Capítulo Quatro
Emmet parou na porta do terraço oeste e estudou a irmã. Ela parecia frágil e nervosa. Parecia de alguma forma perdida entre o sol e as flores. Ainda vestia a calça folgada e o suéter enorme e fino com que chegara, mas acrescentara óculos escuros, de aros redondos. Emmet imaginou que Bella usava aquele tipo de uniforme quando tirava suas fotos, mas no momento servia apenas para reforçar a impressão geral de que era uma inválida.
Mas ela sempre fora a mais durona dos três, recordou Emmet. Mesmo quando criança, insistia em fazer tudo sozinha, encontrar as respostas, resolver os problemas, travar as lutas.
Era destemida, subindo mais alto em qualquer árvore, nadando mais longe depois da arrebentação, correndo mais depressa pela floresta. Apenas para provar que era capaz, refletiu. Parecia-lhe que Bella sempre tinha alguma coisa para provar.
E depois que a mãe fora embora, Bella se mostrara ainda mais determinada a provar que não precisava de ninguém e de nada, a não ser de si mesma.
Mas ela precisava de alguma coisa agora, decidiu Emmet. Ele saiu para o terraço. Não disse nada quando ela virou a cabeça e fitou-o através das lentes escuras. Sentou no balanço, ao lado da irmã, pôs em seu colo o prato que trouxera e disse apenas:
— Coma.
Bella olhou para a galinha assada, a salada de repolho, o biscoito dourado.
— E o almoço especial de hoje?
— A maioria dos hóspedes preferiu sair com lancheira hoje. O dia está muito bonito para comer dentro de casa.
— A prima Sue disse que você tem trabalhado muito.
— Bastante. — Por hábito, ele deu um impulso com o pé e pôs o balanço em movimento. — O que veio fazer aqui, Bella?
— Parecia a coisa certa para fazer na ocasião.
Ela pegou uma coxa de galinha e deu uma mordida. Sentiu o estômago embrulhar, como se decidisse se devia ou não aceitar a comida. Bella persistiu e engoliu, para depois acrescentar:
— Farei a minha parte no trabalho e não vou atrapalhá-lo. Emmet escutou o rangido do balanço por um momento e pensou que precisava pôr um pouco de óleo.
— Não disse que você ia me atrapalhar, pelo que me recordo.
— Então atrapalhar Alice. — Bella deu outra mordida na galinha. Franziu o rosto, olhando para os gerânios rosa que se derramavam pelas beiras de uma jardineira de concreto, com querubins rechonchudos esculpidos. — Pode dizer a ela que não estou aqui para atrapalhar seu estilo.
— Diga você mesma. — Emmet abriu a garrafa térmica que trouxera e despejou a limonada na tampa. — Não quero me intrometer entre vocês duas ou acabarei com o rabo chutado pelos dois lados.
— Pois então fique fora. — Bella sentiu que a cabeça começava a doer, mas pegou a tampa com a limonada e tomou um gole. — Não sei por que ela tem tanto ressentimento de mim.
— Também não posso imaginar. — Emmet falou com a voz arrastada, antes de levantar a garrafa térmica e beber direto. — Você é um sucesso, famosa, com independência financeira, uma estrela em ascensão na sua profissão. Todas as coisas que Alice quer para si mesma.
Ele pegou o biscoito, partiu-o ao meio, entregou metade a Bella, o vapor ainda subindo.
— Não entendo por que isso a deixaria tão irritada.
— Fiz tudo sozinha, por mim mesma. Não trabalhei tanto para chegar a esse ponto só para esnobá-la. — Sem pensar, Bella pôs na boca a metade do biscoito. — Não é minha culpa se ela tem uma fantasia infantil de ver seu nome nos cartazes, as pessoas jogando rosas a seus pés.
— O fato de você considerar infantil não faz com que o desejo seja menos real para ela. — Emmet ergueu a mão antes que a irmã pudesse falar. — E não tenho a menor intenção de ficar no meio. Vocês duas podem esfolar uma à outra quando quiserem. Mas eu diria que neste momento ela pode acabar com você sem sequer suar.
