Capítulo Seis

Edward levou uma câmera. Sentia-se compelido a reconstituir alguns passos do pai em Desire... ou talvez erradicá-los. Escolheu a velha e pesada Pentax, de alcance médio, uma das prediletas do pai. Com toda certeza, Carlisle levara-a para a ilha naquele verão.

Deveria levar também a volumosa Hasselblad e a elegante Nikon, além de uma coleção de lentes e filtros, sem falar nos inúmeros filmes. Edward trouxera tudo. Os equipamentos estavam guardados no chalé, tudo arrumado com cuidado, como o pai lhe dissera que sempre deveria fazer.

Mas quando o pai partia em suas excursões, à procura de uma foto, quase sempre levava a Pentax.

Edward escolheu a praia, com suas ondas espumantes e areia cintilante. Pôs os óculos escuros, como proteção contra o brilho intenso do sol, e subiu pelo caminho entre as dunas, através de um mar de aveas marinhas e plantas rasteiras emaranhadas. O vento soprava do mar e desmanchava seus cabelos. Ele parou no alto do caminho, escutando o ritmo do mar, os gritos estridentes das gaivotas, que circulavam e mergulhavam a todo instante.

Com a facilidade da experiência, Edward levantou a câmera, alargou a abertura, aumentou a velocidade para captar movimento e depois focalizou os pelicanos. Seguiu-os enquanto sobrevoavam as cristas das ondas e subiam. E captou-os no mergulho seguinte.

Baixou a câmera, com um pequeno sorriso. Ao longo do tempo, passara períodos prolongados sem praticar seu hobby. Planejava compensar agora, consumindo pelo menos uma hora por dia para recuperar o prazer e melhorar o olho.

Não poderia pedir um princípio mais perfeito. A praia era habitada apenas por aves e conchas. Suas pegadas eram as únicas a desfigurar a areia. O que já era um milagre por si só, pensou ele. Onde mais um homem podia ficar tão completamente sozinho, tomar emprestado aquele tipo de beleza, com tanta paz e solidão?

Precisava dessas coisas agora. Milagres, beleza, paz. Com a mão cm concha por cima da câmera, Nathan desceu a inclinação até a areia úmida da praia, Agachou-se ali para examinar uma concha, traçar os contornos de uma estrela-do-mar com a ponta do dedo.

Mas deixou-as onde as encontrara, colecionando apenas em filme.

A brisa do mar e o exercício ajudaram a acalmar seus nervos, que ficaram tensos antes mesmo de sua saída de Santuário. Ela era uma

Fotógrafa, pensou Edward, enquanto contemplava um lindo chalé,

prateado pelo tempo, projetando-se de trás das dunas. O pai soubera que aquela menina para quem bancara o mentor, durante um único verão, empenhara-se em seguir seus passos? Ele teria se importado? Ficaria orgulhoso? Acharia engraçado?

Edward ainda podia se lembrar da ocasião em que o pai lhe mostrara pela primeira vez como uma câmera funcionava. As mãos enormes cobriam as do filho, pequenas, orientando com extrema gentileza e paciência. O cheiro da loção após barba no rosto do pai, um cheiro forte e penetrante. Brut. Isso mesmo, Brut. Era a que a mãe mais gostava. O rosto do pai, liso e macio, comprimido contra o seu. Os cabelos claros eram penteados de maneira impecável, em ondas suaves a se estenderem da testa, os olhos azuis suaves e sérios.

Sempre respeite seu equipamento, Ed. Pode querer um dia ganhar a vida com uma câmera. Viaje pelo mundo com uma câmera e verá tudo o que há para ver. Aprenda a olhar e verá mais do que qualquer um. Ou será alguma outra coisa, fará outra coisa e usará a câmera apenas para guardar alguns momentos com você. Serão seus momentos e por isso terão a maior importância. Respeite seu equipamento, aprenda a usá-lo direito e nunca perderá esses momentos.

