EPOV
Continuei sentado relaxado no sofá enquanto Bella calçava suas sandálias, bem ao meu lado. Quando ela terminou e me olhou, eu abri um sorriso tranquilo, apoiando os braços esticados no encosto. Ela estava linda. Eu abri a mão e ela entendeu o pedido mudo, sentando ao meu lado e entrelaçando nossos dedos. Era incrível como qualquer preocupação sobre nós acabava assim que ficávamos juntos; a conversa com Emmett já estava praticamente esquecida.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, a campainha tocou. Nós já sabíamos quem era. Enquanto eu atendia Emmett, ela entrou no corredor outra vez murmurando algo sobre Anthony.
- E aí, cara! – Ele bateu no meu ombro enquanto entrava, já à vontade o suficiente no meu apartamento.
- Oi. – Cumprimentei com um riso baixo ao fechar a porta outra vez. – Tem comida pra você na geladeira. Eu lembrei de comprar algum lanche antes que a Bella fizesse qualquer coisa vegetariana.
- Não prefere que eu leve ele pro meu apê? Assim vocês voltam, ficam sozinhos... – Ele ergueu as sobrancelhas várias vezes, abrindo aquele sorriso de sempre quando falava sobre alguma garota.
- Será como um dia qualquer. – Eu respondi, divertido. – Só até um pouco mais tarde. Nós voltamos pra casa, você vai embora e nós... Bom. Um dia Qualquer.
Ele estava rindo alto quando Bella voltou para a sala com nosso bebê. Emmett virou imediatamente e o pegou no colo, beijando a bochecha dela ao cumprimentá-la.
- Eu sinto muito se isso atrapalhou qualquer plano. – Ela se desculpou enquanto ele balançava Anthony nos braços. – Eu tinha te dado o dia de folga, você deve ter marcado alguma coisa...
- Meu afilhado sempre vem em primeiro lugar! – Emmett respondeu e, obviamente, isso significava que ele não tinha nada planejado. Eu segurei o riso, resistindo a dizer isso diante da emoção de Bella com a frase. – Vamos, o que ainda estão fazendo aqui? Eu e Anthony temos muito o que conversar!
Eu e Bella rimos antes que ela entrasse no quarto uma última vez. Rapidamente, voltou com uma pequena bolsa na mão, conferindo alguma coisa dentro dela. – Certo, acho que nem preciso te recomendar mais nada, não é? Eu tive alguns problemas com ele hoje e espero que não aconteça o mesmo com você... Ele tirou um cochilo e então talvez demore um pouquinho pra dormir.
- Não tem problema, nós vamos brincar até ele cansar! – Emmett sorriu para o bebê, o fazendo sorrir de volta mesmo sem entender muito bem a conversa.
- Se a gengiva incomodar de novo, os brinquedos ajudam. Ou o próprio dedo, ele também gosta. E pra comer... – Bella tentou continuar.
- Ei, você lembra com quem está falando? – Emmett apontou para si mesmo, fingindo indignação.
- Certo. – Ela suspirou, divertida, olhando rapidamente para mim. – Vamos logo, então.
Bella deu um beijo estalado na bochecha de Anthony, arrancando uma risadinha dele. Eu fiz o mesmo antes de me aproximar da porta e abrir para ela. – Divirtam-se! – Emmett gritou enquanto ela saía. Eu sorri para ele antes de ir logo atrás.
Ela se manteve em um silêncio estranho durante o caminho. Não falei nada sobre isso; talvez ainda estivesse estressada com tudo o que aconteceu durante a tarde, e só sua presença já deixava o clima leve. Apenas segurei sua mão na maior parte do tempo em que dirigia.
Emmett me recomendou um restaurante que eu já conhecia, me fazendo sentir até idiota por não pensar naquele lugar antes. Ele não levava a maioria das garotas para encontros caros, e lugares como aquele estavam reservados para as mais difíceis. No meu caso, seria para a mais especial. Eu sabia que nos divertiríamos até numa barraca de cachorro-quente, mas a ideia era reproduzir nosso primeiro encontro. De fato, na época houve um jantar caro mais tarde, mas as intenções mudaram completamente agora.
