Dangerous
por Clara e Doom
— x —
Capítulo II
Pansy POV
— x —
Revirei-me na cama, achando tudo muito estranho. Nunca acordei cedo num domingo, mas tinha certeza que aquele ar calmo e fresco indicava que ainda era madrugada. E acordar esse horário num dia sem aulas ou visita a Hogsmeade definitivamente não era algo que eu costumava fazer.
Os lençóis estavam enrolados em minhas pernas, então decidi ficar mais um pouco ali, mesmo que o dia prometesse ser caloroso e livre de qualquer clima ruim. Droga!
A verdade é que eu sabia qual era a preocupação que me mantinha acordada, desde a noite passada. Meu pai. Ele fora preso no Departamento de Mistérios, juntamente com outros Comensais da Morte e agora se encontrava em Azkaban.
Pessoalmente, isto não me afetava muito. Nunca fui apegada a ele, mas isso não significava que não era grata por todo o tempo que passou ausente, cuidando dos negócios de nossa família. Admirava-o muito, pretendia seguir seus passos no futuro, mesmo que a idéia fosse repudiada por minha mãe. Era nela que eu pensava neste momento.
Queria que o maldito período escolar terminasse logo para poder vê-la. Ela era determinada e nunca precisou recorrer ao meu pai antes de tomar uma decisão. Porém, Azkaban era diferente. Isso significava que estaria sozinha o tempo todo, cuidando dos maus negócios da família. E era nada mais que meu dever ajudá-la com isso.
Ergui os olhos para o enorme relógio de madeira na frente da minha cama, sete horas. Praguejei em voz alta sem me preocupar com as colegas de quarto inexistentes. Adorava ser monitora e ter um dormitório só para mim. Éramos os únicos com esse privilégio.
O professor Snape era um excelente diretor de casa, e, com certeza, o único a autorizar algo assim para os monitores-"mirins" de sua casa. Prefiro pensar que ele fez isso porque é competente, ao fato de que os sonserinos do quinto ano em 1991 o azaram tanto que ele não teve escolha a não ser aceitar o fato. E os corvinais dizem-se ser os mais inteligentes.
É claro que tinha de dividir o banheiro com o outro monitor, mas como se tratava de Draco Malfoy, eu pouco me importava com isso. O pai dele também estava em Azkaban e isso o afetava muito, mesmo que tentasse parecer impassível. Agora, Draco agia apenas para se vingar do idiota que os colocou lá: Harry Potter.
Mas é claro que eu não deixaria o maldito Potter ser assunto para ocupar minha mente naquela manhã, por isso me levantei após vencer a batalha com os cobertores que desenrolam pelas minhas pernas e caíram ao lado da cama.
Andei até a porta do banheiro e verifiquei o sinal de ocupado que lacrava a porta, denunciando a presença de Draco. Dei de ombros, andando até o armário para apanhar minhas vestes. Foi quando ouvi gemidos, vindos do banheiro. Apurei os ouvidos, mais próxima à porta de madeira. Um som entre risada e choro preenchia o vácuo, a voz de Draco soava amargurada.
Esmurrei a porta, já sabendo que ele não estava bom para companhia. Não importava. Ele resmungou e a maçaneta abriu com um clique, que me permitiu de empurrar a porta com facilidade.
"O que você quer?" perguntou, ranzinza.
Pelo jeito não sou só eu quem odeia acordar cedo. Não foi isso que respondi. Pressentia a atmosfera de perigo ao qual eu me encontrava.
"Partilhar experiências angustiantes com você.", respondi no mesmo tom.
"Achei que você vomitava só depois de tomar café.", ele zombou.
"E eu achei que você esperava eu sair do dormitório para vir se lamentar no banheiro."
Uma exclamação falsa de indignação desprendeu-se de sua garganta, então me aproximei.
"Muito engraçado, Parkinson." Ele disse, em tom ranzinza.
"Não, Malfoy. É bem trágico, na verdade" respondi, irônica.
Draco estava sentado no piso branco e gelado, os pés descalços e vestia um roupão negro, aberto sobre o pijama. Olheiras contornavam seus olhos cinzentos, gotas frias de suor escorriam pelas suas testa e bochechas esbranquiçadas, os lábios estavam secos e roxos. Já o vira numa manhã de ressaca, o que o fazia perder seu impecável ar de elegância, mas aquele ar melancólico era novidade.
"Então..." retomei, sentando ao seu lado "Quer dividir esse ar de derrota ou se livrar dele?"
"Ar de preocupação." Ele corrigiu instantaneamente.
"Com a sua mãe?" ele acenou positivamente, tirando uma carta do bolso interno do roupão. "O que é isso?"
"Ela escreveu dizendo que não suporta mais o Ministério invadindo a nossa casa..."
"...a procura de artefatos das Trevas.", completei já ciente. "Minha mãe escreveu também."
"Ela está doente." Informou-me, dobrando as pernas e colocando as mãos displicentemente sobre os joelhos.
"Só mais duas semanas até o fim do ano letivo, Draco."
"Eu sei. É que eu não suporto mais andar nesses corredores cheios de sangues-ruins e amantes de trouxas nojentos" cuspiu as palavras, enraivecido "Enquanto meu pai está... Aquele Potter, eu juro..." parou, enfurecido. "Vou matá-lo!".
"Ele vai pagar.", afirmei, "Cedo ou tarde, vai pagar."
"Eu sei." Ele suspirou cansado, levantando-se em seguida. "É estupidez esperar até cedo ou tarde para infernizá-lo, não é?"
"Acho que podemos fazer até mais que isso." Trocamos um ligeiro olhar cúmplice.
Ele saiu do banheiro, deixando-me sozinha para prosseguir com minha rotina matinal que só finalizava com o ritual de purificação após o café da manhã. Preço pago para preservar minha boa aparência.
