oi flores... mais um capitulo... espero que gostem...bjuxx^^
— Não sei por que você não pode tirar um dia de folga, apenas um, e passar algum tempo comigo.
Jasper baixou sua pistola de pregos, ficou de cócoras e estudou o rosto mal-humorado de Alice. Era um desses caprichos maliciosos da natureza, pensou ele, que aquela expressão de contrariedade fosse tão atraente para um homem.
— Meu bem, eu disse que teria uma semana bastante ocupada. E ainda estamos na terça-feira.
— Que diferença o dia pode fazer? — Alice ergueu as mãos. — Cada dia por aqui é igual aos outros.
— Pois eu direi que diferença faz para mim. — Jasper passou a mão pela beira do deque que acabara de completar. — Prometi a Sue que teria este acréscimo da varanda pronto e fechado com tela no sábado.
— Pode entregar no domingo.
— Eu disse que seria no sábado. — Para Jasper, isso dizia tudo. Mas como era com Alice que conversava, recorreu a toda a sua paciência para explicar o resto: — O chalé está reservado para a próxima semana. Como ela precisa de Colin no camping em tempo integral agora, e Jed ainda tem uma semana na escola antes das férias de verão, terei de fazer tudo sozinho.
Ela não tinha o menor interesse pela droga da varanda. De qualquer forma, o chão estava quase pronto. Quanto tempo levaria para fazer um telhado e cercar com tela?
— Só um dia, Jazz. — Ela agachou-se ao seu lado, pondo todo o charme na voz ao dizer, depois de beijá-lo no rosto: — Apenas umas poucas horas. Podemos pegar seu barco e ir até o continente. Almoçar em Savannah.
— Não posso perder esse tempo, Allie. Mas se eu conseguir aprontar tudo, podemos ir no sábado. Adiarei alguns serviços e aproveitaremos todo o fim de semana, se você quiser.
— Não quero ir no sábado. — A voz perdeu o charme, tornou-se obstinada. — Quero ir agora.
Jasper tinha uma prima de cinco anos que se mostrava tão insistente assim para conseguir tudo o que queria... e sempre queria tudo na hora. Mas refletiu que Alice não gostaria da comparação.
— Não posso ir agora — disse ele, paciente. — Pode pegar o barco, se está tão ansiosa em ir, fazer compras.
— Sozinha?
— Leve sua irmã, uma amiga.
— Não penso em ninguém com quem gostaria menos de passar o dia do que Bella. E não tenho mais nenhuma amiga, agora que Jessica foi embora.
Ele não precisava ver as lágrimas escorrerem dos olhos de Alice para saber que essa era a raiz do problema, a maior causa de seu novo descontentamento. Mas não havia nada que ele pudesse fazer a respeito, como também não havia nada que pudesse curar a ferida em seu coração desde o desaparecimento de Jessica.
— Se quer ir comigo, terá de esperar até sábado. Deixarei o fim de semana livre. Podemos reservar um quarto no hotel e eu a levarei para um jantar de luxo.
— Você não entende nada! — Alice bateu com o punho no ombro dele, enquanto se levantava. — Sábado não é hoje e eu acabarei enlouquecendo se não sair daqui! Por que você não pode arrumar mais tempo para ficar comigo?
— Estou fazendo o melhor que posso.
Até mesmo sua enorme paciência começava a se esgotar. Jasper pegou a pistola de pregos e fez um disparo.
— Você não pode nem mesmo parar de trabalhar e prestar atenção por cinco minutos. Dá um jeito de me espremer entre os serviços. E agora uma varanda estúpida é mais importante do que minha companhia.
— Dei minha palavra de que aprontaria a varanda. — levantou-se, pegou outra tábua e estendeu-a sobre o cavalete para medir. — E cumpro o que prometo, Allie. Se ainda quiser ir para Savannah no fim de semana, eu a levarei. E o melhor que posso lazer.
— Não é suficiente. E tenho certeza de que não haverá a menor dificuldade em encontrar alguém que ficará feliz em me levar hoje.
