FLORES MAIS UMA CAPITULO... ESPERO QUE GOSTEM...


Rose mediu a temperatura de Yancy Brodie enquanto a mãe olhava, na maior ansiedade.

— Ele ficou acordado durante a maior parte da noite, Dra. Dei Tylenol, mas a febre voltou esta manhã. Jerry teve de partir no camaroneiro antes do amanhecer e foi na maior preocupação.

— Não me sinto bem — murmurou Yancy, irritado, fitando Rose nos olhos. — Mamãe disse que você vai fazer com que eu me sinta melhor.

— Veremos o que posso fazer. — Rose passou a mão pelos cabelos cor de palha de Yancy, um menino de quatro anos. — Você foi à festa de Betsy Pendleton há duas semanas?

— Ela tinha sorvete e bolo, e preguei o rabo no jumento.

— Burro — corrigiu a mãe.

— Papai diz que é jumento. — Yancy sorriu, depois encostou a cabeça no braço de Rose. — Não me sinto bem.

— Eu sei, querido. E quer saber de uma coisa? Betsy também não se sente bem hoje. Nem Brandon nem Peggy Lee. O que temos aqui éuma erupção de catapora.

— Catapora? Mas ele não tem nenhuma bolha!

— Mas vai ter. — já notara as erupções começando debaixo dos braços. — E você tem de fazer um esforço para não cocar quando começar a comichar, querido. Darei uma loção para sua mãe passar em você que vai ajudar. Annie, você e Jerry já tiveram catapora?

— Ambos tivemos. — Annie deixou escapar um longo suspiro. — E foi Jerry quem passou para mim quando éramos crianças.

— Então é provável que não tenham agora. A catapora de Yancy está começando a aparecer, e por isso é melhor reduzir ao mínimo seus contatos com outras crianças e adultos. Vai ficar de quarentena, companheiro.

Ela bateu de leve com a ponta do dedo no nariz do menino, antes de acrescentar:

— Banhos mornos com um pouco de maisena vão ajudar quando as bolhas surgirem. Receitarei remédios para passar nas erupções e tomar via oral. Como só tenho amostras aqui, você terá de pedir a Jerry para comprar no continente. Para a febre, pode dar Tylenol. — pôs a mão no rosto do menino. — Passarei na sua casa dentro de poucos dias para verificar como ele está.

Ao perceber a aflição de Annie, Rose sorriu e tocou em seu braço.

— Ele vai ficar bom, Annie. Vocês três passarão algumas semanas difíceis, mas não prevejo qualquer complicação. Repassarei tudo com você antes que o leve para casa.

— Mas eu... posso conversar com você por um minuto?

— Claro. Ei, Yancy... — Rose tirou o estetoscópio de seu pescoço e ajeitou-o no menino. — Quer ouvir seu coração bater?

Ela ajustou os fones nos ouvidos de Yancy e guiou sua mão. Os olhos cansados do menino tornaram-se enormes e brilhantes.

— Fique escutando por um momento, enquanto eu converso com sua mãe.

Rose saiu com Annieparu ocorredor, deixando a porta aberta.

— Yancy é forte e saudável, absolutamente normal para um menino de quatro anos. Não há nenhum motivo para se preocupar. A catapora é inconveniente, irritante, mas quase nunca apresenta qualquer complicação. Tenho algum material para ler a respeito, se você quiser.

— Não é... — Annie mordeu o lábio. — Fiz um desses testes domésticos de gravidez há poucos dias. Deu positivo.

— Entendo. Não está feliz por isso, Annie?

— Claro que estou. Jerry e eu vínhamos tentando ter outra criança há mais de um ano. Mas... o bebê vai nascer perfeito? Não terá nenhuma doença?

— A exposição ao vírus durante o primeiro trimestre acarretava um risco mínimo.

— Você não teve catapora quando era criança?

— Tive. Minha mãe pôs luvas de algodão em mim para me impedir de cocar e formar cicatrizes.

— É bastante improvável que tenha de novo. — Se tivesse, pensou Rose, com uma pontada de preocupação, lidariam com o problema quando acontecesse. — E mesmo que contraia o vírus, é mais provável que nada aconteça com o bebê. Por que não me deixa fazer agora um teste de gravidez só para confirmar? E farei um exame rápido. Veremos em que ponto você está e seguiremos daí por diante.

