oi flores... mais um capitulo... não se esqueçam das minhas reviews...bjuxx^^
Bella dormiu até meio-dia e acordou sozinha. Não podia se lembrar da última vez em que dormira depois de dez horas da manhã ou quando desfrutara um sono tão profundo e sem sonhos.
Especulou se deveria estar irrequieta, nervosa ou chorosa. Talvez tivesse sido assim por tempo demais, e agora que sabia a verdade, não havia mais necessidade de continuar. Podia lamentar pela mãe. E por uma mulher da mesma idade que tinha agora que enfrentar o pior tipo de horror.
Mais do que isso, porém, podia lamentar pelos anos perdidos na condenação de uma mãe e esposa, uma mulher que não fizera nada mais pecaminoso do que atrair a atenção de um louco.
— Ele me ama, mamãe — sussurrou ela. — Talvez seja a maneira que o destino encontrou para nos fazer pagar por sermos tão cruéis e desalmados há vinte anos. Estou feliz. Não importa quão doido o mundo seja neste momento, estou feliz com ele.
Estendeu as pernas pelo lado da cama. A partir de hoje, prometeu a si mesma, haveriam de permanecer juntos e lutar contra tudo.
Na sala, Edward encerrava outro telefonema, este para o consulado americano em Nice. Não dormira. Sentia os olhos pesados, a alma angustiada. Tinha a impressão de que corria em círculos, na busca de informações, de qualquer indicação, qualquer sussurro a que não dera importância meses antes.
E durante todo o tempo lidava com um angustiante sentimento de culpa, uma profunda esperança de confirmar que o irmão havia mesmo morrido.
Levantou os olhos quando ouviu passos subindo a escada. Conseguiu exibir um sorriso quando avistou Jasper no outro lado da porta de tela. Acenou para que ele entrasse, enquanto desligava o telefone.
— Não tinha a intenção de interrompê-lo.
— Não tem problema. Já acabei, pelo menos por enquanto.
— Vou trabalhar no Live Oak Cottage e pensei em deixar estas plantas com você. Disse que gostaria de dar uma olhada no meu projeto para um solário em Santuário.
— Será um prazer. — Agradecido pela distração, Edward foi pegar as plantas. Abriu-as na mesa da cozinha. — Tive algumas idéias a respeito, mas outras coisas atraíram minha atenção.
— Ora... — Jasper comprimiu a língua contra o interior da bochecha quando Bella saiu do quarto. — Bastante compreensível. Bom-dia, Isabela.
Ela só podia torcer para não ficar vermelha como uma beterraba e com isso agravar o embaraço, enquanto os dois homens a olhavam. Vestira uma camiseta de Edward e mais nada. Embora ela cobrisse até a metade das coxas, Bella imaginava que era óbvio que não usava nada por baixo.
Isso a ensinaria, refletiu ela, a não seguir um cheiro de café como um rato atrás dos acordes de uma flauta.
— Bom-dia, Jasper.
— Apenas passei para deixar uma coisa.
— Eu apenas... ahn... vim pegar um café. — Ela decidiu não se afligir e foi até o balcão para se servir de café numa caneca. — Já vou deixá-los à vontade. Jasper não podia se conter. Era uma situação constrangedora. Mas como tinha certeza de que Alice haveria de querer saber todos os detalhes, ele tentou obter mais:
— Talvez você queira também dar uma olhada, Bella. Sue está ansiosa por um solário. E você sempre teve um bom olho para essas coisas.
Boas maneiras ou dignidade. Era uma decisão impossível para uma mulher criada nas tradições sulistas. Bella fez o melhor que pôde para combinar as duas coisas. Foi até a mesa para estudar as plantas. Ficou intrigada com o que parecia ser uma vista lateral de uma curva longa e graduada, com estranhas linhas e números impressos.
Edward ordenou a si mesmo para desviar a atenção das pernas de Bella para as plantas.
— É um bom conceito. Fez o levantamento topográfico?
— Fiz, junto com Bill. Ele faz trabalhos de agrimensura no continente e dispõe dos equipamentos.
— Se você fizesse um ângulo aqui... — Edward usou o dedo para traçar a linha — ... em vez de seguir reto, poderia evitar qualquer escavação aqui. Além disso, ganharia o benefício de usar o jardim como parte da estrutura.
