Oi flores... mais um capitulo... espero que gostem... bjuxx^^
E não se esqueçam das minhas reviews
PS.: flores... sorry... já arrumei o final do capitulo...
Charlie concluiu que era um mau sinal quando um homem precisava tomar coragem para conversar com o próprio filho. E era pior quando finalmente tomava coragem, mas não conseguia encontrar o filho em parte alguma.
A cozinha estava vazia, sem sinal de café sendo feito ou biscoitos no forno. Parou ali por um momento, sentindo-se desajeitado e contrafeito no que persistia em pensar como uma área de mulher.
Sabia que Emmet sempre fazia uma caminhada no início da manhã, mas também que ele começava a preparar o café e a massa de biscoito ou pão especial antes de sair. De qualquer forma, Emmet já teria voltado àquela hora. Mais trinta ou quarenta minutos e as pessoas começariam a entrar na sala de jantar, querendo comer.
Só porque Charlie não passava muito tempo na casa — e o mínimo possível junto dos hóspedes — isso não significava que ignorava o que acontecia ali.
Charlie revirou o boné entre as mãos, detestando o fato de que a preocupação começava a dominá-lo. Acordara em outra manhã para descobrir que uma pessoa de sua família desaparecera. Também sem qualquer preparativo. Sem aviso. E agora não havia café no bule nem massa de biscoito crescendo na grande tigela azul, sob um pano branco.
Afugentara o filho? E teria agora mais anos pela frente para especular se era o responsável por afastar outra pessoa de Santuário e de si mesmo?
Ele fechou os olhos por um momento, até se livrar do terrível sentimento de culpa. Não, não assumiria aquela culpa. Emmet era adulto, assim como Renée também era adulta na ocasião. As decisões que haviam tomado eram suas. Charlie pôs o boné na cabeça e encaminhou-se para a porta.
E sentiu pontadas de alívio e ansiedade quando ouviu o assobio aproximando-se pelo caminho do jardim.
Emmet parou de assobiar — e parou de andar — quando viu o pai passar pela porta da varanda fechada por tela. Ressentiu-se por seu ânimo passar abruptamente da luz para a desolação. E ressentiu-se pela súbita interrupção de seus últimos momentos de solidão.
Ele acenou com a cabeça, passou pelo pai e entrou na cozinha. Charlie permaneceu parado onde estava por um momento, indeciso. Não era difícil para um homem perceber quando outro passara a noite com uma mulher, empenhado num sexo ardente. Ver aquela expressão relaxada e satisfeita nos olhos do filho fizera com que se sentisse tolo... e invejoso. Pensou que seria muito mais fácil para ele se continuasse a andar e deixasse as coisas como estavam.
Com um grunhido, ele tirou o boné da cabeça e tornou a entrar.
— Preciso falar com você.
Emmet olhou para o pai. Já pusera um avental comprido e despejava grãos de café no moedor.
— Estou ocupado agora.
Charlie assumiu uma posição decidida.
— Preciso conversar com você mesmo assim.
— Neste caso, terá de falar enquanto trabalho. — Emmet ligou o moedor, povoando a cozinha com o barulho e o aroma. — Estou um pouco atrasado esta manhã.
— Hum...
Charlie tornou a revirar o boné entre as mãos. Decidiu esperar até que o moedor parasse, em vez de tentar falar mais alto. Observou Emmet medir o pó de café, medir a água em seguida e pôr a enorme Bunn Omatic para funcionar.
— Fiquei surpreso por você não estar aqui.
Emmet pôs uma tigela grande no balcão e começou a pegar os ingredientes para os biscoitos.
— Não bato um relógio de ponto para ninguém, a não ser para mim mesmo.
— Não pensei nisso.
Charlie não tivera mesmo essa intenção. Desejou saber como falar com um homem que usava um avental e preparava massa de biscoito.
— Eu queria falar sobre ontem... sobre a noite passada. Emmet despejou leite, calculando a quantidade no olho.
— Eu disse tudo o que tinha a dizer e não vejo sentido em repetir.
— Portanto, você acha que pode dizer o que quiser, mas eu não tenho o direito de falar.
Emmet pegou uma colher de pau, aninhou a tigela no braço, por hábito, e começou a bater. A exultação sonhadora em decorrência do sexo durante a noite inteira já se dissipara.
