Capítulo Sete

Você deveria levar uma embalagem de seis cervejas, não um vinho de luxo, como uma magnata.

Já disposta a se queixar, Alice pôs o saco de dormir e o resto de suas coisas no Land Rover de Bella.

— Gosto de vinho.

Bella mantinha a voz suave e usava frases curtas.

— Não sei por que você quer passar a noite na floresta.

Alice amarrou a cara, enquanto Bella enrolava com todo cuidado seu moderno saco de dormir. Sempre o melhor para Bella, pensou ela, irritada, enquanto punha as duas embalagens de seis cervejas no compartimento de carga do Land Rover.

— Não tem piano-bar, nem serviço de quarto, nem maítre para puxar o saco.

Bella pensou nas noites que passara em barracas, em motéis de segunda classe, tremendo de frio dentro de seu Land Rover. Qualquer coisa para conseguir a foto que queria. Ela levou para o veículo o saco com as coisas que pedira a Emmett. Empurrou os cabelos para trás.

— Darei um jeito de sobreviver.

— Fui eu quem articulou tudo. E fiz isso porque queria passar uma noite longe daqui. Queria relaxar com amigas. Minhas amigas.

Bella bateu a porta traseira. Rangeu os dentes quando o som ecoou como o estampido de um tiro. Seria mais fácil afastar-se, pensou ela. Virar as costas, voltar para casa e deixar Alice seguir sozinha para o camping.

Mas ela não optaria pelo mais fácil.

— Jessica também é minha amiga, e não vejo Rose há anos. Ela deixou por aí. Deu a volta para o lado do motorista, sentou ao volante e ficou esperando.

A agradável expectativa que sentira antes, quando Emmett transmitira o convite de Rose, já havia desaparecido, deixando em seu lugar o estômago embrulhado. Mas estava determinada a continuar até o fim, sem se deixar intimidar pelo mau humor da irmã.

Teria momentos desagradáveis agora, mas iria de qualquer maneira. E Alice faria a mesma coisa, pensou ela, quando a irmã bateu a porta.

— Cinto de segurança — ordenou Bella.

Alice soltou um grunhido exasperado enquanto prendia o cinto de segurança. Bella decidiu acrescentar:

— Por que não tomamos um porre e fingimos que podemos tolerar uma à outra durante uma noite? Uma atriz com sua espantosa competência não deve ter a menor dificuldade para fazer isso.

Alice inclinou a cabeça para o lado, com um sorriso exuberante.

— Vá se foder, irmã querida.

— Já começou.

Bella ligou o motor. Estendeu a mão para um cigarro, por hábito, no instante em que partiu.

— Não vai fumar no carro, não é? Bella empurrou o isqueiro.

0 carro émeu.

Ela seguiu para o norte, os pneus cantando na estrada de conchas. O ar entrando pelas janelas era um bálsamo maravilhoso. Ela usava o Land Rover para acalmar os nervos. Não protestou quando Alice ligou o rádio no volume máximo. Música alta significava que não haveria conversa e a ausência de conversa significava que não haveria discussão, pelo menos durante a viagem até o camping.

Ela guiava depressa, a lembrança de cada curva na estrada aflorando em sua mente. Isso também servia para tranqüilizá-la. Pouca coisa mudara. A escuridão ainda caía muito depressa e a noite trazia os sons do vento e do mar, que faziam a ilha parecer um vasto lugar. Um mundo em que as marés regiam a vida.

Ela se lembrava de ter guiado em alta velocidade por aquela estrada, com o vento desmanchando seus cabelos e o rádio aos berros. Alice também se encontrava ao seu lado naquela ocasião.

A primavera antes de Bella deixar a ilha, uma primavera suave e fragrante. Tinha dezoito anos na ocasião e Alice, apenas quinze. As duas não paravam de rir e haviam consumido a maior parte de uma garrafa do vinho Ernest and Júlio, para melhorar a disposição. A prima Sue fora visitar a irmã em Atlanta, e por isso não havia ninguém para se preocupar com o paradeiro das duas adolescentes.

