Capítulo Quatorze
Trinta e seis horas depois de Jessica ter deixado de aparecer para o trabalho, Emmet entrou na sala de estar da família e estendeu-se no sofá antigo. Estava exausto e não havia mais nadaque pudesse fazer. A ilha fora vasculhada em todas as direções, inúmeros telefonemas foram dados. Finalmente, a polícia fora avisada. Não que os policiais parecessem muito interessados, pensou, enquanto estudava as rosetas de gesso no teto em arcadas. Afinal, a desaparecida era uma mulher de vinte e seis anos... e uma mulher com uma reputação. Uma mulher que era livre para ir e vir como quisesse, não tinha inimigos conhecidos e sempre demonstrava uma atração por incursões pela chamada vida airada.
Emmet já sabia que as autoridades dariam ao caso apenas um exame superficial, fariam o básico e depois o arquivariam.
Haviam feito um pouco mais do que isso vinte anos antes, ele recordou, quando outra mulher desaparecera. Haviam trabalhado com mais afinco e por mais tempo para encontrar Rennée. Os policiais revistaram toda a ilha, fizeram perguntas, tomaram nota, pareciam preocupados. Mas havia dinheiro envolvido naquele caso... fundos de investimentos, propriedades, heranças. Emmet levara algum tempo para compreender que a polícia investigava o caso como um crime. E que seu pai fora, por um breve instante, o principal suspeito.
O que o deixara apavorado.
Mas nenhum indício de crime jamais fora encontrado e o interesse acabara se desvanecendo. Emmet calculava que o interesse no caso de Jessica Pendleton se desvaneceria muito mais depressa.
E, agora, ele esgotara tudo o que podia fazer.
Pensou em pegar o controle remoto, ligar a televisão ou o estéreo e sair de circulação durante uma hora. A sala de estar — ou sala da família, como Sue insistia em chamá-la — quase nunca era usada.
Fora Sue quem escolhera os móveis casuais e confortáveis, misturando as poltronas grandes e profundas, as mesas pesadas e antigas, o sofá em que se podia deitar para tirar um cochilo. Também espalhara almofadas coloridas pelo chão, diante da perspectiva, ele imaginava, de que um dia a sala poderia receber tanta gente que nem todos teriam um assento tradicional.
Na maioria das vezes, no entanto, a sala era ocupada por uma única pessoa de cada vez.
Os Swan não eram pessoas que tinham o hábito de formar grupos para assistir ao principal noticiário da noite na televisão. Eram solitários, pensou Emmet, todos eles, encontrando mais pretextos para se manterem separados do que para permanecerem juntos.
O que tornava a vida menos... complicada.
Ele sentou, mas carecia da energia para se distrair com as notícias de outra pessoa. Em vez disso, levantou-se e foi até a geladeira pequena, por trás do bar de mogno. Era outra das fantasias obstinadas de Sue, manter aquele bar e a geladeira bem abastecidos. Como se a família pudesse se encontrar ali depois de um longo dia de trabalho, partilhar um drinque, alguma conversa, um pouco de diversão, soltou uma pequena risada, enquanto abria uma cerveja.
Não havia a menor possibilidade.
Com esse pensamento ainda amargurando-o, ele levantou a cabeça e deparou-se com o pai na porta. Não dava para saber quem se mostrara mais surpreso.
O silêncio pairou no ar, daquele tipo denso e opressivo que só pode ocorrer dentro da família. Ao final, Emmet levantou a cerveja e tomou um gole longo. Charlie deslocou o peso do corpo de um pé para outro, enganchou os polegares nos bolsos da frente e perguntou ao filho:
— Já acabou por hoje?
— É o que parece. Não há mais nada a fazer. — Como apenas ficar em pé ali fazia com que se sentisse um tolo, Emmet indagou: — Quer uma cerveja?
— Não me importaria.
Emmet pegou outra garrafa na geladeira e abriu-a, enquanto o pai atravessava a sala. Charlie tomou um gole. Ficou calado. Sua intenção era relaxar um pouco com uma partida de beisebol pela televisão, talvez tomar um bourbon para ajudá-lo a dormir.
