oi flores... e agora como sera que a familia de Bella vai reagir quando souber de tudo... não se esqueçam das minhas reviews ein... bjuxx^^
Havia alguma coisa terrível no ar. Charlie podia sentir. Era mais do que o calor opressivo, mais do que a aparência ameaçadora do céu. Ele tinha algumas preocupações com o furacão Carla, que no momento descarregava sua fúria nas Bahamas. Os meteorologistas garantiam que Carla se deslocaria para o mar, mas ele sabia que os furacões eram essencialmente femininos. E as mulheres eram essencialmente imprevisíveis.
Era mais provável que Carla se desviasse de Desire e levasse muita violência para a Flórida. Mas ele não gostava do que sentia no ar. Estava opressivo demais. Como se quisesse espremer sua pele.
Ia entrar e verificar a pequena estação meteorológica que Sue lhe dera no último Natal, fazer alguns contatos pelo rádio de ondas curtas. Havia uma tempestade se aproximando, com certeza. Queria saber quando chegaria.
Ao chegar ao topo da colina, ele avistou o casal na beira do jardim leste. Bella mantinha o corpo virado para a frente, apoiada no homem, com um tipo de anseio que era impossível não reconhecer.
O garoto Cullen, pensou Charlie, agora um homem. E o homem estava com as mãos na bunda de sua filha. Suspirou, sem saber como deveria se sentir a respeito.
Os olhos faiscavam na contemplação um do outro, os corpos se moldaram no instante em que as bocas se encontraram. Era o tipo de beijo ardente e íntimo que deixava claro que vinham desfrutando mais e mais a companhia um do outro.
E como ele deveria se sentir em relação a isso?
Houvera um tempo em que os jovens não se beijavam e não se acariciavam em público daquela maneira. Ele se lembrou da época em que namorava Renée, os encontros às escondidas, como se fossem ladrões. Trocavam carícias em particular. Se o pai dela algum dia os encontrasse daquela maneira, sua reação seria terrível.
Charlie continuou a andar, cuidando para que os passos soassem bastante altos para despertar os mortos e os sonhadores. Eles não tiveram sequer a cortesia de se separarem abruptamente e assumir expressões culpadas, pensou Charlie. Apenas romperam o abraço devagar, mas continuaram de mãos dadas ao se virarem para ele.
— Há hóspedes na casa, Isabela, e não estão pagando para assistirem a esse espetáculo.
Surpresa, ela piscou.
— Tem razão, papai.
— Se querem ter liberdade para suas demonstrações de afeto, escolham um lugar que não ponha as línguas para funcionar daqui até Savannah.
Sensata, Bella reprimiu a risada. Baixou os olhos, antes que o pai percebesse o brilho divertido, e acenou com a cabeça em concordância.
— Sim, senhor.
Charlie mudou de posição e olhou para Edward.
— Parece-me que você já tem idade suficiente para controlar seus hormônios num lugar público.
Edward seguiu a dica de Bella, a advertência que ela fez com um rápido aperto de mãos. Manteve o tom sóbrio e respeitoso ao murmurar:
— Sim, senhor.
Satisfeito, embora não completamente enganado pelas reações, Charlie olhou para o céu, o rosto franzido.
— A tempestade está chegando. Vai nos atingir, apesar do que dizem os meteorologistas.
Ele queria puxar conversa, compreendeu Bella, que pôs o espanto de lado para responder:
— Carla é de categoria dois e segue direto para Cuba. Estão dizendo que é provável que se desvie para alto-mar.
— Ela não está interessada no que dizem. Fará o que lhe aprouver. — Ele tornou a olhar para Edward, avaliador. — Imagino que não há muitos furacões na cidade de Nova York.
Seria um desafio?, Edward especulou. Uma estocada sutil em sua virilidade?
— Não há mesmo. Mas eu estava em Cozumel quando Gilbert passou por lá.
Ele quase mencionou o tornado que vira em Oklahoma, com toda a sua fúria, e a avalanche que descera estrondosa pelo desfiladeiro nas montanhas, perto do chalé na Suíça em que trabalhara.
— Neste caso, sabe como é — murmurou Charlie. — Ouvi dizer que você e Jasper têm um projeto para aquele solário que Sue tanto deseja.
— O projeto é de Jasper. Apenas dei algumas idéias.