— Não quero brigar com ela — murmurou Bella, cansada. Podia sentir a fragrância da glicínia que se derramava da arcada numa treliça próxima... outra lembrança vivida de sua infância. — Não vim para brigar com ninguém.
— Uma mudança e tanto.
O comentário acarretou uma insinuação de sorriso nos lábios de Bella.
— Talvez eu tenha amolecido.
— Milagres acontecem. Coma a salada de repolho.
— Não me lembro de ser tão mandona.
—Também não era moleza.
Com o que podia passar por uma risada, Bella pegou o garfo e espetou um pouco da salada de repolho.
— Conte o que é novidade por aqui, Emm, e o que continua igual. Traga-me de volta para casa, ela pensou, mas não podia dizer. Traga-me de volta.
— Vamos ver... Jasper Withlock construiu outro quarto no chalé da família.
— Que notícia sensacional! — Bella franziu a testa. — Jasper, aquele garoto magricela, com um cabelo meio comprido. Aquele que vivia se babando por Ali?
— Esse mesmo. Encorpou um pouco e tem a mão firme com o martelo e o serrote. Faz todos os reparos por aqui agora. Ainda é apaixonado por Alice, mas eu diria que agora ele sabe o que fazer em relação a isso.
Bella riu. Sem pensar, pôs mais salada de repolho na boca.
— Ela vai devorá-lo vivo. Emmet deu de ombros.
— Talvez... mas ela vai descobrir que Jasper é mais duro de mastigar do que podia esperar. A garota Sanders, Rachel, ficou noiva de um universitário de Atlanta. Vai se mudar para lá em setembro.
— Rachel Sanders... —Bella tentou projetar uma imagem mental. — Era aquela que só falava ceceando ou a que não parava de soltar risadinhas?
— A garota das risadinhas... tão estridentes que faziam os ouvidos sangrarem.
Satisfeito porque Bella estava comendo, Emmet estendeu o braço pelo encosto do balanço e relaxou.
— A velha Sra. Hale morreu há mais de um ano.
— A velha Sra. Hale... Ela costumava abrir as conchas de ostras em sua varanda, com aquele cachorro preguiçoso dormindo a seus pés, ao lado da cadeira de balanço.
— O cachorro também morreu, pouco depois. Acho que não viu muito sentido em viver sem ela.
— Ela me deixava tirar fotos suas — recordou Bella. — Quando eu era garota e ainda estava aprendendo. Tenho as fotos até hoje. Algumas até que são boas. O Sr. Carlisle ajudou-me a revelá-las. Eu devia ser uma chata, mas ela ficada sentada em sua cadeira de balanço e deixava-me praticar.
Bella recostou-se, acompanhando o ritmo do balanço, tão lento e monótono quanto o ritmo da ilha.
— Espero que tenha sido uma morte rápida e sem dor.
— Ela morreu enquanto dormia, na idade avançada de noventa e seis anos. Não podia ser melhor do que isso.
— Não, não podia. — Bella fechou os olhos, a comida esquecida. — O que aconteceu com o chalé?
— Ficou na família. Os Pendleton haviam comprado a maior parte das terras dos Hale em 1923. Mas ela continuava a possuir a casa e o pequeno terreno ao redor. A neta herdou. — Emmet tornou a levantar a garrafa térmica e desta vez tomou um gole grande da limonada. — Uma médica. Ela abriu uma clínica na ilha.
— Temos uma médica em Desire? — Bella abriu os olhos, alteou as sobrancelhas. — Ora, ora... Muito civilizado. As pessoas costumam procurá-la?
— Parece que sim... pelo menos pouco a pouco. E ela decidiu que não vai mais embora.
— Ela deve ser a primeira nova residente permanente na ilha em... quanto tempo? Dez anos?
— Por aí.
— Não posso imaginar por quê... — A voz de Bella definhou quando lhe ocorreu. — Não é Rosalie, é? Rose Hale? Ela passou alguns verões aqui quando éramos crianças.
— Acho que ela gostou tanto que decidiu voltar.