Ele passou o lápis pela tábua, para fazer a marca, depois fitou-a com os olhos frios e contraídos. Reconhecia a possibilidade concreta de que ela consumasse a ameaça.
— Não fará isso. — A voz era calma e contida. — Mas a decisão é sua.
Foi como um tapa. Alice esperava que ele se enfurecesse, tivesse um acesso de ciúme, dissesse o que faria se ela olhasse para outro homem. Teriam uma briga acirrada e satisfatória, antes que ela o arrastasse para o chalé vazio, onde haveria um momento de sexo para fazerem as pazes.
E depois ela o convenceria a levá-la para Savannah.
A cena que ela ensaiara mentalmente se dissolveu. Porque queria chorar, Alice sacudiu a cabeça e virou-se.
— Muito bem, pode continuar a construir sua varanda, e eu farei o que tiver de fazer.
Jasper não disse nada, enquanto ela descia os degraus provisórios. Teve de esperar que a raiva intensa se dissipasse antes de pegar a serra elétrica. Sabia que a fúria poderia custar caro e não queria ter de pagar com um dedo. Precisaria de todos, refletiu, se ela estivesse mesmo empenhada em cumprir a ameaça.
Isso mesmo, precisaria de todos os dedos para o punho fechado com que arrebentaria a cara de alguém.
Alice ouviu o zumbido da serra e rangeu os dentes. Um filho-da-puta egoísta... Jasper não passava disso. Não se importava com ela, foi andando depressa pela areia, os olhos ardendo, a respiração ofegante. Ninguém se importava com ela. Ninguém a compreendia. Nem mesmo Jessica...
Ela teve de parar por um instante quando os músculos da barriga se contraíram. Jess partira. Fora embora. Todas as pessoas de quem gostava sempre a deixavam, de um jeito ou de outro. Ela nunca tinha importância suficiente para que ficassem.
A princípio, tivera certeza de que alguma coisa terrível acontecera com a prima. Fora seqüestrada, ou caíra bêbada em uma lagoa, sendo devorada por um aligátor.
O que era um absurdo, é claro. Levara dias, mas acabara se resignando ao fato de que fora abandonada de novo. Porque ninguém ficava, não importava quanto ela precisasse.
Mas desta vez... Alice lançou um olhar desafiador para trás, na direção do chalé em que Jasper trabalhava. Desta vez ela partiria primeiro.
Ela seguiu para a linha das árvores. O sol era muito quente em sua pele, a areia arranhava os pés nas sandálias. Naquele momento, odiava Desire e tudo o que havia ali, com uma paixão intensa e irracional. Odiava as pessoas que faziam as refeições na pousada, esperando que ela as servisse e tirasse a mesa depois. Odiava sua família por pensar nela como uma sonhadora irresponsável. Odiava a praia, com o sol branco ofuscante e as ondas intermináveis desmanchando-se na areia. E a floresta, com seus bolsões de sombras escuras e o silêncio clamoroso.
E, acima de tudo, odiava Jasper, porque estivera pensando em se apaixonar por ele.
Não mais o faria. Não lhe daria essa satisfação. Em vez disso, pensou, enquanto deixava o sol para a sombra, concentraria sua atenção em outro homem, para faze-lo sofrer.
Quando avistou o Little Desire Cottage, com um vulto sentado na varanda, ela sorriu. Não sabia por que não pensara nisso antes. Por que não pensara nele.
Edward Cullen... Ele era perfeito. Bem-sucedido, sofisticado, culto. Já estivera em muitos lugares e fizera coisas. E era um prazer contemplá-lo... um homem tão deslumbrante que até Bella notara.
Podia apostar que ele sabia como tratar uma mulher.
Alice abriu a pequena bolsa vermelha que trazia junto do corpo. Pôs na boca um Lifesaver de cereja para adoçar o hálito. Pegou o estojo de maquiagem e empoou o nariz e a testa com todo cuidado. Como estava rosada do sol, as faces não precisavam de blush, mas passou batom nos lábios, um vermelho jovem e sedutor. Esguichou um pouco de Joy e afofou os cabelos, enquanto pensava na maneira exata de conduzir a cena.
