BPOV
Estacionei o meu mais novo carro na frente do ateliê e desci, esperando que ninguém visse meu olhar irritado por trás dos óculos escuros. Eu definitivamente não sabia nada sobre carros, mas pelos olhares que recebia não estava com qualquer um. A rua movimentada praticamente parou quando meu Mercedes Guardian entrou em cena – e esse nome foi apenas mencionado por Edward, sem nenhum grande significado para mim.
Já fazia um bom tempo desde que ele parou com a maldita mania de ostentar presentes caros, mas um carro só meu foi o que ele chamou de "necessário" e eu precisei concordar. Eu não aguentava mais depender de suas caronas ou de um táxi quando queria sair de casa. O problema foi que, tarde demais, eu percebi que aquele carro era um pouco exagerado para uma mulher leiga no assunto.
Peguei minha bolsa no banco de trás e, após arrumá-la e erguer meus óculos, tirei Anthony da cadeirinha direto para o meu colo. Ele mal percebeu a mudança, ocupado demais em morder seu boneco do Batman – presente de Jasper para um bebê que sofria com o incomodo dos primeiros dentes querendo nascer.
Assim que entrei no ateliê, já fui recebida por um garotinho animado agarrando as minhas pernas. Eu sorri para ele e seu rosto cheio de tinta.
- Oi, Eric. Como você está? – Perguntei.
- Esse bebê é seu, tia Bella? – Ele ignorou minha pergunta, arregalando os olhos cheios de curiosidade para Anthony.
- Ele é, sim. O nome dele é Tony. – Eu abaixei para que o menino pudesse vê-lo melhor. Anthony afastou o boneco da boca e abriu um sorriso banguela e babado, rindo provavelmente das cores no rosto dele.
- Ele tem um Batman! Igual o do meu desenho, lembra? – Eric pulou no lugar.
- Claro que lembro. – Sorri ao ficar em pé outra vez. – Seu Batman era lindo! Ninguém desenha super heróis como você.
- Eu sei. – Ele disse simplesmente, me seguindo até a sala das crianças. – O Tony vai pintar com a gente? – Perguntou.
- Não, querido, ele ainda é muito pequeno pra isso. Eu só passe aqui pra falar com a tia Angela. – Expliquei quando chegamos na sala, mas não encontrei mais nenhum aluno. O lugar ficava triste sem todas as crianças. – Só tem você?
- A mamãe me deixou aqui mais cedo.
Antes que eu pudesse responder, Angela entrou pela outra porta, sorrindo ao me ver. – Bella! Hoje é seu dia de folga.
- Oi, Ang. – Eu beijei sua bochecha e deixei que ela pegasse Anthony, animada. – Eu marquei com Edward aqui perto para almoçar e lembrei que você vive reclamando que não vê meu "galã". – Ri.
- Ah, mas olha só pra ele! Cada dia mais lindo! – Ela beijou o rosto de Anthony, fazendo-o sorrir.
- E Eric...? – Eu sussurrei enquanto o menino se distraia.
- A aula dele começa às 2, mas a mãe teve um imprevisto e o deixou aqui mais cedo. – Ela sussurrou de volta. – Eu odeio esses pais que confundem escola de artes com creche!
Eu ri da irritação de Angela, e Anthony me acompanhou, fazendo o assunto ficar mais leve imediatamente. Nós conversamos durante algum tempo sobre qualquer coisa que não fosse trabalho – aos poucos nos tornávamos grandes amigas e os assuntos pessoais ficavam mais frequentes.
Quando uma turma dela começou a chegar, eu me despedi, deixando que voltasse ao trabalho. O restaurante onde encontraria com Edward era realmente próximo, o suficiente para que eu levasse Anthony em seu carrinho. Voltei para o carro apenas para pegá-lo no porta-malas. Já da janela, do lado de fora, pude ver o homem engravatado sentado olhando tranquilamente ao seu redor.
Eu sorri com a visão, entrando e indo diretamente até ele, apenas parando para agradecer a funcionária que me ofereceu uma mesa. Ao me ver, Edward ficou em pé imediatamente, beijando meus lábios apenas em um selinho rápido.
- Oi, linda. – Ele me cumprimentou antes de abaixar até nosso bebê, brincando com ele sem tirá-lo do conforto de seu carrinho. – E você, garotão? Você foi passear? Você conheceu o trabalho da mamãe?