— Quantos perdemos, de qualquer maneira? — especulou Edward, em voz alta. — E quantos guardamos que seria melhor se tivéssemos perdido?

— O que disse?

Edward teve um sobressalto quando a voz interrompeu seus devaneios e a mão tocou em seu braço.

— Como?

Ele deu um passo rápido, em recuo, meio esperando que fosse um dos seus fantasmas. Mas viu uma loura bonita e delicada, fitando-o através de lentes cor de âmbar.

— Desculpe pelo susto. — Ela inclinou a cabeça para o lado, estudando seu rosto, sem piscar. — Você está bem?

— Claro.

Edward passou a mão pelos cabelos, ignorando a sensação desagradável dos joelhos bambos. Foi menos fácil ignorar o embaraço intenso, enquanto a mulher continuava a estudá-lo, como se ele fosse uma mancha estranha numa lâmina sob o microscópio.

— Não sabia que havia alguém por perto — acrescentou ele.

— Estou terminando minha corrida matutina.

Edward notou pela primeira vez que a mulher usava uma camiseta cinza suada e justa, por cima de um short vermelho de ciclista.

— E era para o meu chalé que você olhava. Ou através dele.

— Ahn... — Edward focalizou de novo o chalé, as tábuas de cedro prateadas pelo tempo, o telhado marrom inclinado, com seu deque marrom para tomar banho de sol. — Você tem uma vista sensacional.

— O nascer do sol é a melhor. Tem certeza de que está bem? Desculpe me intrometer, mas quando vejo um homem parado sozinho na praia, dando a impressão de que levou uma trombada de um caminhão e falando sozinho, não posso deixar de estranhar. É o meu trabalho.

— Polícia da praia? — indagou ele, sarcástico.

— Não. — Ela sorriu e estendeu a mão, cordial. — Médica. Doutora Hale. Rose. Tenho uma clínica no chalé.

— Edward Cullen. Com a saúde perfeita. Não era uma velha que morava ali? Uma mulher pequena, com os cabelos brancos presos num coque.

— Minha avó. Você a conheceu? Não é um nativo.

— Não, não sou. Mas lembro-me dela... ou tenho essa impressão. Passei um verão aqui quando era garoto. As lembranças não param de aflorar. E você me encontrou no momento em que uma surgia.

— Ahn... — Os olhos por trás das lentes cor de âmbar perderam a perspicácia clínica e tornaram-se mais receptivos. — Isso explica tudo. Entendo o que está querendo dizer. Passei vários verões aqui quando era criança e as recordações também surgem durante todo o tempo. Foi por isso que decidi me mudar para cá quando vovó morreu. Sempre adorei esta ilha.

Distraída, ela dobrou a perna e pegou o dedão, o calcanhar encostado na bunda, num alongamento

Você deve ser o ianque que alugou o Little Desire Cottage por meio ano.

— As notícias circulam.

— Não é mesmo? Ainda mais quando não precisam ir muito longe. Não há muitos homens sozinhos alugando chalés por seis meses. Muitas mulheres estão intrigadas. — Rose repetiu o processo com a outra perna. — Acho que me lembro de você. Não eram você e seu irmão que estavam sempre brincando com Emmett Swan? Lembro-me de vovó comentando que os meninos Cullen e o jovem Emmett estavam sempre grudados, como unha e carne.

— Boa memória. Estava aqui naquele verão?

— Foi meu primeiro verão em Desire. Deve ser por isso que me lembro tão bem. Já esteve com Emmett?

— Ele acaba de me servir o café da manhã.

— A magia em um ovo. — Foi a vez de Rose olhar além do chalé. — Soube que Bella voltou. Tentarei ir até a casa depois de fechar a clínica hoje.

Ela olhou para o relógio, antes de acrescentar:

— E como abre dentro de vinte minutos, é melhor eu ir me arrumar. Foi um prazer vê-lo de novo, Edward.

— O prazer foi meu... doutora.

