Capítulo Dez

Pela primeira vez em semanas, Bella acordou descansada e com apetite. Sentia-se calma e controlada, refletiu, quase feliz. Sue tinha razão, decidiu Bella, enquanto passava os dedos pelos cabelos, como se fossem uma escova. Precisara da noite fora, o companheirismo, a música, a distração. E não fazia mal nenhum passar algumas horas na companhia de um homem que aparentemente a achava atraente. Na verdade, Bella começava a pensar que não faria mal nenhum passar um pouco mais de tempo em companhia de Edward.

Ela passou pelo laboratório. Por uma vez, não pensou no envelope com fotos que escondera no fundo de uma gaveta do arquivo. Por uma vez, não pensou em Rennne.

Em voz disso, pensou em descer outra vez até o rio, na possibilidade de esbarrar com Edward. Por acaso. Estava ficando tão terrível quanto Jessica, concluiu ela com uma risada. A tramar maneiras de fazer um homem notá-la.. Mas se dava certo para Jessica, talvez desse certo para ela também. O que havia de errado em flertar um pouco com um homem que a interessava? Que a deixava excitada?

Pronto. Bella parou na escada, bastante curiosa para avaliar a situação. Não era tão difícil assim admitir que ele a excitava... pela atenção dispensada, a maneira descontraída com que pegava sua mão, a maneira deliberada com que a fitava nos olhos. A maneira calma e confiante com que a beijara. Apenas se inclinara, recordou Bella, provara, aprovara e recuara. Como se soubesse que haveria muitas oportunidades para mais, no tempo e lugar que ela escolhesse.

Deveria tê-la enfurecido, pensou Bella. A clamorosa arrogância masculina. E, no entanto, ela descobrira que a atraíra, no mais primitivo dos níveis. Especulou como seria seu desempenho no jogo do amor e se demonstraria alguma habilidade.

Ela sorriu e continuou a descer. Tinha o pressentimento de que poderia surpreender Edward Cullen. E a si mesma.

— Eu bem que poderia ir, Charlie, mas tenho uma saída de hóspedes esta manhã. — Sue olhou quando Bella entrou na cozinha. Passou a mão pelos cabelos e ofereceu um sorriso distraído. — Bom-dia, querida. Levantou cedo.

— Todo mundo, ao que parece.

Bella olhou para o pai ao se encaminhar para o bule de café. Ele estava parado na porta, com metade do corpo fora. O desejo de escapar era óbvio.

— Algum problema? — perguntou ela, jovial.

— Um pequeno problema. Temos alguns campistas chegando na barca da manhã e outros partindo na volta da barca. Acabo de receber um telefonema de uma família que já arrumou tudo e está pronta para ir embora, mas não há ninguém para acertar as contas.

— Jessica não está no escritório?

— Ela não atende ao telefone ali, nem em sua casa. Imagino que dormiu demais. — Sue sorriu com um ar de cansaço. — Em algum lugar, tenho certeza de que prolongou a festa até tarde.

— A festa ainda estava animada quando fui embora, por volta de meia-noite.

Bella tomou um gole do café, o rosto franzido na tentativa de recordar se vira Jessica por perto antes de ir embora.

— Se ela tivesse uma noite de sono decente, em sua própria cama, não teria qualquer dificuldade para se apresentar no trabalho — resmungou Charlie.

— Você sabe muito bem que Jessica não costuma fazer isso, Charlie. Ela é tão confiável quanto o nascer do sol. — O rosto franzido em preocupação, Sue olhou para o relógio. — Talvez ela esteja passando mal.

— Ou seja, de ressaca.

— Como acontece com alguns seres humanos em vários momentos de suas vidas — protestou Sue, em tom brusco. — Mas isso não é relevante. O problema é que temos pessoas saindo do camping e outras chegando. Não posso sair daqui esta manhã. E mesmo que eu pudesse, não sei nada sobre armar barracas e banheiros portáteis. Você terá de abrir mão de duas horas de seu tempo precioso para cuidar disso.

Charlie piscou, aturdido. Era raro Sue assumir aquele tom mordaz com ele. E parecia que vinha ouvindo com bastante freqüência ultimamente. Porque queria paz mais do que qualquer outra coisa, Charlie deu de ombros.

