Capítulo Oito

O assovio alegre acordou Edward. Enquanto vagueava pelo mundo logo abaixo da plena consciência, sonhou com um passarinho cantando feliz num galho próximo da borda junto de sua janela. Encontrara um passarinho assim quando era jovem, um melro que entoava sua canção matutina todos os dias, durante um verão inteiro, saudando-o com tanta precisão que passara a chamá-lo de Bud, o companheiro.

Eram dias quentes e vagos, repletos de atividades importantes, tomo andar de bicicleta, jogar bola e tomar sorvete.

O canto insistente do amanhecer fazia com que Edward saudasse todas as manhãs com um sorriso e uma saudação rápida para Bud. Ficara arrasado quando Bud o abandonara ao final de agosto. A mãe lhe dissera que Bud provavelmente partira mais cedo para as férias do inverno.

Edward virou na cama, achando muito estranho que Bud soubesse assoviar "Ring of Fire". No meio do sonho, Bud pulou para o peitoril da janela, agora um passarinho de desenho animado, um personagem de Disney, com penas pretas e lustrosas e o rosto curtido de Johnny Cash, o rosto de quem já estivera em toda parte e fizera tudo.

Quando o passarinho começou a executar uma coreografia que incluía chutes para o ar e giros rápidos, Edward despertou por completo. Olhou para a janela, meio esperando deparar com alguma extravagância de desenho animado.

— Ó Deus... — Ele passou as mãos pelo rosto. — Nunca mais coma chili em lata à meia-noite, Cullen.

Ele virou de novo e comprimiu o rosto contra o travesseiro. Só então percebeu que o passarinho não estava ali, mas o assovio continuava.

Com um grunhido, saltou da cama e pôs o short de jeans cortados que usava na noite anterior. O cérebro confuso pela falta de sono, ele piscou para o relógio, estremeceu, depois saiu do quarto para descobrir quem se mostrava tão animado às seis e quinze da manhã.

Seguiu o assovio — era "San Antônio Rose" agora —, saiu da varanda cercada de tela, desceu os degraus. Havia uma picape vermelha reluzente parada atrás do seu Jeep. O dono estava por baixo da casa, em cima de uma escada e fazendo alguma coisa com um cano, enquanto assobiava com o maior entusiasmo. Os músculos saltados por fora e por trás da camiseta azul fizeram com que Edward reajustasse seus pensamentos de assassinato rápido.

Talvez pudesse dominar o Garoto Assobiador, ele pensou. Pareciam ter mais ou menos a mesma altura. Não dava para ver seu rosto, mas o boné, os jeans justos e as botinas de trabalho surradas indicavam juventude.

Pensaria em matá-lo depois do café, decidiu Edward.

— O que está fazendo aqui?

O Garoto Assobiador virou a cabeça e ofereceu um sorriso rápido e jovial por baixo da pala do boné.

—Bom dia. Tem algum vazamentos aqui. Preciso subir e dar um jeito antes de começar o tempo de AC. — Conserta ar-condicionado?

— Conserto tudo.

Ele desceu da escada. Limpou a mão no fundilho dos jeans antes de estendê-la para Edward.

— Sou Jasper Withlock. Conserto tudo.

Edward estudou os olhos castanhos cordiais, as covinhas, os cabelos clareados pelo sol que se derramavam do boné e desistiu dos planos de homicídio.

— Você sabe fazer café? Um café decente?

— Se tem os ingredientes, posso fazer.

— Tem uma coisa parecida com um cone e uma espécie de... — Edward ilustrou com as mãos, vagamente — bule.

— Conheço o esquema. O café pinga do cone. O melhor sistema. E parece que está bem precisado de um café, Sr. Cullen.

— Edward. Eu lhe darei cem dólares por um bule de café de verdade.

Jasper soltou uma risada e deu um tapa firme e cordial nas costas de Edward.

— Se está precisando tanto assim, é de graça. Vamos logo fazer esse café.

— Sempre começa a trabalhar de madrugada? — perguntou Edward, enquanto subia os degraus atrás de Jasper.

— Quando se começa cedo, gosta-se mais do dia. — Ele seguiu direto para o fogão. Encheu a chaleira com água da pia. — Tem filtros?

— Não.

— Neste caso, teremos de improvisar.

Jasper pegou algumas toalhas de papel, dobrou-as com a maior habilidade e ajeitou-as no cone de plástico.