— Essa não! Rose Hale... e uma médica ainda porcima! — O prazer desabrochou, um sentimento surpreendente, que ela quase não reconheceu. — Éramos amigas e sempre estávamos juntas. Lembro o verão em que o Sr. Carlisle veio tirar fotos da ilha e trouxe a família.
Animou-a pensar a respeito, a jovem amiga de sotaque nortista, com quem partilhara ou imaginara tantas aventuras.
— Você saía com os meninos e não me deixava participar de suas brincadeiras — continuou Bella. — Quando eu não estava importunando o Sr. Carlisle, pedindo para me deixar tirar fotos com sua câmera, saía com Rose e procurava por encrencas. Isso já tem vinte anos, nem menos um dia. Foi no verão em que...
Emmet acenou com a cabeça, enquanto arrematava o pensamento:
— O verão em que mamãe foi embora.
— Tudo parece desfocado... — murmurou Bella, o prazer sumindo de sua voz. — O sol quente, dias compridos, as noites repletas de sons. Todos os rostos.
Ela enfiou os dedos por baixo dos óculos para esfregar os olhos.
— Eu levantava ao amanhecer, para poder acompanhar o Sr. Carlisle. Levava sanduíches de presunto e me refrescava no rio. Mamãe desencavou aquela velha câmera para mim... a Brownie... e eu corria para o chalé da Sra. Hale para tirar fotos. Ficava por lá até que ela mandava que Rose e eu fôssemos embora. Horas e horas se passavam até o pôr-do-sol, quando mamãe nos chamava para jantar.
Bella fechou os olhos, apertando-os com força.
— Tantas e tantas imagens... mas não consigo recordar nenhuma com nitidez. E, de repente, ela foi embora. Acordei uma manhã disposta a fazer todas as coisas que costumava fazer num longo dia de verão... e ela não estava mais ali. E não havia absolutamente nada para fazer.
— O verão acabou — disse Emmet. — Para todos nós.
— E verdade... — As mãos tremiam de novo. Bella tirou o maço de cigarros do bolso. — Costuma pensar nela?
— Por que eu pensaria?
— Nunca especula para onde ela foi? O que ela fez? — Bella deu uma tragada profunda. Em sua mente, podia ver os olhos de pestanas compridas vazios de vida. — Ou por quê?
— Não tem nada a ver comigo. — Emmet levantou-se e pegou o prato. — Nem com você. Ou com qualquer de nós. Já se passaram vinte anos desde aquele verão, Isabela. É um pouco tarde para se preocupar com isso agora.
Ela abriu a boca, mas tornou a fechá-la quando Emmet virou-se e voltou para a casa. Mas sentia-se preocupada com isso agora, pensou Bella. E apavorada.
***
Alice ainda estava furiosa quando subiu as dunas a caminho da praia. Bella voltara, ela tinha certeza, para ostentar seu sucesso e sua vida fascinante. E o fato de ter chegado a Santuário na esteira do fracasso de Alice não parecia ser uma mera coincidência.
Bella bateria as asas e arrulharia em triunfo, enquanto Alice teria de aceitar a humilhação. O pensamento fez seu sangue ferver ao correr através das dunas, a areia voando de suas sandálias.
Não desta vez, ela prometeu a si mesma. Agora manteria a cabeça erguida, se recusaria a ser projetada como inferior diante do último triunfo de Bella, a última viagem, a última maravilha. Não mais assumiria o papel da irmã caçula da grande estrela. Já superara esse papel, assegurou Alice a si mesma. E era tempo de todos compreenderem isso.
Havia várias pessoas espalhadas pelo crescente largo que era a praia. Haviam delimitado seus territórios com toalhas e guarda-sóis coloridos. Ela notou diversas lancheiras listradas de Santuário.
Os cheiros do mar, loções e galinha assada invadiram suas narinas. Um garoto de dois ou três anos jogava areia com uma pá num balde vermelho, enquanto a mãe lia um livro, à sombra de um toldo portátil. Um homem se transformava lentamente numa lagosta ao sol implacável. Dois casais que ela servira naquela manhã partilhavam um piquenique e riam juntos, ouvindo a voz atraente de Annie Lennox pelo rádio portátil.