Edward fez o acréscimo quando ela já corria na direção das dunas. Com uma risada, Rose virou-se, mas continuou a correr, de costas.

— Clínica geral — gritou ela. — Do nascimento ao túmulo. Pode me procurar se alguma coisa o afligir.

— Não esquecerei.

Ele sorriu e observou o rabo-de-cavalo balançar de modo atraente enquanto ela corria pelo vale entre as dunas.

Dezenove minutos depois, Rose vestiu um jaleco branco por cima da calça Levis. Considerava o jaleco como uma fantasia, projetada para garantir ao paciente relutante que ela era mesmo uma médica. Isso mais o estetoscópio no bolso ofereciam aos ilhéus o impulso de que muitos precisavam para deixar que a neta de vovó Hale examinasse seus orifícios.

Ela entrou no consultório, antes a despensa sempre bem abastecida da avó, ao lado da cozinha. Rose deixara uma parede de prateleiras intacta. Era ali que guardava os livros, pastas e a combinação de fax e copiadora que a mantinha ligada com o continente. Tirara as outras prateleiras, já que não tinha planos de seguir o exemplo da avó, que guardava tudo, de molho de tomate a melancia em conserva.

Ela mesma carregara a pequena e adorável escrivaninha de cerejeira para o escritório. Viajara com ela desde Connecticut, uma das poucas coisas que levara para o sul. Estava equipada com um risque-e-rabisque revestido de couro e uma agenda, presente de despedida dos pais aturdidos.

O pai fora criado em Desire e considerava-se afortunado por ter escapado.

Ela sabia que o pai e a mãe haviam ficado emocionados quando decidira seguir a carreira do pai, ingressando na faculdade de medicina. E presumiram que ela continuaria assim, especializando-se em cirurgia cardíaca. Ao se formar, entraria na próspera clínica do pai, adotando a vida elegante e luxuosa que os dois tanto apreciavam.

Em vez disso, Rose optara por ser médica de família, instalando-se no chalé curtido pelo tempo da avó e aderindo à simplicidade da vida na ilha.

E não poderia sentir-se mais feliz.

Ao lado da agenda, com suas iniciais em metal dourado, havia um elegante sistema telefônico, inclusive com interfone — para a possibilidade improvável de algum dia precisar de uma assistente —, e uma caixa de Lucite, com vários lápis Ticonderoga.

Rose passara as primeiras semanas na clínica fazendo pouco mais do que apontar os lápis, para gastá-los em seguida com desenhos no risque-e-rabisque.

Mas insistira e pouco a pouco passara a usar os lápis para anotar consultas. Umbebê com crupe, uma velha com artrite, uma criança com febre alta da rubéola.

Foram os muito jovens ou muito velhos que primeiro confiaram nela. Depois outros a procuraram, para terem suas feridas costuradas, as dores aliviadas, os estômagos acalmados. Agora era a Doutora Rose, tirando seu sustento da clínica.

Rose verificou a agenda. Um exame ginecológico anual, o acompanhamento de um caso de sinusite aguda, o menino Mathews com outra dor de ouvido e o bebê Simmons para uma nova rodada de vacinação. A sala de espera não ficaria lotada, mas pelo menos ela se manteria ocupada durante a manhã. E, quem sabe, pensou ela, com uma risada, podia haver duas ou três emergências para animar o dia.

Como Jessica Pendleton era o exame ginecológico, às dez horas, Rose calculou que teria pelo menos mais dez minutos. Jessica invariavelmente atrasava para tudo. Ela separou a ficha necessária, voltou à cozinha, despejou numa caneca o resto do café que fizera naquela manhã e levou-o para a sala de exame.

Depois de meter a ficha no suporte na porta, ela pegou uma das Túnicas de algodão sem costas — achava que as túnicas de papel para os pacientes eram humilhantes — e ajeitou na extremidade da mesa de exames. Cantarolava junto com os acordes que saíam do estéreo que ligara. Era uma alegre sonata de Mozart. Rose descobrira que isso era relaxante até mesmo para os clientes que não apreciavam música clássica.