— Você é arquiteto, não é?

— Sou sim.

Edward passou a língua pelos dentes e pensou por um instante em escová-los. Depois do café. Mundos podiam ser conquistados, oceanos percorridos, mulheres seduzidas. Valeria a pena viver a vida de novo. Depois do café.

— Eu costumava pensar que seria um.

— Costumava pensar que seria um o quê? — indagou Edward, enquanto Jasper abria o armário por cima da pia à procura de café.

— Um arquiteto. Sempre podia ver esses lugares em minha mente, casas na maioria, as janelas, telhados, paredes. Podia ver até os ornamentos. — Jasper tirou o café da lata e despejou no filtro com a precisão descuidada do hábito. — Podia até entrar na casa, revisar a planta. Às vezes pensava em mudar as coisas. O lugar certo para esta escada não é aqui, mas ali.

— Entendo o que está dizendo.

— Mas não tinha recursos para pagar a faculdade, e agora não tenho tempo para largar tudo e estudar. Em vez disso, construo.

Em expectativa, Edward pegou duas canecas.

— Você é um construtor?

— Não sei se poderia se chamar assim. Não chega a esse ponto. Mas faço anexos e conserto coisas. — Ele afagou o cinto de ferramentas, com a mesma confiança com que um pistoleiro do Velho Oeste afagava o revólver no quadril. — Sou competente com o martelo. E como sempre há alguma coisa a consertar por aqui, estou sempre ocupado. Talvez um dia desses eu pegue uma das casas em minha mente e a construa do nada.

Edward encostou-se no balcão, fazendo um esforço para não babar enquanto Jasper despejava a água fervendo no filtro.

— Tem feito algum trabalho em Santuário?

— Claro. Uma coisa e outra. Trabalhei na equipe que reformou a cozinha para Emmett. Agora Sue Pendleton está querendo acrescentar um banheiro. Como um solário. Um lugar em que possa instalar uma Jacuzzi e talvez uma sala de ginástica. As pessoas gostam de fazer essas coisas quando estão de férias. Estou preparando um projeto para ela.

— No lado sul — disse Edward para si mesmo. —A luz seria a melhor, com acesso direto pelo jardim.

— Foi o que pensei. — O sorriso de Jasper se alargou. — Acho que estou no caminho certo, se você pensou a mesma coisa.

— Eu gostaria de ver suas plantas.

— É mesmo? — Jasper deixou transparecer toda a sua surpresa e prazer. — Isso é ótimo. Eu as trarei assim que estiverem um pouco mais completas. Um pagamento melhor do que os cem dólares pelo café.

Uma pausa e ele acrescentou, ao notar como Edward olhava para o bule, enchendo lentamente:

— Demora para coar. As melhores coisas levam algum tempo. Mais tarde, quando estava no chuveiro, tomando a segunda caneca de café, enquanto a água quente escorria pela nuca, Edward teve de concordar que Jasper tinha razão. Valia a pena esperar por algumas coisas. A mente estava lúcida outra vez, o organismo quase vibrando de contentamento com a cafeína. Ao se vestir e depois de tomar a terceira caneca de café, sentia-se preparado para a ida a pé até Santuário, ansioso por uma lauta refeição.

Tanto a picape quanto Jasper haviam desaparecido quando Edward tornou a descer os degraus da varanda. Partiu para consertar outra coisa, concluiu ele. Sabia que Jasper achara engraçado quando ele lhe pedira as instruções para fazer o café daquela maneira, passo a passo. Mas Edward funcionava melhor com instruções precisas.

Descobriu-se a assoviar "I Walk the Line". De volta a Johnny Cash, pensou ele, balançando a cabeça. E nem mesmo gostava de música country.

Quando entrou na floresta, escura e verde, deliberadamente passou a andar mais devagar. Seguiu a suave curva do rio, sob a arcada de galhos e musgo balançando. Porque sempre lhe ocorria que era como entrar numa igreja, parou de assoviar.

Um movimento de cor atraiu sua atenção. Parou para observar uma borboleta amarela que esvoaçava pela trilha. A esquerda, as pequenas palmeiras, trepadeiras emaranhadas c troncos retorcidos formavam uma muralha que se projetava para o alto, oferecendo vislumbres de flores vermelhas, os trechos do céu muito azul avistados através dos galhos.