Assim que descemos e o manobrista levou meu carro, eu a guiei para dentro do restaurante. Havia feito uma ligação de última hora e eles felizmente me conseguiriam uma reserva. Nós precisamos esperar algum tempo no bar mas, antes que aquela demora começasse a me irritar, avisaram que nossa mesa estava pronta. Nós nos acomodamos e o garçom logo veio se apresentar e oferecer alguns pratos. Eu pedi que deixasse os menus para escolhermos com mais calma.
- Se você não gostar da comida, a culpa é toda do Emmett. – Eu sorri um pouco para ela enquanto lia.
- Deve ser bom. Quer dizer, deve ter alguma razão pra ele sempre ter encontros bem sucedidos, não é? – Ela respondeu, e seu tom irônico me incomodou um pouco. – Falando nisso, ele contou como foi com Rosalie?
- Acho que foi bom. Ela não é muito difícil. – Nós rimos juntos. – É fácil impressioná-la... Mas duvido que fique sério.
Nós ficamos em silêncio em seguida, cada um olhando para seu próprio menu. Aquilo estava começando a me incomodar. Sempre havia alguma coisa errada quando Bella não estava tagarelando – e o pior era que, mesmo quando alguma coisa a incomodava, ela gritava sobre o assunto. Ela não sabia guardar nada para si mesma. Eu não sabia como lidar com a Bella não-falante.
Ergui os olhos por cima do menu para encará-la, mas ela não percebeu. Continuou lendo com a testa levemente franzida. Tentei pensar em algo rápido para chamar sua atenção, mas tudo o que vinha à minha mente era sobre comida. Pressionei meus lábios um no outro e abaixei o cardápio de volta para a mesa, ainda olhando para seu rosto.
- Bella, está tudo bem? – Soltei a pergunta mais óbvia.
- É claro que sim. – Ela rebateu imediatamente, ainda sem me olhar. – Por que não estaria? Tudo é tão perfeito na minha vida. Meu emprego, meu filho, meu marido que me ama incondicionalmente... Não tenho nada para reclamar.
Automaticamente, afundei na minha cadeira, sentindo seu tom irônico. E eu nem mesmo lembrava o que havia feito de errado. Talvez tivesse deixado a tampa do vaso sanitário levantada outra vez... Mas ela teria reclamado no almoço. Eu disse algo errado no restaurante, mais cedo? Acho que devia ter apoiado quando ela falou sobre Krav Magá...
- Certo... Se... Você não tem nada pra me falar, ou...
- Já que você tocou no assunto. – Ela falou por cima de mim, deixando o menu na mesa para me olhar.
- Olha, se foi pelo que eu disse mais cedo... - Eu tentei controlar a conversa antes que ela começasse a aumentar a voz. - Sobre as aulas de defesa pessoal e suas excentricidades. Era só uma brincadeira, quer dizer, eu adoro isso em você.
- Adora? - Bella quase gritou mas, ao invés de ficar apenas irritada, seus olhos se encheram de água. Eu senti meu coração se apertar com isso. - Será que isso não te assusta? Quer dizer... Eu sou meio surtada, não é? Algum dia, quando o Anthony for mais velho, eu posso fazer alguma coisa com ele! E o nosso casamento? Quanto tempo você acha que vai durar com alguém tão maluca? Será que vai dar certo daqui 10 anos?
Eu sabia exatamente porque ela estava dizendo tudo aquilo. Mesmo depois de algum tempo em silêncio, eu ainda não sabia o que responder. Continuei parado, olhando para seus olhos marejados. Apesar de tudo, seu rosto era muito firme. Mesmo chorando ela não abaixaria a guarda.
- Eu ouvi você com Emmett no celular. - Ela disse, bem mais calma, porém ainda séria.
- Aqui não é lugar pra falar sobre isso. - Eu me curvei um pouco sobre a mesa e falei ainda mais baixo.
- Falar sobre o que? - Ela franziu a testa. - Eu pensei que nós estávamos bem!
