Dangerous
por Clara e Doom
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Capítulo III
Ginny POV
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Draco Malfoy.Dá pra acreditar nisso?
Esse cara era uma das últimas pessoas que eu esperava encontrar tão cedo, ainda mais em tais circunstâncias. Eu não saberia dizer quanto tempo se passou com nós quatro nos encarando feito retardados, completamente sem ação, sem esboçar um mínimo ruído. Malfoy olhando para nós, e nós olhando para Malfoy. Em um desses intermináveis segundos, lembro-me de ter olhado para Harry, e depois para Malfoy, voltando para Harry de novo.
E foi aí que reparei: Malfoy não encarava a nós três. Seu olhar estupefato fixava Harry. Apenas Harry.
E Harry o encarava de volta da mesma maneira.
Este momento todo foi breve, na verdade muito breve, apesar de minha descrição exagerada. Foi uma questão de segundos arrastados, que logo terminaram numa ação repentina de Draco Malfoy.
"Estupefaça!", ele gritou, quebrando o silêncio pesado que se instalara naquele ambiente desde que nós chegamos. Seu tom de voz elevado nos sobressaltou.
Eu gritei. Horrorizada de susto vi que o feitiço de Malfoy atingiu Ron em cheio. Ele despencou pesadamente ao meu lado.
Mesmo assim, sem ter tempo para pensar, arrumei forças para sacar minha varinha. Mesmo que não fosse atacar, no mínimo iria me defender.
Harry já estava em posição de ataque, afastado alguns passos de mim e de Ron. Ele investia feitiços em Malfoy, mas este bloqueou todos, e contra-atacava de volta.
As vozes dos dois me deixaram tonta. Eu queria abaixar-me até o meu irmão, mas ao mesmo tempo me juntar a Harry e ajudá-lo a acabar com Malfoy. No entanto, havia algo estranho no ar...
Como vou explicar?
Era como se houvesse uma barreira intransponível que ocultasse aquele duelo. Como se cada um deles, Harry e Malfoy, estivesse dando mais do que a fúria, o ódio e a determinação para acabar um com o outro. E eles não paravam. Às vezes gritavam ao mesmo tempo, cada vez mais alto, seus feitiços se encontrando e ricocheteando em direções opostas. Vários objetos da casa foram para os ares, completamente destruídos. Não havia como, eles não paravam...
Mesmo assim, eu tentei. Eu tinha que fazer alguma coisa, afinal.
Corri até Malfoy. "Petrificus Totalus!".
Ele me bloqueou. Harry, que estava do outro lado, aproveitou para investir outro feitiço nele.
Malfoy se desvencilhou com o corpo mesmo, e por pouco não se desequilibrou completamente.
"Petrifi...", eu gritei de novo. Incompletamente, porém, porque Malfoy me acertou um feitiço a tempo.
Minha varinha e eu fomos lançadas para longe. Por sorte, minha cabeça não bateu em nada perigoso o suficiente, mas a queda bastou para que eu visse estrelinhas amarelas em plena luz do dia.
Diabo de loiro azedo!
Ele e Harry continuavam duelando. Abri os olhos lentamente, convencendo-me de que meus ossos ainda estavam inteiros, enquanto assistia àqueles dois se atacarem com cada vez mais fúria. Eu via as sobrancelhas de Harry se contraindo de concentração, os sorrisos esporádicos e maliciosos de Malfoy cada vez que o outro errava a direção do feitiço, os móveis pequenos que eles derrubavam quando topavam sem querer...
Era impressionante. Eu podia apalpar o ódio no ar se eu quisesse.
Mas em um momento, começando a somente bloquear os feitiços de Harry, Malfoy correu até uma janela aberta, ao lado de um sofá derrubado. Agilmente, debruçou-se no parapeito e içou o corpo para fora.
"Petrificus Totalus!", fora o berro estridente e desesperado de Harry. Seu feitiço, contudo, passou raspando pelo calcanhar de Malfoy.
Mas ele não desistiu. Mesmo depois do corpo de Malfoy ter sumido completamente, Harry correu até a janela e içou-se para fora, do mesmo jeito que o outro.
De onde eu estava, ouvi o baque dos pés dele caindo no chão. E ele correu, foi mesmo atrás de Malfoy.
Eu sabia que podia me mexer. E que conseguiria ficar de pé. Porém, mais do que tudo isso, que eu tinha que ver até onde essa história iria acabar.
Sabe-se lá o que aconteceria se esses dois recomeçassem a duelar por aí...
