Capítulo Quatro
A barca atravessava o estreito de Pelican seguindo para leste, na direção de Lost Desire. Edward Cullen debruçava-se na amurada, como fizera uma vez antes, quando era um menino de dez anos. Não era a mesma barca e ele não era mais um menino, mas queria reconstituir aquele momento ao máximo possível.
Era um dia fresco, com a brisa que soprava do mar. A fragrância era intensa e misteriosa. Estava mais quente na ocasião anterior, mas também era final de maio, em vez de meados de abril.
Edward recordou como ele, os pais e o irmão caçula haviam se agrupado na amurada de outra barca, ansiosos pelo primeiro vislumbre de Desire e o começo do verão que passariam na ilha.
Ele levantara o binóculo pendurado no pescoço. O pai ajudara-o, naquela manhã do passado distante, a focalizar o vôo rápido de um pica-pau. Seguira-se a briga esperada, porque James pedira o binóculo e Edward não quisera entregá-lo.
Edward recordou a mãe rindo dos dois, o pai se abaixando para fazer cócegas em James, a fim de distraí-lo. Em sua mente, Edward podia contemplar a imagem da família. A mulher bonita, os cabelos esvoaçando de um castanho quase cobre, os olhos verdes faiscando em diversão e excitamento. Os dois meninos, corpulentos e enfezados, discutindo. E o homem, alto e loiro, de olhos azuis, corpo esguio.
Agora, pensou Edward, ele era o único que restava. De alguma forma, crescera para adquirir o corpo do pai. Passara do menino corpulento para um homem de pernas compridas e quadris estreitos. Podia se contemplar num espelho e ver reflexos do rosto do pai na face e, mas tinha a boca da mãe, com arestas bem definidas, e os cabelos castanho-acobreados. O pai dizia que era como mogno envelhecido, e olhos de um verde exotico, que chamava a atenção.
Edward especulou se os filhos seriam mesmo apenas montagens dos pais. E estremeceu ao pensamento.
Sem o binóculo, ele observou a ilha tomar forma. Podia ver as manchas de cores das flores silvestres... rosa e violeta, de tremoços e trevos. Algumas casas eram visíveis, uns poucos trechos de estradas, retos ou sinuosos, o brilho de um rio que desaparecia entre as árvores. O mistério era aumentado pelas sombras da floresta, onde outrora havia porcos e cavalos selvagens, o faiscar dos pântanos, o capim ondulando em reflexos dourados e verdes ao sol da manhã.
Tudo era enevoado pela distância, como um sonho.
E, de repente, ele divisou uma mancha branca numa elevação, o piscar rápido do sol refletido no vidro. Santuário, pensou, e continuou a olhar até que a barca virou na direção do cais e a casa sumiu de sua vista.
Edward deixou a amurada e voltou para o Jeep. Sentado ao volante, tendo apenas o zumbido dos motores da barca por companhia, especulou se não era loucura voltar, explorar o passado, até mesmo repeti-lo, sob alguns aspectos.
Deixara Nova York com tudo o que importava guardado no Jeep. Era surpreendentemente pouco. Mas também nunca tivera uma necessidade arraigada de possuir coisas. O que tornara sua vida mais simples através do divórcio, dois anos antes. Era Tania quem gostava de colecionar coisas, o que poupara ambos de muito tempo e irritação quando propusera que ela levasse tudo o que quisesse do apartamento no West Side.
Deus sabia que ela até exagerara, deixando-o com pouco mais que suas próprias roupas e um colchão.
Esse capítulo de sua vida estava encerrado e há quase dois anos que ele se dedicava a seu trabalho. Projetar prédios era tanto uma paixão quanto uma carreira. Com Nova York servindo apenas como uma base, viajara por todo o país, estudando locais, trabalhando em qualquer lugar em que pudesse armar a prancheta e o computador. Aproveitara a dádiva do tempo para explorar outros prédios, explorar a arte que continham, das grandes catedrais na Itália e França às casas aerodinâmicas do deserto no sudoeste americano.