- Nós estamos bem! - Rebati imediatamente. - É só que... Em minha defesa, você não devia ter escutado! Era só um desabafo, você também deve ter esse tipo de conversa com Alice.
- Eu não faço as coisas por impulso pra ficar choramingando depois! Se você voltou pra casa e nós ficamos juntos, pode ter certeza que antes eu pensei muito no assunto. - Ela disse um pouco mais nervosa, secando as bochechas rapidamente.
- O que você esperava, Bella? Eu amo você e mal podia esperar pra voltar pra casa, pro nosso filho e...
- E agora você percebeu que nós "só estamos encantados com Anthony e com o casamento perfeito"? – Ela citou outra vez o que eu falei para Emmett.
- Não é assim.
- Então como é? – Ela arregalou os olhos castanhos para mim, começando a chorar outra vez. – Edward, se não fosse pelo Anthony, você nem estaria mais olhando na minha cara! Você não está lá por mim, é por ele, você quer ficar... Brincando de casinha ou sei lá o quê!
Agora ela estava realmente chorando. Eu olhei em volta, para as outras pessoas com suas próprias refeições, e felizmente ninguém tinha percebido nossa discussão ainda. Olhando para Bella outra vez, precisei resistir ao impulso de levantar e abraçá-la. Acho que era a primeira vez que eu a via chorar sem que pudesse culpar seus hormônios. Era simplesmente tristeza porque seu marido era um imbecil.
- Eu amo você. – Repeti. – Mas você precisa admitir que nós temos uma história muito complicada. Nosso namoro não acabou bem da primeira vez, depois teve aquele rolo imenso com o casamento, seus pais me odeiam e nós brigamos por qualquer coisa. Eu tenho razão por ter medo do nosso futuro e você também deveria pensar um pouco sobre isso!
- É claro que eu penso no nosso futuro! – Ela me olhou perplexa. – Mas não sou pessimista como você!
- Eu sinto muito. Você não devia ter escutado aquilo. Foi só um pensamento, só um medo, é normal! Eu quero ficar com você. – Ergui as sobrancelhas para ela e estiquei minhas mãos por cima da mesa, sem tocar as dela, mas mantendo-as muito próximas. – Por favor... Eu quero fazer isso dar certo.
- Por que você não começa conversando comigo? Ao invés de enumerar os meus defeitos pro seu amigo, como se isso fosse resolver alguma coisa entre nós! – Ela mesma abaixou a voz quando percebeu um casal próximo nos olhar rapidamente. – Desculpe. Eu devo ser mesmo completamente pirada. Você sempre soube disso, inclusive quando voltou pra casa, me beijou, e... E... – Ela parou, desviando o rosto.
Eu sabia o que ela queria dizer, mas simplesmente abaixei um pouco o rosto, ainda olhando para ela. Sexo foi um passo sério para nós e, apesar de ter demorado um pouco para acontecer, eu devia ter pensado melhor no assunto antes de entrar na vida dela como realmente um marido. Seu rosto choroso me fez ver tudo com mais clareza agora. A última coisa que eu queria era magoá-la, e era exatamente o que estava fazendo.
O mesmo garçom de antes voltou e parou ao nosso lado. Ele percebeu Bella chorando tarde demais, e precisou de um segundo para pensar se falava ou voltava mais tarde. Ela aproveitou esse tempo para limpar o rosto, encarando o chão.
- Já querem pedir? – O homem perguntou, simpático.
- Eu estou sem fome. – Ela respondeu olhando diretamente para mim enquanto ficava em pé.
Eu fiquei pateticamente parado enquanto ela pegava sua bolsa e se afastava, escondendo meu rosto em uma mão. O garçom não saiu do meu lado até que eu levantei, pedi desculpas rapidamente e fui atrás dela. Havia certa movimentação na porta do restaurante, me obrigando a pedir licença para passar. Olhei para os dois lados da rua, mas já não conseguia mais vê-la.