- É uma pena que hoje não é o dia das crianças. Há só uma turma mais tarde. – Eu disse enquanto sentava e virava o carrinho para nós. – Mas você conheceu o Eric, não foi? Conta pro papai, você não gostou dele?
Anthony olhou para nós e balbuciou palavras incompreensíveis, como se realmente respondesse em alguma língua estranha. Nós olhamos um para o outro e rimos enquanto ele voltava a se distrair com o boneco.
- Como foi seu dia, até agora? – Eu perguntei quando ele pegou minhas mãos por cima da mesa.
- Foi bom. A loja anda bem movimentada. – Ele sorriu. – Emmett me ligou e reclamou que sente falta do afilhado.
- Eles ficam juntos todos os dias! – Eu ri. – E você pode dizer a ele para não se acostumar, porque mais um pouco e ele vai começar a ficar no ateliê.
Edward revirou os olhos, divertido, ao mesmo tempo em que o garçom nos entregou os menus. Nós agradecemos em uníssono, lendo os pratos. Ele voltou ao assunto quando ficamos sozinhos outra vez.
- Bella, você precisa começar a se desapegar desde cedo. Ou quer se tornar uma daquelas mães patéticas que choram no primeiro dia de aula do filho?
- Olha só quem fala. – Murmurei com os olhos no cardápio. – Suas despedidas com Anthony de manhã estão demorando cada vez mais.
Ergui os olhos apenas para ver o sorriso de Edward, e então ele se concentrou em seu próprio menu também.
- Tudo tem carne nesse lugar? – Reclamei.
- Bella, quando você vai parar com essa coisa de vegetariana? O que mais você pode inventar?
- Já que você tocou no assunto, já pensou em ter aulas de Krav Magá? – Perguntei distraidamente, ainda sem olhar para ele.
- Que porra seria Krav Magá? – Ele soltou uma risada estranha enquanto falava.
- É um tipo de defesa pessoal. Eu acho importante. Além disso, quantas pessoas você conhece que praticam isso?
- Exatamente! – Ele arregalou os olhos quando eu encarei seu rosto.
- Exatamente, exatamente! Eu não quero fazer algo comum como... Eu não sei, judô?
- Certo. Você adora excentricidades e só. – Edward riu um pouco mais alto, fechando seu cardápio. – Eu vou pedir uma bela de uma picanha. É uma pena que você é vegetariana agora! – Ele esticou o braço para o garçom. – Uma salada pra nova protetora dos animais?
Eu cerrei os olhos e assenti, tentando ficar séria, mas nós acabamos rindo juntos. Anthony resmungou como se pedisse para entrar na conversa também, e eu sorri para ele, brincando com seus pés minúsculos. Edward fez nossos pedidos e o garçom rapidamente se afastou. Eu percebi seu olhar mudando entre mim e Anthony enquanto eu mexia nele, mas não disse nada.
- Desculpe, não tem nada aqui pra você. – Eu brinquei com o bebê. – Você já almoçou em casa!
- Em todo caso, você sempre leva um lanche. – Edward mostrou meu peito com a cabeça, rindo. Pouco tempo atrás eu teria corado e xingado meu marido de todos os nomes possíveis, mas agora nossa intimidade (de muitas maneiras) permitia que uma brincadeira assim fosse completamente normal.
- Ah, não! – Fiz uma careta, mesmo divertida. – Ele está comendo outras coisas agora. Foi ótimo amamentá-lo quando era pequenininho, mas você não sabe o que é carregar esse peso aqui. Além do mais, você não é mais um bebezinho, não é, amor? - Eu voltei a falar com Anthony. - Logo vai estar comendo que nem um menino crescido!
O resto do nosso almoço passou rápido enquanto ríamos, conversando sobre os assuntos mais banais possíveis. Apesar de não estar exatamente satisfeito com seu trabalho, Edward não parecia nada estressado - ou, pelo menos, mudava totalmente na nossa presença. Eu tive minha salada e posso dizer orgulhosamente que não roubei nem um único pedaço da comida carnívora dele. Tanto os animais quanto meu corpo agradeceriam a pouca quantidade de carne que estava comendo ultimamente.
Quando já havíamos pedido a conta, Edward mudou um pouco o assunto divertido, ainda sorrindo para mim.
- Eu sei qual é o próximo passo. - Ele disse.
- Sabe? - Eu afastei a mão que tentava fazer cócegas em Anthony, olhando apenas para meu marido bem a minha frente.