Nunca passara por sua cabeça tomar uma cerveja com o filho.
— A chuva chegou — murmurou ele, tateando. Emmet podia ouvir o barulho nas janelas.
— Tem sido uma primavera bonita e seca.
Charlie acenou com a cabeça e tornou a deslocar o peso do corpo de um pé para outro.
— O nível da água está muito baixo em algumas das lagoas menores. A chuva vai ajudar.
— Os forasteiros não vão gostar.
— Não vão mesmo. — O rosto franzido de Charlie era um reflexo. Mas precisamos da chuva.
O silêncio voltou a prevalecer. Prolongou-se até que Emmet inclinou a cabeça para o lado e disse:
— Parece que já esgotamos o tempo como assunto. Qual será o próximo? Política? Esporte?
Charlie não deixou de perceber o sarcasmo, apenas optou por ignorá-lo.
— Não pensei que você tivesse interesse por qualquer das duas coisas.
— Tem toda razão. O que eu poderia saber sobre esses assuntos tão viris? Afinal, cozinho para viver.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Charlie sentia os nervos à flor da pele, mais próximo de uma explosão do que lhe agradava. Concentrou-se em não perder a calma. — Apenas não sabia que você se interessava.
— Você não tem a menor idéia do que me interessa. Não sabe o que eu penso, o que eu quero, o que eu sinto. Porque isso nunca o interessou.
— Emmet Swan! —A voz de Sue era incisiva. Ela entrou na sala, junto com Alice. — Não fale com seu pai dessa maneira!
— Deixe o garoto falar. — Charlie manteve os olhos no filho, enquanto largava a cerveja numa mesinha. — Ele tem esse direito.
— Mas não tem o direito de ser desrespeitoso.
— Sue... — lançou-lhe um olhar firme, depois acenou com a cabeça para o filho. — Se tem alguma coisa entalada na garganta, fale agora.
— Levaria anos para dizer tudo e não mudaria nada.
Charlie foi para trás do bar. Queria mesmo tomar um uísque, no final das contas.
— Por que não começa assim mesmo?
Ele serviu-se três dedos de Jim Bean, num copo pequeno. Depois de um breve momento de hesitação, despejou o uísque num segundo copo, que estendeu sobre o bar para Emmet.
— Não bebo bourbon. O que provavelmente também faz com que eu seja menos que um homem.
Charlie sentiu uma pontada de dor no coração. Levantou seu copo.
— A escolha da bebida de um homem é da sua própria conta. E você já é adulto há algum tempo. Por que deveria se importar com o que eu penso?
— Levei trinta anos para chegar aqui. Onde você estava durante os últimos vinte anos?
A tranca que ele pusera nas perguntas e o sofrimento por trás delas deram lugar à frustração. A tranca partiu-se, como se estivesse enferrujada, esperando apenas pelo último golpe para arrebentar.
— Você foi embora, como ela fez. Só que fez pior, porque nos obrigou a saber, em todos os dias de nossas vidas, que não tínhamos a menor importância para você. Éramos apenas acessórios, que relegou para os cuidados de Sue...
— Escute aqui, Emmet Swan...
— Deixe-o falar. — Charlie mantinha a voz fria, para disfarçar as agulhas em brasa que espetavam sua garganta. — Pode terminar, Emmet. Sei que tem mais a dizer.
— Que diferença isso faria? Voltaríamos ao passado e você estaria presente quando dois garotos de fora me encheram de porrada só para se divertirem? Ou quando eu tinha quinze anos e passei mal com a primeira cerveja? Quando eu tinha dezessete anos e fiquei apavorado, porque sentia medo de ter engravidado Molly Brodie, quando perdemos a virgindade juntos?
Emmet mantinha os punhos fechados nos lados do corpo, sentindo uma raiva que não sabia que existia dentro dele.