— Eu me sentiria muito melhor.

— Pois então faremos isso. Quem é o seu obstetra?

— Fui para uma clínica no continente quando Yancy nasceu. Mas esperava que você pudesse cuidar de tudo desta vez.

— Conversaremos sobre isso mais tarde. Irene Verdon está na sala de espera. Vamos perguntar se ela pode ficar de olho em Yancy por alguns minutos. Depois, os dois devem ir para casa e descansar. Você precisará de muito descanso.

— Já me sinto melhor só de saber que você cuidará de nós, Dra Rose — Annie passou a mão pela barriga. — De todos nós.

À uma hora da tarde, Rose já diagnosticará mais dois casos de catapora, imobilizara um dedo quebrado e tratara de uma infecção na bexiga. Era essa a vida de uma clínica geral, pensou ela ao pegar um pote de manteiga de amendoim.

Tinha trinta minutos de folga até a próxima consulta e esperava passar esse tempo sentada, comendo alguma coisa. Não resmungou quando a porta foi aberta, mas teve vontade.

Era um estranho. Agora ela conhecia todos os moradores da ilha e nunca vira aquele homem. Classificou-o no mesmo instante como um beach rover, o vagabundo de praia, do tipo que aparecia na ilha de vez em quando, à procura de sol e ondas. Tinha os cabelos alourados pelo sol, caindo até os ombros e preso por uma fita na altura da nuca. O rosto era bronzeado. Usava jeans com as pernas cortadas e desfiadas. A camiseta era da ilha mexicana de Cozumel, um paraíso turístico. Os óculos escuros eram da Wayfarer.

Quase chegando aos trinta anos, calculou Rose, bem-cuidado e atraente. Ela largou o sanduíche e retribuiu o sorriso hesitante.

— Desculpe. — O estranho baixou a cabeça. — Estou no lugar certo? Disseram-me que havia uma médica aqui.

— Sou a Dra. Hale. Em que posso ajudá-lo?

— Não tenho uma consulta marcada. — Ele olhou para o sanduíche. — Preciso marcar?

— Para que precisa de uma consulta?

— Eu tenho... ahn...

O homem deu de ombros e estendeu a mão. A palma estava bastante queimada, com um largo vergão vermelho, as bolhas exsudando.

— A aparência é horrível.

Numa reação automática, Rose adiantou-se e pegou a mão, gentilmente, para examiná-la.

— Foi uma estupidez. O café estava quente e peguei o bule sem pensar. Estou no camping. Quando perguntei ao garoto no check-in se havia algum lugar em que poderia conseguir uma pomada ou algo parecido ele me disse para procurá-la.

— Vamos para o consultório. Limparei a queimadura e farei um curativo.

— Estou interrompendo seu almoço.

— O trabalho de médica é assim mesmo. Então você está no camping.

Rose levou-o para a sala de exame.

— Isso mesmo. Pensei em continuar até as Keys, para trabalhar um pouco. Sou artista plástico.

— É mesmo?

Ele sentou na cadeira indicada por Rose. Franziu o rosto ao olhar para a palma da mão.

—Acho que isso vai me deixar inativo por duas ou três semanas.

—A menos que possa pintar com a mão esquerda — comentou Rose, sorrindo, enquanto punha as luvas, depois de lavar as mãos.

— De qualquer maneira, eu já estava pensando em passar mais tempo aqui. Um lugar maravilhoso. — Ele respirou fundo quando Rose começou a limpar a queimadura. — Dói bastante.

— Sei disso. Recomendo aspirina. E luva para pegar o bule.

0 estranho deu uma risada. No instante seguinte, rangeu os dentes por causa da dor.

— Acho que tive sorte de encontrar uma médica na ilha. Esse tipo de queimadura pode infeccionar, não é mesmo?

— Pode sim. Mas providenciaremos para que isso não aconteça. O que você costuma pintar?

— Qualquer coisa que me atraia. — Ele sorriu, apreciando a fragrância de Rose, a maneira com que os cabelos dourados caíam sobre o rosto. —Talvez queira posar para mim.

Ela riu. Afastou a cadeira com rodinhas, abriu uma gaveta e pegou um tubo de pomada.

— Não quero, mas mesmo assim agradeço.

— Você tem um rosto incrível. Faço um bom trabalho com mulheres bonitas.