— Irei até lá.

— Bella irá com você — disse Sue, abruptamente, o que fez com que os dois a fitassem, surpresos. — Você pode precisar de ajuda.

Ela passou a falar depressa, a decisão tomada. Se pudesse forçá-los à companhia um do outro durante a manhã, talvez mantivessem uma conversa de verdade.

— Bella, você pode aproveitar a ida ao camping para verificar como está Jessica. Talvez seu telefone não esteja funcionando, ou ela tenha passado mal. Deixarei para me preocupar a respeito até que você faça contato.

Bella transferiu a câmera para o outro ombro, vendo seus planos para a manhã se dissiparem.

— Está bem.

Avisem-me depois que tudo for resolvido. — Sue afugentou-os pela porta afora. — E não se preocupe com a arrumação da casa. Alice e eu daremos um jeito.

Como os dois estavam de costas, Sue deu um sorriso largo e esfregou as mãos. Pronto, pensou ela. Agora vocês têm de tratar um com o outro.

Bella sentou no banco do passageiro da velha Blazer do pai e prendeu o cinto de segurança. O veículo tinha o cheiro do pai. Areia, mar e floresta. O motor pegou sem dificuldade, com um ronco suave. Charlie nunca deixara que qualquer coisa sua sofresse por negligência, pensou ela. Exceto os filhos.

Irritada consigo mesma, Bella tirou os óculos escuros do bolso da frente da túnica e ajeitou no rosto.

— Foi uma boa festa ontem à noite — murmurou Bella.

— Preciso verificar se aquele garoto cuidou da praia.

O garoto era Jasper, Bella sabia; e ambos sabiam que Jasper não deixaria um único invólucro de comida para desfigurar a areia.

— A pousada parece que está bem. Tem muitos hóspedes para esta época do ano.

— Propaganda — disse Charlie, lacônico. — Sue cuida disso.

Bella teve de fazer um esforço para não deixar escapar um suspiro.

— Eu diria que a divulgação boca a boca também é forte. E o restaurante é uma atração com a comida de Emmett.

Charlie limitou-se a soltar um grunhido. Nunca poderia compreender, em toda a sua vida, como um homem era capaz de se amarrar a um fogão. Não que entendesse as filhas melhor do que compreendia o filho. Uma delas viajava para Nova York, querendo ser famosa por lavar os cabelos em comerciais de TV, enquanto a outra viajava por toda parte para tirar fotos. Havia ocasiões em que pensava que o maior enigma do mundo era como os filhos podiam ter saído dele.

Mas não podia esquecer que eram também filhos de Renne.

Bella deu de ombros e desistiu. Baixou a janela e deixou que o ar acariciasse seu rosto. Ficou escutando o barulho dos pneus na estrada e os sons no labirinto de mato que abrigava a vida à beira do pântano.

— Pare!

Sem pensar, ela estendeu a mão para tocar no braço de Charlie. Quando ele freou, Bella apressou-se em saltar, deixando o pai a observá-la com o rosto franzido.

Ai, numa elevação, uma tartaruga tomava sol, a cabeça erguida, de tal forma que os lindos padrões do pescoço refletiam-se com perfeição na água escura. O animal não lhe prestou qualquer atenção quando ela se agachou para bater a foto.

Depois houve um farfalhar e a tartaruga recolheu a cabeça, com um estalo súbito. Bella prendeu a respiração quando uma garça alçou vôo, como um fantasma todo branco, numa elevação quase vertical, sem qualquer esforço. Um momento depois, a garça abriu as asas, agitando o ar. Voou sobre a sucessão de pequenas lagoas e ilhotas, até mergulhar além das árvores.

— Eu costumava imaginar como seria fazer isso, voar pelo céu como magia, ouvindo apenas o som das asas batendo no ar.

— Lembro que você sempre gostou mais das aves — comentou Charlie, por trás dela. — Mas não sabia que pensava em voar.

Bella sorriu.

— Eu sempre imaginava. Mamãe me contou a história da Princesa Cisne, a linda jovem transformada em cisne por um feiticeiro. Sempre achei que era a melhor de todas.

— Ela conhecia uma porção de histórias.

— É verdade.