- Na verdade, é o primeiro. - Ele pareceu pensar. - Ou como se fosse. Vamos sair pra jantar. Como um... Outro primeiro encontro.
- E eu preciso fingir que não te conheço e começar tudo de novo? - Eu ri. - Não consigo fazer isso.
- Não. Não precisa fingir nada. - Ele riu também. - Só vamos jantar. Refazer nosso primeiro encontro de verdade, já que no original eu não tinha a melhor das intenções com você.
Cerrei os olhos para ele conforme a imagem vinha diretamente até minha cabeça. Ele riu mais ainda ao perceber minha expressão, tendo as mesmas lembranças que eu. - Ainda bem que reconhece.
(Flashback)
- Eu estou dizendo, Alice. Ele é um idiota. Não, eu não vou pedir desculpas! - Eu falava alto demais no celular, ignorando todas as pessoas ocupando as mesas a minha volta. - Eu não preciso me rebaixar a isso. Olha, tem pinto de sobra em qualquer esquina e... Obrigada. - Eu disse ao garçom quando ele apoiou o suco que eu havia pedido a minha frente, arregalando os olhos ao ouvir minha conversa. - Não, nem era nada demais!
Eu revirei os olhos enquanto ela soltava alguma resposta típica como "você precisa parar de fugir do amor" ou "deu errado porque você não estava usando a roupa certa". Esperei que ela terminasse para cortar sua lição de moral. - Certo. Deixe minha raiva passar e nós conversamos sobre isso. Até mais, Allie. - Desliguei o telefone e bufei.
Assim que joguei o aparelho na minha bolsa, puxei em mãos o livro que estava lendo, bebendo um gole do suco antes de me concentrar nele. Eu não era exatamente viciada em ler, mas o título havia chamado minha atenção. Ter meu próprio país não parecia má ideia.
Mal consegui descer os olhos por alguns parágrafos e senti alguém se aproximando. Com uma mão eu segurava o pequeno livro aberto, enquanto a outra mantinha o copo perto de mim para que eu sugasse o conteúdo pelo canudinho. Lentamente, ergui apenas os olhos para a figura parada bem a frente da minha mesa. Encarei seus olhos realmente bonitos e então seu sorriso prepotente. Ele emanava arrogância. Quando desci mais um pouco e olhei suas roupas, precisei dizer alguma coisa.
- Eu odeio marrom. - Reclamei, apoiando o copo de volta na mesa.
Seu sorriso desapareceu imediatamente, mas ele não saiu daquela pose. Continuou com as mãos no bolso do jeans. Ao me ouvir, olhou para a própria camiseta, confuso.
- Desculpe? - Ele franziu a testa.
- Eu odeio marrom. - Repeti o óbvio, erguendo as sobrancelhas. - É uma cor morta se você não a coloca em algo vivo o suficiente. Como cabelo, por exemplo. Eu gosto de cabelos castanhos porque eles brilham e se mexem. Mas na sua camiseta fica horrível.
O homem olhou em volta, mal acreditando que uma estranha estava realmente falando aquele tipo de coisa. Acho que, por um momento, cogitou sair correndo. Após ler o título do livro em minhas mãos e pensar por um segundo, ele voltou a sorrir um pouco.
- Eu só estava... - Ele parou para rir, tentando parecer sexy ou algo do tipo. - Eu estava sentado bem ali, vi você e pensei que...
- Tá legal, estranho. - Eu respondi sem a mínima vontade, apoiando o livro fechado bem ao lado do meu copo. - Você me viu, pensou "uau, que gostosa, deve ser tapada o suficiente pra cair na minha lábia!" e decidiu levantar a bunda da sua cadeira confortável pra tentar me cantar. Então, por que não vai direto ao assunto? Você quer meu telefone? É isso, cara?
Ele arregalou um pouco os olhos para minha expressão, sem responder. Continuei a encará-lo, desdenhosa, esperando que reagisse. Alguém tão bonito certamente nunca precisava se esforçar muito, mas uma resposta tão sincera não devia estar em seus planos.
- O que foi, agora? Você está em dúvida se fala que não, porque eu estou dizendo tudo isso pra te dar o fora logo, ou que sim, porque eu estou desesperada e vou te dar todos os números possíveis para me encontrar? - Eu cruzei os braços.
- Tudo bem, tudo bem. - Ele riu outra vez, sem dar o braço a torcer. Ele tentava continuar no controle. - Por que você está na defensiva? Aposto que muitos caras tentam chegar em você.