Havia liberdade e insensatez, com uma ligação entre as duas que se perdera em algum ponto do caminho, pensou Bella. A ilha permanecera como sempre fora. Mas aquelas duas jovens haviam desaparecido.

— Como está Jasper? — perguntou Bella.

— Como vou saber?

Bella deu de ombros. Mesmo naquela época, há tantos anos, Jasper já andava de olho em Alice. E já naquele tempo Al sabia disso. Bella apenas especulava se essa situação persistia.

— Não o vejo desde que voltei. Ouvi dizer que ele anda trabalhando com carpintaria e não sei mais o quê.

— Ele é um idiota. Não dou a menor atenção ao que Jasper faz ou deixa de fazer. Alice olhou pela janela de cara amarrada, ao recordar a maneira como beijara aquele imbecil. — Não estou interessada nos meninos da ilha. Gosto de homens.

Ela tornou a se virar para a irmã, com uma expressão de desafio, e acrescentou:

— Homens com classe e dinheiro.

— Conhece algum?

— Claro que sim. — Alice estendeu metade do braço dobrado para fora da janela, numa pose de sofisticação casual. — Nova York fervilha de homens assim. Gosto de um homem que sabe das coisas. Como nosso ianque, por exemplo.

Bella sentiu que se empertigava, mas fez um esforço deliberado para relaxar.

— Nosso ianque?

— Edward Cullen. Ele dá a impressão de que é um homem que sabe o que quer... com as mulheres. Eu diria que ele é exatamente o meu tipo. E rico.

— Por que acha que ele é rico?

— Pode se dar ao luxo de tirar seis meses de férias. Um arquiteto com sua própria firma não pode deixar de ter solidez financeira. É viajado. Os homens que viajaram muito sabem como mostrar lugares interessantes do mundo a uma mulher. É divorciado. Os homens divorciados apreciam uma mulher amável.

— Fez sua pesquisa, não é mesmo, Al?

— Claro. — Ela esticou-se, sensual. — Eu diria que Edward Cullen é mesmo o meu tipo. Deve evitar que eu morra de tédio durante algum tempo.

— Até que você possa voltar a Nova York — comentou Bella. — Uma mudança do território de caça.

— Exatamente.

— Interessante... — Os faróis do Land Rover iluminaram a placa discreta do Camping Heron. Bella reduziu a velocidade, deixou a Shell Road, entrando numa terra de valas e capim de pântano. — Sempre pensei que você se dava mais importância do que isso.

— Você não tem a menor idéia do que eu penso a respeito de qualquer coisa, inclusive de mim mesma.

— Parece que não.

O silêncio ali parecia vibrar, rompido apenas pelo coaxar estridente das rãs. Ao ouvir um estalo forte, Bella estremeceu, involuntariamente. Era o som inconfundível de um aligátor mastigando uma tartaruga. Ela pensou que sabia o que a tartaruga sentia naqueles últimos segundos de vida. A sensação de desamparo, de estar acuada por alguma coisa enorme, brutal e faminta.

Porque seus dedos tremiam, ela apertou o volante com mais força. Não fora destruída, lembrou a si mesma. Conseguira escapar. Ganhara algum tempo. Ainda tinha o controle.

Mas o ataque de ansiedade a pressionava, insistente. Ela obrigou-se a inalar e exalar, devagar, normal. Ó Deus, apenas normal! Ela desligou o rádio.

Passou pela cabine de controle, vazia agora, enquanto o sol se punha no horizonte. Concentrou-se em guiar pelo caminho sinuoso, entre uma sucessão de pequenas lagoas. Os clarões de fogueiras piscavam aqui e ali. Acordes musicais saíam de rádios, para desaparecer um instante depois. Quando havia uma abertura entre os arbustos, ela podia divisar o brilho branco das ninféias ao luar.