— Você nunca estava presente. Era sempre Sue. Era ela quem limpava os vômitos e segurava minha cabeça. Era ela quem me confortava quando eu precisava, quem me ensinou a guiar, quem me passava sermões e me elogiava. Nunca você. Nem uma única vez. Nenhum de nós precisa de você agora. E se tratava mamãe com a mesma desatenção egocêntrica, não é de admirar que ela tenha ido embora.
Charlie encolheu-se todo ao ouvir isso, a primeira demonstração de emoção durante o longo fluxo de amargura. Sua mão tremia um pouco quando a estendeu para pegar o copo. Mas antes que ele pudesse falar, Alice gritou da porta:
— Por que está fazendo isso? Por que está fazendo isso agora? Aconteceu alguma coisa com Jess! — A voz se desmanchou num solo, enquanto ela avançava pela sala. — Foi alguma coisa terrível, tenho certeza, mas tudo o que você pode fazer é ficar parado aqui, dizendo essas coisas horríveis!
As lágrimas escorriam pelas faces. Ela comprimiu as mãos contra os ouvidos, como se assim pudesse bloquear tudo.
— Por que não pode deixar tudo isso em paz, fingir que não tem a menor importância?
— Porque tem. — Furioso pelo fato de a irmã não ser capaz de ficar do seu lado nem mesmo agora, Emmet virou-se para ela: — Porque importa que não passemos de um arremedo patético de uma família, que você tivesse de fugir para Nova York e tentasse preencher com homens o buraco que ele abriu em sua vida. Que Bella ficasse doente e eu não consiga ficar com uma mulher sem pensar que acabarei afastando-a, como ele fez com mamãe. Importa e importa muito, porque nenhum de nós sabe como ser feliz.
— Sei como ser feliz! — A voz de Alice se elevara, estridente. Sua reação instintiva era gritar em negação, pois assim faria com que tudo fosse mentira. — E serei feliz! Terei tudo o que quero!
— O que está acontecendo aqui?
Bella pôs a mão no batente da porta e parou. As vozes alteadas haviam-na trazido de seu quarto, onde tentava cochilar, para compensar o sono que perdera na preocupação com Jessica.
— Emmet é odioso!
Com um soluço desesperado, Alice virou-se e correu para os braços da irmã.
O choque da cena, a visão do irmão e do pai fitando-se através do bar, como pugilistas à espera da campainha, deixou Bella atordoada. Sue estava parada no meio, chorando baixinho.
— O que está acontecendo aqui? — repetiu Bella, a cabeça começando a latejar. — É por causa de Jess?
— Eles não se importam com ela. — Perdida em sua dor Alice soluçava no ombro de Bella. — Eles não se importam.
— Não tem nada a ver com Jess. - Doente agora de fúria e culpa, Emmet saiu de trás do bar. É apenas uma típica noite Swan. E já me cansei.
Ele saiu, parando por um instante ao lado de Alice. Levantou a mão, como se fosse afagar os cabelos da irmã, mas logo tornou a baixá-la, sem chegar a fazer o contato. Bella engoliu em seco.
— O que foi, Sue?
Sue removeu as lágrimas das faces.
— Querida, pode levar Allie para o quarto? Estarei lá dentro de um instante.
— Está bem.
Bella lançou um olhar rápido para o pai, que mantinha o rosto impassível, os olhos enigmáticos. Decidiu que era melhor guardar as perguntas para depois.
— Vamos, Allie — murmurou ela. — Venha comigo.
Depois que elas saíram, Sue tirou um lenço do bolso e assoou o nariz.
— Não que isso seja desculpa para o comportamento dele, mas Emmet está doente e exausto de tanta preocupação — comentou ela. — Todos nós estamos, mas ele vem falando com a polícia e ainda por cima tem de cuidar da pousada. Ele está apenas esgotado, Charlie.
— E também está certo. — tomou um gole do uísque, especulando se o álcool tiraria o gosto amargo da vergonha de sua garganta. — Não tenho sido um pai para eles desde que Renée nos abandonou. Deixei tudo aos seus cuidados.
— Charlie...