— Acho que é um homem de muitas idéias. Por que não me mostra o que estão pensando em fazer com a minha casa?
— Claro. Posso apresentar a disposição geral.
— Ótimo. Isabela, desconfio que seu namorado vai filar o jantar. Avise a Emmet que terá outra boca para alimentar.
Bella chegou a abrir a boca para protestar, mas o pai já se afastava. Não pôde fazer mais do que dar de ombros para Edward e seguir para a casa.
Ao entrar na cozinha, encontrou Emmet ocupado a limpar camarões. E cantando, ela percebeu, espantada. Baixinho e desafinado, mas cantando assim mesmo.
— O que está acontecendo por aqui? — indagou ela. — Papai puxa conversa e quer ver o projeto do solário, enquanto você canta na cozinha.
— Eu não estava cantando.
— Estava sim. Era uma péssima interpretação de "I Love Rock and Roll", mas pode ser descrita sem muito rigor como canto.
— E daí? É minha cozinha.
— É mais do que isso. —Bella foi até a geladeira e pegou uma cerveja. — Quer uma também?
— Não posso recusar. Estou emagrecendo só de ficar parado aqui.
Emmet passou o dorso da mão pela testa suada. Pegou a garrafa que Bella abrira para ele. Tomou um gole comprido e passou a língua pelos lábios.
— Edward está conseguindo andar sem mancar hoje?
— Está sim, mas deixei seu lábio ensangüentado. — Ela abriu um pote branco de cerâmica e tirou um biscoito de chocolate. — Um irmão com um mínimo de decência o teria arrebentado por mim.
— Você sempre disse que preferia lutar sozinha suas próprias batalhas. Em nome de Deus, como você pode comer biscoitos de chocolate com cerveja? E repulsivo!
— Estou gostando. Quer alguma ajuda aqui? Foi a vez de Emmet ficar chocado.
— Defina "ajuda".
— Assistência no trabalho. Cortar alguma coisa, mexer alguma coisa.
Ele tomou outro gole de cerveja, enquanto a estudava.
— Preciso de algumas cenouras descascadas e raladas. Quantas?
— No valor de vinte dólares. Ê o que você me custa.
— Como assim?
— Fiz uma aposta com Alice. Uma dúzia.
Emmet voltou a se concentrar nos camarões. Bella pegou as cenouras e começou a descascá-las, em cortes lentos, as tiras meticulosas.
— Se houvesse uma coisa em que você acreditou durante toda a sua vida, Emmet, uma coisa com que aprendeu a conviver, mas não é verdade, acha que seria melhor continuar como sempre foi ou descobrir que é muito diferente do que pensou... e pior?
— Você pode deixar de lado um cão feroz adormecido, mas é difícil permanecer sossegado. Nunca se sabe quando ele pode acordar e pular em seu pescoço. — Emmet despejou os camarões numa mistura fervendo de água, cerveja e temperos. — Por outro lado, se você deixa o cachorro dormir por tempo demais, ele fica velho e fraco, os dentes começam a cair.
— Não é de muita ajuda.
— Porque a pergunta não foi objetiva. Está jogando cascas no chão.
— Varrerei tudo assim que acabar. — Bella tinha vontade de varrer também as palavras, escondê-las por baixo do primeiro tapete disponível. Mas sempre saberia que continuavam ali. — Acha que um homem, um homem absolutamente normal, com uma família, um trabalho, uma casa num bom bairro, um homem que joga bola com o filho numa tarde de domingo e leva rosas para a esposa numa noite de quarta-feira poderia ter outra vida? Uma vida fria e sinistra, que ninguém conhece, uma vida em que é capaz de fazer coisas horríveis, para depois voltar à outra vida, em que assiste aos jogos de beisebol do filho nos sábados e depois leva a família para tomar sorvete?
Emmet pegou o escorredor para os camarões e pôs na pia.
— Está cheia de perguntas estranhas hoje, Isabela. Resolveu escrever um livro ou algo parecido?
— Não pode simplesmente me dizer o que pensa? Não pode ter uma opinião sobre o assunto e apresentá-la?
— Está bem. — Aturdido, ele levantou a tampa da panela para dar uma rápida mexida nos camarões. — Se quer ser filosófica, esse tema de doutor Jekyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro, sempre fascinou as pessoas. O bem e o mal existindo lado a lado na mesma personalidade. Não há nenhuma pessoa que não tenha sombras.
