida para outras pessoas, trocando roupas de cama... coisas que detesto fazer.
Ele esperou um momento, para depois aplaudir.
— Bom discurso, fadinha. E você sabe direitinho escolher as palavras certas. Talvez queira desenvolver tudo isso no palco. Devo dizer que os gestos tendem um pouco para o solene.
Os lábios de Alice tremeram por um instante, mas logo se firmaram.
— Vá se danar, Emmet! Ela ergueu o queixo, abruptamente, antes de se retirar. Emmet pegou o garfo que ela deixara no prato. Parecia que não estava agradando naquela manhã, pensou ele, enquanto começava a comer o que a irmã deixara.
***************
Uma hora depois, Alice era toda sorriso e charme sulista. Era uma garçonete eficiente — o que a salvara da pobreza total durante sua temporada em Nova York — e serviu as mesas com toda a aparência de satisfação e gentileza sem pressa.
Usava uma saia bastante curta para irritar Emmet e uma blusa sem mangas que realçava seu corpo da maneira mais favorável. Tinha o corpo atraente e empenhava-se ao máximo para mantê-lo assim.
Era um instrumento do ofício, tanto como garçonete quanto como atriz. O que também acontecia com o sorriso fácil e radiante.
— Quer que eu esquente seu café, Sr. Benson? Está gostando da omelete? Emmet é uma maravilha na cozinha, não é mesmo?
Como o Sr. Benson parecia apreciar seus seios, ela se inclinou mais um pouco, a fim de lhe oferecer o máximo de emoção por seu dólar, antes de ir para a mesa seguinte.
— Vão nos deixar hoje, não é mesmo? — Ela olhou radiante para os jovens recém-casados, aninhados numa mesa de canto. — Espero que voltem logo.
Ela circulou pela sala, avaliando quando um cliente queria conversar, quando outro queria ser deixado em paz. Como sempre, numa manhã durante a semana, o movimento era mínimo e ela tinha muita oportunidade para representar.
O que queria mesmo era representar para casas lotadas, os grandes teatros de Nova York. Em vez disso, pensou Alice, mantendo firme o sorriso do sol de verão, apresentava-se no papel de uma garçonete, numa casa que nunca mudava, numa ilha que nunca mudava.
Fora sempre a mesma, por centenas de anos, pensou ela. Alice não era uma mulher que apreciasse a história. Para ela, o passado era urna chatice tão insuportável quanto Desire e as poucas famílias que tinham residência ali.
Os Withlock casavam com os Hale ou com os Pendleton com os Verdon. As chamadas Quatro Grandes da ilha. De vez em quando um filho ou uma filha se desviava do curso e casava com alguém do continente. Alguns até se mudavam, mas a grande maioria permanecia, vivendo nos mesmos chalés, geração após geração, acrescentando uns poucos aos residentes permanentes.
Era tudo tão... previsível, pensou Alice, enquanto virava uma folha no bloco de pedidos e olhava radiante para a mesa seguinte.
Sua mãe casara com um homem do continente, e agora os Swan reinavam em Santuário. Eram os Swan que viviam ali, trabalhavam ali, suavam sangue e consumiam seu tempo para manter a casa e proteger a ilha, há mais de trinta anos.
Mas Santuário ainda era e sempre seria a casa dos Pendleton, no alto da colina.
E parecia não haver como escapar.
Ela guardou as gorjetas no bolso e recolheu os pratos sujos. Os olhos se tornaram gelados no instante em que entrou na cozinha. Destilara charme como uma serpente que descarna a pele. Irritava-a ainda mais saber que Emmet era indiferente a seu suplício.
Largou os pratos na pia, pegou o bule de café fresco e voltou à sala.
Há duas horas que servia, removia a louça, arrumava tudo... e sonhava com o lugar em que queria estar.
Broadway! Tinha certeza de que encontraria seu lugar ali. Todos lhe diziam que possuía um talento natural. Claro que isso fora antes de sua partida para Nova York, quando se descobrira a enfrentar centenas de outras jovens a quem haviam dito a mesma coisa.
Alice queria ser uma atriz séria, não uma idiota desmiolada que posava para anúncios de lingerie e se apresentava como atriz-modelo esperava começar por cima. Afinal, tinha inteligência, aparência e talento.