Embora fosse um desvio, ele continuou pela trilha à beira do rio. Sabia que o rio se alargaria e que penetraria ainda mais no silêncio e frescura da floresta.

Até que a viu, de repente, agachada ao lado de um tronco caído. As mangas do blusão folgado estavam puxadas além dos cotovelos, os cabelos estendidos para trás e presos num rabo-de-cavalo curto. Tinha um joelho na terra úmida, o outro pé bem plantado no chão, para manter o equilíbrio.

Não seria capaz de dizer por que a achava tão atraente. Por que a achava tão... interessante.

Mas permaneceu onde estava, em silêncio, observando Bella se preparar para tirar a foto.

Achava que sabia o que ela procurava. O jogo de luz na água, as sombras das árvores na superfície escura, a tênue neblina se dissipando. Um pequeno milagre, de profunda intimidade. E a maneira com que o rio fazia uma curva, um pouco além, pensou Edward. A maneira com que desaparecia nessa curva, onde a relva era alta e as arvores grossas, levando a especular o que se poderia ver ali.

Quando ele viu a corça surgir, à esquerda, adiantou-se sem fazer barulho e agachou-se por trás de Bella. Ela teve um sobressalto quando Edward tocou em seu ombro e por isso ele deu um aperto de leve.

— Não faça barulho — sussurrou ele. — À esquerda. Na posição de dez horas.

Embora seu coração disparasse e batesse forte, Bella deslocou a câmera para a esquerda. Quando focalizou a corça, respirou fundo, para se controlar, e esperou.

Captou a corça, a cabeça erguida, farejando. Tornou a clicar quando a corça esquadrinhou o rio e olhou direto para os dois humanos no outro lado, agachados e imóveis. Seus braços começaram a doer a medida que os segundos foram se transformando em minutos. Mas Bella não se mexeu, pois não queria correr o risco de perder uma foto. A recompensa veio quando a corça avançou graciosa através da relva e o filhote de um ano saiu do meio das árvores e juntou-se à mãe para beber no rio.

A luz penetrava na floresta enviesada, em hastes brancas de sonho, parecendo líquida ao passar pela neblina em movimento. As línguas dos dois animais causavam ondulações suaves e lentas na água escura.

Deixaria uma subexposição, só um pouco, pensou Bella, a fim de acentuar a aura de outro mundo, em vez de procurar a nitidez firme da realidade. As cópias deveriam parecer encantadas, um pouco turvas, como as imagens de contos de fadas.

Ela não baixou a câmera até o filme acabar, e mesmo então se manteve em silêncio, enquanto a corça e o filhote se afastavam pela beira do rio, até desaparecerem além da curva.

— Obrigada. Eu poderia ter perdido a cena.

— Não creio.

Bella virou a cabeça e teve de recorrer a toda sua força de vontade para não recuar abruptamente. Não compreendera que ele se encontrava tão perto, nem que ainda mantinha a mão em seu ombro.

— Você se move sem fazer barulho, Edward. Não o ouvi.

— Estava completamente absorvida. Tirou a foto que focalizava antes de a corça aparecer?

— Vamos ver se saiu alguma coisa.

— Também gosto de tirar fotos. Um hobby antigo.

— Nada mais natural. Está no sangue.

Edward não gostou do comentário. Sacudiu a cabeça.

— Não tenho uma paixão pela fotografia. Apenas um interesse de amador. E uma porção de equipamentos.

Bella nunca sabia se era mais fácil falar de tais perdas ou não dizer nada. Por isso, optou por ficar calada.

— Seja como for, tenho agora todos os equipamentos profissionais e uma habilidade mínima — acrescentou ele. — Não é nem um pouco parecida com a sua.

— Como sabe que tenho alguma habilidade se nunca viu meus trabalhos?

— Excelente pergunta. Eu poderia dizer que a opinião vem de observar seu trabalho agora. Você tem a paciência, a graça silenciosa, a imobilidade. A Imobilidade é uma qualidade atraente.

— Pode ser, mas fiquei imóvel por tempo demais.

Ela começou a se levantar. Edward transferiu a mão de seu ombro para o cotovelo e levantou-a junto com ele.

— Não quero atrapalhar seu passeio — acrescentou Bella.

— Se continuar a me escorraçar desse jeito, Isabela, vou acabar complexado.

Ela parecia mais descansada, pensou Edward. Havia um pouco de cor em suas faces... mas podia ter sido causada pela irritação. Ele sorriu e levantou a câmera de lente sem reflexo, pendurada no pescoço de Bella.