Mesmo sabendo que não conseguiria nada com isso, tentei ligar para seu celular. Tocou por um longo tempo, até cair na caixa postal. Eu bufei, ainda parado no meio daquelas pessoas esperando por uma mesa. Olhei em volta mais uma vez, sem saber o que fazer. Ela não podia ter ido muito longe a pé. Pedi meu carro e o manobrista o trouxe de volta em poucos minutos.
Eu entrei no carro e acelerei devagar pela rua, sem querer atrapalhar os outros carros parando na frente do restaurante. Demorou algum tempo para saber onde estava indo, dando a volta no quarteirão e por algumas outras ruas desconhecidas. Pra onde Bella ia quando estava muito triste? Ou melhor... Qual era a única coisa que realmente melhorava seu humor?
Eu respondi a pergunta mentalmente e virei com tudo na primeira rua que encontrei, voltando para onde estava antes. O ateliê não ficava muito longe dali. Eu parei o carro na rua deserta aquela hora da noite e desci quase correndo, indo direto para a pequena porta de madeira. Por fora, o lugar não era nada mais do que um galpão. Quem passava por ali todos os dias não imaginava tudo o que havia ali dentro. Bella dizia que assim só deixava as pessoas certas entrarem.
Felizmente, estava destrancada. Eu entrei devagar e olhei em volta, mas a pequena recepção estava vazia. Eu soube exatamente onde devia ir quando ouvi a música animada vindo dos fundos. Passei pelo corredor e abri a última porta, fazendo de tudo para que ela não me percebesse. Mesmo que eu entrasse gritando, não teria me escutado.
Eu mesmo havia levado as coisas de Bella para aquela pequena sala, mas agora tudo estava arrumado do seu jeito. Ou melhor, estava completamente desorganizado e sujo de tinta, como ela gostava. Eu passei uma mão timidamente pela minha gravata e continuei parado na porta enquanto ela, de costas para mim, jogava a tinta numa tela em branco. Suas sandálias estavam num canto e ela se mexia ao som da música, descalça. Não era uma dança alegre. Ela se mexia violentamente, e eu mal podia acreditar que mesmo usando tanta força suas mãos estavam formando uma figura linda.
Após algum tempo observando a cena, estiquei a mão para o aparelho de som e o desliguei. Ela parou e virou o rosto imediatamente, sabendo quem era. Lançou-me um olhar cheio de raiva, e então suspirou, encarando o chão calmamente.
- Sou assim tão previsível? - Ela apoiou o pincel sujo no cavalete antes de virar completamente para mim.
Eu demorei para responder, e quando o fiz, mudei um pouco de assunto. - Eu sempre gostei das suas pinturas. - Sorri um pouco, apontando para uma das telas apoiadas no chão. - Você devia mostrar pra mais gente.
Ela olhou para a direção que eu apontei, mexendo as mãos uma na outra um pouco sem jeito. - Não sei, são muito pessoais...
- A arte é pessoal pra todo mundo. - Eu dei um passo para o lado, até a mesa, apoiando o quadril ali. - Você pensou em uma coisa pintando, e cada um vai pensar em outra quando olhar.
Bella abaixou a cabeça um pouco, mas continuava me olhando. Acho que, como acontecia pouquíssimas vezes, ela não sabia o que dizer. Eu sorri sozinho ao perceber isso. Ela pensou por alguns segundos e então veio decididamente até mim, enroscando os braços em volta do meu pescoço. Eu abracei sua cintura imediatamente, deixando um beijo demorado em seu ombro nu.
Quando ela se afastou, eu passei o dedo delicadamente embaixo de seu olho, limpando a maquiagem um pouco borrada. Ela tentou sorrir um pouco, ainda me abraçando.
- Eu arruinei nosso primeiro encontro, não foi? - Murmurei com uma careta. - E... Todo o resto.
- É só o que você sente, Edward. – Ela respondeu no mesmo tom. – Acho que, sempre que você quis compartilhar alguma coisa, eu estive ocupada demais gritando com você.