Ela não queria que aquelas pessoas estivessem ali. Em sua praia, no meio de sua crise pessoal. Para descartá-las, virou-se e afastou-se pela curva da praia.
Avistou-o na água, o brilho nos ombros bronzeados e molhados, os reflexos nos cabelos clareados pelo sol. Jasper era uma criatura de hábitos previsíveis, pensou ela. Invariavelmente ia até a praia para nadar um pouco na hora do almoço. E Alice também sabia que Jasper estava de olho nela.
Ele não guardava segredo de seu interesse... e Alice não era de se ressentir das atenções de um homem atraente. Ainda mais quando precisava que seu ego fosse acariciado. Ela refletiu que um pequeno flerte, com a possibilidade de um sexo sem conseqüências, poderia fazer com que o dia voltasse aos trilhos.
Algumas pessoas diziam que sua mãe tivera um flerte. Alice não tinha idade suficiente para se lembrar de qualquer coisa além de imagens vagas e fragrâncias suaves em relação a Renne, mas acreditava que ela tinha um jeito todo especial para o flerte natural. A mãe gostava de se exibir da melhor forma possível, de sorrir para os homens. E se a teoria de um amante secreto era um fato, Renne fizera mais do que sorrir, pelo menos para um homem.
Ou pelo menos fora isso que a polícia concluíra, depois de meses de investigação.
Alice achava que era boa no sexo; haviam lhe dito isso com bastante freqüência para que considerasse que era uma eficiente habilidade pessoal. Para ela, havia pouca coisa que se comparasse a dissipar a tensão e ser o alvo da atenção total de alguém.
E ela gostava, apreciava todas as sensações intensas e maravilhosas que acompanhavam o ato. Não importava que a maioria dos homens não tinha a menor idéia se uma mulher pensava neles ou no mais recente homem bonito de Hollywood durante o sexo. Desde que ela tivesse um bom desempenho e se lembrasse das palavras certas. Alice considerava-se nascida para representar.
E decidiu que estava na hora de abrir as cortinas de veludo para Jasper Withlock.
Ela largou na areia compacta a toalha que levara. Não tinha a menor dúvida de que ele a observava. Era o que os homens sempre faziam. Como se estivesse no palco, Alice pôs seu coração na performance. Parada perto da beira da água, tirou os óculos escuros e deixou-os cair na toalha, despreocupada. Sem pressa, tirou as sandálias. Pegou a bainha do vestido de verão curto e levantou-o, fazendo com que os movimentos fossem de um lento striptease. O biquíni por baixo era pouco mais que uma tanguinha e o sutiã só cobria os mamilos, como asdançarinas costumavam usar.
Ela largou o vestido de algodão, estendeu os cabelos para trás com as duas mãos, depois se encaminhou para o mar, com o balanço dos quadris de uma sereia.
Jasper deixou que a onda seguinte passasse por cima dele. Sabia que cada movimento e cada gesto de Alice era deliberado. O que não parecia fazer qualquer diferença. Não conseguia desviar os olhos, não podia evitar que seu corpo ficasse tenso e ansioso, enquanto a contemplava, com suas curvas sensuais, o corpo de um dourado pálido, os cabelos despontando para todos os lados.
Enquanto ela andava até o mar, o corpo todo em movimento, Jasper imaginou como seria penetrá-la no ritmo das ondas. Notou que Alice também o observava, os olhos captando o verde do mar, enquanto faiscavam num sorriso.
Ela mergulhou, tornou a se levantar, os cabelos molhados e lustrosos, a água escorrendo na pele. E soltou uma risada alta.
— A água está fria hoje — disse Alice. — E as ondas mais fortes.
— Você não costuma vir à praia até junho.
— Talvez eu quisesse a água fria hoje. — Ela deixou que uma onda a levasse para perto de Jasper. — E as ondas mais fortes.
— O mar estará mais frio e mais forte amanhã. Tem uma chuva chegando.
— Hum... — Alice boiou de costas por um momento, contemplando o céu azul-claro. — Talvez eu volte amanhã.