— Não me refiro a sombras... a um homem que cede à tentação e engana a mulher numa tarde no motel, ou que não se empenha como deveria no trabalho. Falo do mal profundo, do tipo que não acarreta nenhum sentimento de culpa, nenhum peso na consciência. Mas ninguém percebe, nem mesmo as pessoas mais próximas.
— Creio que o mal mais fácil de esconder é o que não produz problemas de consciência. Se você não sente remorso nem responsabilidade, não há espelho para refletir.
— Não há espelho para refletir... — repetiu Bella. — Seria como um vidro preto, não é mesmo? Opaco.
— Tem mais suposições ou comentários animadores para analisar?
— O que acha disso... a maçã pode cair longe da árvore?
Com uma meia-risada, Emmet levantou a panela e despejou os camarões e a água fervendo no escorredor.
— Eu diria que dependeria da maçã. Uma maçã firme e saudável pode quicar algumas vezes e rolar para longe da árvore. Já uma maçã podre ficaria junto do tronco ao cair.
Ele virou-se. Enxugou a testa de novo e pegou sua cerveja. Olhou para a irmã. Ela fitava-o com uma expressão sombria, o rosto pálido.
— O que foi, Bella?
— É exatamente isso — murmurou ela. — Tem toda razão.
— Estou cansado de parábolas.
— Deixarei esta para depois, Emm. —Bella olhou para a cenoura que ralava. — Depois do jantar, precisamos conversar. Todos nós. Avisarei os outros. Na sala de estar da família.
— Todos nós no mesmo lugar? Quem você quer punir?
— É importante, Emmet. É importante pura todos nós.
— Não sei por que preciso ficar aqui se tenho um encontro marcado. — Alice ajeitou os cabelos, olhando para sua imagem no espelho por trás do bar. — Já são quase onze horas. Jasper pode desistir de esperar e ir dormir.
— Bella disse que era importante.
Sue fazia um esforço para que as agulhas do tricô clicassem de forma ritmada, em vez de se encontrarem em batidas estrondosas. Vinha trabalhando naquela manta há quase dez anos e queria terminá-la antes de completar uma década.
— Então onde ela está? — indagou Alice, virando-se. — Não vejo mais ninguém aqui. Emmet deve ter se mandado para o chalé de Rose, e papai se trancou com aquele seu rádio de ondas curtas, para tentar rastrear o furacão... e tenho certeza de que não virá.
— Todos virão. Por que não nos serve um copo de vinho, querida?
Era um dos pequenos sonhos de Sue ter a família reunida, relaxando depois de um dia quente e difícil, partilhando os últimos acontecimentos.
— Parece que estou sempre servindo alguém. Juro que a última coisa que farei para manter a fome a distância, quando voltar para Nova York, será trabalhar como garçonete.
Charlie entrou na sala. Olhou para Sue e sorriu. Aquela manta dava a impressão que nunca aumentava de tamanho, mas de alguma forma parecia mais feia cada vez que ela a pegava para trabalhar.
— Sabe o que aquela menina está querendo?
— Não, não sei — respondeu Sue, plácida. — Mas sente-se. Alice vai nos servir um vinho.
— Prefiro uma cerveja, se não se importa.
— Podem fazer seus pedidos — resmungou Alice, irritada. — Vivo para servir.
— Posso pegar minha cerveja.
— Ora, sente-se. — Ela acenou com a mão. — Eu pego. Contrafeito, Charlie arriou no sofá, ao lado de Sue. Tamborilou com os dedos no joelho. Levantou os olhos quando Alice estendeu a cerveja.
— Acho que você quer uma gorjeta agora. — Quando ela arqueou uma sobrancelha, Charlie acrescentou: — Reciclagem. O mundo está em nosso quintal.
As agulhas de Sue silenciaram, Alice mostrou-se espantada. Charlie olhou para sua cerveja, sentindo a cor subir pelo pescoço.
— Meu Deus, Charlie, você fez uma piada! Allie, lembre-me de anotar isso em minha agenda, como uma dessas coisas que só acontecem uma vez por ano.
— Uma mulher sarcástica é a razão pela qual me mantenho de boca fechada — murmurou ele.
A risada de Sue ressoou pela sala. Ela afagou o joelho de Charlie, afetuosa, enquanto Alice sorria para os dois.