Voltaria a pé, disse Bella a si mesma, tiraria fotos, absorveria o silêncio e a ausência de outras pessoas. Trataria de se concentrar em ficar sozinha. E segura.

— Lá está o carro de Rose.

Zumbido demais nos ouvidos, pensou Bella, forçando-se a respirar fundo de novo.

— O que disse?

— Aquele conversível vermelho. É de Rose. Estacione atrás.

— Certo.

Bella manobrou o Land Rover para estacionar. Quando desligou o motor, descobriu que o ar transbordava de sons. Os murmúrios e pios do pequeno mundo oculto por trás das dunas e além da beira da floresta. Também havia muitos cheiros, de maresia e vegetação úmida.

Ela saiu do carro, aliviada por encontrar tanta vida.

— Bella!

Rose saiu correndo do escuro e envolveu Bella num abraço apertado. Os abraços súbitos e espontâneos sempre pegavam Bella desprevenida. Antes que ela pudesse se firmar, Rose já estava recuando, as mãos ainda nos braços de Bella, com um enorme sorriso de satisfação.

— Estou tão contente por você ter vindo! Tão contente em vê-la de novo! Temos um milhão de anos para pôr em dia. Ei, Alice, vamos levar suas coisas e abrir logo algumas cervejas.

— Ela trouxe vinho — informou Alice, enquanto abria a porta do compartimento de carga.

— O que é ótimo. Vamos abrir também uma garrafa. Temos uma porção de porcarias para acompanhar. Estaremos de porre e empanturradas antes de meia-noite.

Sem parar de falar por um momento sequer, Rose levou Bella para a traseira do Land Rover.

— Ainda bem que sou médica. O que é isto? — Ela enfiou a mão na bolsa de compras. — Patê! Como conseguiu esse patê?

— Pressionei Emmett até que ele me deu — respondeu Bella.

— Boa idéia. — Rose pegou a sacola de compras e uma embalagem de seis cervejas de Alice. — Levo isto. Jessica está acendendo a fogueira. Precisam de ajuda com o resto?

— Podemos dar um jeito. — Bella pendurou no ombro a bolsa de câmeras e pegou as garrafas de vinho. — Sinto muito por sua avó, Rose.

— Obrigada. Ela teve uma vida longa, exatamente como queria. Deveríamos todas ser espertas a esse ponto.

Rose sorriu radiante para as duas. Concluíra que conseguira dissipar a tensão que pairava no ar entre as irmãs quando haviam chegado.

— Estou morrendo de fome — acrescentou ela. — Não jantei.

Alice bateu a porta traseira do Land Rover.

— Merda! Deixei a lanterna no bolso traseiro. — Rose virou-se, ergueu um quadril e pediu a Bella: — Pode pegá-la?

Com algumas contorções e o uso flexível dos dedos, Bella conseguiu tirar a lanterna e acendê-la. Seguiram pela trilha estreita em fila indiana.

Já estava tudo preparado e arrumado no ponto doze, uma fogueira ardendo num círculo de areia sem folhas e gravetos. Jessica acendera o lampião Coleman, a chama baixa, e enchera de gelo uma caixa de isopor. Sentava nela, comendo de um saco de batatas fritas e tomando uma cerveja.

— É ela! — Jessica ergueu a lata de cerveja num brinde. — Isabela Swan, seja bem-vinda!

Bella largou no chão seu saco de dormir. Pela primeira vez, sentia-se em casa. E sentia-se bem-vinda.

— Obrigada.

***

— Uma médica... – Bella sentava no chão, de pernas, ao lado da fogueira, tomando o Chardonnay de um copo de plástico. Uma garrafa já estava metida na areia pelo gargalo. — Não posso imaginar. Quando éramos crianças, você sempre falava em ser uma arqueóloga ou coisa parecida, uma Indiana Jones feminina, explorando o mundo.