Rose fitou-o. Ele tinha os olhos escondidos pelos óculos escuros. Embora seu sorriso fosse largo e cordial, havia nele alguma coisa que a deixou subitamente constrangida. Médica ou não, era também uma mulher e estava a sós com um estranho. Alguém que a observava com uma atenção um pouco exagerada.

— Tenho certeza de que faz mesmo. Mas o fato de ser a única médica na ilha me mantém sempre muito ocupada.

Ela baixou a cabeça para passar a pomada na queimadura. Aquilo era uma insensatez, disse a si mesma. Estava sendo ridícula. O homem tinha uma queimadura de segundo grau na mão e deixava que uma estranha o tratasse. E era um artista plástico. Portanto, era natural que a observasse atentamente.

— Se mudar de idéia, acho que passarei algum tempo por aqui. Puxa, já me sinto melhor.

Ele deixou escapar um longo suspiro. Rose sentiu que a mão ferida relaxava. E sentindo-se ainda mais tola, ofereceu um sorriso compadecido.

— É para isso que estamos aqui. Quero que mantenha a mão bem seca. Pode envolvê-la com um saco plástico quando entrar no chuveiro. E eu não tentaria nadar durante a próxima semana. O curativo deve ser trocado todos os dias. Se não tiver alguém disponível para ajudá-lo, pode vir até aqui que cuidarei disso.

— Agradeço sua atenção. — Enquanto Rose passava gaze em torno da mão, ele acrescentou: — Tem boas mãos, doutora.

— É o que todos dizem.

— Falo sério... não apenas boas mãos de médica. Mãos artísticas. Mãos de anjo. — O estranho exibiu outro sorriso. — Eu adoraria desenhá-las algum dia.

— Veremos o que acontece quando você for capaz de segurar um lápis de novo. — Rose levantou-se. — Vou lhe dar um tubo da pomada. E quero que me procure dentro de dois dias, se não deixar a ilha antes. Se for embora, deve procurar algum médico no continente.

— Está certo. Quanto lhe devo?

— Tem seguro de saúde?

— Não.

— Vinte e cinco dólares pela consulta e dez pelo material.

— Mais do que justo.

Ele tirou a carteira do bolso traseiro da calça com a mão esquerda. Cauteloso, pegou as notas com as pontas dos dedos da mão enfaixada, enquanto acrescentava:

— Acho que terei um pouco de dificuldade para fazer certas coisas durante algum tempo.

— Terá ajuda no camping, se precisar. Esta é uma ilha acolhedora.

— Já notei.

— Vou fazer o recibo.

— Não precisa. — O homem mudou de posição e Rose sentiu de novo um sobressalto nervoso. — Se já acabou aqui, talvez queira me acompanhar até o camping. Veria algumas das minhas obras, ou poderíamos...

— Rose! Você está aí atrás?

Ela sentiu um fluxo de alívio, tão rápido e intenso que quase a deixou atordoada.

— Estou terminando a consulta com um paciente, Emmet! — Ela tirou as luvas, enquanto recomendava ao estranho, a voz incisiva: — Trate de manter essa mão seca. E não seja econômico com a pomada.

— Você é a médica.

Ele seguiu na frente. Alteou as sobrancelhas ao deparar com um homem parado na cozinha, um pano ensangüentado em torno da mão esquerda.

— Parece que tem um problema aqui.

— Um bom observador — resmungou Emmet, sarcástico, enquanto olhava para a mão enfaixada. — E parece que não sou o único.

— Um dia movimentado para a doutora.

— A doutora não teve cinco minutos... — disse Rose, entrando na cozinha. — Emmet, o que aconteceu?

O coração na garganta, ela se adiantou apressada, segurou-o pelo pulso e tirou o pano ensangüentado.

— A droga da faca escorregou. Eu estava apenas... Tem sangue pingando no chão.

— Fique quieto. — O coração de Rose acalmou-se quando examinou o corte comprido no dorso da mão. Era profundo e sangrava bastante, mas não chegava a ser grave. — Precisa levar alguns pontos.

— Não, não preciso.

— Claro que precisa. Pelo menos dez pontos.

— Basta enfaixar a mão e voltarei ao trabalho.

— Eu mandei ficar quieto! Terá de me dar licença... — Rose levantou os olhos. Franziu o rosto. — Acho que ele já foi embora. Venha comigo.