- Você tem direito de gritar e enlouquecer às vezes. Você é mãe. – Nós rimos juntos. – Eu não estava dando pra trás nem nada do tipo, se é disso que você tem medo. – Completei. – Não é o que eu sinto...
Ainda muito perto de mim, ela ergueu uma das mãos até o meu rosto, tentando entender a expressão em meus olhos. – Eu também tenho inseguranças, Edward. Só me doeu porque... Eu estou nisso, sabe? Eu mergulhei de cabeça nisso e às vezes parece que eu não te conheço de verdade. Parece que não estamos no mesmo lugar.
- Tudo bem. - Eu a afastei devagar para olhar seu rosto. - Vamos do zero, então. Nós começamos com o pé esquerdo e deixamos algumas coisas pra trás pelo caminho. Agora você conhecer o que tem por trás do idiota que... Tentava te levar pra cama e... Ficar rico com a herança do papai.
Ela deu um passo pra trás e ergueu as sobrancelhas, divertida. Eu me afastei da mesa e estiquei a mão direita, ainda muito próximo dela. Ela pegou minha mão e abriu um sorriso enorme que eu pensei que não veria mais por muito tempo.
- Oi! - Eu disse ao chacoalhar sua mão, tentando não apertar muito. - Eu sou Edward Masen. É um prazer conhecê-la.
- Isabella Swan. - Ela ergueu o queixo ao responder, soltando minha mão. - Eu não te conheço de algum lugar, Edward? - Ela cerrou os olhos, entrando no personagem.
- Bom, se você gosta de peças de decoração, eu sou gerente de uma loja especializada nisso. Deve ter me visto por lá.
- É mesmo? - Ela sorriu. - Eu adoro. Eu sou uma artista, eu adoro esse tipo de coisa.
- Você é uma artista? - Eu cruzei os braços no peito, erguendo as sobrancelhas. - Eu conheço alguma coisa do seu trabalho?
- Não, eu não costumo... Divulgar muito. - Ela deu os ombros.
- Aposto que são muito bons e você só está com medo que ninguém goste por ser "pessoal demais". - Provoquei.
Ela cerrou os olhos, sabendo rebater direitinho. - Aposto que você não gosta do seu trabalho e está com medo de tentar alguma coisa nova.
- Você não pode saber isso, já que não me conhece. - Respondi, ainda divertido.
Bella continuou com a mesma expressão pra mim, com os braços cruzados como os meus. Ela me encarou em silêncio por um longo tempo, mordendo seu lábio inferior. Eu curvei um pouco o corpo e sorri, falando baixinho enquanto olhava em seus olhos.
- Eu adoraria conhecer suas pinturas. - Murmurei.
Seus olhos pareceram brilhar com aquilo. Eu sempre a vi pintar, mas nunca havia pedido dando tanta atenção à sua obra. Ela se afastou até o outro lado da pequena sala, mexendo nas telas apoiadas na parede. Eu me aproximei devagar, esperando até que ela mesma me mostrasse alguma coisa.
- Esses aqui são só algumas paisagens. Mas eu não gosto muito. - Ela puxou três telas e as separou para que eu visse todas com clareza.
Eu ergui as sobrancelhas sem que ela visse, sem entender como alguém poderia não gostar de algo tão bom. Não era nada exagerado, como uma imagem de uma natureza que qualquer pessoa acharia incrível. Mas, mesmo que a pintura fosse simples, os detalhes eram incríveis. Ela continuou abaixada perto de mim, separando o resto. Eu apoiei as mãos nos bolsos e ouvi com atenção enquanto ela mostrava uma por uma e tagarelava, estranhamente nervosa.
- Eu gosto de gente. Sabe? Eu gosto de sentar em algum lugar público e... Desenhar as pessoas que eu vejo. - Ela pegou uma tela com o rosto de uma velha e ergueu. - Eu gosto de pensar no que elas estão pensando, e... Como foram parar no mesmo lugar que eu.
Eu sorri ao ouvir seu pensamento, inocente e profundo ao mesmo tempo. Ela pegou mais algumas telas, mostrando outros rostos e falando sobre quem aquelas pessoas podiam ser. Havia uma tela realmente grande escondida atrás de todas, e eu resisti até o último segundo para vê-la, deixando que ela mesma mostrasse.