Encaminhou-se para o chalé. Ao chegar perto, levantou os olhos com um sorriso cordial.
— Oi, Edward.
Ele levara o computador para a mesa de piquenique na varanda, a fim de desfrutar a brisa enquanto trabalhava. O projeto já estava quase todo desenvolvido. À interrupção, ele levantou a cabeça, distraído. Sentiu uma pontada de dor, no princípio de torcicolo.
— Oi, Alice.
Ele massageou o pescoço.
— Não me diga que está trabalhando numa manhã tão linda.
— Apenas cuidando dos detalhes finais.
— Esse éum daqueles computadores pequenos? Como pode projetar prédios inteiros nessa coisa?
— Nos mínimos detalhes.
Ela riu. Inclinou a cabeça para o lado e passou um dedo pelo pescoço.
— Interrompi seu trabalho e agora deve estar querendo que eu suma o mais depressa possível.
— Claro que não. Isso me dá uma desculpa para descansar um pouco.
— É mesmo? Você me detestaria se eu subisse e pedisse para dar uma olhada? Ou é temperamental e não gosta de mostrar seu trabalho antes de ficar todo pronto?
— Meu trabalho é apenas a parte preliminar da obra e por isso não há motivo para ser temperamental. Claro que pode subir.
Edward olhou para o relógio enquanto ela subia. Queria mais duas ou três horas para refinar as plantas. E tinha um encontro marcado à uma hora da tarde. Uma viagem até o norte da ilha, para um piquenique. E mais algum tempo para conhecer melhor Isabela Swan.
Ainda assim, ele sorriu para Alice... era impossível não fazê-lo. Ela era linda como uma gravura, com uma fragrância mais viçosa do que a brisa que soprava pelas telas. E a saia branca e curta mostrava que as pernas eram compridas e adoráveis.
— Quer alguma coisa gelada?
— Hum... Tomarei um gole do seu, está bem? — Ela pegou o copo na mesa e tomou um gole. — Café gelado. Uma delícia.
ela detestava café gelado. Jamais entendera por que as pessoas gelavam uma bebida que só era ótima quando tomada quente.
Ela passou a língua pelo lábio superior e sentou ao lado dele. Mas não perto demais. Uma mulher não queria ser óbvia. Olhou para o monitor e ficou tão surpresa com a planta baixa que havia ali, complexa e detalhada, que quase esqueceu o objetivo da visita.
— Mas não é fantástico? Como você faz tudo isso com um computador? Pensei que os arquitetos usavam lápis, régua de cálculo e calculadoras.
— Não tanto quanto usávamos antes. O CAD tornou a nossa vida mais fácil. É Um programa de desenho em computador. Pode se tirar as paredes, mudar os ângulos, alargar portas, ampliar cômodos e depois mudar de idéia, voltar ao que era antes. E não precisa usar borracha.
— É espantoso. Isso vai ser a casa de alguém?
— Uma casa de férias, na costa oeste do México.
— Uma villa... — Imagens de música animada, flores exóticas e empregados vestidos de branco afloraram na mente. — Emm já esteve no México. Eu nunca fui a outro país.
Ela lançou um olhar de lado para Edward, mexendo as pestanas.
— Você conhece o mundo inteiro, não é?
— Não chegaria a tanto, mas já estive em vários lugares. — Uma pequena campainha de alarme soou no cérebro de Edward, mas ele ignorou-a como absurda e egocêntrica. — Há penhascos espetaculares na costa oeste do México, com vistas incríveis. A casa dará para o Pacífico.
— Nunca vi o oceano Pacífico.
— O mar pode ser agitado. Esta área aqui... — ele encostou o dedo no monitor — ... será o solário. Paredes e telhado de vidro... com o telhado movimentado por um motor. Poderão abri-lo para festas ou qualquer outra coisa, quando o tempo estiver bom. A piscina será ali. Não terá uma forma definida, pois acompanhará as rochas. Aproveitaremos a flora nativa. Haverá uma pequena cascata aqui. Vai parecer uma laguna.