— Se fizesse isso, não teria de cortar este canto aqui? Não tornaria apertada e incômoda a saída da casa principal? E Miss Sue teria um faniquito se eu começasse a falar em deslocar portas ou janelas.
— Não precisa mexer em qualquer coisa da estrutura existente. Edward pôs de lado a vista lateral para revelar a vista completa do projeto de Jasper.
— Bom trabalho — murmurou ele. — Muito bom mesmo. Bella, pode pegar uma folha daquele papel de desenho ali?
Edward gesticulou, distraído, enquanto acrescentava:
— Tenho homens em minha firma que não possuem a habilidade para fazer um desenho livre como este.
— Fala sério?
Jasper esqueceu Bella por completo e concentrou-se, surpreso, na cabeça de Edward.
— Se algum dia decidir voltar a estudar e quiser um estágio, pode falar comigo.
Edward pegou um lápis e começou a desenhar no papel que Bella pusera na sua frente.
— Veja como muda se você deslocar para este lado, não tanto como um ângulo, mas como um fluxo. É uma casa feminina e não precisa de ângulos retos. Você mantém tudo no mesmo padrão da curva do telhado. Depois, em vez de formar um limite com o jardim, parece se fundir.
— Já entendi. — Jasper compreendeu que seu desenho parecia rígido e amador em comparação com aquele. — Eu não seria capaz de fazer um desenho assim nem em um milhão de anos.
— Claro que seria. Já fez a parte difícil. É muito mais fácil para alguém olhar um projeto competente e detalhado para mudar duas ou três coisas, a fim de ressaltar ainda mais o que já está no conceito básico.
Edward empertigou-se. Examinou seu desenho, os olhos contraídos. Podia ver o projeto completo e perfeito.
— Seu jeito pode ser mais conveniente para o cliente. É mais eficiente em termos de custo e mais tradicional.
— O seu é mais artístico.
— Nem sempre o cliente quer o artístico. — Edward largou o lápis. — Seja como for, pense a respeito. Ou mostre tudo a Sue e deixe-a refletir. Qualquer que seja a escolha, podemos refinar algumas coisas antes de começar a obra.
— Quer dizer que vai trabalhar comigo nisso?
— Claro. — Sem pensar, Edward pegou a caneca de Bella e tomou um gole do café. — Eu gostaria muito.
Entusiasmado, Jasper recolheu os desenhos.
— Acho que vou passar por Santuário agora e deixar tudo com Miss Sue. Darei mais tempo para ela pensar a respeito. Muito obrigado, Edward. — Ele tocou com os dedos na pala do boné. — Até mais, Bella.
Bella encostou-se no balcão e observou Edward pegar outra folha de papel de desenho. Enquanto terminava de tomar o café dela, ele começou outro desenho.
— Você nem mesmo sabe o que acabou de fazer — murmurou ela.
— Hum... Qual é a distância entre aquele canteiro com as flores azuis altas e o outro com as flores pontudas? E a distância para este canto aqui?
— Não sabe mesmo. — Bella serviu café em outra caneca. — Não tem a menor idéia do que fez.
— Sobre o quê? Oh... — Ele olhou para a caneca. — Desculpe. Tomei seu café.
— Além disso... o que eu achei ao mesmo tempo irritante e cativante. — Ela passou os braços pela cintura de Edward. — Você é um bom homem, Edward. Um homem muito bom.
— Obrigado. — Normalidade, ele prometeu a si mesmo. Apenas por uma hora, assumiriam a normalidade. — É porque não dei uma palmada em sua bunda quando apareceu aqui com minha camiseta... embora tivesse vontade?
— Não. Isso faria apenas com que fosse um homem esperto. Mas você é bom. Não viu o rosto dele. — Ela estendeu as mãos para as faces de Edward. — Nem notou.
Perplexo, ele sacudiu a cabeça.
— Não notei nada. Está falando de Jasper?
— Não conheço ninguém que não goste de Jasper, e também não conheço muitas pessoas que pensem nele como mais do que um faz-tudo afável e de confiança. Edward... — Bella encostou os lábios nos dele. — Você acaba de lhe dizer que ele era mais do que isso... e que podia ser ainda mais. E fez isso de uma maneira tão simples e informal que ele não pode deixar de acreditar.