Ela começou a bater com os pés na água, observando-o. Acostumara-se com os olhos castanho-escuros de Jasper fixos nela, como um cachorrinho, quando eram adolescentes. Eram mais ou menos da mesma idade e haviam sido criados juntos. Mas Alice já notara que ele mudara um pouco durante o ano que ela passara em Nova York.
O rosto afinara e a boca parecia mais firme e mais confiante. As pestanas compridas, que na juventude levavam os outros meninos a zombar dele não pareciam mais femininas. Os cabelos castanho claros eram lisos com mechas alouradas pelo sol. Quando sorriu para Alice, as covinhas — outra praga de sua juventude — destacaram-se nas faces.
— Está vendo alguma coisa interessante? — perguntou ele.
— Talvez. — A voz combinava com o rosto, concluiu Alice. Era adulta e viril. A palpitação em seu estômago era satisfatória... e inesperadamente forte. — É bem possível.
— Imagino que você tenha alguma razão para vir nadar aqui quase nua. Não que eu não aprecie o panorama, mas pode me dizer qual é o motivo? Ou quer que eu adivinhe?
Ela riu, fazendo força contra a correnteza, para manter uma distância provocante entre os dois.
— Talvez eu quisesse apenas me refrescar.
— Foi o que imaginei. — Jasper sorriu também, satisfeito por compreendê-la melhor do que ela jamais poderia conceber. — Ouvi dizer que Bella chegou na barca da manhã.
O sorriso desapareceu do rosto de Alice, os olhos se tornaram frios.
— E daí?
— Você quer descarregar um pouco da tensão? Quer me usar para fazer isso?
Quando ela virou e começou a bater os pés para voltar à praia, Jasper agarrou-a pela cintura.
— Eu a atenderei — acrescentou ele, enquanto Alice tentava se desvencilhar. — Queria mesmo fazer isso há muito tempo.
— Tire as mãos...
O final da exigência perdeu-se num grunhido de surpresa contra a boca de Jasper. Ela nunca pensara que o confiável Jasper Withlock fosse capaz de se mover tão depressa e com tanta determinação.
Também não imaginara que suas mãos eram tão grandes e tão firmes, que sua boca fosse tão... sensual, enquanto ele a beijava, com o gosto do mar nos lábios. Por uma questão de formalidade, ela empurrou-o. Mas anulou o gesto com um pequeno gemido gutural, os lábios se entreabrindo num convite para mais.
Alice era exatamente como ele a imaginara, quente e ansiosa, a gatinha sensual com os lábios macios e úmidos. As fantasias que ele projetara, durante mais de dez anos, desfizeram-se por completo e voltaram a se formar, em cores novas e delirantes, impregnadas de um amor desamparado e uma necessidade desesperada.
Quando ela passou as pernas em torno de sua cintura, balançando o corpo contra o dele, Jasper se perdeu.
— Eu quero você... — Ele interrompeu o beijo para roçar os lábios pelo pescoço de Alice, enquanto as ondas os balançavam, num emaranhado de braços e pernas. — Sabe que sempre a desejei, Alice.
Uma onda passou por cima da cabeça de Alice, deixando-a com um rugido nos ouvidos. O mar puxava-a para o fundo. Sentia-se atordoada. Mas logo se encontrava outra vez ao sol ofuscante, com a boca de Jasper a se fundir com a sua.
— Então tem de ser agora. Neste momento. — Ela ofegava, espantada ao descobrir como sua necessidade era real, intensa, incontrolável. — Aqui mesmo.
Jasper a desejara assim por tanto tempo quanto podia se lembrar. Disposta, ansiosa. Seu corpo pulsava de tanta dor pelo desejo de penetrá-la. Mas sabia que se deixasse essa necessidade prevalecer, poderia possuí-la, mas a perderia no instante seguinte.
Em vez disso, ele baixou as mãos da cintura para apertar e acariciar sua bunda. Usou os polegares para atormentá-la, até que ela ficou com os olhos turvos, sem ver mais nada.
— Tenho esperado, Ali — murmurou ele, para largá-la em seguida. — Você também pode esperar.