Era um homem livre, o trabalho a única exigência que havia em seu tempo e coração.
Até que perdera os pais, de maneira súbita e irremediável. E perdera-se também. Agora, perguntava a si mesmo por que sentia que só podia encontrar os pedaços em Desire.
Mas estava decidido a permanecer pelo menos durante seis meses. Considerara um bom sinal o fato de ter conseguido alugar o mesmo chalé em que sua família ficara naquele verão. Sabia que ouviria os ecos de suas vozes, que as escutaria com os ouvidos de um homem. E veria seus fantasmas com os olhos de um homem.
E voltaria a Santuário com o propósito de um homem.
Os filhos de Renne se lembrariam dele?
Descobriria muito em breve, refletiu Edward, quando a barca bateu no cais.
Esperou sua vez, observando os blocos serem removidos dos pneus da picape à frente. Uma família de cinco pessoas, notou Edward, e pelos equipamentos que podia avistar, acamparia na área de camping oferecida pela ilha. Edward sacudiu a cabeça, sem entender por que alguém optava por dormir no chão, dentro de uma barraca, e ainda considerava que isso eram férias.
A claridade diminuiu à medida que as nuvens se aproximaram para cobrir o sol. O rosto franzido, ele notou que chegavam depressa, voando do leste. A chuva podia cair de repente. Podia se lembrar de uma chuva torrencial por três dias seguidos na ocasião anterior em que estivera na ilha. No segundo dia, ele e James já estavam se esganando, como jovens lobos.
A recordação o fez sorrir agora. Não sabia como a mãe fora capaz de aturá-los.
Saiu da barca devagar e pegou a estrada esburacada que partia do cais. Com as janelas do carro abertas, podia ouvir os acordes estrondosos e alegres que saíam do rádio da picape. A família de campistas já começava a se divertir, pensou Edward, com ou sem chuva iminente. Ele estava determinado a seguir o exemplo e aproveitar a manhã.
Teria de enfrentar Santuário, é claro, mas faria isso como um arquiteto. Lembrava que seu núcleo era um glorioso exemplo do estilo colonial, com varandas largas, colunas imponentes, janelas altas e estreitas. Mesmo quando criança, já sentia bastante interesse para notar alguns detalhes.
Gárgulas por cima dos canos de escoamento das calhas, ele recordou, que personalizavam em vez de aviltarem o estilo imponente. Costumava apavorar James ao dizer que as gárgulas adquiriam vida à noite e vagueavam pela floresta.
Havia uma torre cercada por uma varanda de viúva, assim chamada porque as esposas do passado observavam o mar lá de cima, à espera do retorno dos navios de seus maridos. As varandas eram salientes, com balaustradas ornamentadas, de pedra e ferro. As chaminés eram de pedras de tons suaves, trazidas do continente. As madeiras da casa eram de ciprestes e carvalhos locais.
Havia um defumadouro que ainda era usado. A antiga senzala estava em ruínas. Fora ali que Emmett e James haviam encontrado uma cascavel enroscada num canto escuro.
Havia cervos na floresta e aligátores nos pântanos. Sussurros de piratas e fantasmas povoavam o ar. Era um bom lugar para meninos e grandes aventuras. E para segredos sinistros e perigosos.
Ele passou pelo pântano a oeste com seus lodaçais e pequenos agrupamentos de árvores. O vento aumentara de intensidade, fazendo o capim ondular. Na beira do pântano, duas garças brancas postavam-se em patrulha, as pernas compridas na água rasa, parecendo pernas de pau das brincadeiras de criança.
E, depois, a floresta envolveu-o, exuberante e exótica. Edward diminuiu a velocidade, deixando que a picape à sua frente se distanciasse. Ali havia silêncio, segredos sombrios. O coração começou a bater forte, desconfortável, as mãos apertaram o volante com toda força. Era uma coisa que viera enfrentar, dissecar, até compreender.