— x —
Desci as escadas calmamente e avistei Malfoy saindo do salão comunal, acompanhado de Crabbe e Goyle. Apressei o passo para me juntar a eles, que provavelmente seguiam para os jardins, onde o restante dos alunos estava aproveitando as últimas semanas de aula.
Alcancei a entrada, e não consegui impedir Goyle de soltar a porta na minha cara quando saiu. Felizmente, eu a segurei a tempo de ouvir a voz de Malfoy do outro lado:
"Você está morto, Potter" seu tom era de ameaça, mas o grifinório não se intimidou, respondendo em seguida.
"Engraçado, você pensar que eu ia parar de andar por aí..."
Empurrei a porta mais um pouco e encostei o rosto próximo ao batente, onde podia enxergar duas sombras gigantes ao lado de Draco, que estava de costas para mim. Ele virou o pescoço para os dois lados do corredor, com certeza a procura de algum professor. Deu um passo à frente, encarando Potter.
"Você vai pagar" disse, num tom não muito mais alto do que um sussurro. "Eu vou fazer você pagar pelo que você fez com meu pai..."
"É, agora eu estou com medo" Potter usou um tom insuportavelmente sarcástico. "Eu suponho que Lord Voldemort seja só um aquecimento comparado a vocês três..."
Ele se vangloriava toda vez que pronunciava esse nome, mas eu jamais senti raiva dele por isso. Só sentia pena, pois era realmente idiota para achar que tinha alguma chance contra o Lord das Trevas.
"Qual o problema?" retomou, no mesmo tom petulante "Ele é um amigo do seu pai, não é? Você não está com medo dele, está?"
Senti Draco hesitar um momento, Potter jamais entenderia qual era a relação dele com o Sr. Malfoy.
"Você se acha tão corajoso, Potter" falou, Crabbe e Goyle avançaram alguns passos ao seu lado. "Pode esperar. Eu vou te pegar. Você não pode colocar meu pai na prisão..."
Jamais tive dúvidas de que Draco infernizava Potter apenas por prazer, mas naquele momento, eu tinha certeza que ele podia assassiná-lo apenas com a entonação de sua voz, completamente carregada de rancor. Potter não tinha idéia de quanto Draco gostaria de vê-lo derrotado e ter a chance de humilhá-lo por isso.
"Eu achei que eu tinha acabado de fazer isso."
Acho que tínhamos desejos semelhantes.
"Os dementadores deixaram Azkaban" disse Malfoy calmamente. "Meu pai e os outros estarão livres mais cedo do que você imagina..."
"É, eu espero que sim. Pelo menos todos já sabem a escória que eles são..."
Draco escorregou a mão pelo casaco até a varinha, mas Potter fora mais rápido que ele. Saí rapidamente dali, Crabbe ainda bloqueando minha passagem quando ouvi:
"Potter!"
A voz soou através do Saguão de Entrada. Snape acabara de subir a escada que saía no seu escritório, nas masmorras. Potter estreitou os olhos para ele, a varinha ainda segura na mão, apontando para Draco.
"O que você está fazendo, Potter?" - perguntou Snape com frieza, caminhando em nossa direção.
"Estou tentando decidir que feitiço usar contra Malfoy, senhor" Mas que idiota! Potter já sabia exatamente onde estava se metendo.
Snape o encarou. Poderia apostar que tiraria todos os pontos da Grifinória, se é que eles tinham algum. Sempre o admirei por ser o único professor a tratar Potter como ele realmente merece, um aluno metido e sem nenhum talento em especial.
"Guarde essa varinha agora" disse secamente. "Dez pontos para Grifi..."
Snape olhou para as ampulhetas gigantes na parede e deu um sorriso desprezível. Tudo isso graças ao nosso Esquadrão Inquisitorial.
"Bem, eu vejo que não há mais pontos para serem retirados da ampulheta da Grifinória. Nesse caso, Potter, nós simplesmente teremos que..."
"Adicionar mais alguns?"
Mcgonagall acabara de subir, com certa dificuldade, os degraus do castelo. Parecia mais velha do que nunca, apoiando-se numa bengala. Jamais ousaria dizer que era uma professora incompetente, mas apoiaria sua aposentadoria sem hesitar.
"Professora McGonagall!" disse Snape surpreso, indo em sua direção. "Eu vejo que saiu do St. Mungus..."
"Sim, professor Snape" ela respondeu, enquanto tirava a capa de viagem. "Estou praticamente como nova." Imagino o estado dela antes disso. "Vocês dois, Crabbe, Goyle..."
Ela chamou os dois de forma imperativa e eles se aproximaram rapidamente, desbloqueando minha visão. Draco, ainda de costas, não percebeu que eu estava ali, Potter e Snape encaravam McGonagall, que me lançou um olhar breve ao notar minha presença.
"Aqui" disse a professora, jogando sua mala de viagem no peito de Crabbe e sua capa sobre Goyle - "Levem isso para meu escritório."
Eles se viraram e subiram as escadas de mármore com seus passos pesados.
"Certo" - continuou, olhando para as ampulhetas na parede. – "Bom, eu acho que Potter e seus amigos devem receber cinqüenta pontos cada por alertarem o mundo sobre a volta de Você-Sabe-Quem! O que você acha, professor Snape?"
"O quê?" disse Snape, tentando disfarçar "Ah, bem... Eu creio..."
Ele não teve escolha a não ser aceitar os 200 rubis que caíram na ampulheta da Grifinória, quando McGonagall deu pontos ao Potter, ao Weasley, ao Longbotton e à sangue ruim da Granger. Isso sem contar aquela menina anormal do Corvinal, que também ganhou 50 pontos para sua casa. Mcgonagall ainda permitiu que Snape tirasse os 10 pontos de Potter, mas 190 pontos inúteis permaneceram na ampulheta.