Bella virou-se e examinou o rosto do pai. Ainda o angustiava, ela especulou, lembrar a esposa? Doeria menos se ela pudesse lhe dizer que achava que Renne havia morrido?

— Eu gostaria de poder lembrar todas aquelas histórias — murmurou ela.

E desejava também poder se lembrar da mãe com bastante nitidez para saber o que fazer. Bella respirou fundo, para se controlar.

— Papai, alguma vez ela o avisou para onde foi ou explicou por que partiu?

— Não. — 0 calor que surgira em seus olhos, enquanto observava o vôo da garça com Bella, deu lugar ao gelo. — Não precisava. Não estava aqui e foi embora porque quis. Agora, precisamos ir para o camping.

Ele virou-se e voltou para a Blazer. Seguiram em silêncio pelo resto do caminho.

***

Bella trabalhara no camping durante a juventude. Aprendendo tudo sobre o empreendimento da família, como dizia Sue. O procedimento pouco mudara ao longo dos anos. O mapa grande pregado na parede do pequeno escritório detalhava os locais de acampamento, as trilhas, as instalações sanitárias. Os alfinetes de cabeça azul estavam espetados nos pontos já ocupados, os vermelhos nos locais reservados, enquanto os verdes indicavam os que haviam sido desocupados. Os pontos verdes precisavam ser verificados.

Os banheiros e chuveiros também eram examinados, duas vezes por dia, lavados, e os suprimentos, renovados. Como era improvável que Jessica tivesse feito qualquer coisa ali desde o luau, Bella resignou-se ao trabalho de faxineira.

— Pode deixar que eu cuido dos banheiros — disse ela a Charlie, enquanto ele preenchia os documentos necessários para que um grupo de impacientes campistas fosse embora. — Depois, irei até a cabana de Jessica para descobrir o que aconteceu.

— Vá primeiro à cabana — disse Charlie, sem levantar os olhos. — Cuidar dos banheiros é trabalho dela.

— Está bem. Não devo demorar mais de uma hora. Virei encontrá-lo aqui.

Bella seguiu a trilha para leste. Se fosse uma garça, pensou ela, com um pequeno sorriso, estaria batendo na porta de Jessica num piscar de olhos. Mas pelas voltas que a trilha dava, esgueirando-se entre as pequenas lagoas e contornando o mato alto, era uma caminhada de quase meio quilômetro.

Ela passou por uma área de acampamento com uma barraca ainda fechada. Era evidente que as pessoas ali não eram madrugadoras. Um par de guaxinins correu pela trilha. Os dois animais olharam para ela com expressões astutas e continuaram em sua busca pela primeira refeição.

A cabana de Jessica era uma pequena caixa de cedro, espremida entre as árvores. Era animada por dois enormes vasos vermelhos, cheios de flores de plástico, nas cores mais exuberantes. Estavam nos lados da porta, guardados por um velho par de flamingos rosa. Jessica gostava de dizer que adorava as flores e os animais, mas a variedade de plástico era a mais conveniente.

Bella bateu na porta uma vez, esperou um instante e depois entrou. A única sala da cabana tinha menos de dez metros quadrados, com a área da cozinha separada da área de estar por um balcão estreito. A falta de espaço não impedia Jessica de colecionar coisas. Havia bugigangas em todas as superfícies lisas. Globos cheios de água, cinzeiros de suvenir, mulheres de porcelana em vestidos ornamentados, poodles de cristal.

As paredes eram pintadas com um rosa brilhante e cobertas por gravuras de mau gosto... naturezas-mortas na maior parte, de flores e frutas. Bella ficou ao mesmo tempo comovida e surpresa ao ver uma de suas fotos em preto-e-branco, no meio das gravuras. Era uma foto simples, de Jessica dormindo numa rede de cordas em Santuário, tirada quando eram adolescentes. Bella sorriu ao se virar para o quarto.

— Jess, se você não está sozinha aí, trate de se cobrir porque vou entrar.

Mas não havia ninguém no quarto. A cama continuava desarrumada; e tanto a cama quanto boa parte do chão estavam cobertas de roupas. A julgar pelas aparências, refletiu Bella, Jessica tivera a maior dificuldade ao escolher a roupa certa para o luau.