Debrucei-me sobre Ron – que por sorte estava perto de mim – e acariciei seus cabelos, afastando-os de sua testa. Com um pouco de dificuldade, fiquei de pé e apanhei minha varinha de volta com um feitiço.
Andei o mais rápido que pude em direção à porta aberta, ignorando completamente a sensação de ter um redemoinho dentro da minha cabeça, e torcendo para que ao menos os meninos tivessem deixado pegadas no chão.
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Não havia pegadas no chão. Droga!
Também pudera. As árvores do lugar, em sua grande maioria, eram pinheiros, o chão estava repleto de pinhas caídas!
Eles não podiam estar tão longe assim. Eu iria achá-los. Ou não me chamava Ginevra Weasley.
Fui andando o mais rápido que podia – cambaleando um pouco devido à tontura – apoiando-me nas árvores e tentando não pisar nas pinhas. Redobrei a atenção, porque nada, nem um mísero ruído podiam me escapar, já que qualquer coisa serviria de guia para o meu intento.
Fui seguindo, franzindo a testa para o sol vespertino que cada vez mais forte. Quase escorreguei quando pisei numa das pinhas, e já ia xingar alto quando algo me interrompeu em tempo.
"... Malfoooy!".
Ahá! Eu podia gritar em comemoração! Infinitamente mais atenta, eu segui a direção daquele som tão remoto, mas inconfundível.
Continuei caminhando, pensando que a qualquer momento eu voltaria a ouvir a voz de Harry.
E ouvi: "... aqui, Malfooy!".
Faltava pouco, mas eu ainda não avistara nenhum dos dois.
"Levicorpus!".
Agora sim! Próximo de um dos pinheiros, bem mais à frente, alguma coisa branca e próxima do chão riscou o ar rapidamente. O tênis de Harry, só podia ser!
Segui, e finalmente consegui correr.
Fez-se um estampido alto. Parei automaticamente, procurando algum dos meninos à volta, mas não vi ninguém. E se eu não estivesse imaginando coisas, diria com toda a segurança que aquele ruído se originou de uma desaparatação.
Mas de quem, por Merlim?
Malfoy? Sim... ora. Por que Harry desaparataria agora? Era meio improvável.
E se fosse alguém aparatando?
É melhor eu parar de imaginar coisas e ir atrás deles. Se eu não quisesse congelar de medo ali mesmo.
Continuei correndo pela mesma direção, até que finalmente avistei o semblante de Harry. Ele estava parando de correr. Fiz a mesma coisa, escondendo-me atrás de um pinheiro particularmente largo e grande.
Agora avistei Harry completamente. Ele girou em torno de si mesmo, a varinha ainda em riste. Seu rosto estava suado, vermelho e dava pra ouvir ele ofegando da minha distância.
"Malfoy!", ele gritou, esganiçado. "Malfoy!", de novo, mais forte ainda, e mais rouco também.
Caramba, onde estava aquele loiro azedo? Onde?
Bom, agora eu sabia que o barulho tinha vindo de uma desaparatação.
Harry rodeou de novo. "Malfoy!", gritou, seus olhos brilhantes percorrendo cada cantinho da floresta. "Apareça seu covarde!".
Um. Cinco. Dez segundos. E nada.
Harry cuspiu no chão, sua expressão contorcida de desprezo. "Você não vai me escapar, Draco! Espere pra ver!", ele berrou para os ares, e em seguida virou-se na direção em que eu estava, caminhando a passos pesados e largos. Fazia tempo que eu não o via tão raivoso e frustrado.
Então algo se materializou atrás dele. Ainda bem que cobri minha boca com a mão a tempo, ou eu teria gritado...
"Draco, Potter? Não me lembro de ter te dado essa liberdade antes".
Harry empalideceu de susto. Mas infelizmente não foi rápido o bastante para se defender, porque Draco Malfoy se aproveitou e deu uma chave de braço em seu pescoço, apontando sua varinha numa das têmporas do outro.
"Q-quê isso?", Harry gaguejou, suas mãos apertando o braço de Malfoy. "ME SOLTA, MALFOY!".
"Em seus sonhos, Potter!", Malfoy debochou, com aquela voz arrastada e cheia de sarcasmo dele. Argh, que cara cretino! Eu tinha que ficar esperta, porque a qualquer momento ele poderia fazer alguma coisa contra Harry. "Agora seja um menino bonzinho e me passe sua varinha".
"Em seus sonhos!", Harry retrucou, ainda relutando.