As sombras eram densas e o musgo pendia das árvores como leias de aranhas monstruosas. Para se testar, ele parou o carro e desligou o motor. Não podia ouvir qualquer coisa além das batidas de seu coração e a voz do vento.
Fantasmas, pensou ele. Teria de procurá-los ali. E quando os encontrasse, o que faria? Deixaria que permanecessem onde vagueavam, noite após noite, ou continuariam a atormentá-lo, murmurando palavras em seu sono?
Veria o rosto da mãe ou o de Renne? Qual das duas choraria mais alto?
Ele deixou escapar um longo suspiro. Descobriu-se a estender a mão para pegar um cigarro, embora tivesse deixado de fumar há mais de um ano. Irritado, virou a chave na ignição, mas obteve apenas um ronco forçado em resposta. Pisou no acelerador e tentou de novo, com o mesmo resultado.
— Merda! — resmungou ele. — Era só o que me faltava.
Edward recostou-se e tamborilou com os dedos no volante, irrequieto. O que tinha de fazer agora, é claro, era saltar e dar uma olhada debaixo do capô. Sabia o que veria. Um motor. Fios, tubos e correias. Edward refletiu que sabia tanto sobre motores, tubos e fios quanto de cirurgia cerebral. E enguiçar numa estrada deserta era justamente o que merecia por se deixar persuadir a comprar o Jeep de segunda mão de um amigo.
Resignado, saltou e levantou o capo. Isso mesmo, o que desconfiava. Um motor. Ele inclinou-se, mexeu aqui e ali e sentiu a primeira gota de chuva cair em suas costas. — Agora ficou ainda pior!
Ele enfiou as mãos nos bolsos da frente dos jeans, a cara amarrada, enquanto a chuva caía em sua cabeça.
Devia ter imaginado que havia algum problema quando o amigo, jovial, entregara uma caixa de ferramentas junto com o Jeep. Edward pensou em pegar a caixa para bater no motor com uma chave qualquer. Era improvável que desse certo, mas pelo menos seria satisfatório.
Ele recuou... e ficou paralisado quando o fantasma saiu das sombras da floresta para observá-lo. Renne.
O nome aflorou em sua mente e ele sentiu que tudo por dentro se contraía em defesa. Ela parou na chuva, imóvel como uma corça, os cabelos castanhos molhados e emaranhados, os olhos como chocolate derretido quietos e tristes. Os joelhos de Edward ameaçaram ceder e ele teve de estender a mão para se apoiar no pára-lama.
E depois ela se moveu, empurrando os cabelos molhados para trás. Começou a avançar em sua direção. Edward compreendeu que não era um fantasma, mas uma mulher. Não era Renne, mas com certeza era a filha dela.
Ele deixou escapar o ar que vinha prendendo nos pulmões até o coração se acalmar.
— Problemas com o carro? — Bella tentou imprimir um tom jovial à voz. A maneira com que ele a fitava fazia com que sentisse vontade de ter permanecido entre as árvores, deixando-o se virar sozinho. — Presumo que não está parado aqui, no meio da chuva, apenas para apreciar a vista.
— Não, não estou. — Ele ficou satisfeito porque sua voz soava normal. Se havia uma sugestão de nervosismo, a situação era causa suficiente para explicar. — O carro não quer pegar.
— Isso é um problema. — O homem parecia vagamente familiar, pensou Bella. Um bom rosto, forte, ossos proeminentes, viril, aquela cor de cabelo espetacular e aqueles olhos de um verde especial. Se ela tivesse inclinação por retratos, ele seria um bom tema. — Já descobriu o defeito?
Ela tinha uma voz suave, como mel sobre creme, com um fascinante sotaque sulista.
— Descobri o motor. — Edward sorriu. — Bem no lugar em que eu desconfiava que estaria.
— Ahn... E agora?
— Estou decidindo por quanto tempo devo olhar, como se soubesse o que procurar, antes de sair da chuva.