Ela deu uma olhada no banheiro, só para ter certeza de que a cabana estava mesmo vazia. A prateleira de plástico, por cima da pequena pia de pedestal, tinha uma porção de cosméticos. Ainda havia uma camada de pó-de-arroz na pia. Três vidros de xampu se destacavam na beira da banheira, um deles ainda lacrado. Uma boneca sorria do alto dacaixa de água do vaso sanitário, uma peça de crochê branco e rosa cobrindo um rolo extra de papel higiênico.

— Na cama de quem você foi dormir esta noite, Jess? — murmurou Bella.

Com um pequeno suspiro, ela deixou a cabana, pronta para limpar os banheiros coletivos.

Ao chegar ali, Bella tirou as chaves da bolsa para abrir o pequeno depósito. Lá dentro o material de limpeza e os suprimentos para os banheiros estavam arrumados em perfeita ordem. Era sempre uma surpresa constatar como Jessica podia ser disciplinada no trabalho, quando o resto de sua vida parecia ser tão imprevisível, até uma confusão cômica.

Armada com esfregão e balde, detergentes e desinfetantes, panos de chão e luvas de borracha, Bella entrou primeiro no banheiro feminino. Uma mulher de cinqüenta anos escovava os dentes numa das pias. Bella ofereceu-lhe um sorriso distraído e começou a encher o balde. A mulher enxaguou a boca, cuspiu.

— Onde está Jessica.

— Hum... — Bella piscou contra os vapores fortes do desinfetante borbulhando no balde. —Ao que tudo indica, figura entre os desaparecidos.

— Excessos de festa. — A mulher soltou uma risada jovial. — Meu marido e eu adoramos... tanto que levantamos tarde esta manhã.

— É para isso que as férias servem, diversão e acordar tarde.

— Mas é difícil convencê-lo da segunda parte. — A mulher tirou um pequeno tubo da bolsa de viagem, esguichou a loção hidratante nas pontas dos dedos e começou a espalhar pelo rosto. — Dick é obsessivo com horários. E estamos quase uma hora atrasados para a nossa caminhada matutina.

— A ilha não vai a lugar nenhum.

— Diga isso a Dick. — Ela riu de novo, para depois cumprimentar uma jovem e uma menina em torno de três anos que entraram no banheiro. — Bom-dia, Meg. E como está a linda Lisa hoje?

A menina correu para a mulher e começou a conversar.

Bella usou as vozes como música de fundo, enquanto limpava o banheiro. A mulher mais velha era Joan e parecia que ela e Dick ocupavam a área de acampamento ao lado da área de Meg e o marido, Mick. Haviam consolidado, nos dois últimos dias, aquela amizade estranhamente íntima de pessoas em férias. Combinaram um jantar de peixe frito e depois Meg entrou num dos boxes de chuveiro com a menina.

Bella ouviu a água cair e a voz da criança ecoar, enquanto limpava o chão. Refletiu que era isso que Jessica apreciava, colecionar os pequenos fragmentos da vida de outras pessoas. Mas Jessica também era capaz de se integrar, de participar com as outras. As pessoas lembravam-se dela. Tiravam fotos com ela e a incluíam em seus álbuns de família. Chamavam-na pelo nome e os visitantes pela segunda vez ou mais sempre perguntavam por Jessica.

Porque ela não se escondia das coisas, pensou Bella, apoiando-se no esfregão. Porque não desaparecia em segundo plano. Era muito parecida com suas flores de plástico de cores brilhantes. Alegre e ousada.

Talvez fosse tempo de ela própria se adiantar alguns passos, pensou Bella. Sair do segundo plano. Ficar sob a luz dos refletores.

Ela recolheu o material de limpeza e deixou o banheiro das mulheres. Contornou o prédio para a porta do banheiro dos homens. Usou primeiro o lado do punho cerrado para bater na porta, três batidas firmes. Esperou alguns segundos e repetiu. Com um pequeno tremor, abriu a porta e gritou:

— Hora da limpeza! Tem alguém aí?

Anos antes, quando ajudava Jessica, Bella entrara no banheiro dos homens para deparar com um idoso enrolado numa toalha de rosto. O velho deixara o aparelho de audição na barraca. Ela não queria repetir a experiência. Não ouviu nada lá dentro... nenhum som de água correndo, nenhuma indicação de mictório ou vaso sendo usado. Mesmo assim, fez o máximo de barulho ao entrar.