Ela ergueu-se nas pontas dos pés, até as faces se encontrarem. Gosto muito de você neste momento, Edward. Gosto de quem você é.
— Também gosto de você. — Ele abraçou-a e balançou um pouco. — E estou começando a gostar de quem nós somos.
Rose mantinha seu orgulho sob controle ao se encaminhar para Santuário. Se Bella estivesse ali, encontraria um meio de conversar com ela em particular. Seu rigoroso código de ética não permitiria que contasse a qualquer dos Swan o que descobrira na noite passada. Se Bella tivesse voltado para casa depois da nova conversa com Edward, Rose imaginava que Santuário estaria em polvorosa.
Se nada mais, sua presença seria útil como médica da família.
Mas não fora por isso que a haviam chamado.
Planejou a visita de maneira a evitar Emmet, aproveitando o intervalo entre o café da manhã e o almoço. E entrou pela porta da frente, usada pelos visitantes, em vez de passar pela cozinha, como os amigos faziam.
Como conseguiam se evitar há uma semana, ela achava que poderiam fazê-lo por mais um dia. Não viria se Sue não a tivesse chamado com um SOS, depois que uma hóspede escorregara e caíra na escada. E no exato momento em que ela se aproximou da escada, Sue desceu correndo.
— Rose, não tenho palavras para exprimir quanto fico agradecida. É uma torção de tornozelo, não mais do que isso, posso jurar. Mas a mulher está fazendo tanto alarido que alguém pode pensar que quebrou todos os ossos do corpo em seis lugares ao mesmo tempo.
Um olhar para o rosto ansioso de Sue foi o suficiente para Rose compreender que Bella ainda não falara de Renée.
— Não se preocupe, Sue.
— Sei que é a sua tarde de folga, e detesto arrastá-la até aqui, mas a mulher não quer sair da cama.
— Não é problema. — Rose começou a subir a escada atrás dela. — Émelhor examiná-la. Se achar que é mais do que uma entorse, tirarei uma radiografia e a mandarei para o continente.
— Seria uma maneira de tirá-la de cima do meu pé. — Sue bateu numa porta. — Sra. Tores, a médica está aqui para examiná-la. Por conta da pousada.
Em voz baixa, ela acrescentou para Rose:
— Cobre quanto quiser como taxa de transtorno.
Meia hora mais tarde, com os nervos à flor da pele, Rose saiu do quarto e fechou a porta. A cabeça latejava do rosário de queixas com que a Sra. Tores a regalara. Quando parou para esfregar as têmporas, Kate apareceu.
— Sã e salva?
— Eu me senti tentada a sedá-la, mas resisti. Ela está muito bem, Sue. Pode ter certeza. Tive de efetuar o que eqüivale a um exame físico completo antes de deixá-la satisfeita. Teve uma ligeira entorse no tornozelo, mas o coração éforte como os de uma parelha de bois de carga, os pulmões ainda mais fortes. Para o seu próprio bem, espero que ela esteja planejando uma estada bem curta.
— Ela vai embora depois de amanhã, graças a Deus. Vamos descer. Quero lhe oferecer um copo de limonada e uma fatia da torta de cereja que Emmer fez ontem.
— Preciso voltar. Tenho pilhas de papéis para organizar.
— Não vou deixá-la voltar sem tomar alguma coisa gelada. O calor é suficiente para matar um cavalo.
— Gosto do calor...
Rose parou de repente, quando Emmet entrou pela porta principal. Tinha os braços cheios de flores. O que deveria fazer com que parecesse ridículo. E Rose queria que assim fosse. Em vez disso, porém, ele parecia ainda mais viril, ainda mais atraente, com os braços musculosos e bronzeados envolvendo as flores que acabara de cortar.
— Oh, Emm, fico contente que você tenha se lembrado das flores. — Sue desceu o resto da escada a toda a velocidade. — Eu ia cortar novos arranjos de flores esta manhã, mas a crise com a Sra. Tores me deixou atordoada.
Ela continuou a falar, enquanto transferia as flores dos braços de Emmet para os seus.
— Pode deixar que cuido do resto. Você não tem o menor jeito para arranjos de flores. Juro, Rose, que ele mete tudo num vaso de qualquer maneira e acha que está ótimo. Emmet, sirva uma limonada para ela e uma fatia da torta. Ela veio até aqui para me prestar um favor e não deixarei que vá embora sem retribuir. Cuide de tudo agora, enquanto levo as flores para cima.