— Uma piscina dentro da casa... — Alice soltou um suspiro longo e sonhador. — Eles devem ser milionários.
— Mais do que milionários.
Ela fitou Edward com uma admiração sonhadora.
— Você deve ser o melhor dos melhores. Muito importante. Bem-sucedido. Projetando villas no México para milionários. — pôs a mão na coxa de Edward. — Não posso sequer imaginar como seria construir coisas tão bonitas.
Ahn... A segunda campainha de alarme soou mais alta, impossível de ignorar. Edward considerava-se razoavelmente inteligente. E um homem inteligente sabia quando uma mulher tentava seduzi-lo.
— Muitas pessoas trabalham num projeto como este. Engenheiros, paisagistas, empreiteiros.
Ele não era doce?, pensou Alice, chegando um pouco mais perto.
— Mas, sem você, eles não teriam sobre o que trabalhar. E você quem faz acontecer, Eddie.
O recuo era muitas vezes a opção do homem inteligente, decidiu Edward. Ele mudou de posição e conseguiu pôr alguns centímetros de distância entre os dois.
— Não se eu não terminar estas plantas. — Ele deu um sorriso rápido, torcendo para que não parecesse tão nervoso quanto se sentia. — E estou um pouco atrasado. Por isso...
— Parecem maravilhosas.
A mão subiu um pouco pela coxa. Inteligente ou não, ele também era humano. O corpo reagiu como a natureza determinava.
— Escute, Alice...
— Estou impressionada. — Ela inclinou-se, sedutora. — Adoraria ver mais.
Sua respiração atingia os lábios de Edward, enquanto ela acrescentava:
— Muito mais...
Ao concluir que ele era cavalheiro demais — ou muito obtuso para tomar a iniciativa, Alice beijou-o na boca e passou os braços por seu pescoço.
Dominou-o por um minuto. Ela era ardente e sensual. O sangue esvaiu-se da cabeça de Edward, tornando difícil pensar de forma racional. Mas ele conseguiu segurar os pulsos, afastar seus braços e recuar.
— Sabe... — teve de tossir para poder continuar. — Você é muito atraente, Alice. Sinto-me lisonjeado.
— Isso é ótimo. — O coração de Alice batia um pouco mais depressa. A imagem do rosto de Jasper, enfurecido pelo ciúme, aflorou em sua mente e fez seu coração disparar. — Por que não entramos um pouco?
— Há outra coisa. — Ele baixou os braços de Alice e continuou a segurar suas mãos. — Gosto do meu rosto como é. Já me acostumei. E quase nunca me corto ao fazer a barba.
— Também gosto. E um rosto maravilhoso.
— Obrigado. E não quero que Jasper se sinta na obrigação de remodelá-lo por mim.
— Por que eu me importaria com ele? — Ela sacudiu a cabeça, com um ar de indiferença. — Ele não é meu dono.
O nervosismo em sua voz e o brilho furioso nos olhos indicavam com certeza que uma disputa entre namorados estava na raiz da atual tentativa de sedução.
— Tiveram uma briga, não é?
— Não quero falar sobre ele. Por que não me beija de novo, Eddie? Sabe que tem vontade de me beijar.
Parte dele queria mesmo, uma parte instintiva, muito próxima da superfície naquele momento.
— Está bem, não vamos falar de Jasper. Mas podemos falar de Bella.
— Ela também não é minha dona.
— Não, não é. Mas estou... — ele não sabia direito como explicar — ... interessado nela.
— Acho que está interessado em mim.
Para provar, ela desvencilhou uma das mãos e estendeu-a para a virilha de Edward. Com um esforço para não gritar, ele segurou-a pelo pulso.
— Pare com isso. — A voz de Edward assumiu um tom de sermão que deixaria qualquer mãe orgulhosa. — Você vale mais do que isso, Alice. Muito mais.