Ele fitou-a.
— Vai me dizer que isso não é verdade?
Sue suspirou. Depois, porque suas pernas pareciam cansadas demais para sustentá-la por mais um minuto, sentou num banco do bar.
— Não direi isso. Não há sentido em mentir.
Charlie soltou um grunhido que podia passar por uma risada. — Você sempre foi honesta até demais. É uma qualidade admirável... e irritante.
— Não pensei que você prestasse muita atenção. Há anos que venho entoando uma variação um pouco mais polida do que Emm acaba de dizer. — Ela inclinou a cabeça para o lado. Embora seus olhos estivessem injetados, eram firmes quando se encontraram com os dele. — Jamais causou a menor impressão em você.
— Causou alguma.
Charlie tirou os óculos para passar as mãos pelo rosto. Talvez fosse porque estivesse cansado e deprimido, talvez porque recordasse com muita nitidez o que já deveria ter se desvanecido, mas as palavras que não fora capaz de dizer antes afloraram sem esforço:
— Não queria que as crianças precisassem de mim. Não queria que ninguém precisasse. E também não queria precisar das crianças.
Ele fez menção de se retirar em seguida. Era mais do que jamais dissera para qualquer pessoa antes, exceto para si mesmo. Mas Sue observava-o com tanta paciência, com tanta compaixão, que ele se descobriu a dizer o resto:
— A verdade, Sue, é que ela partiu meu coração. Quando comecei a superar, você estava aqui e as coisas pareciam correr bastante bem.
— Se eu não tivesse ficado...
— As crianças não teriam ninguém. Fez um bom trabalho com elas, Sue. Não sei se compreendia isso até que aquele garoto me acertou um direto entre os olhos, há poucos minutos. Era preciso coragem para fazer isso.
Sue fechou os olhos.
— Nunca compreenderei os homens, nem que viva mais meio século. Está orgulhoso de Emmet por gritar com você... por insultá-lo?
— Respeito Emmet por isso. Ocorre-me que não tenho demonstrado o respeito apropriado que um homem adulto merece.
— Aleluia...
Sue pegou o copo com bourbon que Emmet deixara intacto e bebeu. E engasgou.
Os lábios de Charlie se contraíram. Sue parecia muito bonita, pensou ele, sentada ali, batendo com o punho fechado na altura do coração, o rosto vermelho, os olhos arregalados.
— Você nunca foi de tomar uísque.
Ela respirou fundo, gemendo porque o uísque ardia como o fogo do inferno.
— Resolvi abrir uma exceção esta noite. Estou exausta. Charlie tirou o copo de sua mão.
— Só vai passar mal com isso.
Ele abriu a geladeira e encontrou a garrafa aberta do Chardonnay que Sue preferia. Enquanto servia, ela fitava-o com uma expressão de surpresa.
— Nunca imaginei que você soubesse o que gosto de beber.
— Não se pode viver com uma mulher durante vinte anos sem perceber alguns de seus hábitos. — Ele compreendeu o que acabara de dizer e sentiu o calor subir pelo pescoço. — Isto é, viver na mesma casa.
— Ahn... O que pretende fazer em relação a Emmet?
— Tenho de fazer alguma coisa?
— Charlie... — Impaciente, ela tomou um gole rápido do vinho, para tirar o gosto de bourbon da boca. — Vai desperdiçar esta chance?
Lá estava ela de novo, pensou Charlie, pressionando-o, quando ele queria apenas um pouco de paz.
— Ele estava furioso e deixei-o dizer o queria. Agora acabou.
— Não, não acabou. — Sue inclinou-se para a frente, por cima do bar, segurando-o pelo braço, antes que ele pudesse se esquivar. — Ele apenas abriu a porta, Charlie. Agora, você tem de ser pai e homem suficiente para entrar.
— Ele não tem qualquer utilidade para mim.
— Essa é maior merda que já ouvi. — Ela sentia-se tão furiosa que nem notou que a tosse de Charlie encobria uma risada. — Como vocês têm a cabeça dura! Acho que cada fio branco que tenho na cabeça foi conseqüência da teimosia Swan.