Sue subiu a escada, torcendo para que os dois não se comportassem como idiotas.
— Não preciso de nada — declarou Rose, a voz tensa. — Eu já estava de saída.
— Imagino que você pode dispensar cinco minutos para tomar um refresco gelado, a fim de não magoar os sentimentos de Sue.
— Está bem. De qualquer forma, o caminho até minha casa é mais curto se sair pelos fundos.
Rose virou-se e seguiu pelo corredor, em passos apressados. Queria se manter a distância dele. Quando ele descobrisse sobre a mãe, faria o que fosse necessário para ajudá-lo. Mas, por enquanto, tinha de lidar com sua própria angústia.
— Como está a paciente?
— Poderia dançar um rock da pesada se quisesse. Não há nada de errado com ela.
Rose passou pela porta da cozinha e parou, obstinada. Ficou observando enquanto ele servia a limonada amarelo-dourada de um jarro que estava na geladeira, com muita polpa e fragmentos de hortelã. Quando sentiu que estava com água na boca, tratou de se controlar, decidida.
— Como está sua mão?
— Está bem. Já nem noto mais.
— Já que estou aqui, é melhor examiná-la. — Ela largou a maleta de médica na mesa da cozinha. — Os pontos deveriam ter sido tirados há dois dias.
— Você estava de saída.
— Minha presença aqui poupará sua ida ao consultório.
Ele parou de servir a limonada e fitou-a. O sol entrava pela janela por trás de Rose, iluminando seus cabelos. Os olhos eram de um azuis tempestuoso, provocando uma ansiedade incontrolável em Emmet.
— Está bem.
Ele levou o copo para a mesa e sentou. Apesar do calor, Rose sentia as mãos frias. Mesmo com a raiva, os dois eram gentis. Não havia qualquer inchaço, nenhum sinal de infecção. As beiras do ferimento haviam se fundido com o resto da pele de maneira perfeita. A cicatriz seria quase imperceptível, pensou Rose, enquanto abria a maleta e pegava a tesoura de suturas.
— Não vai demorar.
— Só não quero que abra novos buracos.
Rose cortou o primeiro ponto e puxou com uma pinça.
— Como ambos vivemos nesta ilha e é provável que nos encontremos a todo instante, pelo resto de nossas vidas, talvez você possa me fazer a cortesia de clarear o ar entre nós.
— Já está bastante claro, Rose.
— Para você, pode ser. Mas não para mim. — Ela cortou e puxou outro ponto. — Quero saber por que você se afastou de mim. Por que decidiu terminar o que havia entre nós daquela maneira.
— Porque a situação fora muito mais longe do que eu tencionava. Nenhum dos dois achava que daria certo. Apenas decidi recuar primeiro. Isso foi tudo.
— Já entendi. Você me largou antes que eu pudesse largá-lo.
— Mais ou menos. — Emeet desejou não ser capaz de sentir o cheiro dela. Desejou que ela tivesse a decência de não esfregar na pele aquela loção com fragrância de pêssego, que tanto o atormentava. — Eu diria que era mais uma questão de simplificar.
— E você gosta das coisas simples, não é? Gosta das coisas à sua maneira, no seu tempo, no seu ritmo.
A voz era suave. Embora não tivesse certeza se podia confiar, ainda mais quando ela tinha na mão um instrumento afiado, Emmet acenou com a cabeça em confirmação.
— É verdade. Você é a mesma, mas sua maneira, seu tempo e seu ritmo são diferentes dos meus.
— Não posso argumentar com isso. Você prefere uma mulher maleável, uma mulher delicada. Uma mulher que seja paciente e espere por sua iniciativa e capricho. Só que isso não me descreve.
— Não, não descreve. Mas a verdade é que eu não procurava por uma mulher... nem por um relacionamento, se preferir chamar assim. Você foi atrás de mim. É uma linda mulher e cansei de fingir que não a desejava.
— Uma avaliação justa. E o sexo foi bom para ambos. Portanto, não deveria haver queixas. — Ela tirou o último ponto. Levantou os olhos para fitá-lo. — Pronto. Já acabei, Emmet. A cicatriz vai desaparecer. Não passará muito tempo para que você nem se lembre que cortou a mão. E agora que o ar está claro, vou embora.