— Não sabe consertar seu carro? — perguntou ela, com uma surpresa tão óbvia que Edward ficou irritado.
— Não, não sei. Também tenho sapatos e não faço a menor idéia de como se curte o couro.
Ele começou a fechar o capô, mas Bella estendeu a mão para mantê-lo aberto.
— Darei uma olhada.
— Você é mecânica?
— Não, mas conheço o básico. — Ela empurrou-o para o lado com o antebraço. Verificou primeiro as conexões da bateria. — Parece que isto está em ordem, mas terá de se preocupar com a corrosão, se pretende passar algum tempo em Desire.
— Cerca de seis meses. — Ele inclinou-se ao lado de Bella. — Com que devo me preocupar?
— Isto. A maresia pode ser terrível para os motores. Você está me atrapalhando.
— Desculpe. — Edward mudou de posição. Obviamente, ela não se lembrava dele, e Edward decidiu que fingiria que também não se lembrava dela. — Você mora na ilha?
— Não moro mais.
Para evitar que a câmera batesse no Jeep, Bella transferiu-a para as costas.
Edward olhou para a câmera. Era uma Nikon, do tipo mais moderno e sofisticado. Compacta, mais discreta, mais resistente do que outros modelos, era muitas vezes uma escolha profissional. O pai tivera uma. Ele também tinha.
— Estava tirando fotos na chuva?
— Não chovia quando saí — disse ela, distraída. — Terá de trocar a correia do ventilador muito em breve, mas não é esse seu problema agora.
Bella empertigou-se. Parecia indiferente ao aguaceiro.
— Tente fazer o carro pegar, para que eu possa ouvir o som.
— Você é quem manda.
Bella contraiu os lábios enquanto ele voltava a sentar ao volante. Não havia a menor dúvida de que o ego masculino fora abalado. Ela inclinou a cabeça para o lado ao ouvir o barulho do motor. Tornou a se inclinar por baixo do capo.
— Vire de novo! — gritou ela, murmurando em seguida, para si mesma: — Carburador.
— Como?
— Carburador. — Ela abriu a pequena tampa de metal com o polegar. — Vire outra vez.
O motor pegou agora. Com um aceno de cabeça satisfeito,Bella fechou o capo e deu a volta para a janela do motorista.
— O carburador está fechando. Terá de mandar verificar. De qualquer forma, pelo barulho do motor, precisa mesmo de uma regulagem. Quando fez a última revisão?
— Comprei o Jeep há duas semanas. De um ex-amigo.
— Sempre um erro. Mas deve levá-lo agora ao lugar para onde está indo.
Quando ela começou a recuar, Edward inclinou-se pela janela para pegar sua mão. Notou que era estreita, comprida, ao mesmo tempo elegante e competente.
— Quero lhe dar uma carona. Está chovendo muito e é o mínimo queposso fazer.
— Não precisa. Posso...
— Posso enguiçar de novo. — Ele ofereceu um sorriso, encantador, espontâneo e persuasivo. — E com quem poderia contar para consertar 0 carburador?
Era uma tolice recusar, Bella sabia. E ainda mais tolo sentir-se acuada só porque ele pegara sua mão. Ela deu de ombros.
— Está bem.
Bella retirou a mão e ficou satisfeita quando ele a soltou no mesmo instante. Ela contornou o Jeep apressada e sentou no banco do passageiro, encharcada.
— O interior está em boas condições.
— Meu ex-amigo me conhece muito bem. — Edward ligou os limpadores do pára-brisa e olhou para Bella. — Para onde vamos?
— Continue por esta estrada e vire à direita na primeira bifurcação. Santuário não fica longe... mas também não há nada longe em Desire.
— Isso é ótimo. Também estou indo para Santuário.
— É mesmo?