— Por que você haveria de querer Bella mais do que a mim? Ela é fria, mandona e...
— Pare com isso. — Ele apertou com firmeza as mãos. Não quero que fale sobre Bella dessa maneira. Gosto dela. E sei que você também gosta.
— Você não sabe do que eu gosto. Ninguém sabe.
Porque a voz de Alice tremeu ao final, ele sentiu uma súbita e profunda compaixão. Gentilmente, levantou suas mãos e beijou-as, o que a fez piscar em surpresa.
— Talvez isso aconteça porque você própria ainda não se decidiu. — Torcendo para que fosse seguro, ele soltou uma das mãos e afastou os cabelos do rosto dela. — Gosto de você, Alice. E outro motivo pelo qual não posso aceitar sua tentadora oferta.
A vergonha dominou-a, deixando as faces vermelhas.
— Banquei a idiota.
— Não... mas eu quase banquei. — Mais firme agora, Edward recuou. Estendeu a mão para o café, que não estava mais gelado, a fim de refrescar a garganta. — É mais do que provável que você teria mudado de idéia em algum momento... e onde isso me deixaria?
Alice fungou.
— Talvez eu não mudasse de idéia. O sexo é fácil. O resto é que complica.
— Fale-me a respeito.
Quando ele ofereceu o café, Alice conseguiu sorrir e sacudir a cabeça.
— Detesto café gelado. Só tomei para seduzi-lo.
— Uma boa tática. Quer me falar sobre sua briga com Jasper?
— Não tem importância. — A angústia invadiu-a com tanta força que ela se levantou e começou a andar de um lado para outro, na esperança de se livrar. — Ele não se importa comigo, não com o que eu faço, nem com quem estou.
— Meu bem, ele é louco por você. Ela soltou uma risada rápida.
— Ser louco por alguém é muito fácil.
— Nem sempre. Não quando você tenta fazer com que tudo dê certo.
Os lábios contraídos, Alice fitou-o.
— Você tem mesmo esses sentimentos por Bella?
— Aparentemente.
— Ela não é fácil.
— É o que estou descobrindo.
— Já a levou para a cama?
— Alice...
— Ainda não. — Ela contraiu os lábios num sorriso. — E isso o deixa nervoso.
Voltou e sentou na beira da mesa.
— Quer algumas dicas?
— Não acho que seja apropriado nós discutirmos... — Edward parou de falar, pensou um pouco e abandonou a dignidade: — Que dicas?
— Bella gosta de ter o comando, de ficar com o controle de tudo, entende? E assim que ela funciona, é assim que ela vive. E sempre mantém um pequeno espaço, uma margem de manobra, entre ela e as outras pessoas.
Edward descobriu-se a sorrir de novo, a gostar ainda mais de Alice Swan.
— Ela nunca imaginaria como você a conhece bem.
— A maioria das pessoas me subestima. — deu de ombros. E quase sempre eu deixo. Mas acho que você foi legal comigo hoje, e por isso serei legal com você. Não a deixe manobrar demais. E quando chegar o momento, Edward, trate de arrebatá-la. Tenho a impressão de que ninguém jamais fez isso com ela e é justamente o que ela precisa.
Alice lançou-lhe um olhar longo e avaliador, muito feminino, para depois sorrir.
— Creio que você pode cuidar dessa parte muito bem. E também creio que é bastante inteligente para não contar a ela o que aconteceu aqui.
— Não há a menor possibilidade. O sorriso malicioso desapareceu.
— Descubra o que há de errado com ela, Edward.
— Errado?
— Alguma coisa a angustia. Bella voltou à ilha na tentativa de escapar. Mas não está conseguindo. Na primeira semana aqui ela chorava durante o sono ou passava metade da noite andando de um lado para outro. E de vez em quando surge uma expressão estranha em seus olhos, como se tivesse medo. Bella nunca teve medo de nada.
— Já conversou com ela?
— Eu? — Alice riu de novo. —Bella não conversaria comigo sobre qualquer coisa importante. Acha que sou a irmã caçula fútil.