— O que eu penso agora é que você teve a vida inteira para falar... e no momento tenho trabalho a fazer.
— Você é um homem difícil, Emm.
— Aprendi pelo exemplo.
Era um dardo bem disparado, para atingir o alvo em cheio. Charlie reconheceu e aceitou. Depois, cansado de bancar o suplicante, ele largou o boné no balcão.
— Vai escutar o que tenho a dizer e assim acabaremos logo com isso.
— Pode falar. — pôs a massa na tábua coberta de farinha de trigo e começou a amassar com toda aforça. — E acabaremos logo com isso.
— Você estava certo. — Charlie sentiu uma pressão na garganta e engoliu em seco. — Tudo o que disse ontem à noite era certo e verdadeiro.
Os punhos afundados na massa de biscoito, Emmet virou a cabeça para fitar o pai, aturdido.
— Como?
— E o respeito por ter a coragem de dizer.
— Como?
— Entrou farinha de trigo em seus ouvidos? — indagou, impaciente. — Eu disse que você estava certo e tinha todo o direito de falar. Quanto tempo leva para essa engenhoca fazer uma xícara de café?
Charlie olhava para a máquina com uma expressão acusadora. Lentamente, Emmet voltou a amassar a massa, mas sem desviar os olhos do pai.
— Pode tirar uma xícara, se precisar.
— Eu preciso.
Charlie abriu um armário e franziu o rosto ao descobrir que só havia copos e taças ali.
— As xícaras e canecas de café não são guardadas aí há oito anos —informou o filho, a voz suave. — Duas portas para a esquerda... por cima da área de preparação de café.
— Área de preparação de café... — murmurou. Nome, de fantasia para bebidas de fantasia quando tudo o que se quer é uma xícara de café puro.
— Nossos cappuccinos e lattes são bastante populares. Charlie sabia o que era cappuccino... ou quase. Mas não tinha a menor idéia do que era latte. Soltou um grunhido. Pegou o bule de vidro com todo cuidado para despejar café na caneca. Tomou um gole, sentiu-se um pouco melhor, tomou outro gole.
— É um bom café.
— Por causa dos grãos.
— Acho que moer na hora faz alguma diferença.
— Toda a diferença do mundo. — Emmet largou a massa na tigela, cobriu-a e foi até a pia para se lavar. — Creio que estamos tendo agora uma conversa de verdade pela primeira vez em... durante a maior parte de minha vida.
— Não fiz o que era certo com você. — olhava para o líquido preto em sua caneca. — Desculpe.
Emmet parou de enxugar as mãos, outra vez atordoado.
— Como?
— Não vou continuar a repetir tudo. — levantou a cabeça, num movimento brusco, os olhos cheios de frustração. — Estou apresentando um pedido de desculpa e você deve ter a grandeza de aceitá-lo.
Emmet ergueu a mão, antes que a conversa se deteriorasse para uma discussão, como costumava acontecer.
— Você me pegou desprevenido. E me deixou espantado. — Emmet foi até a geladeira, a fim de pegar frios e ovos para o café da manhã. — Talvez eu pudesse aceitar melhor se soubesse pelo que está pedindo desculpa.
— Por não estar ao seu lado quando tinha doze anos e levou uma surra. Quando tinha quinze anos e vomitou ao tomar sua primeira cerveja. Quando tinha dezessete anos e era tão estúpido que não sabia como fazer amor com uma garota sem se tornar pai.
Mais do que um pouco trêmulo, Emmet pegou uma frigideira.
— Sue me levou a Savannah para comprar camisinhas.
— Não é possível! — Se o filho batesse em sua cabeça com um salame, Charlie ficaria menos chocado. — Sue comprou camisinhas para você?
— Comprou. — Emmet descobriu-se a sorrir da recordação, enquanto esquentava a frigideira. — Aproveitou para fazer um sermão sobre responsabilidade, comedimento, abstinência. E depois me comprou um pacote de Trojans e disse que, se eu não pudesse controlar o impulso, então era melhor usar uma proteção.
— Doce Jesus! — A risada escapou enquanto Charlie encostava no balcão. — Não dá nem para imaginar!
Ele se empertigou, limpou a garganta e acrescentou:
— Eu é que deveria ter-lhe dito essas coisas.