Quando faltavam apenas duas telas menores na frente, eu já podia ver toda a pintura. Ela afastou as outras e me mostrou ali mesmo, sabendo que não conseguiria levantar.
- Essa... Eu não sei, eu gosto de olhar pra ela. - Ela disse enquanto nós dois olhávamos para a figura. Era uma mesa, com algumas pessoas de todas as idades possíveis.- Eu fico olhando e encontro detalhes que nem mesmo lembrava que havia feito.
- É muito bonito. - Eu franzi a testa, realmente entretido enquanto prestava atenção na riqueza de detalhes de cada pessoa e cada comida em cima da mesa.
- Tem de tudo. Essa aqui é a mais velha. Acho que ela quer contar várias histórias, mas não tem ninguém perto para ouvir. - Ela agachou e apontou para uma senhora cercada de adultos virados para o outro lado. - Tem as crianças bagunçando... Uma mulher com um bebê. E tem essa menina sozinha. - Ela apontou para uma garotinha do lado oposto da mulher velha, bebendo alguma coisa e olhando para o próprio copo. - Essas pessoas surgem na minha cabeça, e eu dou vida pra elas.
Ela ficou em pé outra vez, me olhando com certo nervosismo. Eu ri da mesma maneira, suspirando em seguida. - Isso é... Incrível! Você não pode manter isso aqui. E nem é tão pessoal como você diz. - Eu comecei a mexer nas outras telas, começando a virar uma delas que estava de frente para a parede. - Se você quiser...
- Não! - Ela puxou minha mão quando eu estava quase arrumando a tela, me fazendo franzir a testa. - Ainda está... Molhada. Eu não acabei. - Eu cerrei os olhos para sua desculpa esfarrapada, e ela tentou consertar. - Tudo bem. Essa é a mais pessoal de todas e eu não quero mostrar.
- O que? Bella, sou eu! - Eu apontei para o peito, fingindo indignação. - Por favor!
Ela desviou o olhar do meu, pensativa. - É... Vergonhoso.
- O que você poderia pintar que seria vergonhoso? - Rebati, realmente sem entender. - Eu sei que já está acabada, não adianta mentir. Por favor!
Ela bufou realmente alto, me olhando outra vez. Como se estivesse aproveitando alguns segundos de uma coragem insana, quase deu um pulo até a tela, virando-a de frente pra mim e a segurando contra o peito. Eu dei um passo para trás ao ver a pintura enquanto ela desviava o olhar para não ver minha reação.
Os poucos segundos que levei me perguntando o que haveria ali desapareceram imediatamente. A figura era muito clara. Era o meu rosto; tranquilo e divertido ao mesmo tempo. Parecia que os olhos estavam encarando os meus diretamente. O que mais me surpreendeu, no entanto, era que o desenho não estava colorido. Nada estava preenchido. Era apenas uma silhueta de linhas... Marrons. Ainda assim, certamente era muito mais bem feito do que meu próprio rosto.
- Isso é... - Eu comecei a dizer.
- Olha, eu sei que parece meio doentio, mas eu não sou nenhuma maluca apaixonada que fica desenhando você pelos cantos. - Ela disse antes de colocar a tela de volta no chão, apoiada na parede. - Eu fiz esse desenho a lápis só por... Fazer. O rosto me apareceu. E eu achei legal contornar com tinta marrom. Você sabe...
Eu assenti pateticamente enquanto ela sorria.
- Talvez um dia eu pinte tudo. Refaça e coloque olhos verdes. - Ela ergueu as mãos e focalizou meu rosto entre os dedos, como se fosse tirar uma fotografia.
Eu demorei algum tempo parado com a mesma expressão patética no rosto. Bella me olhava alegremente, ainda com as mãos espalmadas para mim, brincando com a visão que tinha. Acho que ela não percebeu meu olhar enquanto eu a observava, enquanto eu olhava no fundo dos seus olhos e percebia tudo o que eu tinha bem a minha frente. Aquilo me atingiu como um choque e eu juro que estava a ponto de chorar.
