Capítulo Cinco
Em seu terceiro dia em Desire, Edward acordou em pânico. O coração batia forte, a respiração era curta e estrangulada, a pele gelada de suor. Levantou-se da cama de um pulo, os punhos cerrados, os olhos vasculhando as sombras escuras do quarto.
Um sol fraco infiltrava-se pelas ripas das venezianas, projetando uma gaiola no tapete cinza.
A mente permaneceu em branco por um momento angustiante, acuada por trás das imagens que a povoavam. Árvores iluminadas pelo luar, dedos de nevoeiro, o corpo nu de uma mulher, os cabelos escuros espalhados, os olhos arregalados e vidrados.
Fantasmas, ele disse a si mesmo, enquanto esfregava o rosto com força, usando as duas mãos. Já os esperava... e não o haviam desapontado. Apegavam-se a Desire como o musgo aderia a um carvalho.
Ele afastou-se da cama e deliberadamente — como uma criança assumindo o desafio de caminhar pelas rachaduras na calçada — passou pelas barras que o sol criava. No banheiro estreito, entrou na banheira branca, fechou as cortinas listradas e abriu a água quente do chuveiro. Lavou o suor do corpo, imaginando o pânico como um nevoeiro vermelho-escuro que turbilhonava na água e desaparecia pelo ralo.
Havia uma densa nuvem de vapor no banheiro quando ele terminou o banho e começou a se enxugar. Mas a mente estava lúcida de novo.
Vestiu um blusão velho, as mangas curtas esfiapadas e um short que usava na academia. Com a barba por fazer e os cabelos ainda molhados, foi até a cozinha, a fim de esquentar água para um café solúvel. Olhou ao redor. Franziu o rosto para o bule e o coador fornecidos pela pousada. Mesmo que adivinhasse as medidas certas, não se lembrara de trazer filtros de papel.
Naquele momento, seria capaz de pagar mil dólares por uma cafeteira. Pôs a chaleira na boca da frente de um fogão que era mais velho do que ele. Foi até a área de estar da sala grande, a fim de ligar a televisão no noticiário da manhã. A recepção era péssima e as opções, mínimas.
Não havia cafeteira, não havia pay-per-view, pensou Edward, enquanto sintonizava no noticiário da manhã de um dos três canais abertos disponíveis. Lembrou como ele e James haviam lamentado a falta da diversão pela televisão.
Como poderemos assistir a "O homem de seis milhões de dólares" nesta coisa estúpida? E uma tragédia!
Vocês não estão aqui para ficar de olhos grudados na tela da televisão.
Ah, mamãe!
Tinha a impressão de que o esquema de cores era diferente. Havia uma vaga recordação de cores pastéis nas poltronas largas e no sofá de encosto reto. Agora, estavam cobertos por padrões geométricos, em verdes e azuis profundos, amarelos ensolarados.
O ventilador que pendia do centro do teto rangia alto naquele tempo. Agora, ele sabia por que se sentira compelido a puxar o cordão que o acionava, o ventilador funcionava com um suave zumbido das pás.
Mas era a mesma mesa amarela de pinho que separava as áreas no chalé. Era naquela mesa que a família se reunia para comer, empenhar-se em jogos de tabuleiro, ocupar-se com os mais complicados quebra-cabeças durante aquele verão.
A mesma mesa que ele e James tinham de limpar depois do jantar. A mesa em que o pai permanecia por um longo tempo, em algumas manhãs, tomando café.
Ainda lembrava quando o pai ensinara a ele e a James como abrir buracos na tampa de um pote para pegar vaga-lumes. Era uma noite quente e agradável e a caçada fora inebriante. Edward recordou agora como o pote ao lado da cama faiscava e luzia, faiscava e luzia, embalando-o para o sono.
Mas pela manhã todos os vagalumes dentro do pote estavam mortos, sufocados, pois o livro por cima da tampa tapara todos os buracos. Ainda não podia se lembrar de ter posto o livro ali, aquele velho exemplar de Johnny Tremaine. Os corpos escuros no fundo do pote deixaram-no angustiado, com um sentimento de culpa. Saíra do chalé sem falar com ninguém e fora jogá-los no rio.