— Isso mesmo, deveria ter sido você. — Como se o arranjo fosse vital, Emmet ajeitou salsichas na frigideira. — Por que não foi?
— Não tinha sua mãe para me dizer que era melhor conversar com aquele menino, que estava com algum problema na cabeça. Ou que Alice queria exibir os sapatos novos. Via essas coisas pessoalmente, mas me acostumei a contar com sua mãe para me levar a agir. E depois, quando não a tive mais, larguei tudo. — pôs a caneca em cima do balcão. Enfiou as mãos nos bolsos. — Não estou acostumado a me explicar. E não gosto.
Emmet pegou outra tigela. Quebrou o primeiro ovo para a massa de panqueca.
— A opção é sua.
— Eu a amava. — As palavras pareciam rasgar a garganta e Charlie sentiu-se grato porque o filho continuava concentrado em seu trabalho. — Não é fácil para mim dizer isso. Talvez não tenha dito o suficiente a ela... o sentimento vinha com mais facilidade do que as palavras. Eu precisava dela. Charlie, o sisudo... era assim que sua mãe me chamava. Não me deixava permanecer desse modo por muito tempo. Ela amava a companhia de novas pessoas, gostava de conversar sobre todos os assuntos. Amava esta casa, amava esta ilha. E, por algum tempo, também me amou.
Emmet pensou que provavelmente nunca ouvira um discurso tão longo de Charlie Swan. Sem querer interromper o fluxo, ele não disse nada, enquanto despejava na tigela a manteiga que derretera.
— Tínhamos os nossos problemas. Não vou fingir que não havia nenhum. Mas sempre conseguíamos superá-los. Na noite em que você nasceu... Jesus, fiquei apavorado! Mas Renée não ficou. Era tudo uma grande aventura para ela. E quando acabou, quando você estava aninhado em seus braços, mamando, ela recostou-se nos travesseiros, com um sorriso. "Veja que lindo bebê nós fizemos, Charlie. Iremos de fazer muitos outros." Um homem não pode deixar de amar uma mulher assim. Nem sequer tem uma opção.
— Não pensei que você a amava.
— Amava e muito. — tornou a pegar a caneca com café. Falar tanto deixara-o com a garganta ressequida. — Levei anos vivendo sem ela até parar de amá-la. Talvez eu a tenha afastado, mas não sei como foi. O fato de não saber me deixou angustiado por muitos anos.
— Peço desculpa. — Emmet viu o brilho de surpresa nos olhos do pai. — Pensava que isso não importava para você. Pensava que não estava realmente interessado.
— Claro que me importava. Depois de algum tempo, no entanto, você aprende a viver com o que tem.
— E você tinha a ilha.
— Era com a ilha que podia contar, o que podia cuidar. E me impediu de enlouquecer. — Charlie respirou fundo. — Mas um homem melhor deveria estar presente para segurar a cabeça do filho quando ele vomitou de um excesso de Budweiser.
— Löwenbräu.
— Uma cerveja importada? Não é de admirar que eu não o compreenda.
Charlie soltou um suspiro e avaliou o homem que o filho se tornara. Um homem que usava um avental para trabalhar e fazia tortas. Um homem, ele corrigiu, com olhos frios e firmes, os ombros largos e bastante fortes para carregarem mais do que o próprio peso.
— Ambos dizemos o que queríamos e não sei se isso fará alguma diferença. Mas me sinto contente porque falamos.
Charlie estendeu a mão, torcendo para que fosse a coisa certa.
Bella entrou na cozinha nesse instante, para deparar com a cena surpreendente do pai e o irmão trocando um aperto de mãos na frente do fogão. Ambos olharam para ela com idênticas expressões de embaraço. Mas no momento Bella sentia-se muito cansada e irritada para analisar.
— Alice não está se sentindo bem. Vou substituí-la durante o cale da manhã.
Emmet pegou um garfo e apressou-se em virar as salsichas, antes que queimassem.
— Vai servir as mesas?
— Foi o que eu disse.
Bella pegou um avental curto num gancho, vestiu-o e deu um laço atrás.
— Quando foi a última vez em que serviu mesas? — perguntou Emmet.
— Na última vez em que estive aqui e estava com deficiência de pessoal.
— É uma péssima garçonete.