Ela precisava saber. Ela precisava ouvir o quanto eu a amava, e a queria, e não era mais absolutamente nada sem suas roupas cheias de tinta jogadas pelo meu apartamento.
Sem dizer nada, eu dei um pequeno passo até ela, abaixei suas mãos e tomei seus lábios nos meus. Ela retribuiu, mas eu sabia que não estava entregue completamente quando apoiou as mãos no meu peito entre nós, hesitando entre me afastar e continuar ali. Eu mesmo me afastei, olhando seus olhos confusos.
- Você gostou? - Ela franziu a testa, ainda bem perto de mim. - Você não acha que fazer um desenho seu é coisa de alguma maluca obcecada?
- Acho! - Eu quase gritei, tomando seu rosto nas minhas mãos enquanto ria. - Você é completamente maluca e eu amo você!
- Sabe, a gente veio parar aqui depois que você me chamou de maluca, então eu não acho que seja um bom elogio pro momento... - Ela resmungou, mas eu via a diversão e ironia em seus olhos.
- Não... - Eu afastei as mãos para pegar as dela, balançando a cabeça freneticamente numa negativa. - É um elogio porque eu amo isso. Eu amo suas maluquices e eu nunca conseguiria viver com uma pessoa que pensa duas vezes antes de tomar alguma atitude! - Ela riu, ainda sem entender porque eu estava dizendo aquilo. - Eu amo sua impulsividade. Eu amo o jeito que você insiste em virar vegetariana mas nunca conseguiria. Eu amo... Quando você volta do trabalho com o cabelo sujo de tinta e não percebe. Quando você grita comigo... Meu Deus, você fica tão sexy quando a gente briga! - Eu revirei os olhos com um suspiro ao dizer aquela frase e, quando voltei a encará-la, percebi seus olhos cheios de lágrimas de emoção.
- Se você tá tentando se desculpar pela conversa com Emmett... - Ela ergueu uma sobrancelha. - Tudo bem. Eu não estou mais chateada. Você tem razão, eu não devia...
- Não, você tinha que saber disso! Porque isso nos trouxe até aqui, e me fez perceber o quanto eu amo você. Você tem que saber de tudo o que se passa comigo, porque... Porque você é a melhor amiga que eu já encontrei nessa vida. - Eu franzi a testa ao dizer aquilo, assentindo comigo mesmo. - Não existe nenhuma outra pessoa que me aguentaria! Eu sou tão chato, e careta, e ainda não tenho a menor ideia do que vou fazer com a minha vida, mas mesmo assim eu encontrei uma garota incrível! Quer dizer... Você tem uma cobra. Isso é demais. - Eu arregalei os olhos soltando a frase sincera que jamais imaginei pronunciar.
- Você nem consegue chegar perto dela. - Bella respondeu inocentemente, secando os olhos.
- E sabe o que mais? - Eu ignorei seu comentário, empenhado na minha declaração. - Eu não vou ser mais assim! Eu vou largar o meu emprego! Quer dizer, eu odeio o meu emprego, não é? Por que eu devo ficar em alguma coisa que odeio? - Eu falava quase comigo mesmo enquanto ela ria. - Eu vou largar... E eu não sei pra quê... E isso é o máximo! Eu posso ser qualquer coisa que eu quiser!
Eu fiquei sério outra vez, respirando fundo, e aos poucos ela parou de rir e prestou atenção ao meu rosto. - Isso vai dar certo. - Eu afirmei. - Tem que dar, e eu tenho que passar o resto da minha vida com você, porque quando a gente não tá junto... Eu sou só o Edward bêbado, chato e preocupado em encontrar alguma garota igualmente bêbada e ainda mais chata pra passar uma noite. - Acho que eu quase corei ao lembrar daquela imagem antiga minha, desviando rapidamente o olhar. - Eu não quero mais isso pra mim. Só tem uma garota que eu quero. - Eu voltei a olhar para ela e seu sorriso emocionado. - Uma completamente... Única.