E não voltara a caçar vaga-lumes naquele verão.
Irritado com a recordação, Edward afastou-se da televisão. Voltou ao fogão para despejar a água fumegando sobre uma colher de café solúvel. Levou a caneca para a varanda cercada de tela, a fim de contemplar o rio.
Era inevitável que as lembranças aflorassem agora que estava ali, disse a si mesmo. Fora por isso que viera. Para lembrar aquele verão, passo a passo, dia a dia. E para descobrir o que fazer com os Swan.
Ele tomou um gole do café e estremeceu um pouco com um gosto falso e amargo. Descobrira que muita coisa na vida era falsa e amarga. Por isso, tomou outro gole.
Isabela Marie Swan... Lembrava-se dela como uma garota magricela, cotovelos pontudos, uma trança desleixada e um temperamento estourado. Não tinha muito interesse por garotas aos dez anos de idade e por isso lhe dispensara pouca atenção. Ela era apenas uma das irmãs de Emmett.
Ainda era, pensou Edward. E ainda era magricela. E, ao que tudo indicava, seu temperamento ainda era o mesmo. A trança meio solta desaparecera. Os cabelos mais compridos combinavam com sua personalidade, se não mesmo com seu rosto. A negligência do corte, a indiferença à moda.
Ele especulou por que Isabela se mostrava tão pálida e cansada. Não parecia ser do tipo que definhava por uma paixão ou relacionamento rompido, mas alguma coisa a fazia sofrer. Seus olhos transbordavam de pesares e segredos.
E era justamente esse o problema, pensou Edward, com uma meia-risada. Ele tinha uma fraqueza por mulheres de olhos tristes.
E melhor resistir, disse a si mesmo. Imaginar o que estaria acontecendo por trás daqueles olhos chocolates, enormes e tristes não podia deixar de interferir com seu propósito. O que precisava agora era de tempo e objetividade, antes de dar o próximo passo.
Tomou mais um gole do café. Disse a si mesmo que se vestiria dali a pouco e iria para Santuário, onde tomaria um café decente e comeria alguma coisa. Era tempo de voltar, observar e planejar. Era tempo de evocar mais fantasmas.
Mas, por enquanto, queria apenas ficar parado ali, olhar através da tela fina, sentir o ar úmido, contemplar o sol a dissolver lentamente a neblina perolada que aderia ao solo e deslizava sobre o rio como asas de fadas.
Poderia ouvir o mar se prestasse atenção, um rumor baixo e incessante a leste. Mais perto, podia escutar os cantos dos passarinhos, as monótonas batidas de um pica-pau caçando insetos em algum lugar nas sombras da floresta. O orvalho faiscava como cacos de vidro nas folhas das palmeiras. Não havia vento para agitá-las e lazer com que chocalhassem.
Quem escolhera o lugar para aquele chalé, pensou Edward, sabia o que fazia. Era um hino à solidão, oferecia vista e privacidade. A estrutura era simples e funcional. Uma caixa de cedro curtido pelo tempo, sobre estacas, uma varanda com tela no lado oeste, um deque estreito e aberto no leste. Dentro, o cômodo principal tinha o teto alto, para aumentar o espaço e a sensação de abertura. Em cada extremidade havia dois quartos e um banheiro.
Ele e James tinham um quarto cada um. Como o mais velho, Edward reivindicara o quarto maior. A cama de casal fizera com que se sentisse crescido e superior. Pendurara um cartaz na porta: Por Favor, Bata Antes de Entrar.
Gostava de ficar acordado até tarde, lendo seus livros, absorvido em seus pensamentos, escutando o murmúrio das vozes dos pais ou o zumbido da televisão. Gostava de ouvi-los rir de alguma coisa a que assistiam.