— Também tenho esse modelo.

— É mesmo? — Ao se lembrar da criação de Edward, Bella absteve-se de dar um puxão na câmera. — Como eu disse, seria difícil para você não ter algum interesse por fotografia. Seu pai ficou desapontado por você não ter seguido a mesma carreira?

— Não. — Edward continuou a estudar a Nikon, recordando as pacientes instruções do pai sobre abertura, campo de visão. — Meus pais jamais desejaram que eu fosse qualquer outra coisa que não o que quisesse ser. Seja como for, James ganhava a vida com uma câmera.

— Eu não sabia... —Bella recordou abruptamente que James também havia morrido. Sem pensar, tocou na mão de Edward. — Se é um ponto sensível, não há necessidade de falar a respeito.

— Também não se pode ignorar. — Edward deu de ombros. — James trabalhava na Europa... Milão, Paris, Londres. Fazia muita fotografia de moda.

— E uma arte independente.

— Claro. E você tira fotos de rios.

— Entre outras coisas.

— Eu gostaria de ver suas fotos.

— Por quê?

— Acabamos de concluir que é um interesse meu. — Ele soltou a câmera. -Dedicarei mais tempo à fotografia enquanto estiver aqui. E gostaria de conhecer seu trabalho. Como você mesma disse... está relacionado com meu pai.

Era o rumo certo. Ele quase podia ver a mente de Bella mudando de idéia, passando da recusa automática para a concordância.

— Trouxe alguma coisa comigo. Acho que você pode dar uma olhada um dia desses.

— Que tal agora? Eu estava mesmo a caminho de Santuário.

— Está bem. Mas não tenho muito tempo. Ainda estou prestando serviço de arrumadeira.

Bella começou a se abaixar para pegar a bolsa de equipamentos, mas ele se antecipou.

— Pode deixar que eu levo.

Bella foi andando ao seu lado. Tirou o maço de cigarros do bolso do casaco.

— Isso não é outra cantada, não é mesmo?

— Seria, se eu tivesse pensado nisso. Ainda tenho aquele filé à espera.

— Vai acabar com queimadura de freezer. — Bella soltou um suspiro, enquanto o estudava pelos olhos contraídos. — Por que sua esposa o deixou?

— O que a leva a pensar que ela me deixou?

— Está bem... por que você a deixou?

— Deixamos um ao outro. — Edward afastou para o lado um musgo pendendo na trilha. — O casamento se perdeu pela falta de interesse. Está tentando avaliar que tipo de marido eu era antes de me deixar lhe oferecer um filé para o jantar?

— Não. — A irritação na voz de Edward levou-a a contrair os lábios, antes de acrescentar: — Mas teria feito isso, se lembrasse. Por que não pulamos esse assunto? Perguntarei apenas se gostou da primeira semana em Desire.

Ele parou e virou-se para fitá-la.

— Não foi mais ou menos aqui que você caiu na água naquele verão?

Bella alteou uma sobrancelha.

— Não. Foi um pouco mais rio abaixo que você me empurrou. E se teve a idéia de repetir a manobra, eu pensaria duas vezes.

— Uma das razões para minha volta é reconstituir alguns daqueles dias e noites. — Edward deu um passo à frente e ela deu um passo para trás. — Tem certeza de que não foi aqui que você entrou na água?

— Tenho sim.

Ele fez com que Bella desse outro passo para trás. Ela bateu com a mão no peito dele, mas descobriu-se manobrada para mais perto da margem.

— Não tenha tanta certeza.

No instante em que Bella escorregou na relva úmida, ele puxou-a ao encontro de seu peito.

— Epa! — Sorridente, Edward passou os braços em torno de sua cintura. — Há sempre uma possibilidade, não é?

Bella segurou os braços de Edward com firmeza, para qualquer eventualidade.

— Já chega.

— Acho que terei de aceitar sua palavra quanto a isso... e esperar a descoberta por mim mesmo. A expectativa é metade da diversão.

— Como? — Bella sentiu que o sangue se esvaía para a sola dos pés. Sou um grande fã da expectativa. — O que foi mesmo que disse?

— Que eu aceitaria sua palavra. Ei! — Ele deslocou o peso do corpo de um pé para outro. Puxou-a para mais perto, enquanto ela se debatia. — Tome cuidado ou acabaremos dando um mergulho matutino.