Charlie correu os olhos pelos impecáveis cabelos castanho-avermelhados.
— Você não tem nenhum fio branco.
— E pago um bom dinheiro para manter assim. — Ela deixou escapar um suspiro. — Agora, quero que preste toda atenção. Mantenha os ouvidos bem abertos, por uma vez. Não quero saber qual é a idade de seus três filhos, pois eles ainda precisam de você. E já está mais do que na hora de você dar, para eles e para si mesmo, o que deixou de dar há muitos anos. Compaixão, atenção e afeição. Se essa horrível jogada de Jessica fez isso aflorar, então quase me sinto contente. E juro que não ficarei de braços cruzados vendo vocês quatro se afastarem uns dos outros de novo.
Sue levantou-se, pegou seu copo e acrescentou:
— Agora tentarei acalmar Alice, o que deve me ocupar por metade da noite. Isso lhe dá tempo suficiente para procurar seu filho e começar a reparar os erros passados.
— Sue...
Quando ela parou na porta e virou-se para fitá-lo, com os olhos faiscando, o nervosismo levou-o a estender a mão para a garrafa de Jim Beam, para largá-la em seguida.
— Não sei por onde começar.
— Seu idiota... — Ela falou com tanta afeição que Charlie sentiu o calor subir no pescoço pela segunda vez. — Você já começou.
Emmet sabia exatamente para onde ia. Não se iludiu com a suposição de que estava apenas dando uma longa volta para esfriar. Poderia ter contornado toda a ilha a pé e ainda assim seu sangue continuaria quente. Sentia-se furioso consigo mesmo por ter perdido a calma, por dizer coisas que não adiantava. Censurava-se por ter feito Alice e Sue chorarem.
A vida era mais simples quando se guardava as coisas, concluiu, quando apenas se convivia com os outros e só se cuidava dos próprios problemas.
Não fora isso o que o pai fizera durante todos aqueles anos?
Curvou os ombros contra a chuva, irritado por ter saído sem uma capa e estar agora todo molhado. Podia ouvir o mar quebrando forte, enquanto caminhava pela areia encharcada entre as dunas. Havia luzes acesas por trás das janelas dos chalés e ele usava-as como uma bússola, no escuro.
Ouviu os acordes de música clássica ao subir os degraus para o chalé de Rose. Avistou-a através do vidro da porta, salpicado pela chuva. Ela usava um training azul, folgado, e estava descalça. Os cabelos pendiam para a frente, formando uma cortina diante do rosto, enquanto se inclinava para a geladeira, um pé de unhas pintadas de rosa batendo no ritmo da música.
O súbito ímpeto de desejo foi bastante satisfatório. Emmet abriu a porta sem bater. Ela empertigou-se no mesmo instante, soltando um grito abafado:
— Oh, Emmet! Não ouvi você se aproximar. — Surpresa, ela pôs a mão na porta aberta da geladeira. —Alguma notícia de Jess?
— Não.
— Pensei...
Os nervos vibravam nas pontas dos dedos quando ela passou-os pelos cabelos. Os olhos dele eram sombrios e francos. Algo indubitavelmente perigoso fumegava neles. O coração de Rose subiu pela garganta.
— Você está encharcado.
— Chove lá fora.
Ele se adiantou.
— Eu... ahn... — Não importava quanto ela dissesse a si mesma que isso era ridículo, o fato é que seus joelhos começaram a tremer. — Eu ia tomar um vinho. Você podia servir, enquanto pego uma toalha.
— Não preciso de uma toalha.
— Está bem. — Ela podia agora sentir o cheiro de chuva em Emmet... e o calor. — Vou pegar o vinho.
— Mais tarde. Emmet estendeu a mão e fechou a porta da geladeira, Espremeu-a contra a porta com seu corpo, esmagou sua boca com um beijo
ansioso e ardente.