"Me passe agora se não quiser que eu estoure seus miolos!", urrou Malfoy. "E pare de gritar. Você está me irritando".
"É mesmo?", Harry continuou falando alto, sorrindo de uma forma tão insanamente estranha que eu senti arrepios. "Pensei que eu sempre fizesse isso. Independentemente da altura da minha voz".
Malfoy soltou uma risada curta e seca. Deu uns passos para trás, arrastando Harry junto com ele.
"Me dê sua varinha, Potter. Agora".
Harry parou de lutar contra o aperto dele. Respirou fundo, e ficou fazendo isso durante um longo tempo, fechando os olhos, como se estivesse se obrigando a ter calma, a pensar coerentemente.
Como se estivesse pensando em obedecer Malfoy.
De fato. Porque a mão trêmula que segurava a varinha se ergueu ao lado do próprio corpo, e Malfoy a agarrou no segundo seguinte.
Ah não, Harry.
Malfoy o empurrou para longe.
"Muito bem", sorriu. "Que tal batermos um papo agora, Potter? Não sente saudades de mim?".
Harry estreitou os olhos. Malfoy se aproximou uns poucos passos dele. "Eu sinto, sabe? Principalmente à noite".
Ãhn?
"E também senti falta de ver você cometendo essas burrices", Malfoy sorriu. "Vem cá, Potter, você não imaginou que bruxos como nós –quero dizer, como eu – podemos aparatar?".
"Não", disse a voz baixa e repentinamente fria de Harry. "O que eu me esqueci é que eu estava perseguindo o pior tipo de covarde. Apenas isso".
Gostou, querido? Agora não adianta fazer essa cara feia.
"Contenha-se, Potter", disse Malfoy, baixo e lentamente. "Você está se esquecendo quem está duplamente armado".
"Como se isso fosse motivo para eu começar a ter medo de você", Harry cruzou os braços e encarou Malfoy, desafiante.
"Ah, então, o Grande Cicatriz está de volta, senhores!", Malfoy entoou, girando a varinha de Harry entre os dedos. "Já que é assim, Potty, que é que você faria se eu resolvesse, por exemplo, partiresta linda e tão estimada varinha em duas?".
Os maxilares de Harry enrijeceram. Ele descruzou os braços.
"Que é que você estava fazendo naquela casa, Malfoy?".
A expressão de Malfoy tornou-se neutra. Ou insondável, melhor dizendo.
"Diga, Malfoy. Ou você não pode?", Harry sorriu de lado. "As ordens do seu chefinho são secretas, não é mesmo?".
O loiro sorriu, olhou para o chão e chutou de leve umas pinhas para o lado. "Que é que você acha que está fazendo, Potter? Ganhando tempo? Pretendendo, claro".
"Por que, Malfoy? Você pretende fazer alguma coisa comigo?".
"Eu?"
"Quer me entregar de bandeja ao Voldemort, não é? Não sei o que você está esperando".
Malfoy gargalhou. "Ora, Potter, pare com esse teatro ridículo!".
Harry continuou encarando-o. Caminhou até ele, Malfoy o encarando de volta com a expressão ainda risonha no rosto. E quando julguei que Harry fosse parar...
Ele continuou. De maneira que um pouco mais de dois palmos separavam os dois quando ele parou.
Harry é louco, gente.
"Quem está encenando aqui é você", ele disse, os olhos fixos nos do outro. "Para quê pegou minha varinha então?".
"Porque um Harry Potter desarmado é muito mais agradável", Malfoy sorriu maliciosamente. Maliciosamente demais. "E, além disso, eu não queria mais duelar com você hoje. Cansei. Você é muito fanático".
Harry gargalhou, virou-se de lado e agachou-se para apanhar uma pinha do chão. "Muito fanático", ele repetiu, afastando-se de Malfoy alguns passos e começando a brincar de jogar a pinha para o alto.
Ei! Harry é doido de dar as costas para o Malfoy?
Ah não. O outro já começou a se aproximar...
Meus dedos apertaram a varinha um pouco mais forte.
"Acho que nosso reencontro vai acabar por aqui, Potter".
Harry girou a cabeça para olhar Malfoy. Abriu um sorriso sarcástico. "Por que tão cedo? Diz para o Voldemort esperar mais um pouquinho, Malfoy. A gente nem começou a brincar ainda". E então, desviou o olhar para pinha e continuou brincando com ela. Não viu Malfoy estreitando o olhar com a audácia do seu comentário, e abrindo um sorriso discreto e divertido.