Já arrumara tudo de que precisaria para o exame anual básico e terminara de tomar o café quando ouviu o pequeno carrilhão que indicava que a porta de entrada da clínica fora aberta.

Desculpe, desculpe... — Jessica entrou apressada, enquanto Rose passava para a sala de espera. — O telefone tocou no momento em que eu ia sair.

Ela tinha vinte e poucos anos e Rose não parava de lhe dizer que sua afeição pelo sol haveria de atormentá-la dentro de dez anos. Oscabelos eram louro-brancos, na altura dos ombros, frisados sempre, clamando por uma tintura nas raízes.

Jessica era de uma família de pescadores. Embora fosse capaz de pilotar um barco como um pirata sorridente, limpar um peixe como um cirurgião e abrir conchas e remover ostras com precisão e uma rapidez vertiginosa, preferia trabalhar no Camping Heron, ajudando os inexperientes a armar uma barraca, determinando os locais para cada um e cuidando dos livros.

Para a consulta com sua médica, enfeitara-se com uma de suas camisas prediletas, ao estilo do Oeste americano, púrpura, com franjas brancas. Rose especulou, com uma curiosidade ociosa, quantos órgãos internos estariam ofegando para respirar sob os jeans apertados como uma cinta.

— Estou sempre atrasada.

Jessica exibiu seu sorriso radiante e aturdido, o que arrancou uma risada de Rose.

— E todo mundo sabe disso. Pode entrar. Faça xixi no vidro primeiro. Conhece a rotina. Depois, vá para a sala de exame. Tire tudo e ponha a túnica com a abertura na frente. E me chame quando estiver pronta.

— Está bem. Era Alice no telefone. — Jessica seguiu apressada pelo corredor, as botas de caubói ressoando. — Ela se sente irrequieta.

— É o seu estado habitual — comentou Rose.

Jessica continuou a conversar, enquanto deixava o banheiro e passava para a sala de exame.

— Alice vai aparecer no camping esta noite, por volta de nove horas. — Houve um baque, quando a primeira bota bateu no chão.

— O número doze está vago. É um dos meus pontos prediletos. Pensamos em acender uma boa fogueira e tomar dois pacotes de seis cervejas. Não quer aparecer?

— Agradeço o convite. — Houve outro baque. — Pensarei a respeito. Se decidir aparecer levarei outra embalagem de seis.

— Pensei em convidar Bella, mas sabe como Alice fica irritada. Mas espero que ela apareça. — A voz de Jessica era agora ofegante, o que levou Rose a acreditar que ela estava tirando os jeans. — Já esteve com Bella?

— Ainda não. Ia tentar encontrá-la em algum momento hoje.

— Seria ótimo se elas sentassem e fizessem as pazes. Não sei por que Alice tem tanta raiva de Bella. Mas também parece que ela sente raiva de todo mundo. Ainda falou mal de Jasper. Se eu tivesse alguém como Jasper me olhando de alto a baixo, como ele olha para Alice, não sentiria raiva de nada neste mundo. E não estou dizendo isso porque somos primos. A verdade é que se não fôssemos parentes de sangue, eu o atacaria num minuto de Nova York. Estou pronta.

— Sou capaz de apostar que Jasper vai vencê-la pelo cansaço. — Rose entrou na sala de exame, pegando a ficha na porta. — Ele é tão obstinado quanto Alice. Vamos verificar seu peso. Algum problema, Jessica?

— Nenhum. Tenho me sentido muito bem. — Jessica subiu na balança e fechou os olhos. — Não me diga com quanto estou.

Rose riu, enquanto deslocava o peso. Cinqüenta e nove quilos. Sessenta e um. Epa!, pensou ela. Sessenta e quatro.

— Tem feito exercícios regulares, Jess?

Ainda de olhos fechados, Jessica deslocou o peso do corpo de um pé para outro.

— Mais ou menos.