— Em vez disso, resolvi explorar a anatomia. — Num porre agradável, Rose espalhou mais do excelente patê de Emmett numa bolacha Ritz. — E gosto muito.

— Todo mundo sabe de seu trabalho, Bella — disse Rose, tentando desviar a conversa na direção de Bella. — Mas há alguma coisa especial em sua vida?

— Não. E na sua?

— Tenho trabalhado em seu irmão, mas ele não quer cooperar.

— Emmett? —Bella engasgou com o vinho. Respirou fundo. E repetiu: — Emmett?

— Ele é solteiro, atraente, inteligente. — Rose lambeu o polegar. — E faz um patê maravilhoso. Por que não Emmett?

— Não sei. Ele é... — Bella gesticulou. — Emmett...

— Ele finge ignorá-la. — Alice sentou e também se serviu de patê. — Mas não é o que acontece.

— Não? — Rose fitou-a, os olhos contraídos. — Como sabe?

— Uma atriz tem de observar as pessoas, saber como elas desempenham seus papéis. — Alice acenou com a mão, jovial. — Você o deixa nervoso e ele se sente irritado por isso. O que significa que você o irrita porque ele nota sua presença.

— É mesmo? — Embora já se sentisse tonta, Rose terminou de tomar o vinho em sua garrafa e serviu-se de mais. — Ele disse alguma coisa a meu respeito? Acha que... Ei, espere um pouco!

Ela ergueu a mão, revirou os olhos e acrescentou:

— Parece até que estamos na escola secundária. Esqueça que eu perguntei.

— Quanto menos fala sobre qualquer coisa, mais Emmett pensa a respeito — garantiu Alice. — E ele mal menciona seu nome.

— É mesmo? — repetiu Rose, começando a se animar. — Ele é assim? Ora, ora... talvez eu lhe dê outra chance.

Ela piscou ao clarão em seus olhos.

— Por que a foto? — perguntou ela, enquanto Bella baixava a câmera.

— Você parecia muito presunçosa. Chegue perto de Alice e Jessica. Quero tirar uma foto das três.

— Lá vai ela de novo... — resmungou Alice, mas empurrou os cabelos para trás e posou assim mesmo.

Bella quase nunca fazia retratos, muito menos de pessoas que não estavam posando. Gostava de deixar que se arrumassem para a câmera, enquadrava-as, ajustava a lente e acionava o clarão do flash para iluminá-las.

As três eram lindas, refletiu ela, cada uma à sua maneira exclusiva: Jessica, com seus cabelos louros frisados e o sorriso largo; Alice, sempre pensando em si mesma e mal-humorada; Rose, confiante e sexy.

E eram parte de sua vida, pensou Bella. Cada uma delas, por motivos diferentes. Esquecera isso por tempo demais.

Sua visão ficou turva e ela demorou um instante para compreender que tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Senti saudade de todas vocês... muita saudade. — Ela largou a câmera e levantou-se. — Tenho de fazer xixi.

— Irei com ela — murmurou Rose, enquanto Bella deixava a clareira.

Ela pegou uma lanterna e foi atrás, apressada.

— Ei, Bella! — Rose teve de andar mais depressa para alcançá-la. Segurou-a pelo braço. — Vai me contar qual é o problema?

— Minha bexiga está cheia. Como médica, você devia reconhecer o sintoma.

Quando Bella fez menção de se desvencilhar, Rose segurou-a com mais firmeza.

— Estou perguntando como amiga e como médica. Vovó diria que você se encontra no fundo do poço. Deu para perceber, por esse breve encontro, que você está esgotada e estressada. Não quer me dizer qual é o problema?

— Não sei. — Bella comprimiu uma das mãos contra os olhos, porque ameaçavam se encher de lágrimas outra vez. — Não posso falar a respeito. Só preciso de algum espaço.

— Está bem. — A confiança era sempre conquistada passo a passo, pensou Rose. — Não quer me procurar na clínica? E fazer um exame médico completo?