A risada rápida da mãe, a gargalhada profunda do pai. Ouvira esses sons com freqüência ao longo de sua infância. E lamentava porque nunca mais os ouviria.
Um movimento atraiu sua atenção. Edward virou a cabeça. Onde esperava um cervo, avistou um homem, esgueirando-se pela margem do rio, como a neblina. Era alto e magro, os cabelos escuros como fuligem.
Porque sua garganta ficou ressequida, Edward forçou-se a levantar a caneca e tomar outro gole. Continuou a observar, enquanto o homem se aproximava, os raios de sol inclinados iluminando seu rosto.
Não era Charlie Swan, compreendeu Edward, enquanto um princípio de sorriso contraía seus lábios. Emmett. Vinte anos haviam feito com que ambos se tornassem homens.
Emmett levantou os olhos, contraiu-os, focalizou o vulto por trás da tela. Esquecera que o chalé estava ocupado agora. Fez a anotação mental de se lembrar de dar suas caminhadas pelo lado oposto do rio. Ele ergueu a mão.
— Bom-dia. Não queria incomodá-lo.
— Não incomodou. Eu estava apenas tomando um café horrível e contemplando o rio.
O ianque, Emmett recordou, uma locação de seis meses. Quase podia ouvir Sue lhe dizendo para ser polido, sociável.
— É um bom lugar. — Emmett enfiou as mãos nos bolsos, irritado por ter inadvertidamente sabotado a própria solidão. — Já se acomodou direito no chalé?
— Já sim. — Edward hesitou, mas depois deu o passo seguinte: — Você ainda caça o Garanhão Fantasma?
Emmett piscou, aturdido. Inclinou a cabeça para o lado. O Garanhão Fantasma era uma lenda que vinha dos dias em que cavalos selvagens vagueavam pela ilha. Diziam que o maior de todos, um enorme garanhão preto, de velocidade incomparável, ainda corria pela floresta. Quem o pegasse, saltasse em seu dorso e partisse a galope teria todos os seus desejos concedidos.
Ao longo da infância, a ambição mais profunda de Emmett fora a de capturar e cavalgar o Garanhão Fantasma.
— Ainda mantenho os olhos bem abertos à procura. — Emmett aproximou-se. — Eu conheço você?
— Acampamos uma noite no outro lado do rio, numa barraca para duas pessoas, toda remendada, com um cabresto de corda, duas lanternas e um pacote de Fritas. Pensamos ter ouvido o barulho de cascos de cavalo e um relincho alto e selvagem. — Edward sorriu. — Talvez fosse verdade.
Emmett arregalou os olhos, as sombras que havia neles se dissiparam.
— Ed? Edward Cullen? Seu filho-da-puta! Emmett subiu os degraus para a varanda, sorrindo.
— Deveria ter me avisado que viria, que estava aqui. — Emmett apertou a mão de Edward. — Minha prima Sue cuida dos chalés. Puxa, Ed, você parece um náufrago.
Com um sorriso pesaroso, Edward passou a mão pela barba por fazer no queixo.
— Estou de férias.
— Ora, ora, é uma surpresa e tanto. Ed Cullen... — Emmett sacudiu a cabeça. — O que andou fazendo durante todos esses anos? Como está James? E seus pais?
O sorriso vacilou.
— Eu lhe contarei depois. — Só algumas coisas, pensou Edward. — Primeiro, vamos tomar aquele café horrível.
— Nada disso. Vamos para Santuário. Providenciarei um café decente. E alguma coisa para comer.
— Está bem. Espere só um instante, enquanto eu ponho uma calça e sapatos.
— Não posso acreditar que você seja nosso ianque — comentou Emmett, enquanto Edward se virava para entrar no chalé. — Isso me leva de volta ao passado.
Edward olhou para trás por um instante.
— A mim também.
***
Pouco tempo depois, Edward sentava junto do Balcão da cozinha de Santuário, respirando os aromas divinos de café sendo preparado e bacon frito. Observou Emmett cortar, com a maior habilidade, cogumelos e pimentões, para fazer uma omelete.