— Mas sou tudo o que tem, companheiro. Alice chora sem parar de tanta dor de cabeça, e Sue foi até o camping para tentar endireitar a confusão por lá. Não tem outro jeito que não me aceitar.
Charlie pegou seu boné e encaminhou-se para a porta. Lidar com o filho era uma coisa, e já fora bastante difícil. Não tinha a menor intenção de encarar uma filha no mesmo dia.
— Tenho coisas a fazer...
Charlie quase estremeceu quando a filha lançou-lhe um olhar gelado.
— Eu também tenho, mas estou servindo as mesas porque vocês dois decidiram se engalfinhar, e ue e eu tivemos de passar metade da noite escutando Alice chorar e se lamentar. Agora, pelo que vejo, os dois trocaram um aperto de mãos, como homens de verdade. Portanto, está tudo em ordem. Onde estão os blocos de pedidos?
— Na gaveta de cima, por baixo da caixa registradora. — Pelo canto do olho, Emmet viu o pai passar pela porta. Típico, pensou ele, pondo as salsichas para escorrer. — Já trabalhou com uma caixa registradora computadorizada, Bella?
— Por que deveria? Não sou uma vendedora, não sou uma garçonete. Sou apenas uma fotógrafa.
Emmet esfregou a nuca. Seria uma longa manhã.
— Suba, enfie uma aspirina pela goela de Alice e traga-a para cá.
— Se você quer Alice, vá buscá-la. Já me enchi dela e sua rotina de rainha do drama. Ela estava se espojando. — Bella bateu com os blocos no balcão e foi pegar o bule de café. — O centro das atenções, como sempre.
— Ela ficou transtornada.
— Talvez tenha ficado mesmo, até que começou a gostar das atenções,como sempre. De qualquer forma, não foi culpa minha. E fui eu quem teve de aturá-la. Já passava de duas horas da madrugada quando Sue e eu conseguimos acalmá-la um pouco e pude ir para meu quarto. — Bella esfregou com força o meio da testa. — Tem alguma aspirina aqui? Emmet tirou uma garrafa de um armário e pôs em cima do balcão.
— Leve o bule e sirva a primeira rodada de café. As panquecas de amorasão as especiais. Se tiver de amarrar a cara, faça-o aqui. Lá fora, sorria sempre. Diga seu nome aos clientes e finja que pode ser simpática. Deve compensar o serviço lento.
— Não enche! Bella quase rosnou, mas pegou o bule de café, um bloco de pedidos e deixou a cozinha.
A situação não melhorou.
Emmet cortava uma laranjae rangia os dentes para os dois pedidos esperando para serem levados às mesas há cinco minutos. Mais dois minutos, pensou ele, e teria de jogar tudo fora, para começar de novo.
Onde estava Bella?
— Uma manhã movimentada. — Edward entrou pela porta dos fundos. - Dei uma olhada na sala de jantar pelas janelas. Parece que tem a casa cheia.
— Manhã de domingo. — Emmet virou o que calculava ser a milionésima panqueca do dia. — As pessoas gostam de um farto café da manha aos domingos.
— Eu também gosto. — Edward sorriu para a grelha. — Panquecas de amorasão um grande pedido.
— Entre na fila. Droga, o que ela está fazendo lá fora? Construindo as pirâmides? Você entende de computadores?
— Sou o orgulhoso proprietário de um dos melhores que existe. Porquê?
— Porque vai agora ficar na caixa registradora. — Emmet sacudiu o polegar para trás. — Não posso parar o que estou fazendo aqui cada vez que ela traz uma conta.
— Quer que eu trabalhe na caixa registradora?
— Não quer comer?
— Por que não trabalho na caixa registradora?
Edward foi estudar a máquina. Bella entrou apressada na cozinha nesse instante, os braços carregados de pratos.
— Ela devia saber como seria o dia de hoje. Vou matá-la se conseguir sobreviver. O que está fazendo aí, Edward?
— Ao que tudo indica, entrei na folha de pagamentos. — Edward observou-a largar os pratos na pia e pegar os pedidos à espera. — Está muito graciosa hoje, Bella.
— Não enche!
Ela empurrou a porta com o ombro e saiu.
— Imagino se ela está sendo simpática assim com os clientes.
— Não destrua minha fantasia, Emm. Gosto de pensar que ela reserva esses agrados só para mim.