— Não sei... talvez. Pensarei a respeito. —Bella controlou-se e conseguiu sorrir. — Mas há uma coisa que posso lhe dizer.

— O que é?

— Tenho de fazer xixi.

— Por que não disse logo? — Rose apontou a lanterna pela trilha, rindo. — Se sair correndo do acampamento sem uma lanterna, pode acabar virando comida de aligátor.

Cautelosa, Rose correu o facho da lanterna pela vegetação densa que margeava a lagoa próxima.

— Acho que eu poderia andar por esta ilha de olhos vendados. Senti mais saudade do que imaginava, Rose, mas ainda tenho a sensação de que sou uma estranha aqui. É uma linha indistinta para cruzar.

— Ainda não tem duas semanas que voltou. Dê para si mesma o tempo que disse que precisa.

— Estou tentando. Eu primeiro.

Bella agachou-se na pequena privada. Rose começou a rir, mas depois descobriu-se a tremer. No instante em que Bella fechou a porta, ela sentiu-se completamente sozinha e exposta. Os sons pareciam se aproximar, envolvê-la. Sussurros, gritos, batidas. Nuvens encobriram a lua. Ela segurava e apertava a lanterna com as duas mãos.

Isso é ridículo, ela disse a si mesma. Não passava de uma reação retardada à experiência que tivera na floresta naquela tarde. Claro que não estava sozinha. Havia outros locais de acampamento ocupados ao redor. Podia até divisar o brilho de lanternas e fogueiras. E Bella estava separada apenas por uma porta de madeira.

Não havia nada que pudesse assustá-la, ela lembrou a si mesma. Não havia nada nem ninguém na ilha que tivesse a intenção de lhe causar qualquer mal.

E quase soltou um suspiro de alívio quando Bella saiu da privada.

— Pode entrar — disse Bella, ainda abotoando os jeans. — Mas leve a lanterna. Quase caí no buraco. Está escuro como a morte lá dentro, sem falar no cheiro.

— Poderíamos ter ido aos banheiros coletivos.

— Acho que eu não precisaria mais quando chegasse lá.

— Bom argumento. Espere por mim, está bem?

Bella murmurou em concordância. Encostou-se ao lado da porta. Empertigou-se quase no instante seguinte ao ouvir passos à sua direita. Ficou tensa, mas disse a si mesma que a reação era apenas um subproduto da vida na cidade. Observou uma luz balançando aproximar-se.

— Olá.

A voz masculina era baixa, cordial e agradável. Bella fez um esforço para relaxar.

— Olá. Já vamos sair daqui em um minuto.

— Não tem problema. Eu estava apenas dando um passeio ao luar antes de dormir. Estou no ponto dez. — O homem se adiantou por mais alguns passos, mas permaneceu nas sombras. — Uma linda noite. Um lindo lugar. Nunca imaginei que veria também uma linda mulher.

— Nunca se sabe o que se vai encontrar na ilha. —Bella contraiu os olhos pela luz da lanterna em seus olhos. — Isso é parte do charme.

— Tenho certeza. Estou gostando de tudo. Uma aventura em cada passo, não é mesmo? A expectativa do que pode acontecer. Sou um grande fã... da expectativa.

Não, refletiu Bella, a voz não era cordial e agradável. Era como xarope... doce demais, densa demais e tinha aquele sotaque arrastado exagerado com que os ianques, insultuosamente, imitavam a maneira de falar dos sulistas.

— Neste caso, tenho certeza de que não ficará desapontado com o que Desire tem a oferecer.

— Do meu ponto de vista, as ofertas são perfeitas.

Se estivesse com a lanterna, Bella esqueceria as boas maneiras e iluminaria o rosto do estranho. Era o fato de a voz sair do escuro, ela disse a si mesma, que a fazia parecer tão assustadora e perigosa. Quando a porta da privada rangeu, ao seu lado, ela se inclinou e pegou a mão de Rose, antes mesmo que a amiga acabasse de sair.