Foi essa a cena que Bella encontrou quando entrou na sala. O pai, a prima e a irmã partilhando um momento juntos, enquanto a risada de Sue ressoava.
Era uma imagem que ela nunca esperara ver, que nunca soubera que podia achar tão preciosa. Mas ela e o homem que vinha atrás podiam destruir tudo aquilo.
— Ela chegou! — exclamou Sue, ainda radiante.
Quando ela avistou Edward, sua noção do que Bella queria dizer assumiu a forma de flores de laranjeira e rendas nupciais. Excitada, ela largou o tricô.
— Estamos tomando um vinho. Talvez devêssemos passar para champanhe, apenas pela diversão.
— Vinho está bom. — Osnervos à flor da pele, Bella apressou-se em acrescentar: — Não se levante, Sue. Pode deixar que eu pego.
— Espero que não demore muito, Bella. Tenho planos.
— Desculpe, Alice.
Bella bateu com os copos, em sua pressa para servir o vinho.
— Sente-se. — Sue revirou os olhos e alteou as sobrancelhas, na tentativa de indicar a Alice o que ia acontecer. — Fique à vontade Edward. Tenho certeza de que Emmet já vai chegar... Lá está ele. Emmet, pode ligar o ventilador? O calor está demais. Deve ser mais fresco em seu chalé à beira do rio, Edward.
— Um pouco.
Ele sentou, sabendo que tinha de deixar Bella tomar a iniciativa. Mas olhou para Charlie. Haviam passado juntos vinte minutos naquela noite, avaliando o projeto, discutindo estrutura e forma. E durante todo o tempo Edward sentira o gosto amargo da impostura.
Era chegado o momento da franqueza, da revelação da verdade, de aceitar as conseqüências.
— Como? — murmurou ele, percebendo abruptamente que Sue estava lhe falando.
— Só perguntei se você acha tão fácil trabalhar aqui quanto em Nova York.
— É uma boa mudança.
Seus olhos se encontraram com os de Bella quando ela entregou o copo com vinho. Comece logo, pediu ele, silenciosamente. Vamos acabar com isso.
— Pode sentar, Emm? — murmurou ela.
— Ahn... — Bella interrompera seu devaneio sobre o encontro iminente com Rose e como a acordaria de uma maneira específica e interessante. — Claro.
Ele se instalou numa poltrona e decidiu que nunca se sentira mais relaxado e contente em toda a sua vida. Até ofereceu uma piscadela para Alice quando ela sentou no braço da poltrona.
— Não sei como começar, como dizer... —Bella respirou fundo. — Eu gostaria de poder correr o risco de deixar o cachorro adormecido.
Ela percebeu a confusão nos olhos de Emmet. Continuou a falar:
— Mas não posso. Seja ou não a melhor coisa, tenho de acreditar que é a coisa certa. Papai... — Bella foi sentar na mesinha de café, para que seus olhos ficassem no mesmo nível dos de Charlie. — É sobre mamãe.
Ela viu a boca de Charlie endurecer. Embora o pai não se mexesse, sentiu que ele recuava.
— Não há sentido em remexer águas passadas, Isabela. Sua mãe foi embora há tempo suficiente para que você aceite sua partida.
— Ela morreu, papai. Está morta há vinte anos. — Como se fosse uma âncora para os dois, Bella pegou a mão do pai. — Ela não o deixou... nem a nós. Não saiu de Santuário. Foi assassinada.
— Como pode dizer tal coisa? — Alice levantou-se num movimento brusco. — Como pode dizer isso, Bella?
— Alice... — Charlie não desviou os olhos de Bella. — Fique calada. Ele tinha de se conceder um momento para absorver o golpe que Bella acabara de desfechar. Queria descartá-lo, esquivar-se, contorná-lo. Mas não havia como evitar a expressão firme e desolada nos olhos da filha.
— Você tem uma razão para dizer isso... para acreditar.
— Tenho.
Bella falou sobre a foto que lhe fora enviada, a voz calma e decidida. O choque do reconhecimento, a certeza inegável de que era Renée.
— Considerei de cem maneiras diferentes, papai. Disse a mim mesma que fora tirada anos depois, que era apenas um truque de câmera, uma brincadeira de mau gosto. Mas nada disso era verdade. Era mesmo mamãe, e a foto foi tirada aqui na ilha, na noite em que pensamos que ela havia ido embora.