— Vai empurrá-la de novo no rio?
— Ela escorregou... e estou pensando em outra coisa para mim e Bella.
Emmet passou a mão pelo rosto.
— Não quero que me diga. E também não quero essa imagem em minha mente.
— Apenas achei que você deveria conhecer o rumo que pretendo seguir.
Para ilustrar, Edward agarrou-a quando ela tornou a passar pela porta. Beijou a boca contraída e surpresa.
— Ficou maluco?
Ela deu uma cotovelada na barriga de Edward para se desvencilhar. Pôs pedidos, dinheiro e cartões de crédito em suas mãos, enquanto acrescentava um ...
— Cuide disso.
Bella foi pegar um bule de café fresco. Largou os novos pedidos no balcão.
— Duas porções de especiais, ovos mexidos, uma porção de bacon, torrada de trigo integral. Não me lembro de uma coisa, mas está escrita aí, e os biscoitos e o creme estão quase acabando. E se o monstrinho da mesa três derramar seu suco mais uma vez, vou estrangulá-lo, junto com os pais idiotas.
Edward sorriu, enquanto ela tornava a sair.
— Emm, acho que pode ser amor.
— É mais provável que seja insanidade. E por enquanto mantenha as mãos longe de minha irmã e cuide dessas notas, ou não vou alimentá-lo.
Ás dez e meia, Bella entrou cambaleando em seu quarto e caiu de cara na cama. Tudo doía. As costas, os pés, a cabeça, os ombros. Ninguém que não tivesse passado por aquilo, pensou ela, poderia saber como era árduo o trabalho de garçonete. Escalara montanhas, vadeara rios, passara dias escaldantes no deserto... e faria tudo isso de novo pela imagem certa.
Mas cortaria os pulsos com um sorriso se algum dia tivesse de trabalhar de novo como garçonete.
E detestava ter de admitir que Alice não apenas não era uma fingida preguiçosa, mas também fazia com que o trabalho parecesse fácil.
Ainda assim, se não fosse por Alice, Bella não perderia a luz difusa e gloriosa que ocorrera naquela manhã, depois da chuva. Não estaria com os olhos pesados do sono de três horas. E os pés não estariam protestando daquela forma.
Ela rangeu os dentes quando sentiu o colchão afundar sob o peso de outra pessoa.
— Saia daqui, Alice, ou posso encontrar a energia para matá-la.
— Não precisa se incomodar. Ela não está aqui.
Bella virou a cabeça, fitando Edward com os olhos contraídos.
— O que está fazendo aqui?
— Você não pára de me perguntar isso. — Ele estendeu a mão para empurrar os cabelos de Jo para trás da orelha, a fim de ter uma visão clara de seu rosto. — Neste momento, vim apenas verificar como você está. Uma manhã difícil, hem?
Ela gemeu e fechou os olhos.
— Vá embora.
— Dez segundos de massagem nos pés e você vai me suplicar para ficar.
— Massagem nos pés?
Bella tentou recolher a perna, mas ele segurou-a pelo tornozelo, com firmeza. Tirou o sapato.
— Dez, nove, oito...
E quando Edward passou a base da mão pela arcada, um prazer intenso espalhou-se por todo o corpo de Bella, levando-a a gemer.
— Não falei? Apenas relaxe. Pés felizes são a chave para o universo.
— Galileu?
— Carl Sagan — disse ele, com um sorriso. — Comeu alguma coisa lá embaixo?
— Se eu olhar para outra panqueca, juro que vomitarei.
— Foi o que pensei. Trouxe outra coisa. Bella abriu um olho.
— O quê?
— Hum... Você tem pés muito atraentes. Longos, estreitos, um peito do pé alto e elegante. Um dia desses vou começar a mordê-los, de leve, e passarei a subir... Ah, sim, queria saber o que eu trouxe para você comer. — Edward pressionou os dedos sobre o peito do pé e desceu até o calcanhar. — Morangos com creme, os biscoitos milagrosos de Emmet com geléia de fabricação caseira e uma porção de bacon pela proteína,
— Por quê?
— Porque você precisa comer. — Edward ergueu o rosto para fitá-la. — Ou quer saber por que vou morder seus pés?
— Não importa.
— Está bem. Por que você não vira, senta na cama e come?