— Aeróbica, vinte minutos, três vezes por semana. E reduza as barras de chocolate. — Porque era mulher, além de médica, Rose zerou a balança antes de Jessica abrir os olhos. — Vamos para a mesa. Quero medir sua pressão.

— Sempre digo a mim mesma que tenho de assistir àquele vídeo da Jane Fonda. O que você acha de uma lipo?

Rose prendeu a braçadeira para tirar a pressão.

— Acho que você deve andar pela praia algumas vezes por semana e imaginar que cenouras são burras de chocolate da Herschey's, pelo menos por algum tempo. Vai perder esses três quilos extras sem muito esforço. A pressão está boa. Quando foi sua última menstruação?

— Foi há duas semanas. Mas veio com quase uma semana de atraso. O que me deixou apavorada.

— Está usando o diafragma, não é mesmo? Jessica cruzou os braços na cintura.

— Na maioria das vezes. Mas nem sempre é conveniente.

— A gravidez também não é.

— Sempre faço o cara usar camisinha. Sem exceções. E há dois caras muito atraentes no número seis.

Rose pôs as luvas, suspirando.

— O sexo casual sempre acarreta complicações perigosas.

— Não duvido, mas é muito divertido. — Jessica sorriu para o cartaz de Monet que Rose pregara no teto. — E eu sempre me apaixono um pouco por eles. Mais cedo ou mais tarde, porém, tenho certeza de que encontrarei o grande amor. O homem certo. Enquanto isso, posso muito bem provar o que vejo em campo.

— Um campo minado — murmurou Rose. — Você corre grandes riscos.

— Mas é bom. — Jessica tentou se imaginar a caminhar entre as flores imprecisas no cartaz, tamborilando com os dedos de muitos anéis na barriga. — Nunca viu um homem e o desejou tanto que sentiu tudo por dentro se contrair, o corpo estremecer da cabeça aos pés?

Rose pensou em Emmett e fez um esforço para se controlar, antes de suspirar de novo.

— Já sim.

— Adoro quando isso acontece. E tão... primal, não acha?

— Concordo. Mas primal e inconveniente de lado, quero que use sempre o diafragma.

Jessica revirou os olhos.

— Claro doutora. Ei, por falar em homens e sexo, Alice diz que encontrou com o ianque e que é carne de primeira. Também encontrei com ele.

— E Alice tem razão?

— Ele é muito atraente.

Gentilmente, Rose levantou um dos braços de Jessica e começou o exame do seio.

— Ele éum velho amigo de Emm... passou um verão aqui com os pais. O pai era aquele fotógrafo que publicou um livro de fotos sobre as ilhas naquele tempo. Minha mãe ainda tem um exemplar.

— O fotógrafo... Estou lembrando agora. Tinha esquecido. Ele tirou fotos de vovó. Fez uma gravura com uma das fotos e mandou para vovó depois que foi embora. Ainda a tenho em meu quarto.

— A mãe pegou o livro esta manhã, quando lhe contei. É realmente muito bonito.

Rose ajudou-a a sentar, enquanto ela acrescentava:

— Há uma foto de Renne Swan e Bella cuidando do jardim em Santuário. Mamãe lembrou que ele tirou as fotos no ano em que Renne fugiu. Comentei que talvez ela tivesse fugido com o fotógrafo, mas mamãe informou que ele, a esposa e os filhos continuaram na ilha depois que Renne desapareceu.

— Isso aconteceu há vinte anos. Era de esperar que as pessoas esquecessem, não falassem mais nisso.

— Os Pendleton são de Desire. Renne era uma Pendleton. E ninguém esquece nada na ilha. Ela era realmente linda. — Jessica saltou da mesa. — Não me lembro muito bem dela, mas alguma coisa voltou quando vi a foto. Bella seria muito parecida com a mãe, se fizesse um esforço para isso.

— Imagino que Bella prefere ser parecida com Bella. Você está ótima, Jess. Pode se vestir. Estarei à sua espera na outra sala quando acabar.