"Bem, Potter, Malfoy, eu acredito que vocês deveriam estar lá fora num dia maravilhoso como esse" falou rapidamente, e Potter logo se adiantou para os jardins, provavelmente muito satisfeito por ter ganhado 190 pontos só dando uma voltinha no corredor.
Draco permaneceu estático, olhando para a direção em que Potter sumira e parecendo extremamente irritado. Aproximei-me, tentando imaginar o que ele estava pensando naquele momento. A julgar pela sua expressão facial, eu apostaria nas piores azarações que conhecia.
Mas havia algo que me confundia em seu rosto.
Um sorriso vago e satisfeito.
— x —
Todos os alunos têm um professor favorito, sem exceções. Pode até haver aqueles idiotas que adoram "puxar-saco" de todos eles, como a sangue-ruim da Granger, por exemplo. Mas na maioria das vezes é apenas um. O meu é o Snape, e aposto que o mesmo acontece com quase todos os outros alunos da Sonserina.
Assim como há um professor para gostar, há um para odiar. A candidata mais forte na minha lista é a professora Sinistra, seguida de perto por aquele gigante idiota, Hagrid. A fina linha que os separa é a da implicância. Desde meu primeiro ano, aquela velha apresentou um hobby estranho de me azucrinar.
Não tenho idéia do que seja, mas perder a paciência com ela no quarto ano não resultou bem. Acabei com uma detenção e uma mancha no meu currículo de aluna exemplar. Não causei mais problemas depois dessa vez, do contrário, jamais teria conseguido a posição de monitora que tanto desejava.
Por Merlin, até o jeito que ela pisca é entediante!
Apoiei os cotovelos na mesa e segurei o queixo com as mãos, controlando com dificuldade o ímpeto de cair no sono.
"Alguém pode me dizer a diferença entre a Astronomia e a Astrologia?" a mão de unhas mais mal cuidadas do universo se ergueu.
"Astronomia é a ciência que estuda a origem, a evolução, a composição, a distância e os movimentos dos astros e Astrologia a crença na influência da posição dos astros sobre a vida humana."
"Muito bem, Srta. Granger." sorriu-lhe. "Dez pontos para Grifinória."
Quase pude ouvir Granger exclamar baixinho, satisfeita. Weasley bocejou logo atrás, e cutucou Potter, debruçado sobre o pergaminho na carteira ao lado. Suspirei, mais alguns minutos e estava livre dessa aula durante dois meses.
"Essa será a grande tarefa para o verão."
"O QUÊ?"
"Exato, Srta. Parkinson. Assim como os outros professores, eu também vou designar uma tarefa para o verão. E acho que deveria apreciar essa decisão já que suas notas não têm sido as melhores esse ano." calei-me, irritada. Ela prosseguiu "Em dupla, vocês deverão elaborar um relatório sobre as diferenças e semelhanças entre a Astronomia e a Astrologia."
Que perda de tempo!
"Devemos incluir uma análise da astrologia envolvendo o horóscopo e os signos do Zodíaco, professora?" Granger perguntou, rabiscando o pergaminho rapidamente quando a professora respondeu.
"Exato, sugiro inclusive, que façam um mapa astrológico de alguém próximo a você, descartando é claro, aqueles com quem podem ter algum envolvimento emocional."
"Namorado?" Indagou uma corvinal à frente.
"Correto." Ela agitou a varinha, e vários escritos apareceram no quadro negro. "Aí estão as especificações da tarefa. Ela deverá ser entregue na segunda semana de aula, pois usaremos a primeira semana para concluir as comparações entre os mapas desenvolvidos pela dupla."
As penas que rabiscavam freneticamente os pergaminhos eram quase inaudíveis sob os burburinhos sobre quem escolher como "cobaia" para o projeto do mapa. Minha escolha já estava concreta, e não seria tão complicado, pois passaria grande parte do meu verão na casa dos Malfoy.
"Os mapas são diários ou semanais?" indagou Granger, sem tirar a pena do pergaminho.
"Diários.", respondeu a velha, levantando-se em seguida.
"A dupla deve interagir no verão para as comparações, ou somente quanto retornamos das férias?"
Por Merlin, será que ela não cansa de fazer perguntas?
"Devem se comunicar com freqüência, para analisar e facilitar o desenvolvimento do relatório final e..." Ela parou, como se algo lhe ocorresse de repente. "E já que está interessadíssima nesse trabalho, Srta. Granger, sugiro que sua parceira seja alguém que não está tão entusiasmada, mas deveria."
Era só o que me faltava!
"Parkinson, você já tem dupla formada." Uma sombra de um sorriso enfeitou seu rosto cadavérico.
"Mas professora..." Granger bem que tentou, mas Sinistra apenas acenou que a decisão era definitiva.
Um relatório a ser feito durante as férias de verão era ruim, mas dividi-lo com aquela sangue-ruim da Granger era o cúmulo! Não sei se agüentaria ler relatos como "o mês passou e eu continuo um traidor do próprio sangue pobretão e sardento" ou pior, "sou um herói imbatível contra os feitos das trevas, mas sou humilde".
Em meio a devaneios sobre um convite de Granger para visitá-la em sua casa trouxa e concluir o trabalho escolar, eu não percebi que a professora acenava para a classe, indicando o fim da aula.
"O restante pode escolher o parceiro que preferirem." Ela disse, sem esconder o sorriso quanto me encarou.
Alguma dúvida do porquê que eu a odiava?
— x —
Perfumes. Jóias. A filha de Mcnair está grávida. Paris. Veneza. A vizinha sangue-ruim de alguém morreu envenenada. Ministério da Magia. Beco Diagonal... Quanto tempo leva para cumprimentar uma pessoa afinal?