Fui pego completamente desprevenido quando ela me agarrou e me beijou, apertando minha nuca com certa força. Eu não me importei, retribuindo e aproveitando o gosto já conhecido. Quando nosso abraço não pareceu suficiente, ela tomou impulso e envolveu meu quadril com as pernas, ficando um pouco mais alta do qu eu. Eu ajudei a se apoiar, precisando tombar um pouco a cabeça para trás para continuar a beijá-la. Ainda não sei o que diabos me impediu de afastar todo aquele material de pintura da mesa e tê-la ali mesmo.
- Mesmo daqui 10 anos? - Ela perguntou baixinho com os lábios muito próximos dos meus.
- Daqui 50. - Eu respondi no mesmo tom, encarando seus olhos úmidos. - Ou 60... Quanto tempo você acha que aguentamos comendo tanto fast food?
- Nós realmente precisamos aprender a cozinhar... - Ela falou pensativa, e então riu, beijando demoradamente meus lábios antes de descer do meu colo. Mesmo no chão, seu corpo não se afastou do meu. Bella suspirou ao passar o nariz devagar pelo meu, sorrindo um pouco. - Até lá... Eu estou morrendo de fome.
- Você quer voltar pro restaurante? - Perguntei enquanto ela se afastava e calçava suas sandálias rapidamente.
- Ah, não! - Ela suspirou, pegando sua bolsa em cima da mesa. - Eu quero meu apartamento, uma pizza muito gordurosa e uma boa cerveja que não tenho há meses.
Eu ri, olhando para seu rosto tranquilo enquanto ela andava preguiçosamente de volta até mim. Eu imitei sua careta enquanto ela se apoiava em meus ombros, fazendo um bico irresistível que eu precisei beijar antes de pegar sua mão e guiá-la até a saída. Só ali eu percebi seus dedos manchados pela tinta azul.
Eu saí do ateliê naquela noite com alguma coisa diferente dentro de mim. Uma certeza diferente. Não era apenas Bella, a garota complicada que eu amava, ou a mãe do meu filho. Era a garota que, depois de tantas brigas e tantas mentiras, me levou até a vida que eu sempre quis - e nem mesmo sabia. Seria complicado, e eu mal ousava imaginar quantas discussões ainda teríamos, mas nós acabamos consertando um ao outro e faríamos isso em todos os próximos erros.
Antes disso, porém - antes que voltássemos para o nosso pedaço meio torto de felicidade - eu ainda tinha algumas coisas para resolver. Sobre mim e sobre nós dois. E, acreditem, com aquela garota segurando minha mão, qualquer problema ficava bem mais fácil.
Normalmente eu curto um drama no final das fics, nessa aqui to pegando leve! Eles mal brigaram e já fizeram as pazes... E dessa vez é pra valer! *ufa* Eles precisavam colocar tudo em "pratos limpos" e eu quis colocar isso de um jeito mais dinâmico e mais a cara deles, porque com um DR séria e de verdade todo mundo ia dormir e tal.
Nem tuuudo está resolvido ainda, mas calma. E... Vocês vão me matar se eu falar que o próximo capítulo é o ÚLTIMO? Gente, eu tava tão entretida que simplesmente esqueci de falar antes! Pois é, temos mais um capítulo e então um epílogo... Nhé ):
Mas sem choro ainda, temos mais duas semanas antes da despedida. Por enquanto, teaser!
"Assim que abri a porta já pude ouvir algumas pessoas falando dentro do ateliê. Aquilo não era normal. O silêncio (antes das crianças chegarem) era uma das partes que eu mais gostava naquele lugar. Mais alguns passos e as vozes ficaram mais claras, e eu percebi que havia muito mais gente do que eu imaginava. Edward. Ele havia feito isso. Ele não sabia a bronca que estava prestes a levar. Decididamente, arrumei a bolsa no meu ombro com uma bufada e entrei na próxima sala, procurando exclusivamente por seu rosto no meio da multidão."
Até quarta!