Ele apanhou uma pinha do chão e a atirou para Harry, que imediatamente a pegou.
"Fica de lembrança", disse Malfoy, assistindo Harry largar a pinha antiga e ficar com a sua. Ainda sustentando seu olhar, Malfoy ergueu o braço e apontou sua varinha para ele.
"Até a próxima, Potty. Estupef...".
"ESTUPEFAÇA!".
Malfoy caiu para trás. Harry deu vários passos para longe dele, assustado, e imediatamente olhou para a direção de onde tinha vindo o jato vermelho.
Eu saí de trás do pinheiro e corri na direção deles.
"Ginny!", Harry exclamou, mais surpreso ainda. "Pensei que você...".
"Não, felizmente a queda não foi tão forte", respondi, agora observando Malfoy caído. Encarei Harry de novo. "Você está bem?".
"Sim. Então foi você que...".
"Foi" sorri fracamente. "Na verdade, eu estava aqui o tempo todo. Desde que Malfoy aparatou atrás de você".
O maxilar de Harry cerrou um pouco com a lembrança. "Ah. Então você viu tudo?".
E ele pareceu um pouco confuso quando me perguntou isso. Confuso e encabulado.
Encabulado.
"Vi" respondi, rastreando o olhar dele. Não sei, mas minha intuição feminina se manifestou de repente. Porque, por um segundo, me ocorreu à hipótese de que Harry me escondia alguma coisa. Algum segredo.
Mas é melhor esquecer isso. Eu já disse que minha imaginação estava impossível hoje?
"Ginny. Obrigado. Obrigado mesmo".
"Quê isso... Ok, mas e agora?", emendei rapidamente. "Que vamos fazer com ele?".
Harry se agachou até Malfoy e enfiou a mão no bolso de sua veste.
"Bom, isto é o que farei primeiro", e guardou a própria varinha no bolso lateral do jeans. "Eu pensei numa coisa, Ginny".
Encarei-o.
"Acho melhor levar Malfoy com a gente".
"QUÊ? Como assim, mas–".
"Ginny, não posso deixar Malfoy aqui, sabendo que ele é um Comensal da Morte, que por pouco não me enfeitiça e sabe-se lá o que iria fazer comigo. Não. É melhor levarmos para a Ordem".
Engoli em seco.
"Bem, mas", aquela idéia não me descia pela garganta. Lógico, né? "E Ron? Ele ainda está naquela casa e...".
"Voltamos lá e o pegamos", Harry respondeu, e infelizmente sua voz ainda estava segura do que dizia.
"E o seu plano? Harry, você não queria investigar aquela casa e tudo mais–".
"Isso pode esperar. Não é prioridade agora, o importante é voltarmos para a Ordem antes que Malfoy volte à consciência".
E que respostas eu poderia dar àquele cabeça-dura maluco?
Assisti-o lançar um feitiço de levitação em Malfoy, e o corpo deste se erguer no ar, a cabeça e os membros pendidos para baixo.
"Pegue a varinha dele, Ginny", ele ordenou baixinho, se concentrando no corpo suspenso de Malfoy.
Abaixei-me até chão e peguei, guardando-a no bolso da minha calça.
"Vem, vamos até a casa dos Gaunt buscar o seu irmão".
Com isso, Harry projetou o corpo de Malfoy até a sua frente e começou a andar. Eu o segui, reparando de relance que uma de suas mãos ainda segurava a pinha que Malfoy atirara para ele.
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Ron ainda estava inconsciente quando cheguei à casa dos Gaunt. Lancei um feitiço de levitação nele e o conduzi para fora do lugar. Harry me esperava do lado de fora com Malfoy.
Seguimos pela pequena floresta, conduzindo os dois rapazes com cuidado para que não topassem com nenhuma das árvores. Harry e eu não falamos quase nada durante a caminhada, e somente quando chegamos àquela estrada de areia inicial, eu resolvi me pronunciar:
"Aqui já não está bom, Harry?", meu punho estava um pouco dolorido de tanto apontar para o corpo de Ron.
"Sim, está. Acene, aí, por favor, Ginny".
Acenei, e em poucos segundos a presença escandalosa do Nôitibus Andante nos deu o ar de sua graça. E que graça.
As pessoas nos lançaram olhares atravessados quando entramos. Compreensível. Um casal de adolescentes, cada um levitando um garoto inconsciente ao seu lado, não era uma coisa muito corriqueira. Talvez pensassem que nós tivéssemos saído de uma guerra. Não deixava de ser verdade.