Ela teve de fazer um esforço para se manter acima das ondas. cuspiu água enquanto o fitava, aturdida.
— Mas do que está falando?
— Não estou interessado em aliviar sua coceira e depois observá-la se afastar, ronronando. — Ele levantou a mão e empurrou para trás seus cabelos molhados. — Quando estiver preparada sabe onde pode me encontrar.
— Seu filho-da-puta!
— Trate de descarregar sua raiva, meu bem. Conversaremos depois que você tiver tempo para pensar a respeito com calma. — Ele estendeu a mão para segurá-la. — Quando eu fizer amor com você, terá de ser por nós dois. Você também vai querer pensar assim.
Ela empurrou a mão que a apertava.
— Nunca mais toque em mim, Jasper Withlock!
— Farei mais do que tocar em você.
Enquanto ela começava a nadar de volta à praia, Jasper acrescentou, alto o bastante para seus próprios ouvidos:
— Ainda vou casar com você.
Ele deixou escapar um longo suspiro, enquanto a contemplava sair da água.
— A menos que eu me mate primeiro.
Para aliviar a vibração em todo o seu corpo, ele afundou. Mas como o gosto de Alice continuava em sua boca, refletiu que era o homem mais esperto de Desire, ou o mais estúpido.
***
Bella acabara de mobilizar a energia necessária para dar uma volta. Alcançara a beira do jardim quando Alice subiu pelo caminho, furiosa. Não se dera ao trabalho de usar a toalha, e por isso o vestido leve estava grudado na pele. Bella ergueu os ombros, alteou uma sobrancelha.
— Como está a água?
— Vá para o inferno! — Ofegante, ainda atormentada pela humilhação, Alice parou. — Só quero que você vá para o inferno.
— Estou começando a pensar que já cheguei lá. E até agora minha recepção tem sido como eu esperava.
— Por que deveria esperar qualquer coisa? Este lugar nada significa para você... e nenhum de nós tem qualquer importância!
— Como sabe o que significa alguma coisa para mim, Alice?
— Não vejo você arrumando as camas, tirando as mesas. Quando foi a última vez que você limpou um banheiro ou varreu um chão?
— Era isso o que você fazia esta tarde? — Bella correu os olhos das pernas sujas de areia aos cabelos úmidos da irmã. — O banheiro devia estar muito sujo.
— Não tenho de lhe dar explicações.
— O mesmo acontece comigo, Ali.
Quando Bella fez menção de se afastar, Alice agarrou seu braço e sacudiu-o.
— Por que voltou?
0 cansaço dominou Bella de repente, deixando-a com vontade de chorar.
— Não sei. Mas não foi para magoá-la. Não foi para magoar ninguém. E me sinto cansada demais para brigar com você neste momento.
Surpresa, Alice fitou-a nos olhos. A irmã que conhecia até aquele instante teria disparado uma saraivada de palavras, esfolado a adversária com sarcasmo. Nunca tivera conhecimento de qualquer ocasião em que Bella tremesse e recuasse.
— O que aconteceu com você?
— Eu a avisarei quando descobrir. — Bella desvencilhou-se da mão que a segurava. — Por enquanto, deixe-me em paz, e farei a mesma coisa com você.
Ela afastou-se apressada pelo caminho, pegou a curva que seguia pura o mar. Mal olhou para as depressões entre as dunas, com sua vegetação rasteira, não ergueu o rosto para acompanhar o vôo de uma gaivota que soltava gritos estridentes. Precisava pensar, disse a si mesma. Apenas uma ou duas horas para pensar em paz e com sossego. Decidiria o que fazer, como contar aos outros. Se deveria ou não contar.
Poderia falar sobre o colapso? Poderia revelar a alguém que passara duas semanas no hospital porque seus nervos não agüentaram e alguma coisa em sua mente se rompera? Eles se mostrariam compreensivos, ambivalentes ou hostis?
E que importância isso tinha?
Como poderia falar sobre a foto? Por mais que brigasse com todos, eram a sua família. Como podia submetê-los a isso, desencavar todo o sofrimento do passado? E se alguém quisesse ver, ela teria de dizer que a foto sumira.