"E para onde acha que o Sr. Olivaras fugiu?"
"Não sei, aquele velho sempre foi um tanto maluco e..."
Procurei um par de olhos cinzentos naquele salão de festas, mas eram tantos convidados (e mais da metade, eu desconhecia) que eu jamais conseguiria encontrar quem procurava. Rolei os olhos para mamãe e minha madrinha Narcisa, que agora comentavam sobre o vestido ridículo de uma das convidadas.
"Sra. Malfoy" interrompi impaciente "Onde está Draco?"
Ela me olhou como se tivesse notado minha presença somente naquele momento, lançou um breve olhar à multidão de convidados e desviou para a escadaria, que levava ao segundo piso da mansão.
"Eu acho que ele já se retirou" disse, pesarosa "Não estava sentindo-se bem hoje"
"Mas não receber os convidados em sua festa de aniversário é falta de educação" mamãe alfinetou.
"Draco cumprimentou todos que chegaram antes das 9 horas, Vallie" Narcisa defendeu, exasperada.
Sem pedir licença e duvidando que ela fosse necessária, eu me adiantei até a escadaria. Subi alguns degraus apenas para notar a sombra inconfundível de Crabbe e Goyle se esgueirando pelo corredor que levava à cozinha. Dois esganados, pensei quando alcancei o patamar.
Não visitava aquela mansão há alguns meses, mas ela parecia bem mais vazia depois das inúmeras inspeções do Ministério. Segui pelo carpete azul-marinho até o quarto de hóspedes, onde encontrei meu malão - que havia chegado pela manhã. Já estava aberto. Minhas roupas, livros e acessórios organizados na penteadeira e escrivaninha.
Apanhei o embrulho sobre a cama e deixei o cômodo.
Quando cheguei à porta do quarto de Draco, notei algo diferente. A maçaneta era dourada? Bati duas vezes e ouvi uma voz abafada alguns segundos depois.
"A maçaneta parou de funcionar?" e novamente a voz ranzinza.
"Draco, é a Pansy." Alguns passos e a porta se abriu.
"O que você quer?" perguntou, apoiando-se na da porta.
O que eu fiz para ele usar aquele tom enjoado?
"Quero brincar de casinha" respondi sorrindo, e desviei do seu braço para entrar no quarto. "Você está bem?"
Assim como o resto da casa, o cômodo parecia mais vazio. Percebi que alguns móveis haviam mudado de lugar, para dar espaço à mesa de estudo duas vezes maior do que a escrivaninha de mogno que Draco jamais usara. Havia muita coisa espalhada ali – livros, pergaminhos, tinteiros e vários recortes de jornal. Aproximei-me, notando um artigo onde as palavras "... Harry Potter, O ESCOLHIDO?" destacavam-se e sobre ele estava outro, com o termo "Garoto-Que-Sobreviveu" sublinhado. Só percebi que Draco estava ao meu lado quando o mesmo apanhou os recortes rapidamente, jogando-os de qualquer jeito numa gaveta.
"Vejo que se manteve ocupado." Comentei, estranhando sua atitude. "Conseguiu adiantar algum dever de Transfiguração?"
"Não. Estava ocupado com os 50 centímetros de História da Magia" disse, jogando um último recorte na gaveta, que trancou em seguida. "Sua mãe também veio?"
"Sim. E criticou você por não estar recepcionando seus convidados como deveria."
"Os convidados são da minha mãe." Defendeu-se, irônico.
"É o seu aniversário."
"Já comemorei." ele andou até o sofá próximo à janela e se livrou das almofadas antes de se sentar.
"Você só ficou 10 minutos na sala comunal."
"Disse a ela que não queria outra festa esse ano."
"Velhos hábitos, velhos hábitos..." conclui, apoiando as costas na estante de livros.
Narcisa sempre fazia uma festa para Draco um mês depois de seu aniversário. Dizia que não poderia comemorar com ele enquanto estivesse na escola, e, também, arrumava qualquer desculpa para festejar. Não achei que faria tanta questão depois da prisão do Sr. Malfoy, mas parece que me enganei.
"Então, vai me dar o presente, ou não?"
Só então percebi que ainda segurava o embrulho.
"Se aceitar com o atraso." Atirei o presente na direção do loiro, que o apanhou no ar.
Caminhei até a janela enquanto ele se ocupava em desembrulhar. Afastei a cortina e observei alguns convidados perambulando pelo jardim antes de virar-me para Draco. Ele não estava muito diferente daquela manhã no banheiro do dormitório, exceto pelas olheiras, que se destacavam ainda mais agora. Usava um terno verde-escuro, uma escolha feita por Narcisa obviamente, mas a gravata já estava desfeita e os pés, descalços.
"O Horóscopo Maldito" leu em voz alta. "O que é isso?"
"A parte mais divertida do meu trabalho sobre Astrologia." Ele franziu a testa, e abriu o livro sem muito ânimo. "Falando nele..."
"Eu preenchi aquele mapa idiota, se é isso que vai perguntar."
"Sim, é um mapa idiota." Concordei, sem me importar com a rudeza dele "E não se preocupe, porque posso terminá-lo sozinha enquanto estiver aqui na mansão. Só não quero que Granger pense que terá de me ajudar com isso também."
"Os signos estão classificados de acordo com a data de nascimento..." ele leu, numa imitação da Sangue-Ruim ao responder um pergunta "Você é de outubro, né?"
"Sim, dia 25."
Ele avançou algumas páginas.
"Escorpião, 23 de outubro a 21 de novembro" leu em voz alta, pausando em seguida.
Um leve sorriso formou-se em seu rosto conforme seus olhos seguiam as linhas.
"O que diz?" indaguei, curiosa.