— Obrigada. E dê um jeito de ir ao camping, Rose. Teremos uma noite só de mulheres. Número doze.

— Veremos.

***

Rose fechou a clinica às quatro horas da tarde. Sua única emergência fora um caso grave de queimadura de sol, de um veranista que dormira na praia. Depois do último paciente, ela passou quinze minutos cuidando da maquiagem, escovando os cabelos e pondo mais água-de-colônia.

Disse a si mesma que era para seu prazer pessoal, mas como ia para Santuário, sabia que era mentira. Esperava que sua aparência fosse bastante atraente e o cheiro bastante agradável para fazer Emmett Swan sofrer.

Ela pôs os óculos escuros e desceu os degraus. O estreito caminho de tábuas que mandara Jasper construir contornava a casa e levava-a para longe das dunas. Havia alguns ciprestes projetando-se da areia, encurvados e afetados pelo vento, que mesmo agora soprava areia em seus tornozelos. Moitas de flores-de-cera e sabugueiro-da-praia cresciam na depressão. Ela acrescentou suas pegadas às muitas que já cruzavam a areia.

Contornou a vegetação das dunas, bastante nativa para conhecer e respeitar sua fragilidade. Em poucos momentos, deixou a claridade quente da areia e do mar e ingressou na caverna escura e fresca da floresta.

Andava rápido, mas sem se apressar, a mente concentrada em seu destino. Estava acostumada aos sussurros e estalidos da floresta, às alterações de som e luz. Por isso, ficou surpresa quando se descobriu a parar, aguçando os ouvidos e escutando o próprio coração bater mais alto, com a sensação de que subia pela garganta.

Virou devagar, um círculo completo, esquadrinhando as sombras. Ouvira alguma coisa estranha, pensou. Sentira alguma coisa diferente. E podia ter de novo agora a sensação angustiante de que era observada.

— Olá? — Ela se detestou por estremecer ao eco vazio da própria voz. — Tem alguém aí?

O estrépito das folhas de palmeiras, o sussurro que podia ser de cervo ou coelho, o silêncio opressivo do ar parado na semi-escuridão da floresta. Idiota, ela disse a si mesma. Claro que não havia ninguém ali. E se houvesse, que importância isso teria? Rose virou-se, continuou a seguir pela trilha bem conhecida, ordenando a si mesma para caminhar num ritmo razoável.

Um suor frio escorreu pelo meio de suas costas, a respiração começou a se tornar ofegante. Ela fez um esforço para reprimir o medo crescente. Tornou a se virar, convencida de que perceberia um brilho de movimento em sua esteira. Não havia nada, a não ser galhos entrelaçados e musgo pendendo.

Droga, pensou ela, esfregando a mão sobre o coração acelerado. Havia mesmo alguém ali. Agachado por trás de uma árvore, encolhido numa sombra. A observá-la. Devia ser um menino, ou dois, assegurou Rose a si mesma. Isso mesmo, apenas dois garotos furtivos, empenhados numa brincadeira de mau gosto.

Ela andou para trás, enquanto corria os olhos ao redor. Ouviu de novo, um som fraco e sorrateiro. Tentou gritar outra vez, fazer algum comentário enérgico sobre crianças mal-educadas, mas o terror apertava sua garganta, impedindo a passagem de qualquer som. Numa reação instintiva, virou-se e passou a andar mais depressa.

Quando o som chegou mais perto, ela abandonou todo o orgulho e desatou a correr.

E quem a observava riu contra as mãos e depois soprou um beijo para suas costas afastando-se.

Ofegante, Rose disparava entre as árvores, os tênis ressoando na trilha num tamborilar frenético. Reprimia um soluço quando viu a luz mudar, a claridade envolvê-la, no instante em que saiu do meio das árvores. Olhou para trás, por cima do ombro, preparada para avistar algum monstro a saltar em seu encalço.