— Não quero que me costure. Só vim porque Alice e Sue insistiram, furiosas comigo. E se Alice não estivesse me chateando, eu não teria me cortado em primeiro lugar. Basta pôr um anti-séptico e enfaixar para que eu possa voltar ao trabalho.

— Pare de bancar o bebê. — Ela pegou-o pelo braço, firme, e levou-o para o fundo do chalé. — Sente-se e trate de se comportar. Quando foi a última vez que tomou uma injeção antitetânica?

— Uma injeção? Ora, Rose...

— Isso foi há muito tempo.

Ela lavou-se rapidamente, pôs os instrumentos necessários numa bandeja de aço inoxidável e sentou na frente dele com um vidro de anti-séptico.

— Cuidaremos disso depois. Agora, vou limpar e desinfetar o corte, para depois aplicar uma local.

— Local o quê?

Emmet podia sentir o ferimento pulsando, no ritmo do coração. Ambos aceleraram agora.

— Anestesia. Deixarei toda a área dormente para poder dar os pontos.

— Por que sua obsessão por injeções?

— Quero ver você mexer os dedos... Assim émelhor. Achava que você não havia cortado qualquer tendão, mas precisava ter certeza. Tem medo de injeções, Emm?

— Claro que não.

Quando ela pegou a seringa, Emmet sentiu que todo o sangue se esvaía de seu rosto e apressou-se em acrescentar:

— Tenho sim. Mantenha essa coisa longe de mim, Rose.

Emmet tinha certeza de que ela riria, mas isso não aconteceu. Em vez disso, fitou-o nos olhos, muito séria.

— Respire fundo, deixe o ar sair devagar. Faça isso de novo, olhando para o quadro por cima de meu ombro direito. Continue a olhar para o quadro e conte as respirações. Um, dois, três. Isso mesmo. Será apenas uma pequena picada. — Rose inseriu a agulha na pele. — Continue a contar.

— Está bem. — Ele podia sentir o suor escorrer pelas costas. Concentrou-se na aquarela de lírios-do-vale. — Está na hora de você fazer algum comentário sarcástico.

— Já trabalhei num pronto-socorro. Vi mais sangue durante aquele ano do que um leigo pode ver em três vidas inteiras. Tiros, facadas, acidentes de carro. Nunca entrei em pânico. O mais perto que já cheguei do pânico aconteceu há poucos minutos, quando vi seu sangue pingando no chão da cozinha.

Ele desviou os olhos da gravura para fitá-la nos olhos.

— Limparei tudo para você.

— Não seja idiota.

Rose pegou um pedaço de papel cirúrgico para fazer uma área esterilizada. Fez uma pausa quando ele tocou em sua mão.

— Eu também gosto de você. E gosto muito. — Emmet esperou até que ela fitou-o de novo. — Como isso aconteceu?

— Não sei. O que acha que devemos fazer?

— Provavelmente não vai dar certo... você e eu.

— Provavelmente não. — começou a suturar. — Mantenha a mão imóvel, Emmet.

Ele olhou para baixo. Viu-a enfiar a agulha de sutura na pele. Sentiu o estômago embrulhado. Respirou fundo outra vez e tornou a olhar para o quadro.

Não se preocupe em fazer umserviço perfeito. Só quero que seja rápido.

— Sou famosa pelos meus pontos pequenos e impecáveis. Basta relaxar e continuar a respirar fundo.

Como pensou que seria mais humilhação do que poderia suportar se desmaiasse, Emmet fez um esforço para obedecer.

— Não tenho medo de agulhas. Apenas não gosto delas.

— É uma fobia comum.

— Não tenho fobia. Apenas não gosto de pessoas espetando agulhas em mim.

Rose baixou a cabeça para que ele não pudesse ver seu sorriso.

— Perfeitamente compreensível. Por que Alice o chateava?

— O de sempre. Tudo. — tentou ignorar a ligeira pressão quando ela juntou as beiras do ferimento. — Sou insensível. Não me importo com ela... nem com qualquer outra pessoa, diga-se de passagem. Não a compreendo. Ninguém a compreende. Se eu fosse um irmão de verdade, emprestaria cinco mil dólares para que ela pudesse voltar a Nova York e se tornar uma grande atriz.

— Pensei que ela havia decidido passar todo o verão aqui.