— Parece que você sabe o que faz.
— Não leu o folheto? Minha cozinha tem uma classificação de cinco estrelas. — Emmett estendeu uma caneca com café para baixo do nariz de Edward. — Beba e exulte.
Edward tomou um gole. Fechou os olhos, em prazer agradecido.
— Tenho bebido borra de café nos dois últimos dias, o que pode estar me influenciando, mas eu diria que este é o melhor café que já foi feito no mundo civilizado.
— Claro que é. Por que não veio tomá-lo aqui antes?
— Estava me orientando, aprendendo a ser preguiçoso. — Retomando o contato com fantasmas, pensou Edward. — Mas agora que provei este café, passarei a ser um freqüentador habitual.
Emmett despejou os cogumelos e pimentões numa frigideira para dourar, depois começou a ralar o queijo.
— Espere só até provar minha omelete. Mas o que você faz? Ficou tão rico e independente que pode passar seis meses na praia?
Trouxe trabalho comigo. Sou arquiteto. Enquanto tiver minha prancheta e meu computador, posso trabalhar em qualquer lugar.
— Um arquiteto... — Emmett encostou-se no balcão, batendo os ovos. — Você é bom?
— Aposto meus projetos contra seu café qualquer dia.
— Meus parabéns!
Emmett tornou a se virar para o fogão, rindo. Com a facilidade da experiência, ele despejou a mistura da omelete, pôs o bacon para escorrer e verificou os biscoitos no forno.
— Como está James? Ficou rico e famoso como queria?
Era um golpe, duro e rápido, no centro do coração. Edward largou a caneca no balcão e esperou que as mãos e a voz firmassem.
— Ele trabalhava para isso, Emmett, mas morreu... há poucos meses.
— Jesus, Ed! — Chocado, Emmett virou-se. — Sinto muito.
— Ele estava na Europa. Viveu mais ou menos por lá durante os últimos anos. Aconteceu num iate, em alguma festa. James gostava de listas. — Edward esfregava a têmpora enquanto falava. — Faziam um cruzeiro pelo Mediterrâneo. O veredito foi de que ele devia ter bebido demais e caiu no mar. Talvez tenha batido com a cabeça. O corpo não foi encontrado.
— Uma coisa terrível. Sinto muito. — Emmett tornou a se virar para a frigideira. — Perder alguém da família arranca um pedaço da pessoa.
— É verdade. — Edward respirou fundo. — Aconteceu poucas semanas depois que meus pais morreram. Num desastre de trem na América do Sul. Papai estava lá a trabalho. Desde que James e eu fomos para a universidade, mamãe costumava acompanhá-lo nas viagens. E costumava dizer que isso fazia com que se sentissem recém-casados durante todo o tempo.
— Não sei o que dizer, Nate.
— Não precisa dizer nada. — Edward deu de ombros. — Você sobrevive. Acho que mamãe ficaria perdida sem papai, e não sei como os dois reagiriam à perda de James. Você tem de refletir que tudo acontece por um motivo e assim consegue sobreviver.
— Às vezes a razão é a pior possível — murmurou Emmett.
— Na maioria das vezes a razão é a pior possível. O que não muda nada. E bom voltar para a ilha. É bom tornar a vê-lo.
— Tivemos momentos sensacionais naquele verão.
— Alguns dos melhores da minha vida. — Edward esforçou-se para exibir um sorriso. — Vai me servir logo essa omelete ou pretende me obrigar a suplicar?
Não precisa suplicar. — Emmett pôs a comida num prato.
Edward pegou um garfo e espetou um pedaço da omelete.
— Agora, conte-me os últimos vinte anos de aventuras de Emmett Swan.
— Não houve muitas aventuras. Cuidar da pousada exige bastante trabalho. Temos hóspedes durante o ano inteiro agora. Parece que quanto mais apinhada e movimentada se torna a vida no mundo exterior, mais as pessoas querem escapar de lá. E quando fazem isso, nós as alojamos, alimentamos e divertimos.