"Você é o pior de todos. Desconfiado, vingativo, obsessivo, rancoroso, vagabundo, frio, cruel, antiético, sem caráter, traidor, orgulhoso, pessimista, racista, egoísta, materialista, falso, malicioso, mentiroso, invejoso, cínico, ignorante, fofoqueiro e traiçoeiro. Um canalha completo. Só ama sua mãe e a si mesmo. Aliás, alguns de vocês não amam nem a mãe. Você é imprestável e deveria ter vergonha de ter nascido. Escorpianos são tiranos por natureza. São ótimos nazistas ou fascistas. Adora pisar os outros e tem um orgasmo quando vê alguém no buraco. Pelo bem dos outros signos do zodíaco, os escorpianos deveriam ser todos exterminados."
Uau!
Draco me olhava intrigado, dei de ombros em resposta.
"O que são nazistas?" por um segundo, ele pareceu avaliar a pergunta.
"Não faço idéia." Respondeu, fechando o livro e analisando a capa. "Onde conseguiu isso?"
"Granger me deu um exemplar no Expresso de Hogwarts" Respondi, e me aproximei da pilha de presentes sobre a cama de Draco. "Disse que eu poderia gostar."
"E pelo jeito, estava certa." Falou, largando o livro no sofá com certo desprezo.
"Não podemos negar que Granger é inteligente, Draco." Comentei, procurando um embrulho vermelho na pilha.
"Na frente dela, sim." Gargalhamos juntos. "Os chocolates estão embaixo do cachecol." Retomou, sem muito ânimo.
"Você já disse à sua tia que odeia chocolates?" perguntei, apanhando a familiar caixa de bombons que Draco me obrigava a comer todos os anos. Devolver presentes é uma infâmia.
"Acho que ela é de Aquário..." Comentou irônico, segurando novamente o meu presente. "...comete os mesmos erros repetidamente porque é imbecil e teimoso."
"Não disse que era divertido?" andei até a mesa de estudos, e sentei numa das cadeiras. "Está pronto para a carga de deveres que pretende terminar até a semana que vem?"
Ele desviou os olhos do livro e marcou uma página enquanto se levantava, seguindo na minha direção.
"Estou pronto." Pegou os livros de Hogwarts na estante e colocou-os sobre a mesa.
"Você ainda não me disse o porquê da pressa nos deveres..." ele parou, apoiando as palmas na mesa "Tem algo mais para fazer depois deles?"
Não respondeu de imediato, ajeitando a manga do casaco. Apanhei mais um bombom, sem deixar de fitá-lo.
"Descansar... É isso que pretendo fazer." Esfregou a manga do casaco novamente, "Seus livros estão do quarto de hóspedes?"
"Vou buscá-los."
"Eu pego. Vou ordenar aos elfos que me tragam algo da festa." Explicou-se "Você quer?"
"Só água." E indiquei a caixa de bombons sobre a mesa, ouvindo-o deixar o cômodo em seguida.
Apanhei mais um bombom e fechei a caixa. Abusei demais por hoje. Puxei a pilha de livros que Draco havia colocado sobre a mesa e comecei a separar as matérias mais fáceis. Encontrei o exemplar do "Horóscopo Maldito" no fim da pilha e notei que a página do signo Leão estava dobrada. Antes que pudesse me lembrar de qualquer pessoa nascida entre 22 de julho a 22 de agosto, ouvi a porta do quarto se fechar e Draco entrar, carregando meus livros.
Sentou-se à minha frente e puxou o livro de minhas mãos.
"Pensei que a Granger tivesse mandado um para você." Ele parecia um tanto irritado por eu ter aberto o livro.
"Por onde quer começar?" Desviei do assunto, e abri a caixa de bombons novamente.
"Poções, obviamente." Ele apanhou o livro na "pilha das matérias mais difíceis" e abriu na página solicitada por Snape.
Depois de 40 centímetros de redação sobre os efeitos colaterais da poção do esquecimento e mais 40 sobre a utilidade da mesma, comecei a juntar todos os ingredientes precisos para prepará-la no caldeirão de Draco. Eu já estava cansada e com sono, mas ele queria adiantar o exercício a todo custo.
"Tem certeza que não quer parar por aqui?" tentei mais uma vez, bocejando em seguida.
"Que tipo de idiota deixaria uma poção pela metade?"
"Um que está com sono."
"A minha festa nem acabou."
"Mas já são duas..."
"Ok, já adicionamos as urtigas." Interrompeu-me, observando a fumaça mudar sua coloração de vermelho para roxo. "Isso era para acontecer?"
Consultei o livro.
Droga! Era para ficar azul.
"Claro."
"E agora?"
"Aqui. Você tem que descascar o pinhão." Joguei o ingrediente para ele.
Ele paralisou, a boca entreaberta. Não pude identificar sua expressão em meio àquela fumaça violeta, mas hesitei um momento antes de perguntar.
"Draco? O que foi?"
A resposta não veio.
"Qual é o problema?"
Ele chacoalhou a cabeça, afastando algo de sua mente.
"Nada." E apanhou um canivete em seguida.
Duas coisas não aconteceram àquela noite. Draco não conseguiu descascar o pinhão e o dever de poções não foi concluído.
— x —
Tive uma ótima estadia na casa dos Malfoy naquele verão, ainda que Draco não tivesse passado tanto tempo comigo como costumava fazer antigamente. Começou a se ocupar assim que terminamos os deveres de Hogwarts e passava grande parte de seu tempo trancado no quarto. Às vezes, nem descia para jantar. E como eu ainda trabalhava no relatório de astronomia e respondia às freqüentes corujas enviadas por minha mãe, não sobrava muito tempo para questioná-lo.