E gritou quando esbarrou num sólido muro de peito e braços, que a envolveram, firmes.

— Qual é o problema? O que aconteceu? — Emmett quase a levantou em seus braços, mas ela também o enlaçou, comprimindo o rosto contra o seu peito. — Está ferida? Deixe-me ver.

— Não, não estou ferida. Um tempo... preciso de um tempo.

— Está bem.

Ele suavizou a pressão de seus braços e afagou os cabelos de Rose. Tirava o mato da beira externa do jardim quando ouvira os sons da corrida em pânico pela floresta. Dava os primeiros passos para investigar o que era quando ela saíra do meio das árvores e se jogara em seus braços.

Agora o coração de Rose batia forte contra seu peito... e o coração de Emmett quase acompanhava o ritmo. Ela deixara-o assustado, com aquela expressão de animal acuado ao olhar para trás, como se esperasse um ataque pelas costas.

— Fiquei assustada — murmurou Rose, ainda grudada nele, como um carrapicho. — Eram apenas garotos, tenho certeza. Mas senti que era vigiada, seguida, caçada. Eram apenas garotos, mas me deixaram assustada.

— Está tudo bem agora. Recupere o fôlego.

Ela era muito pequena, pensou Emmett. Costas delicadas, cintura estreita, cabelos sedosos. Mal consciente do que fazia, ele aconchegou-a em seus braços. Era estranho que ela se ajustasse tão bem contra ele, mas ao mesmo tempo parecesse bastante frágil para que a levantasse em seus braços e a protegesse, sã e salva.

Ó Deus, como ela tinha um cheiro agradável! Emmett baixou o rosto para o alto da cabeça dela por um momento. Absorveu a frafância e a textura dos cabelos, enquanto dissolvia a tensão do pescoço de Rose, em carícias lentas.

— Não sei por que entrei em pânico daquela maneira. Isso nunca me aconteceu.

E porque a sensação começava a se desvanecer, ela foi tomando conhecimento, pouco a pouco, de que Emmett a abraçava. Num abraço bem apertado. Que suas mãos a acariciavam. Com a maior ternura. Que os lábios roçavam em seus cabelos. Gentilmente.

A freqüência cardíaca em queda tornou a acelerar. Mas desta vez nada tinha a ver com pânico.

— Emmett... Ela subiu as mãos pelas costas de Emmett, enquanto erguia a cabeça.

— Está tudo bem agora. Não se preocupe. E antes de pensar no que fazia, ele beijou-a na boca. Emmett sentiu como se tivesse levado um soco na barriga, um golpe que o deixava sem fôlego, o cérebro atordoado, as pernas bambas. E, depois, os lábios de Rose se entreabriram, quentes e macios, emitindo murmúrios sensuais.

Ele foi mais fundo, alcançando a língua de Rose, enquanto suas mãos deslizavam pelos jeans justos até a bunda, a fim de moldar calor contra calor.

Rose parou de pensar no instante em que o beijo começou. A novidade daquela experiência era uma emoção inédita e inebriante. Sempre fora capaz de manter a mente separada, de se manter apartada, orientar e controlar o ato. Mas agora era tragada por um turbilhão, sacudida por uma sensação depois de outra.

A boca de Emmett era quente e faminta, o corpo duro, as mãos enormes e exigentes. Pela primeira vez em sua vida, Rose sentia-se delicada, como se pudesse ser partida ao meio pelo capricho de Emmett.

Por motivos que ela não podia compreender, a sensação era insuportavelmente excitante. Ela estendeu as mãos para os ombros de Emmett, murmurando seu nome contra aquela boca ansiosa. A cabeça pendeu para trás, inerte. Pela primeira vez com um homem, ela cambaleava à beira da rendição absoluta e incontestável.

Foram a mudança, a súbita docilidade, o pequeno gemido desamparado que o levaram a recuperar o controle. Levantara-a para as pontas dos pés, os dedos comprimiam sua carne e a imagem que aflorava em sua mente era o impulso de arrastá-la para o chão.