- Só os idiotas. - Rebati. - O que os caras não entendem é que mulheres também querem transar. Alguém já te avisou? Se você sabe reconhecer um pedaço de carne, eu também. Você só teve tanta coragem de vir aqui porque tem noção da própria aparência e, bom, sendo bonito, não precisa desenvolver uma grande personalidade.
- E você deduz...
- Que você também é um idiota. - Dei os ombros.
- Você não pode saber disso até sair comigo. - Ele sorriu ainda mais, achando que estava ganhando.
- Muito bem, então. - Eu estiquei uma mão e empurrei a cadeira ao meu lado, fazendo com que se afastasse da mesa. - Esse é um ótimo lugar pra um encontro, não acha? É bonito, aconchegante e caro. Sente e me impressione.
Para minha surpresa, ele passou a se divertir ainda mais, lambendo os lábios suavemente antes de obedecer e sentar bem a minha frente. - Eu sou Edward. Edward Masen.
- Isabella Swan. - Murmurei, mal acreditando que o idiota ainda não havia ido embora.
- Swan? Você é filha de Charlie Swan? Dono daquela...
- É, é, ele é rico, foda-se. Edward, você podia parar de perder seu tempo e procurar alguma garota mais fácil. Tem várias querendo abrir as pernas pra você, eu garanto. - Suspirei, pegando meu livro outra vez.
- Acho que só estou cansado de tantas mulheres com a cabeça vazia.
- Sei. - Resmunguei, mantendo os olhos no que lia.
Mesmo que eu o ignorasse completamente, Edward não levantou, me observando. Eu podia perceber isso. Após algum tempo, ergui os olhos e o encarei friamente, realmente incomodada com sua presença.
- Jante comigo uma vez e, se você não quiser nada, eu juro que desapareço. - Ele abriu um sorriso meio torto, mas realmente sexy.
Eu bufei alto e disse meu número de telefone rapidamente, voltando a encarar o livro. Ele se despediu e se afastou. Eu esperava que ele nem tivesse prestado atenção, mas o filho da puta tinha mesmo uma boa memória.
(/Flashback)
Você me ligou na mesma noite em que nos conhecemos e me levou no restaurante mais caro que encontrou. – Eu ri.
- E você devia se considerar muito importante, já que eu roubei o carro de Carlisle naquela noite. – Edward sorriu, orgulhoso de algo tão errado.
- Acho que no fim eu fiquei com pena de seu desespero. – Zombei, erguendo uma sobrancelha, mas ele claramente não acreditou, rindo junto comigo.
- Então? O que me diz? – Voltou a proposta inicial.
- Tudo bem, eu aceito. Emmett não vai reclamar de cuidar dele por uma noite. - Olhei de relance para Anthony sorrindo.
- Então, hoje à noite. Como manda todo o protocolo. - Edward disse enquanto o garçom voltava com seu troco. Ele conferiu e levantou da mesa. - Esteja linda.
- Não vai ser muito difícil. - Suspirei distraidamente, sorrindo ao ouvir ele rir.
Eu levantei também, afastando um pouco o carrinho de Anthony. Edward abraçou minha cintura e beijou demoradamente minha bochecha. - É claro que não. - Murmurou perto do meu ouvido antes de abaixar para falar com o bebê. - Papai precisa voltar para o trabalho, mas nós nos vemos à noite, ok? Eu juro que vamos brincar um pouco antes que eu saia com a mamãe. Você vai ficar com o tio Emmett, porque... Bom, você vai entender um dia.
- Menos, Edward. - Eu puxei o carrinho para longe dele, sorrindo quando ele ergueu o corpo e me olhou de novo. - Informação demais por enquanto.
Ele sorriu, apoiando a mão suavemente na base das minhas costas para que saíssemos do restaurante. Já do lado de fora, nos despedimos com um rápido beijo. Eu voltei até o ateliê para buscar meu carro e levei Anthony de volta pra casa.
E foi lá que todos os meus problemas começaram.
Eu já havia lido milhares de textos, em todos os lugares, sobre a saga dos bebês e seus primeiros dentes. Isso parecia algo adorável nas últimas semanas, e rendeu a Anthony alguns brinquedos novos, mas chegou ao ponto que o deixou realmente irritado. Eu mal havia colocado os pés no apartamento e ele já estava resmungando no meu colo.
- O que foi, querido? Não precisa disso. Olha aqui o Batman! - Eu ofereci o brinquedo a ele, mas Anthony apenas virou o rosto.