— Alice teve uma briga com Jasper. Como ele não foi procurá-la rastejando, ela passou do estágio do mau humor... que foi nossa bênção ontem... para o da agressividade. Está quase acabando?

— Estou na metade — informou Rose, paciente. Emmet sentiu o estômago embrulhar de novo. Muito bem, pense em outra coisa. — Quem era o cara que acabou de sair?

— Hem? Ah, sim, o queimado. Meteu a mão num bule de café pelando. Diz que é um artista, a caminho das Keys. Pode passar algum tempo no camping. Não sei seu nome.

— Que tipo de artista?

— Um pintor, eu acho. Queria que eu posasse para ele. Quando a mão de Emmet fez um movimento brusco, ela acrescentou:

— Mas que droga! Fique quieto!

— O que disse a ele?

— Que eu me sentia lisonjeada, agradecia muito, mas não tinha tempo. O homem me deixou nervosa.

Emmet estendeu a mão livre e apertou seu ombro, fazendo-a soltar um grunhido.

— Só mais dois ou três pontos.

— Ele tocou em você?

— Como? — Não, não era medo ou dor o que havia nos olhos de Emmet, ela compreendeu. Era fúria. E isso era maravilhosamente satisfatório. — Claro que sim, Emmet. Só com uma das mãos, ele me derrubou no chão, num ímpeto de desejo, e rasgou minhas roupas.

Osdedos de Emmet apertaram-na mais um pouco.

— Quero uma resposta franca. Ele pôs as mãos em você?

— Claro que não. Apenas fiquei nervosa por um momento porque o consultório estava vazio e ele parecia interessado demais. E depois ele disse que queria apenas desenhar minhas mãos. — Rose mexeu os dedos da mão esquerda. — Mãos de anjo. Agora fique quieto, antes de estragar meu trabalho e acabar com uma cicatriz horrível. Não que seu ciúme não seja lisonjeiro.

— Não estou com ciúme. — Ele retirou a mão do ombro de Rose e torceu para que o nevoeiro diante de seus olhos se dissipasse logo. — Apenas não quero que algum vagabundo de praia a assedie.

— Ele não me assediou... e se tentasse, eu poderia controlá-lo. Só mais um ponto agora.

Rose deu o ponto, fez o nó e examinou com todo cuidado a fileira reta de suturas.

— Um trabalho perfeito, se me permite dizê-lo. Ela levantou-se para preparar a injeção antitetânica.

— Como poderia controlar?

— Controlar o que? Ah, sim... ainda estamos nisso? Com uma recusa polida.

— E se não adiantasse?

— Um bom apertão naquela queimadura e ele estaria esperneando no chão, gritando de dor.

Quando ela se virou, tomando o cuidado de manter a seringa nas costas, viu que Emmet sorria.

— Você teria mesmo feito isso.

— Claro que sim. Uma ocasião esfriei o ardor de um paciente impetuoso ao apertar de leve sua laringe. Ele decidiu no mesmo instante parar de fazer sugestões obscenas para mim e para a enfermeira. Agora, Emm, quero que olhe de novo para os lírios.

Ele empalideceu.

— O que você tem nas costas?

— Apenas olhe para os lírios.

— Ó Cristo!

Ele virou o rosto. Um momento depois, soltou um grito e estremeceu.

— Emmet, foi apenas o algodão com álcool. Tudo acabará em dez segundos. Sentirá apenas uma espetadela.

— Essa não! O que está usando? Uma agulha de estofador?

— Pronto. Já acabou. — Rose pôs um esparadrapo na picada, depois sentou para enfaixar a mão. — Mantenha a mão seca. Trocarei o curativo para você quando precisar. E dentro de dez dias, duas semanas, pensaremos em tirar os pontos.

— Vai ser divertido, não é?

— Tome aqui. — Rose meteu a mão no bolso do avental e tirou um pirulito. — Um prêmio por ter se comportado como um bom menino.

— Posso reconhecer o sarcasmo quando o ouço, mas aceito o pirulito.

Ela desembrulhou o pirulito e pôs na boca de Emmet.

— Tome duas aspirinas. O efeito da anestesia local passará depressa e sentirá alguma dor. Por isso, deve se antecipar à dor, em vez de tentar aliviá-la depois.

— Não vai dar um beijo na ferida?

— Acho que sim. — Ela levantou a mão de Brian e encostou os lábios de leve na gase. Tome mais cuidado quando estiver na cozinha. Gosto de suas mãos do jeito que são.