No jardim de sua mãe, pelo amor de Deus. Em plena luz do dia. A sombra de sua casa. Repugnado com os dois, Emmett afastou-a, num movimento brusco.

Era isso o que você queria, não é mesmo? — disse ele, furioso. Deu-se a muito trabalho para provar que sou tão fraco quanto qualquer outro.

As cores ainda se misturavam na cabeça de Rose.

— Como? — Ela piscou para desanuviar a visão. — Como?

— A encenação da donzela em desgraça deu certo. Um a zero para você.

Rose voltou à Terra abruptamente. Os olhos de Emmett eram tão duros e ardentes quanto a boca se mostrara, mas com um tipo diferente de paixão. Quando ela registrou as palavras e o significado, seus próprios olhos se arregalaram numa indignação chocada.

— Acredita mesmo que encenei isso, que banquei a idiota só para que você me beijasse? Seu filho-da-puta arrogante, pretensioso e estúpido! — Insultada ao máximo possível, Rose empurrou-o. — Não faço encenações e nem agora nem nunca serei uma donzela de qualquer tipo! E mais ainda, beijá-lo não é um objetivo importante em minha vida!

Ela empurrou para trás os cabelos desgrenhados, empinou os ombros.

— Vim aqui para ver Bella, não você. E por acaso encontrei-o no caminho.

— Imagino que foi por isso que pulou em meus braços e me envolveu como se fosse uma cobra.

Rose respirou fundo, determinada a assumir uma posição de calma e dignidade.

— O problema aqui, Emm, é que você queria me beijar... e gostou do beijo. Agora tem de me culpar, acusar-me de cometer alguma ridícula artimanha feminina, porque quer me beijar de novo. Quer pôr as mãos em mim como acabou de fazer... e por alguma razão isso o deixa furioso. Mas é problema seu. Vim aqui para ver Bella.

— Ela não está — informou Emmett, quase rangendo os dentes. Saiu com suas câmeras, não sei para onde.

Pois então dê um recado meu para ela. Camping Heron, nove horas, ponto doze. Uma noite só de mulheres. Acha que pode se lembrar ou quer que eu escreva?

— Direi a ela. Mais alguma coisa?

— Não, absolutamente nada.

Rose virou-se para ir embora, mas depois hesitou. Com ou sem orgulho, não seria capaz de enfrentar o retorno pela floresta sozinha, pelo menos ainda não. Ela mudou de direção e seguiu pelo caminho coberto de conchas. Seria mais do que o dobro da distância até sua casa, ela pensou, mas uma boa caminhada serviria para descarregar sua fúria no suor.

Emmett franziu o rosto para suas costas. Olhou para a floresta. E teve uma súbita certeza de que nada do que acontecera fora uma farsa. E isso, ele concluiu, fizera não apenas com que ele bancasse o idiota, mas também o sórdido ainda por cima.

— Espere um instante que vou acompanhá-la.

— Não, obrigada.

— Eu disse para esperar!

Ele alcançou-a e segurou-a pelo braço. Ficou aturdido com a fúria intensa no rosto de Rose quando ela se virou.

— Eu o avisarei quando quiser que me toque, Emmett, e também avisarei quando quiser qualquer coisa de você. Enquanto isso... — ela desvencilhou-se com um movimento brusco — eu cuidarei de mim mesma.

— Desculpe.

Ele se amaldiçoou no instante mesmo em que falou. Não tinha essa intenção. E as sobrancelhas alteadas e olhos arregalados de Rose fizeram com que sentisse vontade de ter cortado a língua.

— Com licença, mas você disse alguma coisa?

Era tarde demais para recuar, pensou Emmett. Ele engoliu a pílula amarga e murmurou:

— Pedi desculpa. Estava descontrolado. Deixe-me levá-la até em casa.

Ela inclinou a cabeça, altiva, na opinião de Emmett, com um sorriso presunçoso.

— Obrigada. Seria ótimo.