Joguei minha bolsa em cima do sofá, arranquei meus saltos e o sentei perto dali, apoiando confortavelmente suas costas frágeis numa almofada. Mostrei o brinquedo outra vez e ele praticamente o jogou longe. Eu suspirei, olhando para seus olhos um pouco molhados. Ele abaixou o rosto e me encarou como se soubesse que aquilo amolecia o coração de qualquer um.
O mais rápido possível, eu coloquei uma roupa confortável e tentei me dedicar a ele pelo resto da tarde. Tentei mostrar outros brinquedos, coloridos e com vários sons, mas ele não se importava com nada. Tentei dar um pouco mais de comida, e até mesmo um pouco do meu leite, mas ele não estava com fome. Tentei diminuir o incômodo em sua gengiva com meu próprio dedo, e isso somado ao meu colo ajudou um pouco, mas não durou quase nada.
Quando tentei deitá-lo e fazê-lo dormir, ele despertou de repente nos meus braços, realmente chorando. Um choro baixo, porém incessante e insuportável.
Como última opção, tentei aproximar Xerxes dele. Qualquer criança gostava de animais, mas eu não o queria muito perto de Anthony, com medo que fosse alérgico como eu e ainda não tivesse demonstrado. É claro que a porra do gato não colaborou, saindo correndo de perto de nós assim que o peguei. Xinguei baixinho e olhei para Anthony outra vez, quase chorando também por não saber mais o que fazer.
Ele nunca havia sido um bebê manhoso. Nas poucas vezes em que teve cólica ou algo do tipo, Carlisle ensinou o que fazer e ele melhorou rapidamente. Eu também havia conseguido alguns conselhos do médico, mas isso era tudo: Tentar coçar sua gengiva sensível. Fora isso, todos os bebês precisavam lidar com essa fase. E, segundo ele, todos ficavam igualmente manhosos. Mas acho que fui preparada para isso tarde demais.
Repeti todos os processos, inclusive a tentativa de fazê-lo dormir, mas o choro não parava. Nem mesmo diminuiu com o colo, que o acalmou antes. Mesmo me sentindo culpada por atrapalhar seu trabalho, peguei o celular e chamei por Carlisle. Ele atendeu, solícito, e recomendou tudo o que eu já havia feito. Pediu que eu medisse a febre de Anthony, mas não havia nada demais. Realmente sem ter o que fazer, disse que o veria mais tarde caso não melhorasse.
Pensei em ligar para Edward, mas seria apenas para reclamar e preocupá-lo. Além disso, eu não queria que ele saísse correndo do trabalho, o que provavelmente faria.
Tentei ligar para Emmett, o novo super especialista em bebês, mas ele não atendeu. Alguns minutos depois recebi apenas uma mensagem. "Edward já me avisou sobre hoje à noite. Estarei aí, não se preocupe." Eu grunhi ao ler, jogando o celular em cima do sofá.
- Não é isso, idiota! - Resmunguei sozinha, balançando Anthony nos meus braços, que ainda chorava.
Sem minha babá, meu marido ou meu pediatra, eu estava realmente sozinha. Esme não era uma opção. Ela ficaria calma demais e esse era exatamente o problema. Eu estava começando a ficar realmente nervosa; minha vontade era enfiar a cabeça na geladeira até Anthony pegar no sono.
A tarde passou assim. Ainda mal estava anoitecendo quando Edward chegou em casa. Ele encontrou seu filho ainda manhoso em seu carrinho e sua esposa simplesmente jogada no sofá, com os olhos fechados, empurrando o bebê com o pé devagar para frente e para trás. Mesmo ouvindo a porta abrir, não me mexi.
- Você está bem? - Ele perguntou.
Eu ergui um pouco o rosto para olhar para ele, encarando seus olhos preocupados. - Não. - Sibilei, ficando em pé imediatamente. - Não, eu não estou bem! Eu nunca vi essa garoto chorar tanto, eu não sei o que está acontecendo com ele!
- São só os dentes dele. É normal. - Ele sorriu ao andar até Anthony e pegá-lo no colo. Ao contrário do que esperávamos, o bebê começou a chorar outra vez.
- Viu? Desde quando ele chora com colo? - Eu arregalei os olhos para Edward. - Ele está me deixando maluca!
- É só manha. - Edward repetiu, ainda calmo, balançando Anthony em seus braços. - Não precisa ficar tão nervosa.