Emmet continuou sentado.
— Fico agradecido.
— Não precisa nem pensar a respeito. — A voz de Rose era gelada. — Porque eu não pensarei.
Ela saiu pelos fundos, sem dizer mais nada, fechando a porta de tela sem bater, deliberadamente.
Não começou a correr até alcançar o abrigo das árvores.
— Até que foi divertido — murmurou Emmet.
Ele pegou a limonada intacta de Rose e tomou tudo, em vários goles longos. Caiu em seu estômago torturado como ácido.
Fizera a coisa certa, não é? Para si mesmo... e provavelmente para ela também. Evitara que a situação se desenvolvesse, se tornasse muito profunda e complicada. Apenas abalara um pouco o orgulho dela, mas ela tinha tanto que poderia se recuperar. Isso mesmo, tinha orgulho, classe e inteligência, além de um corpo espetacular, com a energia de uma ogiva nuclear.
Ó Cristo, era uma mulher incrível!
Não... ele fizera a coisa certa, assegurou a si mesmo. Passou o copo gelado pela testa, porque sentia de repente um calor intenso, por dentro e por fora. Mais cedo ou mais tarde, ela se afastaria, deixando-o arrasado.
Mulheres como Rosalie Hale não permaneciam ao seu lado por muito tempo. Não que ele quisesse que alguma mulher permanecesse... mas se um homem começava a fantasiar, começava a acreditar em casamento e família, ela era do tipo que o atraía, para depois deixá-lo à deriva no vento.
Rose tinha muito combustível, muita energia para permanecer em Desire. Quando surgisse a oferta certa do hospital certo, ou de qualquer outra instituição, ela iria embora, antes mesmo que a areia cobrisse suas pegadas.
Ó Deus, ele nunca vira nada parecido com a maneira com que ela lidara com o corpo de Susan Peters. A maneira com que se transformara de mulher em rochedo, dando ordens em voz fria e firme, determinação nos olhos, total ausência de tremor nas mãos.
Abrira os seus olhos, é claro. Não era uma flor pequena e frágil, mas uma mulher que não se contentaria por muito tempo em tratar de urticárias e queimaduras de sol num ponto ínfimo perdido no mar. E ainda por cima ligando-se ao dono de uma pousada que ganhava a vida fazendo suflês e fritando galinha? Não havia a menor possibilidade, concluiu.
Portanto, estava acabado e sua vida retomaria a rotina sossegada que preferia.
A droga do tesão, pensou Emmet, num súbito ímpeto de fúria. Estava quase jogando o copo na pia quando avistou a maleta médica na mesa. Rose a esquecera. Ele abriu-a e deu uma olhada no conteúdo, mas sem qualquer curiosidade.
Ela podia muito bem voltar para buscá-la, decidiu Emmet. Tinha muitas coisas para fazer. Não podia partir em seu encalço só porque da fora embora num acesso de raiva e deixara a maleta.
É verdade que ela podia precisar. Nunca se sabia com certeza quando ocorreria uma emergência médica. Seria culpa dele, não é mesmo, se Rose não tivesse os recursos necessários a sua disposição?
Alguém podia procurá-la e morrer por causa disso, não é mesmo?
Emmet não queria esse peso em sua consciência. Deu de ombros e pegou a maleta, para descobrir que era mais pesada do que imaginara. Pensou em apenas entregá-la e ponto final.
Decidiu ir de carro, em vez de cortar caminho pela floresta. Fazia muito calor para andar. E se ela tivesse andado devagar, chegaria na sua frente. Poderia deixar a maleta junto da porta e ir embora antes que ela voltasse.
Quando parou na frente do chalé, ele pensou que conseguira isso. Ficou irritado consigo mesmo ao se sentir desapontado. Não queria vê-la de novo. Era esse o problema.
Mas quando subia os degraus, descobriu que Rose chegara na sua frente. Podia ouvi-la chorando.
Parou no mesmo instante, aturdido. Eram soluços profundos, arrebatados. O que o deixou abalado, a boca ressequida, os joelhos bambos. Perguntou-se se podia haver alguma coisa mais assustadora para um homem enfrentar do que uma mulher chorando.