Edward conseguiu afastá-la da beira do rio. Bella estava branca, tremendo tanto, que a pele vibrava nas palmas de Edward.

— Fique calma — murmurou ele, tornando a abraçá-la. — Não tive a intenção de assustá-la.

— Sei disso.

O medo viera e passara depressa, deixando-a com a sensação de que era uma tola. Porque seu coração ainda batia forte, deixou que Edward a abraçasse... e perguntou-se quando fora a última vez em que alguém a abraçara daquele jeito.

— Não foi nada — acrescentou Bella. — Apenas uma estupidez. Encontrei um cara à noite no camping que me disse uma coisa parecida. Ele me assustou.

— Desculpe.

Bella deixou escapar um longo suspiro.

— Não foi culpa sua. Ando com os nervos à flor da pele.

— Ele não a machucou?

— Não. Nem tocou em mim. Apenas me deixou assustada. Ela encostou a cabeça no ombro de Edward e começou a fechar os olhos. Seria muito fácil permanecer assim. Ser abraçada. Sentir-se segura. Mas fácil nem sempre era a maneira certa. Ou a mais sensata.

— Não vou para a cama com você, Edward.

Ele esperou um momento, apreciando a sensação de Bella aconchegada em seus braços, a textura dos cabelos contra seu rosto.

— Neste caso, posso muito bem me afogar no rio neste momento. Acaba de destruir o sonho de minha vida inteira.

Bella teve vontade de rir, mas reprimiu a risada que se formou em sua garganta.

— Estou tentando ser franca com você.

— Em vez disso, por que não mente um pouco? Afague meu ego. — Edward deu um puxão de leve no rabo-de-cavalo e ela levantou a cabeça. — Podemos começar com uma coisa simples e continuar até as mais complicadas.

Ela observou o olhar de Edward baixar para sua boca, perdurar, depois subir lentamente para os olhos. Quase podia saborear o beijo, sentir a vibração em seus lábios. Seria simples fechar os olhos e deixar que ele a beijasse. Seria fácil inclinar-se para a frente e recebê-lo no meio do caminho.

Em vez disso, porém, ela ergueu a mão e pressionou os dedos contra a boca de Edward.

— Não.

Ele suspirou, pegou o pulso de Bella e roçou os lábios pelos dedos.

— Você sabe como fazer um homem se empenhar por seus prazeres, Bella.

— Não serei um dos seus prazeres.

— Você já é. — Sem largar a mão de Bella, ele virou-se para seguir até Santuário. — Não me pergunte por quê.

Como ele parecia não esperar um comentário a respeito nem uma conversa inconseqüente, Bella foi andando em silêncio. Teria de pensar sobre aquela... situação, decidiu ela. Não era bastante tola para negar que tivera uma reação a Edward. Aquele clique físico, visceral, que qualquer mulher reconhecia como desejo básico. Era normal o suficiente a ponto de ser quase tranqüilizador.

Podia estar perdendo o juízo, mas o corpo ainda funcionava em todos os circuitos elementares.

Não sentira o clique com bastante freqüência em sua vida para considerá-lo como uma coisa corriqueira. E quando ecoava de uma forma tão óbvia no homem que a causara... isso era uma coisa em que não se podia deixar de pensar.

Por enquanto, pelo menos, era algo que podia controlar, que podia compreender, analisar, relacionar as opções. Mas ela desconfiava que o problema com os cliques era o fato de que causavam comichões. E problema com as comichões era o fato de que incomodavam até que ela desistia e começava a cocar.

— Terá de ser depressa — avisou ela, enquanto se encaminhava para a porta lateral.

— Sei disso. Você está no serviço de arrumação de camas. Não vou retê-la por muito tempo. Planejo farejar em torno de Emmett até ele me alimentar.

— Se não estiver muito ocupado, pode persuadi-lo a sair depois. Para ir à praia, talvez para pescar. Ele passa tempo demais aqui.

— Ele adora esta casa.

— É verdade. — Bella entrou num corredor em cuja parede fora pintado um mural da floresta e do rio. — Mas isso não significa que tem de servir Santuário em todas as horas de todos os dias.

Ela empurrou um painel e uma parte do mural abriu.

— É uma maneira estranha de expressar a situação — comentou Edward, passando pela abertura e subindo a escada para o que fora outrora os aposentos dos criados, mas era agora a entrada particular da ala da família. — Servir Santuário.