Suspeitava que a prisão do Sr. Malfoy pudesse tê-lo afetado mais do que ele imaginava e parei de perturbá-lo quando notei trechos explicativos em seu mapa astrológico. "Este aspecto torna você menos sociável. Ficar a sós consigo mesmo é o que esse aspecto recomenda, pois o contato com pessoas à sua volta pode irritá-lo ou torná-lo mau humorado. E esta atitude será certamente mal interpretada. Quando este aspecto se desfizer, tudo voltará ao normal."
Talvez fosse uma questão de tempo até tudo voltar ao normal.
Na manhã do dia em que visitaríamos o Beco Diagonal, alguém entrou mais cedo em meu dormitório. Sacudiu os cobertores para que eu acordasse, o que não demorou muito a acontecer. Já estava pronta para azarar o maldito que me despertou às 6 da manhã, quando percebi o dedo indicador de Draco, pedindo silêncio.
"Acorde logo antes que minha mãe venha te chamar." Ele falou num sussurro, sentando na beirada da cama.
"O que foi?" imitei sua voz.
"Preciso de um favor." Sustentei seu olhar firmemente, a curiosidade tomando o lugar do sono "Minha mãe não nos deixou ir sozinhos ao Beco Diagonal, acho que desconfia de alguma coisa."
"Desconfia do que?"
Eu também quero saber.
"Só preciso que você a distraia enquanto eu vou à Borgin e Burkes."
"Por que?"
"Porque quero ficar a sós com ele. Pode fazer ou não?" Falou impaciente e irritado.
"Só se você me contar o que faz tanto tempo trancado em seu quarto." Ele fechou a cara. "Eu li coisas estranhas em seu mapa e..."
"Você mesma falou que não acreditava naquele mapa idiota, então pare de me analisar pelas idiotices que escreve nele." Ele cuspiu as palavras.
"Se me contar, não preciso ficar adivinhando."
"Não é da sua conta." Jamais o vira tão irritado antes, principalmente comigo.
Certo. Contra-ataque.
"Se não é da minha conta, por que devo ajudá-lo?" falei, puxando as cobertas para cima novamente. "Nem preciso ir ao Beco Diagonal, minha mãe já mandou os uniformes e livros que vou..."
"Certo Pansy, você venceu." Endireitei a postura, animada "Mas precisa fingir que nunca viu o que vou te mostrar." Sua voz estava mais baixa e de certa forma, parecia ameaçadora.
"Já te dei motivos para não confiar em mim?"
"O seu Horóscopo Maldito diz que você é traidora, mentirosa e fofoqueira."
Rolei os olhos, descrente de seus argumentos.
"E vamos levar a sério o livro que a Granger recomendou?"
"Você disse que gostou dele..."
"Porque é divertido e não porque é verdade." Ele hesitou, o que me fez dar de ombros, derrotada "Prefere se prevenir com um feitiço?"
"Não." Ele escorregou o corpo no colchão, e esticou o braço. "Eu confio."
Meu sorriso desapareceu quando ele puxou a manga do pijama, mostrando a marca negra tatuada no braço. Posso assegurar que minha reação foi um tanto confusa. Um grito de surpresa ficou preso na garganta, mas a sensação era de que aquilo era previsível. A cobra saía do crânio negro e parecia se mover na pele alva de Draco.
Minha voz saiu baixa, quase imperceptível.
"Sua mãe..."
"Ela sabe, mas prefere fingir que não." Ele baixou os olhos para a serpente, e depois me encarou "Estava desesperada, mas parece que minha tia ajudou de alguma forma."
"Sua tia?" consegui dizer, abismada "A Comensal?"
"Mamãe a visitou há algumas semanas e voltou mais calma."
Fitei seu braço longamente, antes de perguntar.
"Dói?"
"Bastante" Silêncio, "E o meu plano?"
"Pode me ajudar a escolher um perfume, Sra. Malfoy?"
— x —
"Tenho que ir agora Draco" a voz de Narcisa estava embargada, como se fosse cair no choro a qualquer momento. Abraçou Draco e se afastou devagar. "Tome cuidado."
"Ok, mãe." O loiro acenou para ela, que desaparatou em seguida.
A estação King Cross estava tumultuada. Pais despedindo-se dos filhos, alunos empurrando grandes malões na plataforma, corujas fugindo de suas gaiolas e... Um sapo!
"Ai!" agarrei o ombro de Draco involuntariamente, quando aquele bicho verde pulou na minha direção. Já ia chutá-lo, mas um garoto moreno ajoelhou na minha frente.
"Desc... Desculpe." Ele pediu, desajeitado.
Só podia ser Longbotton mesmo.
"Acho melhor mandar seu sapo amarrar um coleira em você, Longbotton." Disse Draco, fazendo as bochechas do grifinório corarem.
Quando finalmente conseguimos despachar os malões, Crabbe e Goyle se juntaram à nós. Draco ordenou que conseguissem uma cabine espaçosa e os dois obedeceram, abrindo espaço enquanto empurravam os primeiranistas para fora do caminho.
"Temos que ir a cabine dos monitores antes" falei, puxando seu braço para a frente do trem.
Draco não se moveu, encarando um ponto fixo por cima do ombro. Segui seu olhar para a barreira da plataforma, onde Harry Potter acabara de atravessar. Um homem de terno o acompanhava. Potter tirou as mãos do homem de seus ombros, se dirigindo à Granger e Weasley em seguida.
"Draco?" chamei, mas ele já caminhava em direção ao Testa-Rachada.
"Não podemos, Harry" dizia Granger numa voz abatida "Ron e eu temos que ir para a cabine dos monitores, receber instruções e depois patrulhar os corredores, infelizmente."
"Tinha me esquecido" lamentou-se Potter.
Não parecia ter notado que estávamos a poucos metros dele, observando-os.
"Guarde um lugar na cabine, iremos lá depois" Ele colocou a mão sobre o ombro de Potter e falou algo que o fez rir, mas o que quer que fosse, foi abafado pela voz esganiçada da mãe dele.