— Não há nada de fútil em você, Alice. E pode ter certeza de que não a subestimo.
Comovida, ela inclinou-se e beijou-o.
— Acho que isso nos torna amigos.
— Fico satisfeito por isso. Jasper é um homem de muita sorte.
— Só se eu decidir lhe dar uma segunda oportunidade. — Alice sacudiu a cabeça e levantou-se. — Talvez eu dê... depois que ele rastejar um pouco e suplicar muito.
— Como amigo, eu agradeceria se também não mencionasse isso para Jasper. É possível que ele pense em me dar uma surra.
— Não darei nome nenhum. — Ela foi até a porta e olhou para trás. — Mas tenho a impressão de que você saberia se defender, Eddie. E muito bem. Até a próxima.
Sozinho, Edward esfregou os olhos, o coração, a barriga. Controlar uma mulher assim era um tremendo desafio. E ele desejou que Jasper tivesse a melhor sorte do mundo.
Bella arrumava o cesto de piquenique quando Alice entrou na cozinha. A bolsa com as câmeras esperava em cima do balcão, já pronta, o tripé encostado ao lado.
— Vai fazer um piquenique? — perguntou Alice, jovial.
— Quero tirar algumas fotos na extremidade norte da ilha. Pensei em aproveitar a tarde.
— Vai sozinha?
— Não. — Bella ajeitou no cesto o vinho escolhido. — Edward vai comigo.
— Edward? — Alice sentou no balcão. Pegou uma maçã verde lustrosa na tigela de pedra com as frutas. — Ora, que coincidência!
Sorridente, Alice limpou a maçã na blusa, entre os seios.
— Como assim?
— Estou vindo do chalé de Edward.
— E mesmo?
Embora se empertigasse, Bella conseguiu manter um tom de indiferença na voz.
— É sim. — Exultante por ter a iniciativa e levar a irmã na contradança, Alice deu uma mordida na maçã. — Passei pelo chalé e lá estava ele, sentado na varanda, tomando um café gelado. Convidou-me a subir.
— Você não gosta de café gelado. Alice passou a língua pelos lábios.
— Os gostos mudam. Ele mostrou o projeto em que está trabalhando. Uma villa no México.
— Nunca imaginei que pudesse se interessar por projetos de arquitetura.
— Estou interessada numa porção de coisas. — Um brilho malicioso nos olhos, deu outra mordida na maçã. — Especialmente por homens bonitos. E aquele é carne de primeira.
— Tenho certeza de que ele se sentiria lisonjeado por você pensar assim — disse Bella, sarcástica, batendo a tampa do cesto. — Pensei que ia ver Jasper.
— Também o vi.
— Vejo que andou ocupada. — Bella pendurou a bolsa de câmeras no ombro e levantou o cesto. — Tenho de ir agora ou perderei a luz.
— Vá pela sombra e divirta-se no piquenique. Ah, Bella... dê lembranças minhas a Edward, está bem?
Depois que a porta foi batida, Alice passou um braço pela barriga e caiu na gargalhada. Outra dica, Eddie, pensou ela: provoque um pouco o monstro de olhos chocolates e depois colha as recompensas.
Ela mesmo não ia mencionar nada, não se rebaixaria nem mesmo para abordar o assunto da maneira mais casual. Bella mudou a posição do tripé. Inclinou-se para olhar pelo visor, à procura do ângulo perfeito que queria.
O mar era mais violento ali, investindo contra os rochedos na base do penhasco. As gaivotas circulavam aos gritos, asas brancas batendo no ar.
O calor e a umidade estavam concentrados, fazendo o ar tremeluzir.
A parede sul do velho mosteiro ainda continuava em pé. O dintel sobre o vão de porta estreito também resistira. Através do espaço ali, luz e sombras se emaranhavam, trepadeiras silvestres floresciam. Ela queria aquela impressão de abandono... os tufos de mato alto, as dunas que o vento construía e destruía.