Como precaução final, deixou a porta aberta e pendurou a plena vista o cartaz que dizia FAZENDO LIMPEZA EM SEU BANHEIRO.

Satisfeita, levou o balde até uma pia e despejou o desinfetante. Vinte minutos, trinta no máximo, ela disse a si mesma, e teria acabado. Para passar o tempo, ela começou a planejar o resto de seu dia.

Pensou em pegar o carro e ir até a praia do norte. Havia ali ruínas de uma antiga missão espanhola, construída no século XVI e abandonada no XVII. Os espanhóis não tiveram muita sorte na conversão dos índios ao cristianismo, e o povoado que fora planejado, como os historiadores desconfiavam, nunca chegara a ser concretizado.

Era um dia agradável para ir até lá. A luz seria excelente, no meio da manhã, para fotografar as ruínas e os terraços de conchas deixados pelos índios. Ela especulou se Edward não gostaria de acompanhá-la. Um arquiteto não se interessaria pelas ruínas de uma antiga missão espanhola? Ela pediria a Emmett para preparar um almoço de piquenique e passariam algumas horas entre os fantasmas de monges espanhóis.

Bella teve de se perguntar: a quem queria enganar? Não estava nem um pouco interessada nos monges ou nas ruínas. Era o piquenique que ela queria, a tarde sem qualquer responsabilidade, sem compromissos, sem prazos para cumprir. Era Edward que ela queria. Empertigou-se e comprimiu a mão contra a barriga, sentindo uma agitação rápida. Queria algum tempo a sós com ele, talvez como um teste para os dois. Para descobrir o que aconteceria se por acaso tivesse a coragem de se soltar. De ficar com ele. De ser Bella.

E por que não?, pensou ela. Iria até o chalé de Edward quando voltasse. Como uma visita casual. Improvisada. Sem qualquer planejamento. O que tivesse de acontecer, aconteceria.

Quando as luzes apagaram, ela soltou um grito e derramou água nos pés. Virou-se, o esfregão levantado, como uma lança, e ouviu o barulho da pesada porta sendo fechada.

— Olá? —O som da própria voz, tênue e trêmula, fez com que estremecesse. — Quem está aí?

À claridade mínima que entrava pela única janela do banheiro, no alto da parede, de vidro fosco, Bella encaminhou-se para a porta, que resistiu ao primeiro empurrão. O pânico surgiu do nada, atacando-a pela garganta. Empurrou a porta de novo, depois bateu. Virou-se abruptamente, o coração trovejando nos ouvidos. Tinha certeza de que alguém entrara no banheiro e se postava atrás dela.

Não viu nada... apenas as baias vazias, o brilho opaco do chão molhado. E só podia ouvir a própria respiração, acelerada. Ainda assim, encostou-se na porta, apavorada demais para virar as costas ao banheiro. Os olhos deslocavam-se para a esquerda e a direita, à procura de qualquer movimento nas sombras.

O suor começou a escorrer pelas costas, o suor frio do pânico. Não conseguia sorver ar suficiente, por mais que tentasse. Parte de sua mente manteve-se firme, procurando orientá-la: Você conhece os sinais, Isabela, não deixe que prevaleçam, não se deixe vencer. Se tiver um colapso, voltará para o hospital. Trate de se controlar. De qualquer maneira.

Ela comprimiu a mão contra a boca, a fim de reprimir os gritos, mas saíram assim mesmo, em lamúrias. Podia sentir que começava a perder o controle, o terror a pressioná-la, implacável, até que virou o rosto para a porta e bateu, com a palma, sem muita força.

— Por favor, por favor, deixe-me sair. Não me deixe sozinha aqui dentro.

Bella ouviu o barulho de passos na trilha e abriu a boca para gritar. Foi nesse instante que o medo se tornou monstruoso, empurrando-a para trás, a cambalear. Os olhos estavam arregalados e fixos na porta, a pulsação batia dolorosa contra a pele. Ela ouviu um rangido e uma imprecação. Virou-se de novo, atordoada, ficou ofuscada quando a porta foi aberta e o sol brilhante entrou no banheiro.