Harry depositou Malfoy em um banco ao lado da janela – a cabeça deste pendendo sobre o vidro – e sentou-se ao seu lado. De frente para eles, fiz a mesma coisa com Ron e me acomodei.
"Você ainda está com a varinha dele aí?", perguntou-me Harry, indicando Malfoy com a cabeça.
"Sim, está aqui no meu bolso".
Ele assentiu, e desviou o olhar.
Aquelas foram as maiores palavras que trocamos até então. Não porque faltasse assunto, porque eu ou ele estivesse de mau humor ou qualquer coisa do tipo, mas porque eu sentia que Harry não estava para conversas. E por um simples motivo: tensão. Ele estava muito tenso, como há muito eu não o via.
Tudo o que ele fazia era olhar para a janela, cutucar e girar a pinha dada por Malfoy em suas mãos, ou então olhar para ele, principalmente olhar para ele. Harry passara tanto tempo observando Malfoy que às vezes eu me perguntava se ele lembrava de piscar.
Aquela preocupação era obviamente exagerada. Por que será que Harry temia tanto que Malfoy acordasse de repente? Sim, porque só podia ser por isso que o olhava tanto! Ninguém acorda tão rápido quando atingido por um Estupefaça, e eu já ia lembrá-lo disso quando este mesmo me interrompeu:
"Se você quiser ir para a casa, Ginny, não se incomode. Talvez seja melhor você levar Ron pra lá".
"Não, mas...". Aquilo me pegou de surpresa. "Eu quero ver Hermione, falar com ela e–".
Foi à primeira desculpa que me veio à cabeça, na verdade. Ir para a casa? Em seus sonhos, Potter! Não, eu tinha que ver que fim teria aquela história do Malfoy. Ora, eu participei ativamente dela, não é? Não era por motivos meramente fofoqueiros.
"Sua mãe vai ficar preocupada–".
"Ron só está desacordado", cortei-o. "Mas ele vai acordar quando chegarmos a Grimmauld Place, você vai ver".
Harry suspirou, desviando o olhar para a janela.
"E, além disso", continuei. "ele me mataria se eu o levasse para a casa e soubesse da história toda apenas por me ouvir contar".
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Remus Lupin, Nimphadora Tonks e Kinsgley Shacklebolt – além, é claro, de Hermione – foram as pessoas que encontramos quando chegamos na Ordem. Os dois homens foram os primeiros a nos receber, e dizer que eles ficaram estupefatos era pouco.
"Que significa isso, garotos?", Shacklebolt exclamara, enquanto se apressava com Lupin em nossa direção.
"Harry, este é o...?", disse Lupin, o queixo caindo enquanto pousava o olhar no inerte Draco Malfoy.
"Eu já explico tudo", começou Harry.
"Você é um bruxo maior de idade, Harry", Shacklebolt apressou-se em dizer. "Nós sabemos disso, mas é preciso que tenha cautela. Espero mesmo que seja bem explicada essa história que você vai nos contar".
Harry confirmou com a cabeça.
"Muito bem, garotos, então nos esperem na cozinha", disse Lupin. "Façam companhia a Tonks e a Hermione. Kinsgley e eu cuidaremos desses dois".
"O que vocês farão com ele?", perguntou Harry, apontando Malfoy com um pequeno gesto.
Lupin e Shacklebolt se entreolharam.
"Nós o deixaremos num dos quartos de hóspedes, é claro", respondeu o último, lentamente. "Mas apenas enquanto não acordar".
Harry umedeceu os lábios, voltou o olhar para Malfoy caído no sofá e depois encarou Shacklebolt. "Vocês... vão lançar feitiços de segurança no quarto?".
"Não se preocupe, Harry", respondeu Lupin. "Nós não o deixaremos escapar", e abriu um leve sorriso. "Mas agora o mais importante é ouvir o que vocês dois têm a dizer. Os dois, certo, Srta. Weasley?".
"Ok", forcei um sorrisinho.
Harry suspirou baixinho, lançou uma última olhadela em Malfoy, deu as costas e dirigiu-se até a cozinha. Eu o segui.
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Após a longa conversa na cozinha, os sermões de Shacklebolt e os conselhos de Lupin, Tonks reaparecera na cozinha para anunciar que Ron havia acordado.
"Ah, que ótimo!", exclamou Hermione, procurando meu olhar. "Vamos até lá vê-lo".
"Sim, vamos", olhei para Harry.
"Vamos", ele disse, se levantando.