Não queria movimento e teve de esperar, avaliar os instantes em que tudo ficava parado, entre as rajadas de vento. A profundidade do campo pensou ela... as texturas da pedra, as trepadeiras, a areia, as variadas tonalidades de cinza.
Para conseguir, ela tinha de reduzir a abertura da lente, diminuir a velocidade do obturador. Inclinou um pouco a lente na direção do horizonte, enquadrou a imagem, tomando o cuidado de bloquear as ruínas das paredes restantes. Queria dar a impressão de que o prédio podia ser inteiro, mas ainda assim permanecia vazio e deserto.
Sozinho.
Ela tirou as fotos. Carregou o tripé e a câmera para o canto leste. A textura era excelente ali, com os buracos e cicatrizes que o vento, a areia e o tempo haviam aberto nas pedras. Desta vez ela usou as paredes desmoronadas, para captar desolação e perda.
Ao ouvir um clique baixo, Bella empertigou-se. Edward estava parado à sua esquerda, baixando a câmera.
— O que está fazendo?
— Tirei uma foto sua, — Ele tirara três , antes dela perceber sua presença, — Tinha uma expressão de absoluta concentração.
Ela sentiu um frio no estômago. Fotos suas, sem que tivesse conhecimento. Mas forçou os lábios a se contraírem num sorriso.
— Passe-me a câmera. Tirarei uma foto sua.
— Melhor ainda... ponha o timer na sua câmera para tirar uma foto de nós dois na frente das ruínas.
— Este tipo de câmera, com esta luz, não é apropriado para retratos.
— Não será uma foto para sua próxima exposição. Não precisa ser perfeita, Bella. — Edward largou sua câmera. — Será para nós apenas.
— Se eu tivesse um difusor...
Ela virou a cabeça, olhou para o sol, mudou a posição da câmera para reduzir as sombras, calculou a abertura, ajustou a velocidade do obturador. Empinou os ombros.
— Bella... — Ele teve de fazer um esforço para não rir. — Pense como um instantâneo.
— De jeito nenhum. Pare à esquerda da abertura, na frente da parede. A cerca de meio metro.
Ela esperou até que Edward chegasse ao ponto indicado. Através do visor, observou-o sorrir para ela. Poderia conseguir uma foto muito melhor, pensou Bella, se tivesse algum controle, o equipamento necessário para manipular luz e sombras. Poderia assim realçar os cabelos esvoaçando ao vento, mostrar todas as diferentes tonalidades de claro e escuro.
A luz era demais, ela concluiu. Deveria ser mais suave, apenas um pouco romântica, para destacar aqueles olhos maravilhosos, aquela estrutura óssea tão forte. Com um refletor, algum cenário, um difusor, ela poderia fazer uma foto espetacular.
Ah, como ele era atraente! Parado na frente daquelas pedras, parecia vigoroso e vibrante. Viril e capaz. Tão sensual com a camiseta cinza sobre o peito largo, os jeans desbotados e justos nos quadris estreitos.
— Já entendi por que você não costuma fazer retratos.
Bella piscou, aturdida, e empertigou-se.
— Como assim?
— O modelo entraria em coma de tanto esperar que você prepare tudo. — Sorridente, ele estendeu o braço e fez o sinal de venha para cá com os dedos. — Não precisa ser uma foto artística.
— Sempre tem de ser artística. — Ela fez ajustes por mais um momento, depois ligou o timer e postou-se ao lado de Edward. — Dez segundos. Ei! —
Edward mudou de posição, colocou-a na sua frente e passou os braços em torno da sua cintura.
— Gosto desta pose. Relaxe e sorria.
Ela sorriu, encostando-se nele, enquanto o obturador clicava. Quando Bella começou a se afastar, ele roçou o rosto em seus cabelos.
— Ainda gosto desta pose. — Ele virou-a, estendeu os braços para continuar a enlaçá-la e baixou o rosto para um beijo na boca. — E desta ainda mais.
— Tenho de guardar o equipamento.
— Está bem.
Edward roçou os lábios por seu pescoço. O nervosismo e o desejo deixaram Bella agitada.