— Parece uma proposição de vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana.
— Seria assim mesmo, no mundo exterior. Mas a vida é mais lenta por aqui.
— Esposa? Filhos?
— Não. E você?
— Tive uma esposa — respondeu Edward, secamente. — Desistimos um do outro. Sem filhos. Foi sua irmã quem me recebeu aqui... Isabela.
— É mesmo? — Emmett levou o bule de café para encher a caneca de Edward. — Ela voltou para Desire há uma semana. Al também está aqui. Somos uma família grande e feliz.
Enquanto Emmett se virava, Edward franziu as sobrancelhas pelo tom de sua voz.
— E seu pai?
- Não se pode tirá-lo da ilha nem com dinamite. Ele nem mesmo vai mais ao continente para comprar suprimentos. Pode encontrá-lo vagueando por aí.
Ele virou a cabeça quando Alice passou pela porta.
— Temos dois pássaros madrugadores ansiosos por um café — anunciou ela.
Nesse instante, Alice avistou Edward e parou. Numa reação automática, ajeitou os cabelos, inclinou a cabeça para o lado e ofereceu um sorriso insinuante.
— Temos uma visita na cozinha...
Ela chegou mais perto e fez uma pose, encostada no balcão. Ofereceu-lhe um sopro do perfume Eternity, que passara no pescoço naquela manhã, da amostra grátis que viera numa revista.
— Você deve ser muito especial se Emm deixou-o entrar em seus domínios.
Os hormônios de Edward efetuaram uma dança rápida e instintiva, o que o levou a ter vontade de rir dos dois. Uma mulher frívola e deslumbrante foi sua primeira impressão, mas revisou-a quando reparou em seus olhos. Eram vigilantes e perceptivos.
— Ele se compadeceu de um velho amigo — disse Edward.
— É mesmo? — Alice gostou da aparência rude do estranho, além de exultar com sua expressão de aprovação masculina. — Apresente-me a seu velho amigo, Emmett. Não sabia que você tinha algum.
— Edward Cullen — disse Emmett, brusco, indo pegar o segundo bule de café. — Minha irmã caçula, Alice.
— Edward... — Alice estendeu a mão, as unhas pintadas de Vermelho Flamejante. — Emmett ainda me vê de trança.
— Privilégio de irmão mais velho. — Edward ficou surpreso ao descobrir que a mão da sereia era firme e capaz. — Na verdade, também me lembro de você de trança.
— E mesmo? — Um pouco desapontado por ele não ter segurado sua mão por mais tempo, Alice apoiou os cotovelos no balcão e inclinou-se em sua direção. — Não posso acreditar que eu tenha me esquecido de você. Faço questão de me lembrar detodos os homens atraentes que entraram em minha vida. Mesmo que seja por um breve initante.
— Você mal tinha saído da fralda e ainda não refinara sua rotina de femme fatale — interveio Emmett, sarcástico, ignorando o olhar furioso da irmã. — Omelete de queijo e cogumelo é o café da manhã especial.
Alice se controlou antes de começar a rosnar. Contraiu os lábios para um sorriso.
— Obrigada, querido. — Ela pegou o bule estendido. Pestanejou para Edward. — Não banque o estranho. Temos bem poucos homens interessantes em Desire.
Porque parecia absurdo resistir ao espetáculo e era óbvio que ela esperava por isso, Edward contemplou a saída de Alice a rebolar. Só depois é que se virou para Emmett, com sorriso lento.
— Você tem uma irmã e tanto, Emm.
— Ela precisa de uma boa surra, por se exibir assim para estranhos.
— Foi um bom acompanhamento para minha omelete. — Mas Edward ergueu a mão ao perceber a fúria nos olhos de Emmett. — Não se preocupe comigo, companheiro. Esse tipo de vibração sempre acarreta grandes dores de cabeça. E já tenho problemas em quantidade suficiente. Pode apostar que vou olhar, mas não tenho a menor intenção de tocar.