- Ah, claro que não! - Eu quase gritei, e ele franziu a testa para mim, não entendendo minha reação. - Não foi você que ouviu ele chorar a tarde inteira!
- Eu não sei porque tanto escândalo. Ele chora no meio da noite e você levanta perfeitamente calma pra cuidar dele. - Edward respondeu, falando pausadamente como se eu estivesse prestes a atacá-lo.
- Acontece que eu sei o que fazer. Eu pego ele e faço ele dormir de novo em poucos minutos! - Falei enquanto recolhia os brinquedos pelo chão da sala. - Eu tentei de tudo hoje! De tudo! Eu odeio me sentir impotente com ele!
- Bella, se é esse o problema, você não é...
- Ah, olha aqui! - Eu fiquei em pé outra vez e apontei um dedo para ele, segurando os brinquedos no outro braço. - Eu não preciso que você chegue em casa, todo calmo e feliz, e me dê alguma lição de moral, mesmo que seja pra ajudar! Nós dois trabalhamos, tudo bem, mas quando você chega em casa você o encontra limpo, alimentado e pronto pra brincar. Eu volto de um monte de crianças, dispenso Emmett - porque o coitado só nos faz um favor - e ainda preciso cuidar dele. Então não adianta falar que sabe o que eu passo ou qualquer coisa do tipo!
- Nós conversamos quando você se acalmar. - Edward falou quase entre os dentes, carregando Anthony ainda resmungando para o quarto dele.
Assim que ele se afastou, eu me joguei de volta no sofá, com o rosto contra o tecido. Eu podia ouvir o choro baixinho no quarto e, alguns minutos depois, passou. Mais um pouco e o silêncio foi substituído pelos passos de Edward ao meu lado. Quando sentei outra vez e olhei para ele, já estava sem sua gravata e o paletó. Ele apenas ergueu as sobrancelhas para mim, parado a minha frente.
- Parou de me atacar? - Perguntou calmamente.
- Eu só estou cansada. - Escorreguei no sofá e tapei os olhos com o braço.
- Você fala como se eu trabalhasse 20 horas por dia, não ajudasse em nada e deixasse você aqui o dia todo cuidando dele! Nós entramos num acordo, não foi? Você voltou a trabalhar e arrumamos uma babá. O que mais você quer?
- Ok, me desculpa, tá legal? - Eu quase gritei, abaixando a voz assim que percebi meu tom aumentando. - Foi só hoje. Eu fiquei aqui, sozinha, sem conseguir acalmá-lo e... Não sei!
- Isso vai passar logo. Não precisa ficar tão estressada.
- Tá vendo? É isso que me irrita! - Eu apoiei as mãos no sofá e fiquei em pé, não conseguindo altura o suficiente para olhar bem em seus olhos. - Você todo... Calmo e... Argh! Desde que ele nasceu eu não posso surtar! Entende? É disso que eu sinto falta. De surtar! De ver uma coisa me irritando e berrar com ela. De jogar suas roupas pela janela quando estou irritada com você.
Edward me encarou por um longo tempo, e então simplesmente começou a rir, passando as mãos em volta da minha cintura. Eu o afastei e andei até o outro lado da sala, mostrando que seu carinho agora não poderia me acalmar tão facilmente.
- Hoje eu estava com ele e, não importa o quão irritada eu estivesse, eu simplesmente não podia gritar, porque ele é só um bebê. - Continuei, gesticulando enquanto falava. - E aí você chega e eu desconto em você! - Bufei. - Acho que eu só... Não nasci pra ser mãe.
- Você é ótima com ele. - Edward respondeu, franzindo a testa.
- Quer parar de tentar ser meu psicólogo? - Eu quase gritei outra vez, colocando as mãos na cintura.
- Só estou dizendo o que eu vejo! - Ele abaixou rapidamente para pegar Xerxes quando o gato se enroscou em suas pernas. - Você só está frustrada porque é sempre boa e, pela primeira vez, não foi suficiente.
- E como você fez isso? Como fez ele parar? - Resmunguei.
- Nós só conversamos um pouco. Isso o acalma. Ele acabou dormindo.
- Eu juro, Edward, se ele acordar chorando eu me jogo pela janela!
- Ele não vai. - Ele respondeu, estranhamente sério. - Ficou muito cansado de tanto chorar. Por que você não vai se arrumar para o seu encontro?