Bella fez menção de dizer que não sentia fome... uma reação automática. Mas lembrou as ordens de Rose para não deixar de comer. E a perspectiva dos morangos exercia uma certa atração. Sentou na cama. Tentou não se sentir tola quando Edward acomodou-se na sua frente, de pernas cruzadas, com os pés dela em seu colo. Pegou a tigela e tirou um morango com os dedos.
Estudou-o em silêncio por um momento, Edward não se dera ao trabalho de fazer a barba naquela manhã. Além disso, os cabelos precisavam ser aparados. Mas o estilo um pouco descontraído combinava com ele.
— Não precisa se dar a todo esse trabalho, Edward. Estou mesmo pensando em ir para a cama com você.
— Isso tira um fardo de minha mente.
Ela deu uma mordida num morango. O gosto era tão doce e inesperadamente estimulante que ela sorriu.
— Acho que estou um pouco irritada esta manhã.
— É mesmo? — Ele pegou os dedos do pé de Bella, movendo-os para a frente e para trás, gentilmente. — Nem notei.
— O que é a sua maneira ianque insidiosa de dizer que sou sempre uma chata.
— Nem sempre. E acho que a palavra que escolheria no caso seria "perturbada".
— Um legado Swan. — Como os morangos haviam despertado seu apetite, ela pegou uma fatia de bacon e deu uma mordida. - Tivemos uma briga de família ontem à noite. Foi por isso que Alice ficou na cama, com a cabeça debaixo das cobertas, enquanto eu servia as mesas.
— Você sempre cobre as faltas? Surpresa, ela sacudiu a cabeça em negativa,
— Não. Quase não cubro nada. Raramente estou aqui.
— E quando está, serve as mesas, troca as roupas de cama, limpa os banheiros.
— Como soube disso?
A voz era ríspida agora, o que deixou Edward perplexo.
— Você me contou. Que estava no serviço de faxina aqui na pousada.
— Ah, isso...
Sentindo-se uma tola, Bella pegou um biscoito e partiu-o ao meio.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada de mais. Alguns garotos fizeram uma brincadeira de mau gosto comigo há dois dias. Trancaram-me no banheiro dos homens no camping. Fiquei um pouco nervosa.
— Não tem nada de engraçado.
— Na ocasião, também não achei engraçado.
— Conseguiu pegá-los?
— Não. Eles já haviam desaparecido quando meu pai abriu a porta. Não foi nada de mais, apenas uma coisa irritante.
— Portanto, podemos acrescentar a faxina no banheiro dos homens à lista das faltas que você não costuma cobrir. E nos intervalos de tudo isso você está preparando um livro de fotografia e ainda encontra tempo para tirar novas fotos. O que me diz da diversão?
— A fotografia é uma diversão para mim. — Quando ele apenas alteou uma sobrancelha, Bella pegou outro morango e acrescentou: — Fui ao luau.
— E ficou quase até meia-noite. Uma mulher desregrada. Uma linha se formou entre as sobrancelhas de Bella.
— Não gosto muito de festas.
— O que aprecia além de fotografia? Livros, filmes, artes plásticas, música? Isto é o que se costuma chamar de ciência de conhecer melhor um ao outro.
Como ela permanecesse calada, Edward continuou:
— É muito conveniente, ainda mais quando se pretende levar a outra pessoa para a cama. — Ele inclinou se para a frente. Achou engraçado quando ela recuou. — Vai partilhar esses morangos?
Bella ordenou que sua pulsação se acalmasse. Como ele ainda massageava seus pés, pôs um morango em sua boca.
Ele pegou as pontas dos dedos de Jo entre os dentes e sugou-os também. Soltou-os, sorrindo.
— Isto é o que se chama de estimulação sensorial subliminar. Ou, como é mais conhecido, vou gozar com você.
— Essa parte eu já entendi.
— Ótimo. Vamos continuar. Cinema?
Bella tentou se lembrar se já conhecera outro homem que a desconcertasse com tanta facilidade e com tanta freqüência. A resposta foi um não categórico.
— Gosto dos filmes antigos, em preto-e-branco, em particular o film noir. A luz e as sombras são incríveis.
— Relíquia Macabra? (The Maltese Falcon? – N.T.)
— O melhor dos melhores.