— É o que ele faz. Suponho que é o que todos nós fazemos quando estamos aqui.

Ela virou à esquerda no alto da escada. Ao passar pela primeira porta aberta, deu uma olhada no quarto de Alice. A enorme cama de baldaquino estava vazia. E desarrumada, como era de esperar. Havia roupas espalhadas por toda parte... no tapete, no assoalho encerado, nas cadeiras. As fragrâncias de loções, perfumes e talcos pairavam no ar, em celebração feminina.

— Talvez nem todos — murmurou Bella, continuando a andar. Ela tirou uma chave do bolso e abriu uma porta estreita. Edward alteou as sobrancelhas em surpresa quando entrou. Era um laboratório fotográfico muito bem equipado e organizado.

Um tapete antigo e puído protegia o assoalho de tábuas de pinho de largura variável; estores grossos estavam arriados e presos, para permanecerem assim, sobre as janelas gêmeas. Prateleiras de metal cinza continham vidros com substâncias químicas e tubos de plástico. Em outras, havia pilhas de caixas de papelão preto, que ele presumiu que continham os papéis de cópias, as folhas de contato e fotos já prontas. Havia uma bancada de trabalho comprida, de madeira, com um banco alto.

— Não sabia que você tinha um laboratório aqui.

— Era um banheiro e quarto de vestir. —Bella acendeu a luz branca. Foi até as fotos que revelara e copiara na noite anterior, ainda penduradas na linha de secagem. — Pressionei a prima Sue até que ela me deixou derrubar a parede e fazer o laboratório. Poupei durante três anos para comprar os equipamentos.

Ela passou a mão pelo ampliador, lembrando o cuidado com que fizera uma pesquisa de preços, contando cada centavo.

— Sue comprou isto para mim como presente de aniversário quando fiz dezesseis anos. Emmett me deu as estantes e a bancada. Ali me deu papel e fluido de revelação. Surpreenderam-me com os presentes antes que eu gastasse minhas economias. Foi o melhor aniversário que já tive.

— A família sempre ajuda — comentou Edward, notando que ela não mencionara o pai.

— Às vezes isso acontece. —Bella inclinou a cabeça para a pergunta que não foi formulada. — Ele permitiu o laboratório. Afinal, não foi fácil para meu pai renunciar a uma parede.

Ela virou-se para pegar uma caixa em cima da máquina de esmaltagem.

— Estou reunindo fotos para um livro que devo lançar. Estas provavelmente são as melhores, embora eu ainda tenha de fazer a seleção final.

— Vai lançar um livro? Maravilhoso!

— Isso ainda tem de ser comprovado. Por enquanto, é apenas uma coisa com que tenho de me preocupar.

Ela deu um passo para trás quando Edward se adiantou para pegar a caixa. Enganchou os polegares nos bolsos de trás da calça e ficou esperando.

Edward precisou ver apenas a primeira foto para notar que ela estava muito além de competente. Seu pai fora competente, pensou Edward, às vezes até inspirado. Mas, se ela se considerava a discípula de Carlisle Cullen, então superara em muito seu mentor.

A foto em preto-e-branco vibrava de drama, as linhas tão firmes e nítidas que poderiam ter sido esculpidas com um bisturi. Era um estudo de uma ponte sobre águas agitadas... a ponte branca vazia, o mar escuro revolto, o sol acabando de romper no horizonte.

Outra mostrava uma árvore isolada, os galhos largos, estendendo-se em todas as direções, sem folhas, num campo deserto, recém-arado. Ele poderia contar os sulcos. Foi examinando as fotos lentamente, sem dizer nada, impressionado com o que Bella era capaz de ver, captar e projetar para a eternidade.

Chegou a uma cena noturna, um prédio de alvenaria, as janelas escuras, exceto pelas três de cima, com brilho surpreendentemente imenso. Dava para ver a umidade nos tijolos, uma tênue neblina turbilhonando por cima de poças escuras. E quase podia sentir na pele o ar frio e úmido.

— As fotos são espetaculares. E você sabe disso. Teria de ser absurdamente neurótica e humilde para não conhecer as dimensões de seu talento.

— Eu não diria que sou humilde. — Bella deu um sorriso. — Neurótica, provavelmente. A arte exige neuroses.