Ron parecia bem. Um pouco pálido, como se tivesse acabado de sair de longas horas de sono atrasado, mas bem. Trocamos algumas palavras quando chegamos – Hermione mais fazendo perguntas a ele do que outra coisa – mas ele não parecia muito apto para conversas. Harry logo entendeu isso.
"Tudo bem, Ron, você precisa descansar. Vou ficar um pouquinho lá fora".
Ron assentiu, seus olhos semicerrados.
Harry saiu e fechou a porta. Eu pigarreei.
"Tem certeza que se sente bem, Ron?".
"Sim" ele murmurou, erguendo-se nos cotovelos para ajeitar a posição. "Naquelas, mas sim".
"Cuidado", sibilou Hermione inutilmente, enquanto ele se mexia. "Ron, você precisa ir para casa agora. Sabe disso, não é? Vocês dois".
"Eu sei, Mione", respondi. "Daqui a pouco iremos sim, não se preocupe. Bom, vou lá para a sala, qualquer coisa...". Eles assentiram, e eu saí.
Estava próxima das escadas, quando antes que eu descesse os degraus, avistei o que eu já sabia que iria avistar. E o que eu queria avistar.
"Um sicle pelos seus pensamentos".
Harry me sorriu. Estava debruçado sobre a sacadinha do corredor, o olhar perdido nos quadros da parede descascada oposta.
"E então?", eu continuei, parando ao lado dele. "O que foi?".
Harry desviou o olhar, e suspirou.
"Malfoy".
Eu devia ter esperado por isso. Claro. Mas, por um segundo pensei – e por que não pensaria? – que poderia ouvir uma coisa diferente.
"O que tem Malfoy, Harry?", perguntei, e não pude controlar a nota de impaciência que soou um tanto quanto esganiçada. Desviei o olhar para as paredes também.
"Nada. Eu só estava pensando".
"Não vai acontecer nada", eu disse, pouco me importando se alguma coisa iria mesmo acontecer. A única que eu queria era mudar de assunto.
"Não é por isso".
Olhei para ele de novo. "O que é então?".
Ele me encarou, mas seu olhar não se demorou muito em mim. "Nada. Eu só estava pensando em como... Não, deixa pra lá".
"Ah não, Harry. Começou, agora termina!".
Ele girou os olhos. "Malfoy terá que morar aqui. Era isso".
Minhas sobrancelhas se ergueram antes que eu percebesse. "Ah", eu fiz, depois de um longo silêncio. "Você está preocupado. Porque terá que suportá-lo aqui e esse tipo de coisa".
Harry me olhou de relance. "Também. Mas é mais complicado do que isso... Tsk, esquece, Ginny, não me dê atenção".
Então ele passou por mim, e desceu as escadas rapidamente. Eu, ali parada, o fitei em toda a sua trajetória, pensando com os meus botões que parte daquele "é mais complicado do que isso" eu não havia entendido.
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A reunião sobre Draco Malfoy durara duas horas.
Eu me levantei da mesa – completamente quadrada – e fui tomar um copo d'água ali na sala mesmo, dando graças a Deus. Comecei, então, a observar as pessoas que se levantavam.
Ron, Hermione e Neville – sim, ele viera; recebera uma carta de Harry no dia anterior – já estavam a meio caminho da porta de saída, mas eu não os segui. Já sabia o que iriam fazer. Jogariam-se no maior sofá da sala e discutiriam todas as opiniões formais e previsíveis dos adultos. Detalhe: Ron discordando das opiniões de Hermione e vice-versa.
E eu, a pequena Ginny, nem em sonhos me juntaria àquela conversa. Vocês têm a remota idéia de quantas vezes eu já escutei o nome Draco Malfoy nos últimos dias? Sim, porque desde que Harry o trouxe de Little Hangleton, lá em casa não se falou em outra coisa. Aqui na Ordem, então...
E adivinhem quem é a pessoa da Ordem que mais se encaixa no que estou dizendo? Hunpf.
Meu pai começou a falar com Harry. Observei-os por um instante, e depois resolvi que o conteúdo do meu copo era mais interessante de se olhar. Enfim, saí da sala.
Avistei Tonks sozinha num canto, observando as cabeças de elfo-doméstico empalhadas na parede. Falar com ela seria uma boa. Porque eu sempre podia contar com ela para conversar qualquer coisa nas horas mais imprevisíveis.
"E aí, Ginny?".
"Beleza, Tonks?".