"Vamos logo para o trem, vocês têm que ir, falta só um minuto." Ela gritava, desesperada. "Bem, tenha um ótimo ano, Ron... E não deixe Harry sozinho."
"Tá, mãe" ele falou, seguindo Granger para o trem.
Os olhos de Draco pareciam faiscar na direção da dupla de monitores e antes que eu pudesse chegar a qualquer justificativa para sua atitude, ele puxou meu braço de leve.
"Vamos também."
Quando chegamos à cabine dos monitores, apenas Granger e Weasley haviam chegado. Eles conversavam animadamente até notarem nossa presença.
"Sabe Granger, a diferença entre um sangue ruim e um traidor do próprio sangue são mínimas" falou Draco, sentando-se no banco vazio. "Tsc, tsc... Achei que você fosse mais inteligente."
O ruivo já estava pronto para avançar contra o loiro, mas a amiga segurou seu braço.
"Quero dizer, pelo menos o Potter tem todo aquele status exagerado."
"Me solta, Mione." vociferava Weasley, enquanto eu ria do esforço de Granger para não causar confusão.
"Deixe Ron." Falou, puxando o Weasley para sentar no banco próximo a janela. O ruivo se acalmou alguns segundos depois, e permanecemos em silêncio até que os demais monitores estivessem presentes.
Padma Patil foi a última a chegar, com a desculpa esfarrapada de que confundira sua mochila com a da irmã. Na verdade, ela estava se agarrando com um dos batedores de quadribol da Lufa-Lufa desde que chegara à estação.
"Acho que podemos começar, então." Retomou Granger, receosa.
"Não é melhor esperar o namoradinho da Patil?" Draco alfinetou, impaciente. "Pelo jeito, os dois não desgrudam mais."
"Eu não..."
"Por que não vai se reunir com a turminha do Esquadrão Inquisitorial, hein Malfoy?" Weasley tinha resposta desta vez, e não terminou ali. "Ou quem sabe uma reunião familiar com o seu pai e os outros Comensais fajutos?"
Ao contrário de Weasley e Potter, Draco não costumava reagir com agressão. Porém, algo me impulsionou a segurar seu pulso quando ele se levantou. Granger se encolheu na parede, aflita e os demais monitores pareciam atônitos que Weasley tivesse dito aquilo.
"Se voltar a falar do meu pai Weasel, juro que vai se arrepender" sua voz saiu muito fria e baixa. "Afinal, alguns comensais fajutos que escaparam são da minha família. E você não é o único Weasley da sua." O grifinório até empalideceu e Draco deixou a cabine.
Permaneci sentada, sabendo que não adiantaria seguí-lo. A tensão esvaeceu assim que Granger voltou a sugerir o começo da reunião e finalizou depois de 20 minutos inúteis organizando os horários noturnos de patrulha nos corredores de Hogwarts.
Duvido muito que permitam alunos perambulando à noite nos corredores esse ano.
Apanhei minhas coisas rapidamente, imaginado se a cabine escolhida por Crabbe e Goyle ficava nos últimos vagões.
"Parkinson!" Granger chamou, receosa. Virei-me para ela, impaciente.
"Pois não?"
"Não sei se recebeu alguma coruja minha, mas..."
"Não recebi." Interrompi. Será que ela realmente achou que eu passaria o endereço certo? "Se for sobre as comparações dos mapas, podemos fazer essa semana."
"Sim, podemos." Ela tirou um caderno pequeno e de capa dura e esticou para mim. "Você pode fazer o seu relatório e me devolver daqui quatro dias, sim?"
"Por que quatro dias?" ela deu de ombros. "Acha que eu preciso de um dia a mais que você só porque não amo astronomia?"
"Claro que não."
"E demoro mais tempo para fazer comparações estúpidas entre dois mapas com trechos de quatro linhas por dia?"
"Me devolva na terça então."
"Ótimo." Peguei o caderno e fitei-a um segundo, antes de dizer "Oh droga, esqueci que marquei de fazer minhas unhas com a Madeline na segunda. Vou precisar dos quatro dias."
"Certo..." Por um momento, ela pareceu se irritar.
"Aliás, Madeline é ótima. Eu recomendo." Ela franziu o cenho. "Principalmente para você."
— x —
Confiando na estupidez de Crabbe e Goyle, eu tinha quase certeza que haviam escolhido uma cabine no último vagão do trem. Fiz meu trabalho de monitora, patrulhando o caminho até lá. Ao entrar, notei que havia um sonserino em falta ali.
"Onde está Zabini?" Perguntei, sentando-me num espaço vazio no banco.
"Foi convidado para o clube do Smug" Goyle respondeu, cuspindo farelos de biscoito.
"Slug, seu imbecil." Disse Draco, o olhar perdido nas planícies vistas através da janela.
"Foi convidado para o clube do Smug" Goyle respondeu, cuspindo farelos de biscoito.
"Slug, seu imbecil." Disse Draco, o olhar perdido nas planícies vistas através da janela.
"Você está bem, Draco?" escorreguei para mais perto.
"Estou ótimo." Respondeu, sem desviar o olhar "Só um pouco cansado."
"Quer deitar?" ele não respondeu. Apenas colocou a cabeça no meu colo e fechou os olhos.
Crabbe e Goyle fitaram-me estranhamente, mas prosseguiram com sua leitura de gibis, provavelmente entendendo somente as figuras. Zabini apareceu alguns minutos depois, travando uma luta com a porta antes de sentar e sendo expulso por Draco, que voltou a deitar no banco espaçoso.
"Então, Zabini." Falou de repente "O que Slughorn queria?"
Zabini contou sobre o Clube do Slug e todos os convidados da festinha, que incluía Potter, Longobotton e a irmã sardenta do Weasley. Foi a minha vez de observar as planícies, até Draco dizer algo extremamente preocupante.