O ar ali dentro era denso e opressivo. A chuva forte parecia isola-los do resto do mundo, encobrindo as árvores, abafando todos os sons. O que era razão suficiente para se sentir desconfortável, disse Bella a si mesma. E ficou bastante irritada com sua reação.
Inclinou a cabeça para o lado, fitou-o nos olhos e perguntou:
— Vai ficar na casa-grande?
— Não. Vou apenas pegar as chaves do chalé que aluguei.
— Disse que vai passar seis meses aqui? — Jo sentiu-se aliviada quando ele deu a partida, pois fez com que desviasse dela aqueles olhos verdes intensos para concentra-los na estrada. — São férias bastante longas.
— Trouxe trabalho comigo. Queria uma mudança de cenário durante algum tempo.
— Desire fica muito longe de casa. — Bella deu um pequeno sorriso quando ele a fitou. — Qualquer pessoa da Geórgia é capaz de reconhecer um ianque. Mesmo quando permanecem de boca fechada, dá para perceber pela maneira diferente com que se movem.
Ela empurrou os cabelos molhados para trás. Se tivesse continuado a pé, pensou, seria poupada da conversa. Mas até mesmo a obrigação de conversar era melhor do que o silêncio da chuva torrencial.
— Vai ficar no Little Desire Cottage, à beira do rio.
— Como sabe?
— Todo mundo por aqui sabe de tudo. Mas minha família aluga os chalés, administra a pousada e o restaurante. E por acaso fui designada para cuidar de Little Desire. Ontem mesmo levei roupa de cama e todo o resto para o ianque que chegaria hoje para passar seis meses.
— Portanto, você é minha mecânica, senhoria e governanta. Quem eu devo chamar se minha pia entupir?
— Basta abrir o armário e pegar o desentupidor. Se precisar de instruções para o uso, posso escrevê-las. Ali está a bifurcação.
Edward virou à direita e começou a subir.
— Vamos tentar de novo. Se eu quisesse grelhar dois filés, abrir uma garrafa de vinho e convidá-la para jantar, a quem deveria chamar?
Bella virou a cabeça, com um olhar frio.
— Terá melhor sorte com minha irmã. O nome dela é Alice.
— Ela sabe consertar carburadores?
Com uma meia-risada, Bella sacudiu a cabeça.
— Não. Mas ela é muito decorativa e gosta de convites de homens.
— E você não gosta?
— Digamos apenas que sou mais seletiva do que Al.
— Ai! — Assoviando, Edward ergueu a mão para massagear o coração. — Acertou em cheio.
— Estou apenas nos poupando de algum tempo perdido. Lá está Santuário.
Ele observou a casa surgir através da cortina de chuva, como se flutuasse na neblina que envolvia sua base. Era antiga e imponente, tão elegante quanto uma beldade sulista do passado vestida para um baile. Era definitivamente feminina, pensou Edward, com aquelas linhas suaves, em seu branco virginal. As janelas altas eram amenizadas por remates em arcada. Grades de ferro ornamentadas adornavam as sacadas, onde flores desabrochavam em vasos vermelhos de argila.
Os jardins cintilavam, as flores se curvavam, pesadas da chuva, como fadas em reverência.
— Deslumbrante... — murmurou Edward meio para si mesmo. — Os acréscimos mais recentes misturam-se de uma maneira perfeita com a estrutura original. Realçam em vez de modernizar. É uma harmonia magistral de estilos, o sulista clássico sem ser típico. Não poderia ser mais perfeita se a ilha fosse projetada para a casa, em vez do contrário.
Edward parou ao final do caminho, antes de notar que Bella o fitava fixamente. Pela primeira vez, havia curiosidade em seus olhos.
— Sou arquiteto — explicou ele. — Construções como esta me deixam fascinado.
— Neste caso, provavelmente vai querer fazer uma excursão pelo interior.
— Eu adoraria... e lhe deveria pelo menos um jantar de filé por isso.