Ela soltou uma risadinha divertida. "Você pelo jeito não quer se integrar no assunto da casa".
Eu ri brevemente. "E você deveria ter dado aulas no lugar da Trelawney. Incrível".
Tonks riu também. "Não... Isso não é nada além de sexto sentido feminino. Acentuado, é claro, pelo sangue mágico".
A campainha soou em seguida. Tonks e eu nos viramos em direção à porta, e depois nos entreolhamos.
"Eu vou atender", disse ela.
Eu a segui até o meio da sala. Tonks apertou o passo, impedindo com um gesto que Monstro fosse até a porta.
"Olha só quem apareceu, pessoal!" Tonks anunciou, voltando a sala.
Todos se viraram para olhar. Meu queixo caiu, e eu abri um sorriso enorme e divertidamente surpreso.
"Luna!".
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Depois de convencionalmente recepcionada por todos, devidamente questionada – e puxa vida – ter recebido os cumprimentos dos amigos, Luna finalmente pode respirar e vir falar comigo à vontade. E eu também, afinal.
Fui até ela e a abracei.
"Nem pra me escrever, né?".
"Ah, mas eu estive realmente ocupada!", Luna me respondeu quando nos afastamos. "Estava viajando com meu pai na Irlanda".
... Até que a conversa chegou aos acontecimentos recentes.
"Então você estava presente quando Malfoy foi capturado?".
"É. E ainda salvei a vida do Harry, porque, do contrário, ele teria sido levado pelo Malfoy sob efeito de Estupefaça".
Continuamos falando de Draco Malfoy – fazer o quê? –, de Hogwarts, da amizade recente de Luna e Hermione, até que esta primeira, num ato típico seu, mudou drasticamente o rumo da conversa:
"E o Arnoldo?".
Encarei-a. Ergui uma sobrancelha.
"Eu quero vê-lo", continuou Luna. "Ele está por aqui?".
"Ah, Luna!" gemi, quando finalmente assimilei o que ela dizia "'tá lá em cima".
"Mas eu trouxe um presente para ele!".
"Quê?".
Luna apenas arregalou os olhos para mim, piscando lentamente. "Sim".
"Você trouxe um presente pra ele?".
"Claro".
"O quê? Uma meia?", disfarcei o riso pelo nariz.
"Ele não é um elfo doméstico, Ginevra". Eu-odiava-quando-ela-fazia-aquilo. "Olha, eu quero falar com a Hermione. Por que você não vai buscar o Arnoldo? Aí eu aproveito e entrego os presentes de vocês de uma vez só".
Merlin. Luna Lovegood.
"Ok, Luna, tudo bem", sorri, enterrando meus dedos pelos cabelos.
"Ei", chamei, quando ela começou a se afastar. "Ela está na cozinha".
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Só a Lovegood mesmo! Só ela para me fazer rir sozinha, balançar a cabeça e monologar enquanto subia as escadas do segundo andar. Só ela para comprar um presente para um mini-puff.
Eu já disse que a amo?
Quando faltava apenas um degrau para eu chegasse ao patamar, ouvi um ruído de porta se abrindo. Estiquei o pescoço para espiar através da virada do corredor. Ah, talvez fosse Bill. Ele e Fleur também participaram da reunião, e ela permaneceu na sala apenas meia hora, alegando estar com "uma terrible dorrr de cabece".
'Tá bom.
Avancei, mas quando a pessoa se revelou através da porta, regredi o passo.
Não era Bill. Ou Fleur. Era Draco Malfoy.
Circular livremente pela casa foi um dos direitos concedidos para ele. Era normal que isso acontecesse então, e não somente comigo, mas com qualquer um que freqüentasse essa casa. Mesmo assim, preferi não continuar meu caminho. Não era preciso, não naquele momento em que eu podia perfeitamente evitar. No mais, assim que saiu do quarto, Malfoy virou imediatamente na direção contrária a que eu vinha.
Ele se dirigiu ao outro lance de escadas do corredor. Esperei ele sumir.
Então, de repente, ele parou. A sombra de uma outra pessoa apareceu no finzinho da escada.
Malfoy deu alguns passos para trás, e a tal sombra revelou-se.
Harry.
Os dois garotos não se mexeram. O mesmo para mim.
"Enfim saiu da toca", disse a voz de Harry, ecoando pelo corredor vazio.
Malfoy não respondeu. Dirigiu-se para frente, esbarrou com força no ombro de Harry e continuou seu caminho.
Harry se virou para ele.
"Qual é a sua?".