Acho que só me lembrei do que havíamos marcado quando saiu de sua boca. Eu sorri um pouco e assenti, me aproximando e lhe dando o beijo que estava devendo desde que ele entrou no apartamento. Em seguida, fui direto para o banheiro. Por mais tempo do que o necessário, fiquei embaixo do chuveiro, apenas aproveitando a água caindo por meus ombros. Lavei meu longo cabelo e só então saí, sem me importar enquanto desfilava pelo apartamento só com uma toalha enrolada no corpo.
Já dentro do quarto, abri o armário e encarei todos os vestidos que tinha. Não eram muitos, mas havia várias opções para aquela noite. Eu era péssima com isso. Tirei alguns e me olhei no espelho de corpo inteiro que havia ali, segurando a peça apenas na minha frente. Acho que estava gostando de um, mas precisei abaixá-lo imediatamente ao ver o reflexo atrás de mim.
Edward sorriu com a visão da toalha cobrindo meu corpo, mas o bebê em seu colo o impediu de fazer qualquer coisa. Anthony estava claramente com sono, mas sorria um pouco para mim, relaxado nos braços do pai.
- Acho que ele só precisava de um cochilo para se acalmar. - Ele disse.
- Acho que sim. - Suspirei longamente, deixando os vestidos em cima da cama antes de me aproximar deles. Eu olhei para Edward e entortei um pouco os lábios. - Desculpe.
- Tudo bem. - Ele apenas deu os ombros, desviando o olhar. - Acho que eu não posso te ver antes de ficar pronta, certo? Isso também faz parte? - Ele perguntou, e eu ri baixinho. - Eu vou tomar um banho e me trocar, e então você fica livre pra... Tudo isso que você precisa fazer.
- Obrigada. - Eu sorri, pegando Anthony de seu colo. Edward riu baixinho antes de se afastar para o banheiro. - Ah, meu amorzinho... - Eu olhei para o bebê assim que ficamos sozinhos outra vez. - Você desculpa sua mamãe surtada? Desculpa? - Eu perguntei, indo com ele até a cama.
Eu consegui deixá-lo sentado apoiado no travesseiro. Ele até suspirou, confortável. - Eu sei que não foi culpa sua. - Continuei, fazendo uma leve careta. - Nós vamos ter muitos problemas juntos na sua adolescência, não é? Ainda mais se você puxar o seu pai. Você ainda vai me dar tanta dor de cabeça... - Eu sorri para ele, apertando de leve seu nariz.
Continuei sentada ao seu lado, conversando com ele enquanto Edward não voltava. Ele ficava encantado com minha mão, puxando meus dedos com os olhos cheios de curiosidade. Eu brinquei um pouco com ele, até que seu pai entrou no quarto, igualmente apenas com uma toalha. Eu o observei enquanto se aproximava do armário e pegava um terno.
- Preciso estar muito chique? - Sorri para ele.
Edward me olhou por cima do ombro e sorriu de volta. - Você não acha que eu vou te levar em um lugar qualquer no nosso primeiro encontro, acha?
- Não, mesmo. Isso não tem nada a ver com Edward Masen.
Ele riu, terminando de se trocar rapidamente. Eu mantive os olhos em seu corpo o tempo todo, sorrindo um pouco comigo mesma. Quando virou para mim novamente, mostrou o armário com a cabeça.
- É todo seu. - Disse, e então saiu do quarto.
Eu realmente comecei a me arrumar, então, demorando um pouco mais do que o necessário. Deixei alguns brinquedos para Anthony se distrair na cama enquanto escolhia um vestido bom o suficiente. A maquiagem poderia ficar para depois, porque não estava muito a fim de fazê-la. Talvez deixasse esse detalhe de lado; ele já era meu marido, não é? Estávamos apenas nos divertindo um pouco com nosso namoro e casamento tão confusos.
Eu ri baixinho com o pensamento, novamente me olhando no espelho e tentando imaginar o vestido cobrindo meu corpo. Quando decidi, joguei a toalha em cima da cama e vesti a peça, olhando no espelho por mais alguns minutos.
- E então? O que acha? - Eu olhei para Anthony e dei uma voltinha, sorrindo. Ele apenas ergueu os olhos, sem entender do que diabos eu falava, é claro. Com um gritinho para si mesmo, voltou a mexer em seu brinquedo, levando-o até a boca. Eu ri, alisando o tecido nas minhas coxas. - Acho que esse está bom. Com as sandálias que eu estava hoje... - Pensei comigo mesma, lembrando dos saltos que deixei jogados no meio da sala.
