EPOV
Esme me dissera algo sobre pais também ficarem "grávidos". Eu achei que ela estava só rindo da minha cara e ignorei. Não demorou muito para entender o que isso significava.
Tudo o que acontecia com Bella me afetava. Se ela precisava de alguma coisa, eu era o responsável por ajudá-la, e acabava ainda mais exausto. Se ela me acordava com algum desejo maluco, eu levantava e saía de madrugada à procura de um restaurante aberto, e de repente a mistura mais inusitada parecia apetitosa.
A pior parte era que, por mais que eu tentasse, ela não estava realmente acreditando nas minhas boas intenções. Como ela mesma dissera, eu não era o pai mais apaixonado do mundo – na verdade, eu não gostava de pensar no que aconteceria quando esse bebê chegasse. Eu estava pensando no presente, e o que havia no presente era uma mulher grávida precisando de ajuda. Eu não era tão imbecil quanto ela pensava, afinal de contas, e sabia que parte de tudo aquilo era minha responsabilidade. Só estava aceitando aos poucos. Nós não conversávamos sobre isso.
Bella estava em seu quinto mês. Os enjoos foram embora de vez, mas em compensação veio o incômodo para dormir. Eu voltei a usar um pijama sob sérias ameaças.
- Edward? – Eu ouvi sua voz no quarto escuro e despertei imediatamente.
- O que foi? – Murmurei com a cara no travesseiro. – Outro desejo?
- Eu acho... Acho que é um pouco mais sério do que isso.
Eu estiquei a mão até meu abajur e virei o rosto para ela. Bella estava sentada na cama com as mãos na barriga arredondada, franzindo a testa para mim.
- Minha barriga dói. Eu acho que são contrações. – Ela explicou.
- Não podem ser contrações, Bella.
- Eu estou dizendo que são! Eu estou sentindo, não você! – Ela gritou enquanto saia da cama, e eu ignorei, como todas as vezes que seus hormônios falavam mais alto. – Eu quero ir para o hospital. Eu quero minha médica.
- Eu não acho que seja necessário... – Comecei a dizer, mas a garota tombando o corpo para frente com a dor me fez parar e levantar também. – Tudo bem, eu vou chamar um táxi. – Disse enquanto segurava suas mãos e a puxava para perto do guarda-roupa.
Nós colocamos as primeiras roupas que encontramos – eu precisei ajudá-la – e então a guiei para a sala. Eu fiz com que Bella sentasse no sofá enquanto eu usava o celular, mas ela não deixou de segurar minha mão. Eu estava começando a me assustar conforme ela ficava mais nervosa, e não era a pessoa mais indicada para acalmá-la. Ela insistiu em levar os resultados dos exames que já fizera, apenas por precaução. Levei algum tempo, mas consegui guiá-la até o térreo e então para fora do prédio, entrando no banco de trás do táxi que nos esperava.
- Ainda está doendo? – Perguntei.
Ela me olhou um pouco desconfiada, e então respondeu. – Não é uma dor contínua. Eu estou melhorando.
Eu me encolhi no banco com sua resposta seca. Ela tinha motivos de sobra para não acreditar na minha preocupação.
Pedi para o motorista nos levar até o hospital enquanto Bella ligava para sua obstetra. Eu não entendia muito do assunto, mas era óbvio que contrações a essa altura da gravidez não eram um bom sinal. O tempo todo minha mente trabalhava para elaborar uma maneira de confortá-la, mas no final eu era simplesmente péssimo com isso. Ainda pior: apenas minha presença parecia incomodá-la.
O táxi estacionou na porta do hospital e eu paguei a corrida enquanto minha esposa descia. Antes que eu a alcançasse, um enfermeiro se aproximou com uma cadeira de rodas e a levou para dentro do prédio. Eu os segui e ouvi Bella explicando rapidamente o que sentia.
- Eu vou levá-la para a sala de exames. – Ele disse. – Preciso que assine alguns papeis da entrada da sua esposa.
Meus olhos foram imediatamente para minha mão esquerda ao ouvir aquilo, lembrando que nenhum de nós dois estava usando aliança. Tirá-la havia se tornado um hábito. Eu lancei um sorriso sem graça para ele e assenti. Antes que ele virasse a cadeira de rodas para o corredor, uma mulher se aproximou com roupas totalmente brancas. Identifiquei-a imediatamente como a obstetra de Bella, e me senti mal por não saber nem mesmo seu nome.
- Não se preocupe, Bella, vai ficar tudo bem. – Ela colocou a mão no ombro da garota e a acompanhou, sem nem mesmo olhar para mim.
Eu fiquei parado no meio do corredor enquanto eles se afastavam, sem saber o que fazer. Não havia praticamente ninguém no hospital durante aquela madrugada. Eu fiz como o enfermeiro pediu e fui até a recepção, respondendo todas as perguntas e assinando qualquer papel que jogavam na minha cara. Estar ali foi como um balde de água fria na minha cabeça: Por mais que eu estivesse tentando, eu não estava nem um pouco envolvido com os detalhes da gravidez. Levantar no meio da noite para comprar comida não significava nada. Eu era um estranho ali.