— Vai querer minha prima Sue como cicerone. Ela é uma Pendleton. — Bella abriu a porta do Jeep. — Santuário veio para nós através dos Pendleton. Ela conhece a casa melhor do que eu. Vamos entrar. Você pode se enxugar e pegar as chaves.
Ela subiu os degraus apressada. Parou na varanda, para sacudir a cabeça e espalhar a água da chuva. E esperou que Edward ficasse ao seu lado.
— Jesus, olhe só para esta porta!
Reverente, Edward passou as pontas dos dedos pela madeira esculpida. Era estranho que tivesse esquecido, pensou. Mas também costumava passar correndo pela porta de tela na varanda dos fundos e atravessar a cozinha.
— Mogno hondurenho — informou Bella. — Importado no início do século XIX, muito antes de começar a preocupação com o desmatamento das florestas tropicais. Mas é linda.
Ela virou a pesada maçaneta de latão e entrou com ele em Sanctuary.
— Os assoalhos são do pinho mais duro. — Bella bloqueou uma imagem espontânea da mãe encerando pacientemente aqueles assoalhos. — O que também acontece com a escada principal. A balaustrada é de carvalho, fabricada e entalhada aqui mesmo, em Desire, no tempo em que havia uma plantação do algodão de fibras longas conhecido como Sea Island. O lustre é mais recente, um acréscimo comprado na França pela esposa de Stewart Pendleton, o magnata da navegação que reconstruiu a casa principal e fez as alas. Muitos móveis foram perdidos durante a Guerra Civil, mas Stewart e a esposa viajaram bastante e compraram as antigüidades que mais gostavam e mais combinavam com Santuário.
— Ele tinha um bom olho — comentou Edward, correndo os olhos pelo vestíbulo de teto alto, com uma escada reluzente, uma intensa claridade.
— E um bolso amplo — acrescentou Bella.
Ela disse a si mesma para ser paciente, esperar onde estava, deixá-lo vaguear pelo vestíbulo.
As paredes eram de um amarelo-claro suave, que proporcionavam a ilusão de frescura durante as tardes terrivelmente quentes do verão. Eram rematadas com madeira escura, que acrescentavam uma riqueza excepcional ao conjunto. Havia sancas esculpidas ao longo do leio alto.
Os móveis ali eram pesados e grandes na escala, como convinha a uma entrada imponente. Duas cadeiras de braços George II, com o encosto em forma de concha, ladeavam uma mesa hexagonal em que havia uma urna de latão com lírios e flores silvestres perfumando o ambiente.
Embora não colecionasse antigüidades — nem qualquer outra coisa, diga-se de passagem — Edward era um homem que estudava todos os aspectos de casas e prédios, inclusive o que havia dentro. Reconheceu o armário flamengo em carvalho esculpido, o espelho de corpo inteiro em madeira dourada, sobre um suporte marchetado, a delicadeza do Queen Anne e a opulência do Luís XIV. E considerou que a mistura de épocas e estilos era inspirada.
— Incrível... — As mãos nos bolsos de trás dos jeans, ele virou-se para Bella. — Eu diria que é um lugar infernal para morar.
— Sob mais de um aspecto.
A voz era seca e só um pouco amarga. Edward alteou uma sobrancelha, curioso, mas ela não acrescentou nenhuma explicação.
Limitou-se a informar:
— Mantemos a recepção na sala da frente.
Ela seguiu pelo corredor e entrou na primeira sala à direita. Alguém acendera o fogo na lareira ali, provavelmente na expectativa da chegada do ianque, e para manter a animação dos hóspedes, presos dentro da pousada num dia chuvoso, se por acaso entrassem na sala.
Bella foi até uma escrivaninha Chippendale enorme e antiga. Abriu a gaveta de cima e tirou os formulários de aluguel dos chalés. Lá em cima, na ala da família, havia um escritório com móveis modernos, inclusive um computador, cujo manejo Sue ainda se esforçava para dominar. Mas os hóspedes nunca eram submetidos a esses detalhes burocráticos corriqueiros.