— Neste caso, imagino que não vai se importar se eu aparecer aqui esta noite, derrubá-la no chão com apenas uma das mãos e arrancar suas roupas.

— Acho que não me importaria. — Rose inclinou-se para a frente, até que seus lábios se encontraram. Não os afastou para murmurar: — Quanto mais cedo, melhor.

Emmet olhou para a mesa de exame. Um sorriso lento espalhou-se por seu rosto.

— Já que estou aqui, não deveria fazer um exame físico completo? Não faço nenhum há dois ou três anos. Poderia usar seu estetoscópio... apenas o estetoscópio.

A perspectiva provocou um arrepio em Rose.

— A doutora não pode recusar... — Mas ela voltou à Terra quando ouviu a porta externa ser aberta. — Porém, terei de marcar a consulta para a noite.

Rose recuou, levantou-se e pegou a bandeja.

— Tive uma manhã movimentada, com muitos casos de catapora, e o próximo paciente acaba de chegar.

Emmet percebeu que não queria ir embora. Queria sentar ali e contemplá-la, estudar a maneira competente com que cuidava dos instrumentos, os movimentos firmes e graciosos. Portanto, procurou ganhar mais tempo para fazer isso.

— Quem pode pegar catapora?

— Quem está com menos de dez anos tem mais probabilidade. Já temos sete casos e a contagem continua. — Ela virou o rosto para fita-lo. — Você já teve?

— Nós três tivemos, na mesma ocasião. Acho que eu tinha nove anos. Portanto, Bella tinha seis e Alice menos de três. Creio que minha mãe consumiu dois ou três galões de calamina.

— Deve ter sido muito divertido para vocês.

— Não foi tão ruim depois dos primeiros dias. Meu pai foi ao continente e trouxe uma caixa enorme de Lincoln Logs, pelo menos uma dúzia de livros de colorir, alrm de Crayolas, bonecas Barbie e 1 carrinhos Matchbox.

Porque a recordação deixou-o sentimental, Brian deu de ombros.

— Acho que ele estava desesperado para nos manter ocupados.

E para proporcionar um pouco de paz à sua mãe, pensou Rose.

— Imagino que deve ser muito difícil cuidar de três crianças doentes. Parece que ele teve a idéia certa.

— Tenho a impressão de que eles combinaram tudo. Eu costumava pensar que os dois sempre faziam tudo de comum acordo, até que mamãe foi embora. — Emmet disse a si mesmo que isso não importava mais. Levantou-se. — Não vou mais atrapalhá-la. Obrigado pelo reparo.

Porque os olhos dele se tornaram subitamente tristes, Rose emoldurou seu rosto entre as mãos e beijou-o de leve nos lábios.

— Mandarei a conta. Mas o exame físico que marcamos para esta noite... será de graça.

Emmet não pôde deixar de sorrir.

— Negócio fechado. Ele virou-se para a porta. Não olhou para trás. As palavras saíram sem que ele as considerasse antes, ou sequer soubesse que poderia enunciá-las.

— Acho que estou me apaixonando por você, Rose. E também não sei o que vamos fazer com isso.

Emmet saiu apressado, deixando-a atordoada. Ela arriou no banco e decidiu que o próximo paciente teria de esperar por um momento. Até que a médica conseguisse respirar normalmente.


Pouco antes do pôr-do-sol, Rose resolveu dar uma caminhada pela praia. Precisava de um momento de sossego, um pouco de tempo para pensar, antes de Emmet voltar.

Ele a amava. Não, ele pensava que a amava, corrigiu Rose. Era um nível muito diferente. Ainda assim, era um passo que ela não esperava que ele desse. E um passo em que ela tinha medo de tropeçar.

Foi até a beira da praia e deixou que a espuma envolvesse seus tornozelos. Isso mesmo pensou ela, quando a onda recuou e sugou a areia sob seus pés. Era exatamente essa a sensação que Emmet causava nela. Aquele desequilíbrio ligeiro e excitante, a impressão de que o chão se alterava, por mais firmes que os pés estivessem.

Queria-o e pouco a pouco destruíra as defesas dele, até conquistá-lo. Agora as apostas haviam se tornado bastante altas, muito mais do que em qualquer outra ocasião de sua vida.

