N.A.: Eu sou uma péssima pessoa em prometer as coisas. Não faz nem mesmo mais de uma semana e já estou postando outro capítulo... ahauhauhauaua

Bom, quero agradecer: gabs, jessica, Dri, Cora e Boozinha muito obrigada, mesmo!

Adoro ver reviews de vocês, apenas me impulsiona a escrever mais e mais.

Jo, MUITO OBRIGADA por betar essa fic. Adoro-te!

Boa Leitura!


Capítulo 3

Já fazia uma semana que Arya estava novamente em casa, mas parecia que nada havia mudado desde o primeiro dia. Ela passava boa parte do tempo dentro do quarto, e quando saía para as refeições, seus olhos concentravam-se apenas na comida e no vinho. Jon conseguia entender toda a angústia de voltar aquele lugar após tantos anos longe, ele mesmo vivera isso. Porém, Arya não queria conversar com ninguém, não queria saber de nada.

Em uma manhã qualquer, Jon levantou-se pouco antes do sol e vestiu-se, saindo de seus aposentos e olhando pelo corredor, vendo uma sombra desatar a correr para o lado norte. Fechou a porta do quarto e foi atrás da tal sombra, tomando todo cuidado para não fazer barulho. Sua bota de montaria não estava ajudando-o, mas conseguiu seguir a sombra rápida, e viu-a entrar no quarto de Arya. Seu coração deu um salto, alguém estava prestes a atacá-la enquanto dormia.

Sem pensar duas vezes Jon segurou o cabo da espada e aproximou-se da porta, chutando-a e entrando rápido no quarto. A cena que se seguiu fez Jon perder o fôlego e arrepender-se de entrar no quarto até seu último fio de cabelo.

Realmente havia alguém no quarto de Arya, mas era uma criada, que abaixou a cabeça e prestou sua saudação assim que o viu. E lá estava Arya, os olhos em chama, as mãos fechadas contra a camisola, os cabelos revoltos e a pele avermelhada. Jon viu de relance na mão da criada um frasco e olhou novamente para Arya, que respirava pesadamente, os laços frontais da camisola balançando soltos no peito dela. Viu a pele do colo dela avermelhada e o relevo dos pequenos seios contra o tecido que parecia estar molhado.

"JON!"

O grito que Arya deu parecia ainda mais alto pelo silêncio que o castelo se encontrava, e Jon tinha certeza de que todos agora estavam acordados. Saiu do quarto sem olhar novamente para Arya ou para a criada, fechando a porta. Porém, esperaria do lado de fora. Perguntaria o que estava acontecendo, e uma delas teria que lhe contar.

Não se passou um minuto e a criada saiu do quarto, os olhos arregalando enquanto fechava a porta e via seu amo parado do outro lado do corredor. Jon cruzou os braços e olhou atentamente para a criada.

"Perdão Lord Snow, mas Lady Stark disse-me que precisava do vinho o mais rápido possível sempre pela manhã antes do sol."

"Vinho a essa hora?"

Jon viu a mulher hesitar, como se pensasse em esconder algo dele. Quis sorrir, Arya conseguira fazer com que uma de suas criadas escondesse segredos dele. Ao menos nisso não havia mudado, conseguia ser intimidadora sempre que precisava. E, aparentemente, ela precisava.

Aproximou-se da mulher e viu-a arregalar os olhos, as mãos pegando de dentro das vestes de frio um vidro vazio e entregando-o. Jon segurou o vidro e observou-o atentamente. Conhecia aquele frasco, tomara-o nos primeiros meses após voltar para Winterfell com seu novo título.

"Pode se retirar. Obrigado."

"Milord."

A mulher reverenciou apressada e saiu andando rapidamente pelo corredor, talvez com medo do que fosse acontecer naquele quarto agora. Entretanto, Jon ficou durante minutos apenas segurando o frasco e olhando para a porta de madeira. Lembrava-se de como fora receber a notícia que Robb, seu irmão, seu amigo, seu maior aliado, estava morto, e que ele agora era herdeiro de Winterfell. Que ele era o herdeiro legítimo do Norte. Que Robb o fizera herdeiro.

E então quando Jon aceitara o destino e se deitara pela primeira vez na cama em que um dia Ned e Catelyn Stark se deitaram, fora então que eles começaram. A princípio ele não os entendia, mas após alguns dias pesadelos de Jon se tornaram constantes. E eram sempre os mesmos pesadelos, com as mesmas pessoas. Sempre seu passado o atormentando, sempre fazendo-o lembrar-se quem fora, o que fizera, quem deixara para trás e quem trouxera com ele.

Respirou fundo e puxou o casaco contra o corpo, apertando-se dentro de suas calças de montaria e capa de couro curtido. Não queria lembrar-se de tudo que perdera ao longo dos anos, e das coisas que tivera que fazer para poder estar ali agora, respirando, vivo, apenas com cicatrizes pelo corpo.

Olhou a porta novamente e balançou a cabeça. Segurou o frasco com força entre os dedos enluvados e começou a descer pelo corredor, ao encontro da escada. Ele não iria confrontá-la, não iria obrigá-la a enfrentar seus demônios enquanto ela não achasse que era hora. Para ele levara meses, deixaria que ela tivesse o tempo dela.


Aquele lugar lhe lembrava seu pai. Lembrava quando ele se sentava ao pé da árvore coração e pensava por horas. E sempre voltava dali com as decisões mais acertadas. Ele sempre retornava com ideias brilhantes, sorrisos largos e carinhos. Não se lembrava de um dia em que seu pai voltara do bosque sem que estivesse em paz com os deuses antigos.