A primeira visão de Manhattan incutira-lhe um senso de propósito e energia. Era como se estivesse à sua espera, pensou ela, enquanto somava a conta para seis pessoas. Muita gente pelas ruas, o barulho, a vitalidade. E as lojas, com suas roupas deslumbrantes nas vitimes, os restaurantes sofisticados, a sensação predominante de que todos tinham alguma coisa para lazer, algum lugar para onde ir às pressas.
Ela também tinha uma coisa para fazer e um lugar para onde ir.
Alugara um apartamento muito caro. Mas não estava disposta a se contentar com um quartinho apertado. Presenteara-se com roupas novas da Bendels e passara um dia inteiro na Elizabeth Arden. Isso consumira uma parte de seu orçamento, mas considerara um investimento. Queria se apresentar da melhor maneira possível nas chamadas para formação de elenco.
O primeiro mês fora um rude despertar depois de outro. Nunca imaginara deparar com tanta concorrência ou com tanto desespero no rosto das pessoas que entravam em fila para uma audição depois de outra.
Recebera algumas propostas... mas a maioria envolvia audições particulares, deitada de costas. Ela tinha muito orgulho e autoconfiança para aceitar isso.
Agora, o orgulho e a autoconfiança — e também, era obrigada a admitir, sua ingenuidade — haviam efetuado o círculo completo.
Mas era apenas temporário, lembrou Alice a si mesma. Em pouco menos de um ano, faria vinte e cinco anos e entraria na posse de sua herança. O que restava. Voltaria para Nova York... e desta vez seria mais esperta, mais cautelosa, mais hábil.
Não estava derrotada, concluiu ela. Apenas tirara uma licença. Ainda viria o dia em que entraria num palco para sentir que todo o amor e a admiração da audiência a envolviam. E nesse dia seria alguém.
Não apenas a filha mais nova de Renne Pendleton Swan.
Ela levou os últimos pratos para a cozinha. Emmet já estava arrumando tudo. Não havia panelas sujas em sua pia, nem manchas e líquidos derramados no balcão. Mesmo sabendo que estava sendo impertinente, Alice virou o pulso para derrubar a xícara em cima da pilha de pratos, derramando o resto de café, antes de bater no chão e se espatifar.
— Essa não! — exclamou ela, com um sorriso malicioso, quando Emmet virou a cabeça.
— Você deve gostar de bancar a tola, baixinha — disse ele, friamente. — É boa nisso.
— É mesmo?
Antes que pudesse se controlar, ela largou o resto da louça. Bateu no chão com o maior estardalhaço, espalhando restos de comida e fragmentos de porcelana por toda parte.
— O que acha disso?
— O que está tentando provar? Que você é tão destrutiva quanto sempre foi? Que sempre virá alguém atrás de você para limpar sua sujeira?
Emmet foi até um closet e pegou uma vassoura.
— Limpe você mesma.
Ele estendeu a vassoura para a irmã.
— Não.
Embora já estivesse arrependida do ato impulsivo, ela empurrou a vassoura de volta. A colorida Fiestaware era como um caleidoscópio de cores a seus pés.
— São seus pratos preciosos. Limpe você mesmo.
— Você vai limpar essa sujeira ou juro que usarei a vassoura em você.
— Pois tente, Emm. — Ela postou-se na sua frente. Saber que errara era apenas um catalisador para fazê-la se manter firme. — Apenas tente e arrancarei seus olhos. Estou cansada de ouvir você me dizer o que fazer. Esta é minha casa tanto quanto é sua.
— Ora, ora, estou vendo que nada mudou por aqui.
Os rostos ainda contraídos em fúria, Emmet e Alice se viraram... e tiveram uma surpresa. Bella estava parada na porta dos fundos, as duas malas a seus pés e a exaustão no olhos.
— Compreendi que estava em casa quando ouvi o estrondo, acompanhado por vozes felizes.
Numa mudança de ânimo abrupta e deliberada, Alice passou o braço pelo de Emmet.
Olhe só, Emm, outra filha pródiga de volta. Espero que ainda reste alguma coisa daquele pernil de bezerro.
— Eu me contento com um café murmurou Bella, fechando a porta.
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Amores agradecimentos para as que estão lendo minha nova fic..... sei que o começo esta um pouco chato, mas vcs tem que conhecer cada um antes de acontecer alguma coisa......
Bom
Bjuxx e não se esqueçam da reviews.........