— Eu não diria neurótica. — Curioso, ele baixou a última foto, para estudar o rosto de Bella. — Mas solitária. Por que você é tão solitária?

— Não sei do que você está falando. Meu trabalho...

— É brilhante — interrompeu Edward. — E triste. Em cada uma dessas fotos a impressão é a de que alguém acabou de se afastar e só restou você em cena.

Apreensiva, ela tirou a foto da mão de Edward e tornou a guardá-la na caixa.

— Não estou interessada em fotografar pessoas. Não é isso o que eu faço.

— Bella... — Ele tocou com as pontas dos dedos o rosto dela e percebeu pelo lampejo em seus olhos que o gesto simples provocara um sobressalto. — Você exclui as pessoas. Faz com que seu trabalho seja visualmente espantoso e emocionante. Mas o que faz com o resto de sua vida?

— Meu trabalho é o resto da minha vida. — Com uma batida brusca, ela pôs a caixa de volta na prateleira. — E agora, como eu disse antes, tenho uma manhã muito ocupada.

— Não vou mais tomar seu tempo.

Mas ele virou-se, sem pressa, e começou a examinar as fotos penduradas na linha de secagem. Quando riu, Bella empinou os ombros e preparou-se para rosnar.

— Para alguém que alega não ter interesse por retratar pessoas, você sabe mostrá-las com perfeição.

Com uma expressão mal-humorada, ela adiantou-se e viu que Edward olhava para uma das fotos que tirara no camping.

— Isso não é trabalho. É simplesmente...

— Sensacional — arrematou Edward. — Engraçada, com um clima de intimidade. Essa é a médica com o braço estendido pelos ombros de sua irmã. Quem é a mulher com o sorriso de um hectare?

— Jessica Pendleton. — Bella fez um esforço para não rir. O sorriso de Jess era assim mesmo, vasto como um hectare, fértil, repleto de promessas. — Ela é nossa amiga.

— São todas amigas. Isso é evidente na foto... a afeição e o vínculo feminino. E é evidente também que há um vínculo da fotógrafa. Ela pode não aparecer na foto, mas sua ligação é inequívoca.

Bella mudou de posição, contrafeita.

— Estávamos de porre. Ou quase.

— Melhor assim. A foto é sem dúvida inadequada para o tema do livro que está preparando, mas deveria considerá-la se fizer outro. Nunca faz mal nenhum misturar um pouco de diversão em sua angústia.

— Está apenas olhando para um bando de mulheres atraentes e meio bêbadas.

— Por que não? — Ele estendeu a mão para o queixo de Bella, levantando-o quando ela quis se desvencilhar. — Eu adoraria ver como faz seu auto-retrato na próxima vez em que estiver tão descontraída.

Os olhos de Edward eram afetuosos e compreensivos, muito atraentes na maneira com que a fitavam e penetravam fundo em seus olhos. Bella sentiu aquele pequeno clique de novo, mais nítido desta vez.

— Vá embora, Edward.

— Está bem.

Ames que qualquer dos dois pudesse pensar a respeito, ele inclinou a cabeça e deu um beijo de leve em seus lábios. E logo deu outro beijo, um pouco mais longo, um pouco mais firme. Mais ardente do que ele esperava, pensou Edward, e mais excitante, já que ela mantivera os olhos abertos e sem piscar.

—Você estremeceu — murmurou ele.

— Não, não estremeci.

Edward passou o polegar pelo queixo de Bella, antes de baixar as mãos.

— Um dos dois estremeceu.

— Você não vai embora.

— Acho que não. Pelo menos não como você quer.

Ele comprimiu os lábios contra a testa de Bella desta vez. Ela não estremeceu, mas sentiu um solavanco no coração.

— Não... decididamente não como você quer.

Quando ele a deixou, Bella virou-se para a janela. Apressou-se em soltar o cordão do estore, levantá-lo e abrir as janelas. Queria ar, bastante ar, para esfriar o sangue e desanuviar a mente. E no momento mesmo em que respirava fundo divisou a figura parada à beira de uma duna, o vento desmanchando seus cabelos, estufando a camisa.

Sozinha, como seu pai sempre estava sozinho, todas as pessoas mantidas além do muro invisível que ele erguera. Com um movimento brusco, Bella fechou a janela de novo para depois baixar a cortina.

Não era seu pai. Não era sua mãe. Era ela mesma. E talvez fosse por isso que havia ocasiões em que sentia que não era ninguém.