Viu a silhueta de um homem. Os joelhos bambos, estendeu o cabo do esfregão, como se fosse uma espada.

— Não chegue perto de mim!

— Isabela? O que aconteceu?

— Papai?

O esfregão caiu no chão com um estrépito. Ela quase caiu também, mas o pai estendeu as mãos para segurá-la e levantá-la.

— O que aconteceu aqui?

— Não consegui sair. Não podia. Ele me vigiava. E eu não tinha como escapar.

No momento, Charlie sabia apenas que a filha estava pálida como a morte, tremendo tanto que quase se podiam ouvir os ossos chocalharem. Por instinto, pegou-a nos braços e levou-a para o sol.

— Está tudo certo agora, meu bombom. Não precisa mais se preocupar com nada.

Era uma antiga palavra de carinho que ambos haviam esquecido. Bella comprimiu o rosto contra o ombro do pai. Continuou a apertá-lo com força quando ele sentou num banco de pedra, mantendo-a em seu colo.

Ela era muito pequena e retraída, pensou Charlie, surpreso. Como era possível, já que sempre parecia tão alta e competente? Sempre que tinha pesadelos, quando era criança, ela aninhava-se em seu colo daquela maneira, recordou. Sempre o procurava ao sentir medo em seus sonhos.

— Não tenha medo. Não precisa mais ter medo de nada.

— Eu não conseguia sair.

— Sei disso. Alguém prendeu a porta com um pedaço de madeira. Crianças, só isso. Uma brincadeira de mau gosto.

— Crianças... — Bella estremeceu, apertando-se contra o pai. — Crianças numa brincadeira de mau gosto... É isso mesmo. Apagaram a luz e me trancaram lá dentro. Entrei em pânico.

Ela manteve os olhos fechados por mais um momento, enquanto se concentrava em fazer a respiração voltar ao normal.

— Nem mesmo tive o bom senso de fazê-los parar com a brincadeira. Simplesmente não pude mais pensar.

— Levou um susto. Não costumava se assustar com tanta facilidade.

— Tem razão. Não costumava me assustar desse jeito. Bella abriu os olhos.

— Houve um tempo em que você derrubaria aquela porta e arrancaria o couro de quem fez a brincadeira.

Isso quase a fez sorrir, a imagem dela que o pai tinha em sua memória.

— É mesmo?

— Sempre teve uma veia impetuosa. — Porque ela havia parado de tremer e era agora uma mulher adulta, não mais a criança que ele outrora confortava, Charlie afagou seu ombro, contrafeito. —Acho que você amoleceu um pouco.

— Mais do que um pouco.

— Não sei não. Cheguei a pensar por um momento que você ia me espetar com aquele esfregão. Quem a vigiava?

— Como?

— Você disse que ele a vigiava. A quem se referia?

As fotos, pensou ela. Seu próprio rosto. O rosto de Renne. Bella apressou-se em sacudir a cabeça e mudar de posição. Não agora, foi tudo o que ela pôde pensar. Ainda não.

— Eu estava apenas dizendo besteiras, de tão apavorada. Desculpe.

— Não precisa se desculpar. Ainda está branca como um lençol. Vamos voltar para casa.

— Deixei todas as coisas lá dentro.

— Pode deixar que eu cuido disso. Fique sentada aqui até sentir as pernas firmes de novo.

— Está bem.

Mas quando Charlie começou a se levantar, ela segurou-o pela mão.

— Papai... obrigada por afugentar os monstros.

Ele olhou para as mãos juntas. A mão de Bella era fina e branca... a mão da mãe, pensou Charlie, com uma tristeza insuportável. Mas fitou aquele rosto e viu a filha. E porque se sentiu subitamente embaraçado, largou a mão de Bella e deu um passo para trás.

— Guardarei tudo e depois voltaremos para casa. Provavelmente você precisa comer alguma coisa.

Não éisso, pensou Bella, enquanto ele se afastava. Precisava do pai. E até aquelemomento não imaginara quanto precisava.

***

Bom amores....... por hoje é só........ posto mais quando receber mais reviews........ não esqueçam de fazer essa autora feliz.....

Bjuxx^^