"...não estarei em Hogwarts no próximo ano, qual o problema para mim se um homem velho gosta de mim ou não?
"O que você quer dizer, com não estar em Hogwarts no próximo ano?" perguntei indignada, soltando seus cabelos.
"Bem, você nunca saberá." Ele disse.
Discordei internamente. Se me confiara o segredo da marca, o que mais poderia esconder?
"Meu poder será... Er, bem... Usado em coisas maiores e melhores."
"Você quer dizer..."
"Minha mãe quer que eu complete meus estudos, mas pessoalmente, eu não acho isso importante nessa altura."
Voltei para as planícies, notando claramente sua intenção em relação aos meninos. Queria intimidá-los, o que achei completamente desnecessário, pois a única coisa que Crabbe e Goyle não fariam era beijar o caminho antes de Draco passar. E isso poderia ser resolvido com uma simples ordem.
"Talvez ele nem ligue para o meu aprendizado da escola." Continuou, referindo-se ao Lorde das Trevas "Talvez o trabalho que ele quer que eu faça não seja algo que precise estar qualificado assim"
Ora! Para que pedir segredo se ele estava prestes a contar à todos os seus segredinhos?
"Eu posso ver Hogwarts..." retomou, endireitando-se no acento. "Seria melhor nós trocarmos nossas vestes agora."
O trem já estava desacelerando quando terminamos de nos vestir. Entreguei minha maleta à Goyle, que saiu na frente com Crabbe e Zabini. Draco procurava algo nos bagageiros.
"Vá você." ele disse, quando percebeu minha mão estendida. "Eu quero checar uma coisa."
Franzi o cenho, confusa, e sai da cabine. No entanto, acabei resolvendo permanecer no corredor. As cortinas se fecharam às minhas costas, então esperei até todos os alunos saírem do corredor para encostar a orelha na porta. Ouvi um ruído seco, Draco abria sua mala, provavelmente.
"Petrificus Totalus!" Ele berrou e algo despencou com um baque. "Eu pensei ter ouvido o estômago do Goyle roncar. E pensei ver um relampejo branco no ar depois de Zabini voltar..."
Com quem ele estava falando?
"Você não ouviu nada que possa me comprometer, Potter."
Um homem apareceu no corredor, encarando-me.
"O que está fazendo garota?" afastei-me da porta, vendo-o fazer um sinal apressado com as mãos "Quem está aí?"
"Ninguém" respondi imediatamente, apanhando minha maleta no chão.
"Isso é por meu pai." A voz de Draco saiu abafada e foi a última coisa que ouvi antes de seguir o homem para fora do trem.
— x —
"Draco?" sibilei, quando ele se aproximou da mesa da Sonserina em passos apressados e sentou de frente para mim. "O que você fez com o Potter?"
"Nada que ele não tenha merecido." Ele sussurrou, parecendo muito satisfeito.
"Mas onde ele..." fui interrompida pela voz cansada do diretor que fez o costumeiro discurso de início do ano letivo, advertindo os alunos sobre a segurança e as demais informações que sequer ouvi.
Olhei de esguelha para a porta do salão, tentando adivinhar o que Draco fizera com Potter, para que o mesmo não estivesse presente naquele momento. A seleção dos alunos do primeiro ano aconteceu de forma muito rápida. E, quando o banquete se iniciou, Potter apareceu na porta do salão.
Andou rapidamente até Granger e Weasley, a camisa ensangüentada. Só então percebi que Draco começara a narrar o que ocorrera na cabine, fazendo gestos de como quebrara o nariz de Potter e quase o despachara de volta à Londres.
Ajeitei meu casaco sobre os ombros, já cansada da conversa idiota das garotas sentadas ao meu lado. Puxei o caderno de Granger, analisando o mapa astrológico de... Harry Potter?
Esplêndido!
Apanhei o mapa de Draco no bolso interno do casaco, dando graças a Merlin pelo escolhido não ter sido Weasley. Tentei me lembrar do que havia escrito no mapa aquela manhã, então reli minhas anotações.
"Sua vida emocional pode ser abalada por algum acontecimento imprevisto ou em decorrência de algum gesto impulsivo. Pode haver uma mudança em seu íntimo ou apenas um início de um novo relacionamento."
Gesto impulsivo? Novo relacionamento?
Dei de ombros, abrindo o mapa de Potter em seguida.
"Você detém uma grande quantidade de energia concentrada, principalmente física. Uma ótima válvula de escape para diminuir um pouco a pressão é praticar alguma atividade física ou desenvolver algum esporte."
Atividade física?
Pelo jeito Potter terá de se contentar com Quadribol, pois fofoca de garota era a única coisa que jamais ouvi a seu respeito. Será que ele tinha tempo para isso? De repente, me vi divagando sobre a vida amorosa do garoto-cicatriz.
Certo, Pansy. Concentre-se!
Comparações... Comparações... Raciocinei por um momento.
Draco:
gesto impulsivo.
Potter:
válvula de escape.
Fitei Draco e notei seus olhos
fitando um ponto fixo ao longe, talvez na mesa da Grifinória.
Ele sequer piscava, segurando a colher cheia de purê no ar.
Virei o rosto para notar Potter rindo de algo que Weasley parecia
representar.
Certo.
Draco: vida emocional abalada.
Potter: energia física, principalmente.
Qual a relação entre eles?
Talvez a minha resposta não estivesse nos mapas.
— x —
Próximo capítulo: (Retornando à era pós-HBP) O encontro de Draco Malfoy, Harry e os irmãos Weasley na Casa dos Gaunt...
— x —
PS: As rewiews anônimas já podem ser enviadas. Sorry, people xD. Foi um pequeno erro técnico.