Para Arya toda aquela vida que perdera era como se fosse de outra pessoa, mas era ela que sentia aquela vida. Ainda sentia a perda do pai, da mãe e de Robb. Soubera por pessoas que trabalhavam no castelo que Bran e Rickon estavam escondidos e que Sansa estava com Sandor Clegane. Quando ouvira esta última notícia achou que a irmã estaria sofrendo e quase exigiu que Jon enviasse aliados à sua procura; porém, soube que ela não fora levada a força.

Sorriu enquanto se recostava no velho tronco e balançava a cabeça, nunca teria imaginado que Sansa pudesse fazer algo como aquilo. Mas lembrava-se do tratamento de Joffrey com ela, e teria feito o mesmo. Teria fugido com o primeiro que lhe oferecesse uma mão amiga. E sabia, de algum modo ela sabia, que essa mão amiga fora de Sandor Clegane, apesar de não conseguir ver um homem daquele tamanho e com a severidade de seus atos ajudando Sansa.

Ouviu galhos quebrando à sua direita e virou apenas o rosto, vendo Sam Tully aproximar-se e parar perto de si. Olhou-o, talvez, pela primeira vez de verdade. Sam era um homem gordo, mas que não parecia cansar-se com seu peso com tanta facilidade. Porém, Arya tinha certeza que isso já deveria ter acontecido, e muito. Viu que ele também apenas vestia negro, assim como Jon, e que seus olhos eram olhos observadores, a todo momento movendo-se pelos cantos e procurando algo que pudesse pular sobre ele.

Os cabelos colavam-se à testa e eram escuros, mas mais claros que os de Jon. Viu que ele parecia sempre estar querendo dizer algo e suas bochechas rosadas do vento frio moviam-se como se ele as mordesse por dentro.

"Diga logo Senhor Tully, o que quer."

Sam olhou-a de forma surpresa, não esperava severidade da parte dela. Apenas queria conversar, conhecê-la, entender o que tanto fascinava Jon.

"Creio que começamos com o pé errado, Lad..." Sam parou de falar e olhou-a. Arya estava ainda mais séria. "Não vou chamá-la de Lady ou Senhorita. A chamarei de Arya, sei que prefere assim."

Assentiu e agradeceu mentalmente por ele não continuar a chamá-la de Lady. Aquele título não era seu, e nunca seria. Tinha certeza disso.

"Então, senhor Tully, o que deseja."

"Apenas, conhecê-la. Entender o que faz Jon mover rios e castelos para achá-la e trazê-la para casa."

"Ele deveria ter me deixado onde estava."

Sam ouviu nitidamente o som de amargura e tristeza na voz dela, mas também ouviu raiva. Observou-a por vários segundos, sua mente começando a construir uma personalidade e moral da pequena Stark.

"E onde exatamente seria isso?"

Foi a vez de Arya olhá-lo. A pequena não sabia exatamente onde vivia, como vivia, apenas tinha um nome: Gendry. Os últimos cinco anos de sua vida passara ao lado dele, e não poderia reclamar de modo algum dele. Mesmo que Gendry tivesse a tendência a beber demais quando não era necessário, fora seu companheiro.

Quando precisara de um amigo, ele estava lá. Um protetor, pai, irmão mais velho, amante, inimigo. Para Arya, Gendry ter esquentado sua cama seria um segredo até que já fosse inevitável contar.

"Por todo o Norte, e por outros lugares." Disse como se não fosse importante, portando-se como a velha Arya respondona.

"E sem fixar-se em canto algum com seu amigo?"

E ela sorriu. Jon o enviara, ou talvez ele tivesse vindo sozinho, não sabia, mas agora já sabia sobre o que aquele pequeno interrogatório se tratava. Queriam que ela contasse quem Gendry era, e porque estava junto dele, se o inevitável acontecera.

"Meu amigo" Arya começou e levantou-se de onde estava sentada. "É apenas isso, um grande amigo, que me ajudou quando eu mais precisei."

"Culpa Jon por tê-la deixado aqui e ido para a Muralha?"

Sam aproveitou-se da conversa, queria entender a rebeldia dela, a ousadia. O modo como ela parecia não se importar com o mundo. Viu-a virar-se e recomeçar o caminho para o castelo, mas Sam começou a segui-la, a insistência poderia lhe trazer respostas durante o nervoso dela.

"Então é por isso..."

Sam não conseguiu terminar e quase esbarrou nela. Arya parou no mesmo lugar ao escutá-lo falar novamente. Sua mente estava trabalhando rapidamente.

"Sim, culpo Jon por não estar comigo quando mais precisei dele, e culpo-o por tudo o que minha família passou. Queria-o ao meu lado quando soube da morte de meu pai e depois da morte de Robb e minha mãe." Arya sentiu lágrimas acumularem-se nos cantos dos olhos. "Queria-o do meu lado quando me perdi, e queria-o do meu lado quando passei por dificuldade." Aproximou-se de Sam, os olhos colados nos pequenos olhos dele. "Jon deveria me proteger, não proteger o maldito reino."

Andou apressada para dentro do castelo e Sam continuou no mesmo lugar apenas observando-a afastar-se até sumir de sua vista.

"Ela está certa."

A voz de Jon fez Sam virar-se e olhá-lo triste. Não queria que ele tivesse escutado aquilo, não daquele modo.

"Jon, não seja seu pior inimigo. Não deixe a culpa usá-lo para aproximar-se dela. Há outros meios."

Jon saiu de detrás da árvore em que estava e olhou para o local onde ela estivera sentada por um longo tempo. Estava observando-a há muito tempo, pensando sobre ela, sobre sua família, sobre seu futuro. Não queria separar-se novamente dela, queria sua pequena Arya novamente entre seus braços. Onde estaria segura para sempre, ele garantiria isso.


continua...