"Qual é a sua o quê?", retrucou o outro, já dos primeiros degraus da outra escada.
Harry fez um som debochado pelo nariz. "É bom que seja mais civilizado com o dono da casa".
"Isso inclui falar com você?".
De costas para mim, vi que Harry se aproximou uns passos de onde o outro estava. "Inclui", respondeu desafiadoramente, mesmo que eu não pudesse ver seu rosto para afirmar isso.
"Dane-se", Malfoy voltou daquela escada e atravessou o corredor pela minha direção.
Mordi o lábio inferior.
Logo avistei Harry vindo atrás dele. "Volte aqui".
"Não quero falar com você". Malfoy respondeu, continuando a andar. Agora que eu o via – e que reparava bem – ele parecia bem abatido, o cabelo desalinhado, sem corte e maior do que normalmente era.
"Mas eu quero, e você vai parar agora", Harry o puxou pelo braço, e apontou a varinha para ele. Malfoy estava quase encostado na parede, sua expressão de mais desagrado possível.
Eu me perguntava o que Harry tinha de tão importante para falar a sós com Malfoy. E que já não tivesse sido discutido na reunião.
"Não adianta começar com suas perguntinhas, Potter", rosnou Malfoy.
Eles ficaram se encarando por alguns segundos. Harry olhou para os lados, a mão que segurava sua varinha tremeu de leve.
"Só tem uma coisa que eu quero saber. E não tem nada a ver com o que você está pensando".
Malfoy sorriu. "Uh, Potter. Você me deixou curioso agora".
"Você já sabia que eu estaria em Little Hangleton", Harry emendou, deixando Malfoy com a expressão congelada. "Não é?".
"Não".
"Mentiroso".
"Foda-se", Malfoy se adiantou alguns passos contra Harry. "Agora vaza daqui, Potter. Já não basta ter que olhar para suas fuças todos os dias. Falar com você também é exigir demais do meu estômago".
Os olhos estreitados de Harry faiscaram.
"Como é que você tem cara de me dizer isso?".
"Quê?".
O quê?
Eu escutei bem?
"O que disse, Potter?".
Não fui a única a não entender, pelo jeito.
Harry cruzou os braços, o rosto voltado para o chão. Mesmo assim, pela luz dos archotes que o iluminavam, vi que suas faces adquiriram mais cor...
Malfoy, a expressão intrigada, aproximou-se de Harry mais um passo.
Por que aqueles dois estavam tão estranhos?
"Eu não entendi o que você quis dizer, Potty", disse Malfoy, voltando a ser mais ríspido, mas estranhamente sarcástico. "Dá para ser um pouco mais claro?".
Harry, então, desviou-se de Malfoy bruscamente e começou a andar em direção à escada em que eu estava.
"Potter!", dessa vez, Malfoy o puxara pelo braço.
"Vai, segue seu caminho!", gritou Harry, puxando seu braço de volta e se afastando. "Aproveite, Malfoy, porque agora eu é que não quero mais olhar pra sua cara".
Mas Malfoy foi atrás dele, se aproximando de novo. "Se você por acaso estava falando de antes–".
"Eu não estava falando de antes nenhum!", retrucou Harry, no mesmo tom baixo e ríspido de Malfoy. "Nunca existiu e nem houve nada antes. Não era isso que você tinha deixado bem claro?".
Malfoy abriu a boca, mas as palavras não saíram por ela.
"Passar bem". Harry se desviou e voltou ao seu caminho.
Um momento. Do que é que eles estavam falando? Que antes foi aquele? O quê nunca houve e nem existiu? O quê Malfoy deixara muito bem claro?
Harry já estava próximo dos degraus da escada, e eu rapidamente preparei uma expressão dissimuladamente neutra. Nos encontramos. Ele trocou um rápido olhar comigo e continuou a descer.
Malfoy ainda estava parado no corredor. Eu voltei a espiar, pensando que o garoto recomeçaria a andar para a direção contrária e...
Não. A única coisa que eu vi Malfoy fazer foi afastar seus cabelos da testa, suspirar, sentar-se no chão com as costas apoiadas na parede e, por fim, enterrar a cabeça por entre os braços apoiados nos joelhos.
Dirigi-me então – e finalmente – até o quarto em que estava meu mini-puff, passando por Draco Malfoy no caminho. Ele não ergueu a cabeça até o momento em que eu voltei a descer as escadas.
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Próximo capítulo: (Era HBP) De como se desenrolou the first kiss dos moçoilos (aeeh!).