— Não é da minha conta — murmurou Emmett. — Ela está determinada a não apenas procurar encrencas, mas também a encontrá-las.
— As mulheres com essa aparência quase sempre conseguem se esgueirar das encrencas.
Ele se virou quando a porta foi aberta outra vez. Mas quem entrou na cozinha agora foi Bella.
E mulheres com essa aparência, pensou Edward, não se esgueiram das encrencas. Abrem caminho a socos.
E ele se perguntou por que preferia esse tipo de mulher... e esse tipo de método.
Bella parou quando o viu. As sobrancelhas se uniram, antes que ela deliberadamente desanuviasse a testa.
— Parece estar em casa, senhor Cullen.
— É assim que me sinto, Srta. Swan.
— Um tratamento bastante formal para um cara que a empurrou para dentro do rio e depois ficou com o lábio sangrando quando tentou tirá-la — comentou Emmett, pegando uma caneca limpa.
— Não a empurrei. — Edward sorriu, enquanto observava as sombrancelhas de Bella se juntarem de novo. — Ela escorregou. Mas deixou meu lábio sangrando e me chamou de porco ianque, pelo que me recordo.
A lembrança se agitou na mente de Bella, quase escapuliu, mas depois aflorou com nitidez. Uma tarde quente de verão, o choque da água fria, a cabeça afundando. Para logo voltar à superfície, debatendo-se.
— É o filho do Sr. Carlisle. — O calor espalhou-se pela barriga de Bella, subiu para o coração. Por um momento, seus olhos refletiram essa reação, fazendo o coração de Edward acelerar. — Qual deles?
— Edward, o mais velho.
— Isso mesmo. — Ela empurrou os cabelos para trás, não com a sedução deliberada da irmã, mas com uma impaciência distraída. — E você me empurrou. Nunca caí no rio, a menos que quisesse ou alguém me ajudasse.
— Você escorregou e eu a ajudei a sair.
Ela riu, uma risada rápida e sonora, pegou a caneca oferecida por Emmett e propôs:
— Acho que podemos esquecer o passado, já que o deixei de lábio inchado... e seu pai me deu o mundo.
A cabeça de Edward começou a latejar, uma reação imediata e angustiada.
— Meu pai?
— Eu o seguia como uma sombra, atormentava-o com perguntas incessantes sobre como tirava fotos, por que escolhia aqueles temas, como a câmera funcionava. Ele foi muito paciente comigo. Devia levá-lo à loucura por interromper seu trabalho dessa maneira, mas ele nunca me escorraçou. Ensinou-me muita coisa, não apenas os elementos básicos, mas também como olhar e ver. Acho que lhe devo por todas as fotos que já tirei.
O que ele acabara de comer parecia se revolver em seu estômago, como pura gordura.
— Você é fotógrafa profissional?
— Bella é uma grande fotógrafa — declarou Alice, com alguma amargura na voz, voltando à cozinha. — I.M. Swan, a globe-trotter, viajando pelo mundo a fotografar a vida de outras pessoas na passagem. Duas omeletes, Emmett, duas batatas fritas, uma com bacon, outra com presunto. Os hóspedes do quarto 201 querem o café da manhã lá em cima, Miss Viajante do Mundo. E tem camas para arrumar.
— Saída do palco à esquerda — murmurou Bella, quando Alice tornou a sair. Ela tornou a se virar para Edward. — Sou uma fotógrafa, graças em grande parte a Carlisle Cullen. Se não fosse pelo Sr. Carlisle, eu poderia ser uma pessoa tão frustrada e amargurada quanto Alice. Como está seu pai?
— Ele morreu. — Edward levantou-se abruptamente. — Tenho de voltar. Obrigado pelo café da manhã, Emmett.
Ele saiu apressado, deixando a porta de tela bater.
— O que aconteceu, Emm?
— Um acidente. Há cerca de três meses. O pai e a mãe morreram. E ele perdeu também o irmão, cerca de um mês depois.