Abriu a porta sem fazer barulho, entrou e fechou-a. Tinha os nervos à flor da pele quando se encaminhou para o quarto, transferindo a maleta de uma mão para outra.
Rose estava enroscada na cama, a própria imagem do desespero, os cabelos cobrindo o rosto. Emmet já lidara com lágrimas de mulher antes. Um homem não podia conviver com Alice durante metade de sua vida e evitar isso. Mas nunca esperara um choro tão descontrolado de Rose. Não da mulher que o desafiara a resistir, a mulher que confrontara o resultado de um assassinato sem qualquer tremor. Não da mulher que pouco antes deixara sua cozinha de cabeça erguida e olhos mais frios do que o Atlântico Norte.
Com Alice, era sair da frente e fechar a porta ou abraçá-la e esperar que a tempestade passasse. Emmet decidiu abraçá-la. Sentou na beira da cama e estendeu os braços.
Rose sentou na cama abruptamente e bateu com toda força nas mãos estendidas. Paciente, ele insistiu... E descobriu-se a abraçar uma mulher debatendo-se, furiosa.
— Saia daqui! Não me toque!
A humilhação por cima da mágoa era mais do que ela podia suportar. Chutou, empurrou, até que conseguiu se esquivar pelo outro lado da cama. Em pé ali, fitou-o com os olhos inchados, enquanto os soluços continuavam a sacudi-la.
— Como ousa entrar em minha casa? Saia daqui!
— Você esqueceu a maleta. — Porque se sentia tolo, meio esparramado na cama, Emmet empertigou-se e fitou-a. — Ouvi você chorando. Não tinha a intenção de fazê-la chorar. Não sabia que podia.
Rose tirou lenços de papel da caixa na mesinha-de-cabeceira e enxugou o rosto.
— O que o faz pensar que estou chorando por sua causa?
— Como calculo que você não se encontrou com alguém que pudesse deixá-la assim nos últimos cinco minutos, é uma suposição racional.
— E você é sempre racional, não é mesmo, Emmet? — Ela arrancou mais lenços de papel da caixa, largando os outros no chão. — Eu estava me entregando a um acesso de auto-compaixão. Tenho esse direito. Agora gostaria que me deixasse sozinha.
— Se eu a magoei...
— Se você me magoou? — Em desespero, Rose pegou a caixa e jogou em cima dele. — Se você me magoou, seu filho-da-puta! O que pensa que eu sou? Alguma coisa que pode descartar quando quiser? Diz que está apaixonado por mim e depois se vira e anuncia calmamente que tudo entre nós acabou.
— Eu disse que achava que estava me apaixonando por você. — Era vital, pensou Emmet, com um princípio de pânico, fazer essa distinção. — Mas parei.
— Você...
A raiva fez com que ela visse tudo em vermelho. Sua visão era fantástica quando pegou o objeto mais próximo e arremessou-o.
Por Deus, mulher! — Emmet estremeceu quando o pequeno vaso de cristal passou zunindo por sua cabeça, como uma bala reluzente. — Se abrir meu rosto, terá de me costurar outra vez.
— Não vou costurar porra nenhuma! — Rose pegou seu nebulizador de perfume predileto e jogou-o também. — Pode sangrar até a morte que não levantarei um dedo, seu filho-da-puta desgraçado!
Emmet esquivou-se. Foi bastante rápido para segurá-la antes que ela pudesse jogar também o espelho de cabo de prata.
— Posso imobilizá-la pelo tempo que for necessário — murmurou ele, ofegante, usando o peso do corpo para pressioná-la contra o colchão. — Não vou deixar que me arranque um pedaço só porque feri seu orgulho.
— Meu orgulho? — Ela parou de se debater. Os olhos antes furiosos ficaram marejados de lágrimas. —Você partiu meu coração!
Rose virou o rosto, fechou os olhos e deixou as lágrimas escorrerem.
— Agora não tenho mais qualquer orgulho para ficar ferido.
Atordoado, Emmet inclinou-se para trás. Ela virou de lado e tornou a se enroscar. Não soluçava mais. Ficou em silêncio, o rosto molhado de lágrimas.
— Deixe-me em paz, Emmet.