Sentei na sala de espera com aquele pensamento me corroendo, e não foi fácil afastá-lo. Eu olhava para o relógio na parede a cada 5 minutos, curioso sobre o que acontecia lá dentro. A ideia de que talvez Bella estivesse perdendo o bebê me ocorreu e eu não sabia o que pensar sobre isso.
Um barulho na porta de entrada me fez levantar a cabeça, que antes estava apoiada em minhas mãos. Um casal entrou, e eu demorei a perceber uma menina minúscula vindo logo atrás, segurando a mão do pai e andando sem o menor jeito. Quase mais rápido do que Bella, a mulher pálida foi colocada numa cadeira de rodas e levada pelo corredor. Seu marido preocupado sentou bem a minha frente com a filha no colo.
Nossos olhares se encontraram e eu sorri rapidamente para ele, logo desviando o olhar. Nós ficamos em silêncio por algum tempo. Eu comecei a bater o pé, nervoso, até que sua voz me chamou a atenção.
- Está com fome? – Ele perguntou calmamente para sua filha. A menina pensou um pouco e assentiu, olhando para a bolsa rosa que ele trazia.
Eu olhei para longe outra vez, não querendo parecer mal educado. Bella era quem tinha essa maldita mania de encarar as pessoas. Eu ouvi um barulho de um zíper e depois um pacote sendo aberto, mas continuei tentando me concentrar na televisão muda.
- Té? – Eu ouvi uma voz infantil perguntar, e quando olhei para frente, a loirinha estava parada bem ali, esticando um pedaço de bolacha quase na minha cara.
Eu arregalei os olhos com sua aproximação, sem a mínima noção do que fazer com aquela criança. Seu pai estava sorrindo para mim, achando o máximo que a própria filha falasse assim com estranhos.
- Eu... Não estou com fome, obrigado. – Afastei sua mãozinha devagar, sorrindo para ela.
A menina andou um pouco e subiu com dificuldade na cadeira ao lado da minha. Ela colocou a bolacha na boca e ficou ali, olhando para a televisão enquanto balançava as pernas curtas. Ela estava babando na bolacha inteira ao invés de mordê-la.
- Você não tem filhos, tem? – O homem perguntou, quase rindo de mim.
- Ainda não. – Respondi. – Dá pra perceber tanto assim?
- Eu também não entendia nada de crianças. – Ele sorriu. – Não é nenhum pecado.
Eu franzi a testa ao invés de responder alguma coisa, olhando outra vez para a menina ao meu lado. Ela me encarou o tempo todo enquanto mastigava. Quando terminou, desceu e voltou para perto do pai, esticando as mãos para que ele a pegasse no colo. Suspirei tristemente, tentando não olhar enquanto ele sorria para a menina e beijava todos os pontos de sua barriga onda ela sentia cócegas.
Não demorou muito para o enfermeiro voltar com Bella; sua médica vinha logo atrás. Minha esposa estava muito pálida na cadeira de rodas. O homem parou de fazer a menina rir imediatamente ao me ver levantar dali, preocupado.
- Você é o marido dela. – A mulher disse, não parecendo muito contente ao me ver. – Dra. Goff. – Ela apertou minha mão.
- O que ela tem? O bebê está bem? – Soltei.
- Ambos estão bem. Sua esposa teve o que chamamos de "contrações de treinamento". É apenas um alarme falso, e por ainda estar longe do parto, ela se assustou. Mas é totalmente normal.
Eu assenti, realmente aliviado, olhando de relance para a garota quase dormindo.
- Normalmente essas contrações são fracas, mas ela estava reclamando de dor. Eu lhe dei alguns remédios que a deixarão sedada por algum tempo. Nada que prejudique o bebê, não se preocupe! E seria bom que ficasse em repouso durante a próxima semana.
- Obrigado, doutora.
Ela me lançou um sorriso simpático antes que eu começasse a guiar a cadeira de rodas para a saída. Não foi difícil conseguir um táxi perto da porta do hospital; eu carreguei Bella no colo com cuidado até dentro do carro, colocando o cinto de segurança em seu corpo e me ajeitando ao seu lado no banco de trás.
Bella passou a maior parte do caminho dormindo. Quando eu estava começando a me preocupar sobre como a levaria até o apartamento, ela despertou, deitando a cabeça em meu ombro e dizendo algumas coisas que não compreendi. Ela estava praticamente bêbada.
Eu consegui sair do carro e segurá-la em pé ao meu lado; agarrada ao meu pescoço, ela arrastou os pés em direção ao hall do prédio e então para dentro do elevador. Quando eu apertei o botão para nosso andar, ela começou a rir sozinha.
Cuidadosamente, assim que o elevador parou, eu a peguei no colo para entrarmos no apartamento.