Como Renne.
Ou nunca existira.
Pensariam que ela enlouquecera.
Poderia contar que passara muitos dias tremendo de medo no apartamento, as portas trancadas, depois que deixara o hospital? Que se descobrira a procurar, frenética, pela foto que provaria que não estava realmente doente?
E que voltara para Santuário porque tivera de aceitar o fato de que estava doente. Que se permanecesse trancada no apartamento por mais um dia sequer, nunca teria encontrado a coragem para sair de novo.
De qualquer forma, a foto era muito nítida em sua mente. A textura, os tons, a composição. A mãe era jovem na foto. E não era sempre assim que Bella a lembrava... jovem? Os cabelos compridos e ondulados, a pele suave? Se tivesse alucinações com a mãe, não a veria sempre com aquela idade?
Quase da mesma idade que ela própria tinha agora, pensou Bella. Era provavelmente outro motivo para todos os sonhos, os medos, o nervosismo. Renne fora tão irrequieta e nervosa quanto a filha era? Existira um amante, no final das contas? Houvera sussurros a respeito, e até mesmo uma criança fora capaz de ouvi-los. Não houvera qualquer insinuação, nenhuma suspeita de infidelidade, antes da deserção. Mas depois os rumores se multiplicaram, as línguas se tornaram incansáveis e implacáveis.
Por outro lado, Renne fora discreta e hábil. Não deixara transparecer qualquer indicação de seus planos de ir embora, mas mesmo assim desaparecera.
O pai não saberia?, especulou Bella. Um homem com certeza sabia se a esposa estava irrequieta, insatisfeita e infeliz. Bella sabia que os dois costumavam discutir sobre a ilha. Teria sido o suficiente para que Renne se sentisse tão infeliz que virara as costas à casa, ao marido e aos filhos? Ele não percebera coisa alguma? Ou já era naquele tempo indiferente aos sentimentos das outras pessoas?
Era muito difícil lembrar se algum dia o pai fora diferente. Mas, com toda certeza, houvera um tempo em que soavam risos naquela casa. Os ecos ainda perduravam em sua mente. Imagens fugazes dos pais se abraçando na cozinha, a mãe rindo, os dois passeando pela praia de mãos dadas.
Havia imagens indistintas, esmaecidas pelo tempo, como se fixadas de maneira imprópria, mas inequívocas. Eram reais. Se ela conseguira apagar tantas recordações da mãe de sua mente, também poderia trazê-las de volta. Talvez assim começasse a compreender.
E, depois, decidiria o que fazer.
O barulho de passos a fez levantar os olhos no mesmo instante. O sol estava por trás dele, deixando-o na sombra. Um boné encobria seus olhos. Os passos eram largos e sem pressa.
Outra imagem há muito esquecida aflorou em sua mente. Viu-se como menina, os cabelos esvoaçando, a correr pelo caminho, rindo, gritando, até dar um salto. E os braços do pai estendiam-se para pegá-la, jogá-la para o alto e depois envolvê-la num abraço apertado.
Bella piscou para apagar a imagem e conter as lágrimas que queriam aflorar. O pai não sorriu. Por mais que se empenhasse em negar, Bella sabia que ele via Renne nela.
Ergueu o queixo e fitou-o nos olhos.
— Olá, papai.
— Isabela...
Ele deu um passo para trás, a fim de avaliá-la. E constatou que Sue tinha razão. A filha parecia mesmo doente, pálida, tensa. Porque não sabia como tocá-la, e de qualquer forma não acreditava que ela recebesse bem o contato, Charlie enfiou as mãos nos bolsos.
- Sue me disse que você estava aqui.
— Cheguei na barca da manhã — disse Bella, mesmo sabendo que a informação era desnecessária.
Por um momento difícil, ficaram imóveis, em silêncio, mais constrangidos do que dois estranhos. Charlie deslocou o peso do corpo de um pé para outro.
— Está com algum problema?
— Apenas resolvi tirar alguns dias de folga.
— Parece esgotada.
— Tenho trabalhado demais.