— Little Desire Cottage — disse Bella, pegando o contrato de locação.
Ela notou que já estava carimbado, com o aviso do recebimento de depósito, e assinado por Sue e um certo Edward Cullen.
Bella largou o contrato e abriu outra gaveta para tirar as chaves, presas por um clipe em que estava escrito o nome do chalé.
— Esta chave serve para as portas da frente e dos fundos. A menor é de um depósito por baixo do chalé. Eu não guardaria nada importante ali se fosse você. Tão perto do rio, há um risco permanente de inundação.
— Não esquecerei.
— Providenciei ontem a instalação do telefone. Todas as ligações serão cobradas diretamente do chalé e acrescentadas em sua conta mensal. — Ela abriu outra gaveta e tirou uma pasta fina. — Encontrará aqui as informações e respostas habituais. Horários da barca, informações sobre a maré, como alugar um barco ou equipamento de pesca, se quiser. Há um folheto que descreve a ilha... história, fauna, flora... Por que está me olhando desse jeito?
— Tem olhos deslumbrantes. E difícil deixar de contemplá-los. Bella estendeu a pasta para ele.
— Seria melhor se olhasse para o que tem aqui.
— Está bem. — Edward abriu a pasta e começou a folhear. — E sempre nervosa assim ou é por minha causa?
— Não estou nervosa, mas impaciente. Tem alguma pergunta a fazer... relacionada com o chalé ou com a ilha?
— Eu a avisarei se tiver.
— As instruções para chegar ao chalé estão na pasta. Se rubricar o contrato aqui, para confirmar o recebimento das chaves e instruções, pode ir para lá.
Edward sorriu de novo, intrigado pela rapidez com que a hospitalidade sulista definhava.
— Não quero exigir demais da recepção — disse ele, pegando a caneta estendida por Bella. — Já que tenciono voltar.
— O café da manhã, almoço e jantar são servidos na sala de jantar da pousada. Os horários também estão indicados na pasta. Há lancheiras disponíveis para piqueniques.
Quanto mais ela falava, mais Edward gostava de ouvir sua voz. Ela recendia a chuva e nada mais... e parecia, quando se fitavam aqueles adoráveis olhos chocolates, tão tristes quanto um passarinho com a asa partida.
— Você gosta de piqueniques? — perguntou ele.
Ela soltou um longo suspiro, arrebatou a caneta de volta e rabiscou suas iniciais por baixo da rubrica dele.
— Está perdendo seu tempo ao flertar comigo, Sr. Cullen. Não tenho o menor interesse.
— Qualquer mulher sensata sabe que uma declaração como essa só pode ser um desafio.
Ele inclinou-se para ler as iniciais, "I.M.S".
— Isabela Marie Swan — informou ela, na expectativa de assim despachá-lo mais depressa.
— Foi um prazer ser salvo por você, Isabela. Ele estendeu a mão, achando engraçado quando ela hesitou antes de apertá-la.
— Fale com Zeke Hale sobre a regulagem. Ele deixará seu Jeep em perfeitas condições. Espero que aprecie sua estada em Desire.
— Já começou de uma maneira muito melhor do que eu esperava.
— Neste caso, suas expectativas devem ser mínimas. Bella retirou a mão e acompanhou-o até a porta da frente.
— A chuva parou — comentou ela ao abrir a porta para o ar úmido e a neblina. — Não deverá ter qualquer dificuldade para encontrar o chalé.
— Tenho certeza de que não haverá qualquer problema. — Ele se lembrava perfeitamente do caminho. —Tornaremos a nos ver, Isabela.
Tinha de ser assim, por vários motivos.
Ela inclinou a cabeça e fechou a porta sem fazer barulho. Deixou-o parado ali, especulando o que fazer em seguida.
Oi kinha que bom que esta gostando..... bom o ed apareceu........ vai ter muito suspense nessa fic...... eu amuhhhhhhhhh.... espero que vcs tbm gostem.....