Mesmo enquanto o gemido ficava estrangulado na garganta de Rose, ele enfiou as mãos por baixo do blusão e cobriu os seios. Seus dentes mordiscaram a língua, fazendo com que pequenos frêmitos de medo e dor percorressem seu corpo. Ele desceu as mãos, agarrou sua bunda, levantou-a do chão por alguns centímetros, o brim molhado e esticado comprimindo-se contra a ânsia entre as coxas de Rose.
Ela conseguiu deixar escapar um suspiro trêmulo quando os lábios de Emmet grudaram em seu pescoço.
— Chega de conversa... — Sôfrega, ela atacou a orelha. O gosto da mordida fez com que desejasse mais. — O quarto fica no final do corredor.
— Não preciso de uma cama. — Com um sorriso selvagem, ele ergueu a cabeça e fitou-a nos olhos. — Ao meu jeito. E faço meu melhor trabalho na cozinha.
Os pés de Rose tornaram a tocar no chão antes que ela pudesse piscar. Ele ergueu os braços dela por cima da cabeça, segurando os pulsos com uma das mãos, enquanto tornava a comprimi-la contra a porta da geladeira.
— Olhe para mim.
Emmet enfiou a outra mão por dentro da cintura da calça do training e estendeu os dedos para penetrá-la.
Ela soltou um grito abafado... choque e prazer colidindo numa investida brutal sobre o sistema que a fazia movimentar os quadris, acompanhando o ritmo implacável de Emmet, numa reação instintiva. A visão de Rose tornou-se turva, a respiração saía em ofegos curtos, até que ela gozou, num fluxo explosivo.
Ela já estava molhada. Emmet descobriu-a escorregadia e pronta, e só isso foi suficiente para provocar um tremendo excitamento. Mas quando Rose ficou com os olhos vidrados e seu fluxo deixou-o com a mão encharcada, a necessidade fez todo o corpo de dele estremecer. Sua respiração era quase um rosnado quando arrancou o blusão pela cabeça, para depois cobrir um seio com a boca.
Era do tamanho certo, firme e tinha gosto de pêssego. Emmet queria devorá-lo, até ficar saciado ou morto. Seus murmúrios de aprovação misturavam-se com ameaças que nenhum dos dois podia compreender. As mãos de Rose passaram pelos cabelos de Emmet, puxaram a camisa molhada, os dedos sempre competentes atrapalhando-se em sua pressa. A própria falta de controle acrescentava uma camada ao excitamento de Emmet.
— Mais... — murmurou ele, empurrando para baixo a calça do training. — Quero mais.
Quando Emmet baixou a boca, ela segurou-o pelos ombros e soluçou:
— Você não pode... eu não posso... Ó Deus, o que está fazendo comigo?
— Eu a estou possuindo.
No instante seguinte, a boca alcançou-a e lábios e dentes levaram-na além da sanidade. A cabeça de Rose pendeu para trás, contra a porta da geladeira que não parava de zumbir, enquanto o calor espalhava-se por todo o seu corpo, cobrindo a pele de suor. A força do orgasmo foi como um trem em disparada passando pelo túnel em que ele a mantinha acuada e desamparada.
O corpo dela estava inerte, a cabeça pendendo, quando ele a levantou. Nada mais a chocava agora, nem mesmo quando ele a estendeu na mesa da cozinha, como o prato principal que preparara para satisfazer seu apetite.
Ele tirou a camisa, sem desviar os olhos dela em momento algum. Apoiou um pé na beira da mesa, tirou um tênis, depois o outro, jogou os dois para o lado. Desabotoou os jeans, baixou o zíper.
Os olhos de Rose começavam a desanuviar. Melhor assim, pensou. Queria vê-los ficarem vidrados de novo. Ao tirar os jeans, ele contemplou-a de novo. Pele rosada e úmida, curvas delicadas, os cabelos espalhados sobre a madeira escura. Ela era linda, deslumbrante. Diria isso quando tivesse certeza de que poderia formar palavras. Montou-a e sorriu ao sentir que ela tremia.
— Quero que diga "possua me, Emmet".