— O Deus! — Bella passou a mão pelo rosto. — Mexi numa casa de marimbondos. Volto num instante.
Ela largou a caneca no balcão e saiu correndo pela porta, atrás de Nathan.
— Edward! Edward! Espere um instante!
Ela alcançou-o no caminho coberto de conchas que serpenteava pelo jardim, na direção das árvores.
Desculpe. — Ela pôs a mão em seu braço para detê-lo. — Lamento muito que isso tenha acontecido.
Ele tentou se controlar, com um esforço para pensar claramente, embora as têmporas latejassem.
— Não se preocupe. Ainda estou um pouco sensível.
— Se eu soubesse...
Ela parou de falar e deu de ombros, desamparada. Era bem provável que metesse os pés pelas mãos de qualquer maneira. Sempre fora desastrada nas relações sociais.
— Não sabia.
Edward conseguiu controlar seus nervos. Apertou de leve a mão de Bella, ainda em seu braço. Achou que ela parecia muito consternada. E não fizera mais do que roçar acidentalmente uma ferida aberta.
— Não se preocupe mais com isso.
— Eu gostaria de ter mantido contato com ele. — Havia agora uma certa ansiedade na voz de Bella. — Gostaria de ter feito um esforço maior para agradecer tudo o que ele fez por mim.
— Não deveria fazer isso. — Edward se arrependeu no instante mesmo em que falou. Virou-se para ela, os olhos intensos e frios. — Agradecer a alguém pelo lugar em que sua vida foi parar é a mesma coisa que culpá-la por isso. Somos todos responsáveis por nós mesmos.
Apreensiva, Bella deu um passo para trás.
— É verdade, mas algumas pessoas influenciam os caminhos que seguimos.
— Neste caso, é engraçado que ambos tenhamos voltado para cá, não é mesmo? — Edward olhou além dela, para Santuário, as janelas faiscando ao sol. — Por que você voltou, Bella?
— É o meu lar.
Ele contemplou as faces pálidas, as olheiras escuras.
— É o lugar para onde costuma vir quando se sente derrotada, perdida e infeliz?
Bella cruzou os braços como se estivesse com frio. Ela, geralmente a observadora, não gostava de ser observada de maneira tão perceptiva.
— É apenas o lugar para onde eu vou.
— Parece que decidimos vir para cá quase ao mesmo tempo. Destino? Ou sorte?
Edward deu um pequeno sorriso, porque sua opção era a última. Mas ela tinha outra preferência.
— Apenas coincidência. Por que você voltou?
— Não tenho a menor idéia.
Ele exalou entre os dentes. Tornou a fitá-la. Queria apagar a tristeza e preocupação dos olhos de Bella, queria ouvi-la rir outra vez. E teve a súbita certeza de que isso acalmaria sua alma tanto quanto a dela.
— Mas, já que estou aqui, por que não me acompanha até o chalé? — acrescentou Edward.
— Conhece o caminho.
— Seria muito mais agradável se tivesse uma companhia... a sua.
— Já lhe disse que não estou interessada.
— Mas eu estou. — O sorriso se alargou quando ele estendeu a mão para ajeitar uma mecha de cabelos por trás da orelha de Bella. — Será divertido descobrir quem cutuca o outro para fora do caminho.
Os homens não flertavam com ela. Nunca. Ou pelo menos ela jamais notara. Mas o fato de que Nathan fazia justamente isso — e ela notava — só servia para irritá-la. A Linha de Fratura Pendleton surgiu entre as sobrancelhas.
— Tenho trabalho a fazer.
— É verdade. Arrumar a cama do 201.
Porque ele se virou primeiro, Bella teve a oportunidade de observá-lo a se embrenhar entre as árvores. Num gesto deliberado, ela sacudiu a cabeça, para que os cabelos caíssem de novo por cima das orelhas. Depois deu de ombros, como se estivesse se livrando de um contato desagradável.
Mas foi obrigada a admitir que já se sentia mais interessada do que queria.