- Eu to com sono. – Ela reclamou, mal abrindo os olhos.
- Estamos quase lá. – Respondi.
Fechei a porta do apartamento com o pé enquanto a carregava, felizmente encontrando o caminho com a fraca luz que vinha de fora. Eu levei Bella até nosso quarto e a deitei na cama, deixando todos os exames em cima da mesa de cabeceira. Liguei apenas o abajur do meu lado.
- Edward, sabe qual é a pior parte de ficar grávida? – Ela começou a dizer enquanto eu dava a volta na cama para tirar seus sapatos. – Eu fico tão excitada! – Ela bufou, ainda sonolenta. – Com qualquer coisa!
- Aposto que essa parte ninguém te contou. – Respondi enquanto tirava seu shorts.
- Não! – Ela concordou, quase batendo o pé na minha cara. – Droga, eu sinto tanta falta de um...
- Bella, eu não preciso ouvir detalhes. – Disse enquanto deitava ao seu lado. – Só durma.
Eu apaguei a luz e comecei a me ajeitar embaixo do cobertor, até que senti uma mão batendo em cheio no meu peito. Bella agarrou minha camiseta e me puxou para perto; bati a mão no abajur outra vez para entender que porra era aquela.
- Edward! – Ela reclamou, enroscando os braços no meu pescoço. – Me ajuda, vai!
- O que? – Perguntei com a testa franzida. Após pensar um pouco, arregalei os olhos para ela. – Bella, não!
- Só porque eu to grávida? – Ela gritou, irritada.
- Não, é porque... Não!
- Agora que vai virar pai você ficou brocha, é? – Ela insistiu, ainda com uma voz estranha. – Eu sei que você também tá na seca!
- Bom, você não tem como saber disso.
Eu mal havia terminado a frase quando senti seus lábios pressionando os meus. Arregalei os olhos, totalmente sem reação, e ela rapidamente se afastou.
- Viu? – Bella sorriu. – Nem sabe mais como se faz isso.
- Mas... – Retruquei, arregalando os olhos outra vez. Porra, a garota sedada era mais esperta do que eu! – Mas não é justo! Eu nem estava preparado!
- Tudo bem. Agora você está. – Ela ficou ainda mais sentada na cama, apoiando o braço no travesseiro. – Me surpreenda.
Eu senti vontade de levantar e olhar minha cara no espelho naquele segundo, porque deveria estar realmente patética. Demorei para perceber minha boca aberta. Eu encarei seu rosto sério por mais alguns segundos, pensando no assunto, e então cerrei os olhos.
- Não! Eu sei o que você está planejando! Eu te beijo, e uma coisa leva a outra, e a gente acaba...
- E qual é o problema se a gente "acabar"? – Ela reclamou.
- Eu sei lá! É estranho! Você está...
- Grávida! Eu sabia! – Ela arregalou os olhos, inconformada.
- É estranho, Bella, eu não sei se vai machucar o bebê ou qualquer coisa assim!
- É claro que não vai machucar o bebê, seu imbecil! – Ela respondeu, carinhosa como sempre. – Minha barriga não é oca, nada vai nem tocar nele!
- Tá legal, tá legal! Mas você vai se arrepender disso amanhã. – Eu disse, começando a tirar minha roupa e jogar as peças no chão. – Eu não quero reclamações, não quero você me batendo quando acordar e falando que a culpa é minha. Você ouviu? Porque, caso você não tenha notado, não anda nem um pouco fácil lidar com as suas mudanças de humor e...
Eu estava usando apenas minha cueca quando ouvi o som de sua respiração alta. Virei o rosto outra vez, e ela estava dormindo, repousando as duas mãos na barriga. Revirei os olhos e apaguei a luz uma última vez.
Boa tarde pra quem já se declarou de férias! E pra quem não, aqui está mais um capítulo pra animar sua quarta!
Quem pensou que Bellinha ia parir, errou! Vocês não acharam que eu ia fazer isso com vocês, né? Ainda tem muito o que acontecer nessa gravidez! Esse capítulo tem poucos acontecimentos, mas todos importantes (inclusive a quase transa com direito a beijinho, oin! Ok, não foi nada romântico, mas dá pra matar a vontade deles juntos, né?)
E o teaser de hoje é...:
"A Dra. Goff sempre me perguntava sobre Edward, e eu sempre escapava disso com alguma desculpa esfarrapada. Mas, desta vez, ela não se importou com a ausência dele. Principalmente depois de tê-lo conhecido naquela madrugada no hospital. Acho que ela o desaprovou instantaneamente. Eu cheguei a acreditar que, depois de tantas mudanças repentinas, Edward iria me acompanhar a uma das consultas mais importantes, mas acho que estava exigindo demais. Sua família provavelmente achava que ele estava comigo, mas era Alice quem me apoiava enquanto eu estava prestes a descobrir se teria a menina doce ou garoto sapeca que imaginava."
Até semana que vem!