— Onde está essa foto? — perguntou Charlie.
— Desapareceu. A pessoa que a mandou foi até o apartamento para recuperá-la enquanto eu estava no hospital. Mas juro que a foto existia. Era mamãe.
— Como sabe? Como pode ter certeza?
Ela abriu a boca para responder, mas Edward se antecipou:
— Porque eu também vi a foto. Porque meu pai a tirou, depois que a matou.
Com uma tempestade rugindo em sua cabeça, Charlie levantou-se lentamente.
— Vai ficar parado aí e dizer que seu pai matou Renée. Matou uma mulher que não lhe fizera nenhum mal e depois tirou fotos. Tirou fotos dela depois de matá-la e mostrou para você.
— Edward não sabia, papai. — Bella segurou o braço de Charlie. — Era apenas um menino. Não sabia de nada.
— Não estou olhando para um menino agora.
— Descobri as fotos e um diário depois que meu pai morreu. Tudo o que Bella disse é verdade. Meu pai matou sua esposa. Escreveu todos os detalhes e guardou o diário e as fotos num cofre no banco. Só soube disso depois que ele e minha mãe morreram.
Quando as palavras cessaram, os únicos sons eram o zunido do ventilador no teto, o choro de Alice e os estertores do ar que entrava e saía dos pulmões de Charlie.
Ele podia vê-la agora, radiante, em sua mente, a esposa que tanto amara a mulher que amaldiçoara. Todas as luzes e sombras de Renée se fundiram para projetar raiva. E desespero.
— Por vinte anos ele manteve em segredo. — Charlie cerrou os punhos, mas não havia nada que pudesse socar. — Você descobriu, voltou para cá e pôs as mãos em minha filha. E você deixou!
Ele fulminou Bella com um olhar, antes de acrescentar:
— Você sabia e deixou!
— Senti a mesma coisa quando ele me contou. Exatamente a mesma coisa. Mas depois que tive tempo para pensar, para compreender... Edward não foi responsável.
— Seu sangue foi.
— Tem razão. — Edward adiantou-se, para que Bella não se interpusesse mais entre ele e Charlie. — Voltei à ilha para tentar encontrar uma maneira de superar, contornar ou apenas sepultar o passado. E me apaixonei por quem não tinha o direito de me apaixonar.
Emmet pôs Alice de lado, para que ela pudesse chorar nas próprias mãos, não mais em seu ombro.
— Por quê? — A voz dele era tão angustiada quanto sua alma. — Por que ele fez isso?
— Não há razão que possa justificar — respondeu Edward, cansado. — Nada que ela tenha feito. Ele... a selecionou. Era um projeto para ele, um estudo. Não agiu por raiva, nem mesmo por paixão. Não sei explicar.
— É melhor você sair agora, Edward — murmurou Sue, enquanto se levantava. — Deixe-nos a sós por algum tempo.
— Não posso, até que tudo seja dito.
— Não quero você em minha casa. — A voz de Charlie era perigosamente baixa. — Não quero você em minhas terras.
— Não irei embora enquanto não tiver certeza de que Bella está sã e salva. Porque o homem que assassinou Susan Peters e Jessica quer matá-la também.
— Jessica...
Para não cair, Sue teve de segurar o braço de Charlie.
— Não tenho qualquer prova em relação a Jessica, mas estou absolutamente convencido. Se quiserem escutar o resto, se me ouvirem, eu irei embora.
— Deixem-no acabar. — Alice fungou para reprimir as lágrimas e falou numa voz surpreendentemente forte: — Jess não fugiu. Eu sempre tive certeza disso, no fundo do meu coração, desde o início. Foi como mamãe, não é mesmo, Edward? E Susan Peters também.
Ela cruzou as mãos no colo para se controlar. Virou-se para Bella.
— Você recebeu as fotos aqui, nesta casa... e as fotos foram tiradas na ilha. Está acontecendo tudo de novo.
— Você é hábil com uma câmera, Edward. — Os olhos de Emmet eram fendas azuis ardentes.
A insinuação doeu, partindo de um homem que fora seu amigo no passado e no presente.
— Vocês não têm qualquer razão para confiar em mim, mas têm todas as razões para me ouvirem.
— Deixe-me tentar explicar, Edward.