Sempre tivera o maior cuidado na escolha de seus relacionamentos pessoais. E escolhera Emmet Swan. Mas em algum ponto, ao longo do caminho, o ângulo mudara para ela.

Não falaria de amor de uma forma inconseqüente com ele. Podia fazê-lo, mas não com ele. Se dissesse as palavras, seria para valer. E se fosse para valer, teria de levá-las adiante. As palavras eram apenas a base.

Lar, família. Permanência. Teria de decidir se queria todas essas coisas... e se queria com Emmet. E, depois, ainda teria de se convencer de que ele as queria com ela.

Não seria simples. Os traumas e cicatrizes da infância impediam que Emmet fosse simples.

Rose levantou o rosto para o vento. Já não tomara sua decisão? Não tivera certeza, naquela fração de segundo em que o vira sangrando, quando o medo prevalecera sobre a calma profissional, de que seus sentimentos por Brian projetavam-se além do mero desejo?

O que a assustava. Tinha medo de tropeçar ao dar esse passo. Era melhor avançar devagar, decidiu. Para ter certeza de que não perderia o equilíbrio. Enfrentava melhor as situações se estivesse calma e lúcida. Algo tão importante devia ser tratado com cautela e cabeça fria.

Ela ignorou o riso abafado dentro de sua cabeça. Virou-se para voltar para casa. O brilho distante, através das dunas, a fez franzir o rosto. Um binóculo, pensou ela, sentindo um calafrio. Com a mão protegendo os olhos, divisou uma pessoa. A distância tomava impossível determinar se era homem ou mulher. Por isso ela passou a andar mais depressa, querendo entrar em casa, ficar por trás de portas fechadas.

Era um absurdo, Rose sabia. Com toda certeza, era apenas alguém contemplando a praia ao pôr-do-sol, e por acaso ela se encontrava na praia. Mas persistiu a sensação de ser observada, estudada, o que a levou a seguir para o chalé ainda mais depressa.


Ela o vira, o que tornava a situação ainda mais excitante. Assustara-a por sua mera presença. Com uma risada, ele continuou a enquadrar Rose na teleobjetiva, batendo fotos metodicamente, enquanto ela corria pela praia.

A mulher tinha um belo corpo. Fora um prazer observar o vento grudar a camisa e a calça em seu corpo, delineando as curvas. Os raios do sol refletiam-se em seus cabelos, deixando-os dourados. E à medida que o sol baixava pelo céu, todas as tonalidades se aprofundavam e suavizavam. Sentiu-se satisfeito por ter usado um filme colorido desta vez.

E aquela expressão em seus olhos quando percebera que havia alguém ali... A teleobjetiva aproximara-a tanto que ele quase pudera ver as pupilas dilatarem.

Eram olhos azuis lindos, pensou ele. Combinavam com ela. Assim como os cabelos louros e a voz suave.

Ele especulou qual seria o gosto dos seios.

Aquela mulher deveria ser muito quente na cama, concluiu ele, enquanto se apressava em tirar mais fotos, antes que ela desaparecesse por trás das dunas. As pequenas e delicadas costumavam ser quentes, depois de excitadas. Ele imaginou que ela pensava que sabia tudo sobre anatomia. Mas poderia lhe ensinar alguns truques. Isso mesmo, a boa doutora tinha coisas para aprender.

Ele recordou o trecho do diário que parecia combinar com aquele momento e sua disposição. O estupro de Renée.

Experimentei, permitindo-me fazer uma porção de coisas que nunca fizera antes com qualquer outra mulher. Ela chorou, lágrimas escorreram por suas faces e molharam a mordaça. E a possuí várias vezes. Não era mais sexo, não era mais estupro.

Era um poder insuportável.

Era o poder que ele queria, em toda a sua extensão, o poder que não experimentara com Jessica. Porque ela era defeituosa, ele lembrou a si mesmo. Fora uma prostituta, em vez de um anjo. Uma péssima escolha.

Se ele decidisse que precisava de um pouco mais de prática antes do evento principal, Rosalie seria a escolha perfeita, com seus lindos olhos azuis e mãos de anjo. Tudo seria certo com ela.

Era uma possibilidade em que tinha de pensar. Tinha de considerar. Agora, porém, precisava ir a Santuário para verificar se Isabela estava ali.

Era quase tempo de lembrar-lhe novamente que pensava nela.