O rosto franzido, ele olhou deliberadamente para a câmera pendurada no pescoço da filha.
— Não me parece que está tirando uma folga.
Num gesto distraído, ela pôs a mão em concha por baixo da câmera.
— É sempre difícil romper com os hábitos antigos.
— Tem razão. — Charlie deixou escapar um suspiro. — Tem bastante luz no mar hoje e as ondas estão altas. Acho que deve dar boas fotos.
— Vou verificar. Obrigada.
— Não se esqueça de pegar um chapéu na próxima vez. Vai se queimar sem um chapéu.
— É verdade. Não esquecerei.
Charlie não pôde pensar em mais nada para dizer. Por isso, acenou com a cabeça e recomeçou a andar, passando pela filha.
— Cuidado com o sol.
— Pode deixar.
Bella afastou-se apressada. Andava às cegas agora, porque sentira o cheiro da ilha no pai, a fragrância sinistra que partia seu coração.
***
A quilômetros de distancia, à luz vermelha e quente do laboratório, ele enfiou o papel na bandeja com o fluido de revelação. Agradava-o recriar o momento de tantos anos antes, observá-lo se formar no papel, sombra a sombra, linha a linha.
Estava quase concluindo aquela fase. Queria prolongá-la, extrair todo o prazer possível, antes de seguir adiante.
Obrigara-a a voltar para Santuário. O pensamento o fez rir e exultar. Nada poderia ser mais perfeito. Era ali que a queria. Se não fosse por isso, já poderia ter cuidado dela antes, pelo menos meia dúzia de vezes.
Mas tinha de ser perfeito. Ele conhecia a beleza da perfeição e satisfação de trabalhar com todo cuidado para criá-la.
Não Renne, mas a filha dela. Um círculo perfeito fechando-se. Ela seria seu triunfo, sua obra-prima.
Dominá-la, possuí-la, matá-la.
E cada etapa seria registrada em filme. Ah, como Bella apreciaria aquilo! Mal podia esperar para lhe explicar tudo, a única pessoa que ele tinha certeza de que compreenderia sua ambição e sua arte.
O trabalho de Bella o atraía, e o fato de compreendê-lo fazia com que já se sentisse íntimo dela. E se tornariam ainda mais íntimos.
Com um sorriso, ele levou a cópia da bandeja de revelação para o banho de retenção, antes de passar para o fixador. Cautelosamente, verificou a temperatura do líquido. Esperou paciente até o despertador tocar, quando poderia acender a luz branca e examinar a cópia.
Linda, simplesmente linda. Uma composição adorável. Iluminação dramática... um halo perfeito sobre os cabelos, sombras incríveis para delinear o corpo e realçar os tons da pele. E o tema, pensou ele. A perfeição absoluta.
Quando a cópia estava bem fixada, ele tirou-a da bandeja e pôs debaixo da água corrente. Podia agora permitir-se sonhar com o que aconteceria em breve.
Estava mais próximo dela do que nunca, ligado através das fotos que refletiam a vida de cada um. Mal podia esperar para enviar a foto seguinte. Mas sabia que devia escolher o momento com todo cuidado.
Na bancada de trabalho, ao seu lado, havia um velho diário aberto, as letras precisasesmaecidas pelo tempo.
O momento decisivo é o supremo objetivo em meu trabalho. Captar esse evento breve e fugaz, em que todos os elementos, todas as dinâmicas de um alvo, alcançam o auge. E que momento pode ser mais decisivo do que a morte? E quanto controle mais o fotógrafo pode ter sobre esse momento, sobre o registro num filme, do que planejar, preparar e causar essa morte? Este único ato reúne alvo e artista, faz com que ele seja parte da arte, da imagem criada.
Como só matarei uma mulher, como só manipularei um momento decisivo, tenho de escolhê-la com o maior cuidado.
Seu nome é Renne.
Com um suspiro suave, ele pendurou a cópia para secar e acendeu a luz branca para estudá-la melhor.
— Renne... tão linda. E a filha é a sua imagem.
Ele deixou Renne pendurada ali, com seu olhar fixo, e saiu para completar os planos de sua estada em Desire.