— Temos companhia — anunciou Bella, irritada por sua voz soar tão alta e estridente. — Parece que o ponto aqui é bastante popular esta noite. O número dez está de passagem.

Mas quando ela tornou a olhar, levantando a mão de Rose que segurava a lanterna, não havia ninguém ali. Com um som de pânico em sua garganta, Bella pegou a lanterna, frenética, e iluminou os arbustos e árvores à sua frente.

— Ele eslava aqui. Havia alguém aqui. Não imaginei nada. Tenho certeza.

— Está tudo bem. — Gentilmente, Rose pôs a mão no ombro de Bella, preocupada com o tremor. — Quem era ele?

— Não sei. Apareceu de repente. E conversou comigo. Não ouviu?

— Não, não ouvi nada.

— Ele estava quase sussurrando. Foi por isso. Não queria que você ouvisse. Mas o homem esteve aqui. — Seus dedos apertavam os de Rose como um torno, o pânico agitava seu estômago. — Juro que ele estava bem ali.

— Acredito em você, querida. Por que não acreditaria?

— Porque ele desapareceu e... — A voz de Bella definhou. Ela balançou por um instante, para recuperar o equilíbrio. — Não sei. Ó Deus, que confusão! Estava escuro e ele me deu um susto. Não pude ver seu rosto.

Ela deixou escapar um suspiro e empurrou os cabelos para trás com as duas mãos.

— Acho que ele me deixou arrepiada.

— Não é nada de mais. Também levei um susto esta tarde quando ia para Santuário. E fugi como um coelho assustado.

Bella soltou uma pequena risada. Esfregou as palmas suadas nas coxas dos jeans.

— E mesmo?

— Pulei nos braços de Emmett, balbuciando. Isso fez com que ele se sentisse tão grande e forte que até me beijou. Portanto, não foi uma perda completa.

Bella fungou, grata por sentir as pernas outra vez firmes.

— E como foi?

— Maravilhoso. Por isso, estou absolutamente convencida de que ele merece outra chance. — Ela apertou a mão de Bella. — Sente-se melhor agora?

— Muito melhor. Desculpe.

— Não foi nada. Um lugar assustador. — Rose sorriu. — Vamos voltar e dar um susto em Al e Jess.

***

Quando as duas se afastaram, de mãos dadas, ele observou-as das sombras. Sorriu para si mesmo, apreciando a música de vozes femininas suaves definhando na distância. Fora melhor que ela tivesse vindo com a outra. Poderia ter se sentido compelido a passar para o estágio seguinte se Isabela chegasse tão perto sozinha.

E ainda não estava preparado, não como deveria, para passar da expectativa à realidade. Ainda havia muita coisa para providenciar, muita coisa para aproveitar.

Mas como ele a desejava! Saborear aquela boca firme e sensual, abrir aquelas coxas compridas, fechar as mãos em torno daquela linda garganta branca.

Ele fechou os olhos e deixou que a imagem aflorasse em seu cérebro. A imagem congelada de Renne, tão imóvel e tão perfeita, adquirindo vida e tornando-se sua. Virando Bella.

Uma parte do diário projetou-se em sua mente:

O assassinato fascina a todos nós. Alguns negariam, mas são mentirosos. O homem sente uma atração irresistível pelo espelho de sua própria mortalidade. Os animais matam para sobreviver... por alimento, por território, por sexo. A natureza mata sem emoção.

Mas o homem também mata por prazer. Sempre foi assim. Somos os únicos dentre todos os animais que sabem que tirar uma vida é a essência do controle e poder.

Muito em breve experimentarei essa perfeição. E poderei captá-la. Minha própria imortalidade.

Ele estremeceu de prazer.

Expectativa, pensou ele, enquanto acendia a lanterna de novo, para iluminar o caminho. Isso mesmo, ele era um grande fã da expectativa.

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Bom gente, mais um capitulo espero que estejam gostando.......

Deixem reviews......... bjuxx^^