— Eu... a luz mudou. Não é mais apropriada. — Porque os joelhos começavam a tremer, ela recuou. — Não pretendia levar tanto tempo.
— Não tem importância. Gostei de observá-la trabalhando. E vou ajudá-la a guardar tudo.
— Prefiro fazer isso sozinha. Fico nervosa quando alguém pega nos meus equipamentos.
— Neste caso, abrirei o vinho.
— Boa idéia.
Bella foi até o tripé, deixando escapar um suspiro longo e baixo. Teria de tomar uma decisão muito em breve, pensou, se continuava a avançar ou recuava. Ela soltou a câmera e guardou-a, com o maior cuidado.
— Alice disse que se encontrou com você esta manhã.
— Como?
Edward torceu para que o espocar da rolha encobrisse a reação de choque em sua voz.
— Ela disse que foi ao seu chalé.
Bella já se repreendia por ter levantado o assunto. Manteve os olhos concentrados no que fazia. Edward tossiu, sentindo uma súbita necessidade de tomar um copo de vinho.
— E verdade. Mas não ficou muito tempo. Por quê?
— Por nada. — Bella desmontou o tripé. — Ela disse que você lhe mostrou as plantas em que está trabalhando.
Talvez tivesse subestimado Alice, no final das contas, pensou, servindo o vinho nos dois copos.
— O projeto no México. Eu fazia alguns ajustes quando ela... apareceu.
Bella pôs os equipamentos na beira da manta que estendera no chão.
— Parece um pouco nervoso, Edward.
— Não estou não. Apenas tenho fome. — Ele entregou o copo de Bella, tomou um gole comprido do seu, antes de sentar e dar uma olhada no cesto. — O que trouxe para comer?
Bella contraiu os músculos.
— Aconteceu alguma coisa com Alice?
— Se aconteceu alguma coisa? — Edward tirou do cesto um recipiente de plástico com galinha assada. — Não estou entendendo.
Ela contraiu os olhos pela expressão de inocência de Edward.
— Não mesmo?
— O que está pensando? — Quando não queria se defender, o melhor era partir para o ataque, pensou ele. — Acha que eu... com sua irmã?
Edward deu à voz um tom de insultado, ainda mais eficaz pelo desespero que o impelia.
— Ela é uma linda mulher.
Bella pôs uma tigela fechada, com frutas picadas, em cima da manta.
— Alice é mesmo linda, o que significa que pulei em cima dela na primeira oportunidade. Que homem você pensa que eu sou? — Edward demonstrava irritação, em parte genuína, e achava que era justificada. — Vou atrás de uma irmã pela manhã e troco pela outra à tarde? Talvez eu passe uma cantada na prima Sue antes do anoitecer, para conquistar toda a família.
— Não pensei... só perguntei...
— O que exatamente queria perguntar?
— Eu...
Os olhos de Edward exibiam uma expressão sombria, irradiando fúria. O choque do alarme veio primeiro, o que a surpreendeu, mas foi logo abafado pela auto-repulsa.
— Não é nada — murmurou Bella. — Desculpe. Ela estava apenas me provocando. Sabia que eu viria me encontrar com você e que temos conversado de vez em quando. Queria me sacanear.
Ela deixou escapar um suspiro e repreendeu-se mais uma vez por não manter a boca fechada. Como Edward permanecia calado, ela acrescentou:
— Não sei por que mencionei... Não tinha a intenção de falar, mas escapou.
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Ciúme?
Bella deveria se sentir aliviada porque a fúria desaparecera dos olhos dele, mas a pergunta deixou-a tensa.
— Não. Eu apenas... não sei. Sinto muito. — Ela pegou a mão de Edward. — Sinceramente.
— Vamos esquecer. — Ele levou a mão de Bella aos lábios. — Nunca aconteceu.
Quando ela sorriu, inclinou-se e beijou-o de leve na boca. Edward revirou os olhos para o céu, especulando se deveria agradecer a Alice ou esganá-la.