Bella tomou um gole do vinho para esfriar a garganta. Não deixou nada de fora. Relatou tudo, em detalhes, respondeu a todas as perguntas, até chegar às providências que ela e Edward haviam combinado para descobrir a verdade.
Portanto, seu falecido pai éresponsável por matar nossa mãe — disse Emmet, amargurado. — Agora o irmão morto é responsável pelo resto. Muito conveniente.
— Não sabemos quem é responsável pelo resto. Mas se for o irmão de Edward, isso não faz com que ele seja culpado. —Bella aproximou-se do irmão. — Existe uma parábola sobre maçãs caindo da árvore que alguém me contou há pouco tempo. E como algumas são bastante fortes para rolar para longe e permanecer íntegras, enquanto outras não.
— Não jogue minhas próprias palavras em cima de mim — disse Emmet, furioso. — O pai dele matou nossa mãe, destruiu nossas vidas. Agora, há outra mulher morta, talvez duas. E você espera que nós o afaguemos e declaremos que está tudo perdoado? Não farei isso. E que se danem todos vocês!
Ele saiu, deixando o ar a vibrar em sua esteira.
— Irei atrás dele. — Alice parou na frente de Edward e estudou-o por um momento, com os olhos injetados. — Ele é mais velho e talvez a amasse mais, como os meninos amam suas mães. Mas ele está enganado, Edward. Não temos de perdoar você por qualquer coisa. Você também é uma vítima, como todos nós.
Depois que ela saiu, Sue comentou, com uma admiração surpresa:
— Nunca se espera que seja ela a sensata. — Sue suspirou. — Precisamos de algum tempo aqui, Edward. Algumas feridas devem ser cuidadas em particular.
— Irei com você — declarou Bella. Mas Edward sacudiu a cabeça.
— Não. Fique com sua família. Todos nós precisamos de tempo. — Ele virou-se para Charlie. — Se tem mais alguma coisa a me dizer...
— Saberei onde encontrá-lo.
Com um aceno de cabeça, Edward deixou-os a sós.
— Papai...
— Não tenho nada para lhe dizer neste momento, Bella. É uma mulher adulta, mas está vivendo sob meu teto. Peço que vá para seu quarto por enquanto e me deixe sozinho.
— Está bem. Sei como se sente e quanto dói. Precisa de tempo para lidar com isso. — Ela fitava o pai nos olhos. — Mas depois que tiver esse tempo sozinho, eu me sentiria envergonhada se ainda mantivesse essa posição... envergonhada por você culpar o filho pelas ações do pai.
Sem dizer mais nada, Charlie passou por ela e deixou a sala.
— Vá para o seu quarto, Bella. — Sue pôs a mão no ombro tenso dela. — Verei o que posso fazer.
— Você também o culpa, Sue?
— Não consigo decidir ainda o que penso e sinto. Sei que o garoto está sofrendo, Bella, mas Charlie também está. E minha primeira lealdade é com ele. Vá agora. Não me pressione mais com perguntas para as quais ainda não tenho respostas.
Sue encontrou Charlie na varanda da frente, junto da grade, olhando para a noite. As nuvens haviam chegado, ocultando a lua e as estrelas. Ela deixou a luz da varanda apagada e foi se postar ao lado dele.
— Tenho de lamentar de novo. — Ele passava as mãos para um lado e outro da grade. — Não é certo que eu tenha de lamentá-la de novo.
— Não, não é.
— Encontro algum conforto por saber que ela nunca teve a intenção de nos deixar? Por saber que ela não fugiu e nos esqueceu? E como posso retirar todos os pensamentos terríveis que tive ao longo dos anos, todas as noites em que a amaldiçoei por ser egoísta, indiferente e insensível?
— Não pode ser culpado pelos pensamentos duros que teve, Charlie. Acreditou no que lhe foi apresentado. E acreditar numa mentira não faz com que esteja errado. É a mentira que está errada.
Ele se empertigou.
— Se veio até aqui para defender aquele garoto, pode fazer a volta e entrar.
— Não foi por isso que saí. Mas a verdade é que você não é culpado pelo que acreditava em relação a Renée tanto quanto Edward não era por acreditar no pai. Agora você descobriu que estava enganado naquela convicção, mas é ele quem tem de aceitar que o pai era egocêntrico e brutal.