— Veja só. — Ele bateu de leve no pé de Bella. — Uma coisa em comum. O que acha do cinema contemporâneo?
— Neste caso, prefiro a ação direta. Os filmes de arte quase nunca me agradam. Prefiro ver Schwarzenegger surrar cinqüenta inimigos a ouvir um punhado de pessoas expressando sua angústia em outra língua.
— É um grande alívio para mim. Nunca poderíamos criar cinco filhos e golden retrievers se eu tivesse de suportar filmes de arte.
Isso a fez rir, um som meio rouco, que Edward achou absurdamente excitante.
— Se essas são minhas opções, posso reconsiderar as indicações.
— Sua cidade predileta, em qualquer parte.
— Florença — respondeu Bella, antes de saber se era verdade. — O sol claro, as cores.
— Os prédios. A idade e grandiosidade. O palácio Pitti, o palazzo Vecchio.
— Tenho uma foto maravilhosa do Pitti, pouco antes do pôr-do-sol.
— Eu adoraria vê-la.
— Não a trouxe — respondeu ela, distraída, recordando o momento, a inclinação dos raios do sol, o barulho no ar quando os pombos alçaram vôo. — Deixei em Charlotte.
— Posso esperar. — Antes que ela tivesse tempo de reagir, Edward apertou seu pé. — Quando terminar o café da manhã, que tal me levar para uma excursão de verdade pela ilha?
— Hoje édomingo.
— Já ouvi um rumor sobre isso.
— Estou querendo dizer que a maioria dos hóspedes deixa os chalés no domingo. É preciso limpá-los e reabastecê-los para os novos hóspedes, até às três horas da tarde.
— Mais cuidados domésticos. Como eles fazem quando você não está aqui?
— Sue perdeu as duas garotas que cuidavam dos chalés na semana anterior à minha vinda. Elas arrumaram emprego no continente. E como estou aqui, junto com Alice, ela ainda não se deu ao trabalho de substituí-las.
— Quantos chalés estão na sua lista?
— Seis.
Edward pensou por um momento, acenou com a cabeça, levantou-se.
— Neste caso, é melhor nós começarmos logo.
— Nós?
— Isso mesmo. Sei usar um aspirador de pó e um esfregão. Com isso você acabará mais depressa e poderemos encontrar um trecho sossegado da praia para uns amassos.
Bella se sentou na cama, pôs os pés nos sapatos... pés incrivelmente felizes, ela deve de admitir.
— Talvez eu conheça alguns trechos assim... se você for tão eficiente com o inspirador quanto écom a reflexologia.
— Bella... — Ele pôs as mãos nos quadris de Bella, num gesto que ela achou muito íntimo. — Há uma coisa que você precisa saber.
Ele ainda era casado. Estava sob indiciamento federal. Preferia o sadomasoquismo ao sexo normal, Bella deixou escapar um pequeno suspiro, espantada consigo mesma. Não sabia que tinha tanta imaginação.
— O que é?
— Também estou pensando em ir para a cama com você. Ela soltou uma risada.
— Edward, isso tem sido um peso em minha mente desde que você voltou para Desire.
Ele sentia-se muito feliz por ter voltado, por estar tão perto dela. O simples fato de observá-la provocava uma pontada de expectativa pelo que ia acontecer. No momento oportuno.
Pensou que poderia prolongar o prazer. Afinal, planejara com todo cuidado. Dinheiro não era problema. Dispunha de todo o tempo do mundo. Seria ainda mais satisfatório embalá-la para a complacência, observá-la relaxar pouco a pouco. E depois a arrastaria de volta, um súbito puxão na corrente que ela não sabia que os ligava.
Ela teria medo. Ficaria confusa. E se tornaria ainda mais vulnerável por causa da serenidade que ele permitira antes de rearrumar a composição.
Isso mesmo, ele podia esperar. Desfrutaria o sol e o mar. Não levaria muito tempo para conhecer a rotina de Bella. Tanto quanto conhecera seus hábitos em Charlotte.
Deixaria que ela se distraísse, talvez até que se apaixonasse um pouco. O que seria uma fascinante ironia.
E durante todo o tempo Bella não teria a menor idéia de que ele se encontrava ali para controlar seu destino, para cumprir seu próprio destino. Para tirar a vida dela.