Pronta para brincar com Edward e mandar que fechasse os olhos, saí do quarto. Ao ouvir sua voz, parei imediatamente, percebendo que estava no telefone. Seu tom sério me fez recuar e parar na porta do quarto outra vez, prestando atenção na conversa.
- Eu não sei, Emmett. Não sei, droga! - Ele disse de maneira um pouco triste. - Nós estamos bem, é claro que estamos. Mas quando temos alguma conversa desse tipo, eu paro pra pensar e... Sim. - Ele parou, respondendo a alguma pergunta. Soltou um riso sem humor e então continuou. - Eu paro pra pensar e me pergunto se isso vai funcionar daqui 10 anos. Sabe? Nunca deu certo direito. Às vezes eu penso que só estamos encantados com Anthony e a ideia do casamento perfeito. Mas quanto tempo isso pode durar com alguém tão maluca?
Eu dei mais um passo para trás, saindo de vez do corredor. Ainda segurando no batente da porta, continuei ouvindo, agradecendo por ainda estar sem maquiagem - caso contrária, estaria molhada e destruída agora.
- Ela disse que sente falta de "surtar". O que diabos isso significa? Ela sente necessidade de gritar com as pessoas ou o que? - Ele disse e então ficou em silêncio por algum tempo. - É, ela estava nervosa com o choro dele, e... Claro, ela é uma boa mãe, mas ele é só um bebê, não é? E é muito comportado. É a primeira vez que ele realmente nos deu um problema tão demorado. E se um dia ele for mais velho e ela resolver "surtar" com ele? - Eu quase podia ouvir as aspas conforme ele falava. - Não, eu nunca faria isso! - Ele falou e fez outra pausa. - Não. Não, tudo bem. Já passou e ela está melhor. Estava brincando com ele agora pouco quando eu fui lá e... É adorável, eu preciso admitir. - Emmett disse alguma coisa que o fez rir, de verdade dessa vez. - Certo. Venha logo, então. Onde eu posso levá-la? Não tem muito a ver com preço, mas eu quero algo realmente bom. - Ele esperou a resposta e então agradeceu. - Até mais, cara.
Eu passei as mãos pelo rosto rapidamente, pensando que ele poderia ir até o quarto, mas felizmente não o fez. Acho que ficou mais animado com nosso encontro no final da ligação, mas isso não era suficiente para diminuir a dor do que eu acabara de ouvir. Com aquele vestido mesmo, sem me importar se era o melhor que eu tinha, passei pelo corredor diretamente até o banheiro. Me certificando de que ele não perceberia nada, fiz a maquiagem mais rápida que consegui, tentando disfarçar ainda mais. Sequei meu cabelo já pouco úmido e fui para a sala.
Ao me ver, sentado no sofá, Edward abriu um sorriso enorme. Eu não consegui retribuir. Acho que a conversa com Emmett realmente o fazia bem. Seu melhor amigo o ajudava a lidar melhor com sua mulher "maluca".
- Preciso dessas sandálias. - Murmurei, pegando o par quase em seus pés.
- Quase pronta? - Ele perguntou, animado.
- É. - Eu forcei um sorriso, lembrando da época que precisava atuar o tempo todo com nossas famílias. Eu era boa nisso e continuava sendo. - Vamos lá. Nosso primeiro encontro. Agora sim vamos nos conhecer de verdade, não é?
Bellinha acabou ouvindo o que não devia... Algum palpite sobre o que ela vai fazer? Eles tem algumas coisas pra conversar agora!
Fora isso, gostaram do flashback deles se conhecendo? Eu vejo pelas reviews que algumas pessoas esquecem que eles já tiveram um relacionamento antes de tudo. Talvez um dia eu conte pra vocês a história por trás da história. Hahaha E não culpem o Ed, gente, ele só estava pensando alto! (mentira, essa é a minha opinião, podem xingar que eu respondo com a maior alegria).
Aqui vai um teaser pra vocês pensarem um pouco (não vou entregar o ouro assim, né?)
"Nós ficamos em silêncio em seguida, cada um olhando para seu próprio menu. Aquilo estava começando a me incomodar. Sempre havia alguma coisa errada quando Bella não estava tagarelando e o pior era que, mesmo quando alguma coisa a incomodava, ela gritava sobre o assunto. Ela não sabia guardar nada para si mesma. Eu não sabia como lidar com a Bella não-falante."
PS: Nova one-shot pra vocês, procurem no meu perfil por "Segunda estrela à direita"!
Até quarta!