— Eu disse que você podia voltar.
— Você é teimoso e obstinado como uma mula. Pois pode ficar aqui sozinho, espojando-se em seu sofrimento, acalentando os pensamentos mais sombrios.
Sue virou-se e espantou-se quando Charlie pegou sua mão.
— Não vá embora. — As palavras ardiam na garganta de Charlie como se fossem lágrimas. — Não me deixe sozinho.
— Quando o deixei? — murmurou ela, com um suspiro. — Charlie, não sei o que fazer por você, por qualquer de vocês. Detesto ver as pessoas que eu amo magoadas dessa maneira, sem saber o que fazer para aliviá-las.
— Não posso mais lamentá-la como deveria, Sue. Vinte anos é muito tempo. Não sou mais o mesmo que era quando a perdi.
— Você a amava.
— Sempre a amei. Mesmo quando pensava o pior, continuava a amá-la. Você lembra como ela era exuberante, Sue.
— Sempre invejei a maneira com que ela iluminava a tudo e todos ao seu redor.
— Uma luz suave também tem sua atração. Charlie olhou para as mãos entrelaçadas e não percebeu o sobressalto que aflorou nos olhos de Sue.
— Você sempre manteve essa luz firme — acrescentou ele, com todo cuidado. — Ela ficaria agradecida por como você cuidou das crianças, resolveu os problemas. Eu já deveria ter-lhe dito que me sinto muito grato.
— Comecei a fazer as coisas por ela e continuei por mim mesma. E não creio que Renée gostaria que você lamentasse tudo de novo, Charlie. Nunca soube que ela acalentasse uma mágoa ou se apegasse a um ressentimento. E tenho certeza de que ela não culparia um menino de dez anos pelo que o pai era.
— Estou dividido nesse ponto, Sue. Lembro que Carlisle participou da busca quando ela desapareceu. — Charlie teve de fechar os olhos, porque a raiva o dominava outra vez. — O filho-da-puta procurou por toda a ilha comigo. Depois de tê-la assassinado. Sua esposa apareceu e levou as crianças para o chalé. Eu me senti grato a ele, que Deus me perdoe por isso. Eu me senti grato.
— Ele enganou você, Charlie. E também enganou a própria família.
— Não deixou transparecer qualquer coisa. Mas não posso voltar àquele dia, sabendo o que sei agora, e fazê-lo pagar pelo que fez.
— Em vez disso, fará o filho pagar?
— Não sei.
— E se eles estiverem certos? E se alguém quiser fazer com Bella o que foi feito com Renée? Precisamos proteger o que nos restou... usar tudo o que tivermos para proteger o que nos restou. E se sou capaz de julgar alguém, diria que Edward Cullen é capaz de se lançar na frente de um trem em movimento para manter Bella sã e salva.
— Posso cuidar dos meus desta vez. Agora estou preparado.
A beira do bosque, numa noite sem luar, era um excelente ponto de observação. Mas ele não fora capaz de resistir a uma maior aproximação, aproveitando a escuridão para esconder seus movimentos.
Era emocionante ficar tão perto da casa, ouvir com tanta nitidez as palavras do velho. Tudo fora revelado, o que era outro motivo de excitamento. Eles pensavam que sabiam de tudo, compreendiam tudo. Provavelmente pensavam também que estariam seguros por esse conhecimento prévio.
Não poderiam estar mais enganados.
Ele apalpou a arma que guardara na bota, ao estilo dos comandos. Poderia usá-la agora, se quisesse, liquidar os dois. Seria a coisa mais FÁCIL do mundo. Isso deixaria as duas mulheres sozinhas na casa, já que Emmet saíra num acesso de raiva.
Ele poderia ter as duas filhas de Renée, uma depois da outra. Um maravilhoso ménage à trois.
Ainda assim, isso seria um desvio do plano principal. E o plano servira-o muito bem até agora. Mantê-lo provaria sua disciplina, sua capacidade de conceber e executar. E se queria mesmo duplicar a experiência de Renée, teria de ser paciente por mais algum tempo.
Mas isso não significava que não poderia agitar um pouco as coisas enquanto esperava. Os coelhos assustados, refletiu ele, eram muito mais fáceis de ser apanhados.
Ele se embrenhou no meio das árvores e passou uma hora das mais agradáveis contemplando a luz na janela de Bella.