— Pensei que poderia. Pensei que você ia querer que eu fizesse isso mais cedo ou mais tarde. Então por que não mais cedo? Sei que não vai ficar. — Ele falava em voz baixa, passando um dedo pelos cabelos de Rose. — Não aqui, não comigo. E se eu não recuasse, poderia morrer quando você fosse embora.
Ela sentia-se cansada demais para chorar. Passou a mão pelo próprio rosto, em busca de algum conforto. Abriu os olhos.
— Por que eu não ficaria?
— Por que ficaria? Pode ir para qualquer lugar que quiser. Nova York, Chicago, Los Angeles. Você é jovem, bonita, inteligente. Uma médica nessas cidades vai ganhar muito dinheiro, freqüentar os clubes exclusivos, ter um consultório de luxo num prédio novo.
— Se eu quisesse essas coisas, já poderia tê-las. Se eu quisesse viver em Nova York, Chicago ou Los Angeles, já estaria lá.
— Por que não está?
— Porque eu adoro esta ilha. Sempre adorei. Porque pratico o tipo de medicina que sempre me atraiu e levo a vida que sempre desejei.
— Você vem de um lugar diferente — insistiu Emmet. — Um estilo de vida diferente. Seu pai é rico...
— E minha mãe é bonita.
Ela sorriu. Não percebeu o tremor rápido e involuntário da boca de Emmet.
— O que eu queria dizer...
— Sei o que você queria dizer. —A cabeça de Rose parecia um balão cheio demais, prestes a estourar. Disse a si mesma que tomaria alguma coisa. Dentro de um minuto. — Não dou a menor importância a clubes exclusivos. São em geral pomposos e cheios de regras. Por que eu haveria de querer freqüentá-los se posso sentar em meu deque e contemplar o mar todos os dias da minha vida? Posso andar pela floresta e encontrar um cervo, ver a bruma elevar-se do rio.
Ela mudou um pouco de posição, apenas o suficiente para poder ver o rosto de Emmet.
— Por que você continua aqui, Emmet? Poderia ir para qualquer dessas cidades que indicou, dirigir a cozinha de um grande hotel ou ter seu próprio restaurante. Por que não foi embora?
— Não é o que eu quero. Tenho tudo o quero aqui.
— Eu também. — Rose tornou a virar o rosto para a colcha. — Agora saia daqui e me deixe sozinha.
Emmet levantou-se. Ficou olhando para ela. Sentia-se enorme e desajeitado, fora de seu território. Enganchou os polegares nos bolsos da frente, andou de um lado para outro, virou-se para olhar pela janela, depois para Rose. Ela não falava, não se mexia. Ele deixou escapar um suspiro. Encaminhou-se para a porta. Parou ali e virou-se.
— Não fui sincero com você antes. Não parei de pensar que estava apaixonado por você, Rose. Não consegui. E não era apenas pensar... eu sentia mesmo. Preferia não estar, devo dizer com toda a franqueza. Porque é inevitável que ocorra um rompimento em algum momento. Mas a verdade é que estou apaixonado.
Ela passou a mão pelo rosto e sentou na cama. Não, ele não tinha a aparência de um homem feliz, decidiu Rose. Havia ressentimento nos olhos, obstinação na boca, irritação na postura.
— É essa a sua maneira encantadora de dizer que me ama?
— Foi o que eu disse. Acontece que não estou me sentindo muito encantador neste momento.
— Você me expulsa de sua vida, me humilha ao me pegar num momento de fraqueza, insulta ao negar meus sentimentos e meu caráter, e depois diz que me ama. — Ela balançou a cabeça, afastou os cabelos úmidos do rosto. — Esse é sem dúvida o momento mais romântico com que uma mulher sonha.
— Só estou dizendo o que sinto.
Rose suspirou. Se em um canto de seu coração a alegria desabrochava, ela decidiu mantê-la sob controle, pelo menos por enquanto.
— Como também acho que estou apaixonada por você, por alguma razão que não consigo lembrar, farei uma sugestão.
— Estou escutando.
— Por que não damos uma caminhada pela praia... longa e descontraída? A maresia pode desanuviar seu cérebro, pelo menos o suficiente para encontrar um pouco de encanto. E depois pode tentar me dizer de novo tudo o que sente.
Emmet, contemplando-a, compreendeu que sua cabeça já começava a desanuviar.
— Eu não me importaria de dar uma volta. E ele estendeu a mão para Rose.