Ela tinha de se concentrar em sugar ar suficiente para sobreviver. Deixou escapar um gemido quando os polegares roçaram em seus mamilos.
— Diga.
Sem pensar, ela ergueu o corpo.
— Possua-me, Emmet. Pelo amor de Deus.
Ele penetrou-a, num movimento rápido e firme, levando os dois à beira do orgasmo. Emmet viu aqueles olhos de sereia ficarem vidrados de novo.
— Agora é você quem tem de me possuir, Rose.
— Está bem.
Ela ergueu a mão para o rosto dele, envolveu-o com as pernas e exultou na viagem vertiginosa.
Emmet estava ofegante quando arriou em cima dela. Pela primeira vez em dias, sentia tanto o corpo quanto a mente relaxados. Podia senti-la ainda tremendo por baixo, na esteira do sexo maravilhoso. Esfregou o rosto nos cabelos dela, aspirando a fragrância.
— E isso foi apenas para abrir o apetite.
— Ó meu Deus...
Ele riu e ergueu-se. Ficou exultante ao vê-la sorrir.
— Você tem gosto de pêssego.
— Havia acabado de tomar um banho de essência quando você apareceu para me estuprar.
— Escolhi o momento mais oportuno.
Ela estendeu a mão para afastar os cabelos do rosto de Emmet... um gesto afetuoso que deixou os dois intrigados.
— Acho que foi mesmo. Você parecia muito perigoso e excitante quando chegou.
— Eu me sentia perigoso. Tivemos uma briga de família em Santuário.
— Sinto muito.
— Não éproblema seu. Bem que eu gostaria de tomar aquele vinho agora.
Emmet virou-se, saiu da mesa e foi até a geladeira. Rose permitiu-se admirar a cena. Como médica, podia lhe dar nota dez por se manter em forma. Como sua amante, podia sentir-se grata por seu corpo esbelto e firme.
— Os copos de vinho estão no segundo armário à esquerda — informou ela. — Vou pegar um roupão.
— Não precisa se incomodar — disse Emmet, no momento em que ela se levantava.
— Não vou ficar em pé nua na cozinha.
— Claro que vai. — Ele serviu os dois copos, generoso, antes de tornar a fitá-la. — E, de qualquer maneira, não ficará em pé por muito tempo.
Surpresa, ela alteou uma sobrancelha.
— Não?
— Não. — Ele entregou-lhe um copo. Bateram de leve. — Calculo que o balcão a deixará na altura apropriada.
Ela sentiu-se grata por ainda poder tomar um gole do vinho.
— No balcão da cozinha?
— Isso mesmo. E ainda tem o chão.
rose olhou para o linóleo branco de que a avó tanto se orgulhara ao instalar três anos antes.
— O chão...
— Calculo que poderemos chegar à cama... se você está mesmo decidida a ser tradicional... dentro de duas ou três horas. — Emmet olhou para o relógio em cima do fogão. — Temos tempo suficiente. Não servimos o café da manhã antes de oito horas.
Rose não sabia se ria ou se engolia em seco.
— Você éextremamente confiante em sua capacidade de permanência, não é?
— Tenho confiança absoluta. E você? A emoção de um desafio a fez sorrir.
— Eu o acompanharei passo a passo, Emmet... e mais do que isso. Cuidarei para que ambos sobrevivamos ao esforço. — Seus olhos sorriram para Emmet por cima do copo de vinho. — Afinal, uma médica serve para essas coisas.
— Já que é assim...
Emmet largou seu copo. Rose soltou um grito estridente quando ele segurou-a pela cintura... e outro quando sua bunda encostou na fórmica.
— Ei, está frio!
— Neste caso... — Emmet mergulhou um dedo em seu copo de vinho e deixou pingar no mamilo. Inclinou-se para frente e lambeu delicadamente. — ... teremos de esquentar as coisas.
OI FLORES... MAIS UM CAPITULO ESPERO QUE GOSTEM... BJUXX^^... E NÃO ESQUEÇAM DE COMENTAR...
