Dangerous
por Clara e Doom
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Capítulo IV
Pansy POV
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Aquela semana passou tão rápido, que mal começamos a nos ocupar com novos deveres de Transfiguração e Feitiços, e já tínhamos que entregar o relatório de Astronomia naquela manhã. Sinistra exigiu que a dupla sentasse lado a lado e Granger se apressou em obedecer, sentando bem próxima a minha carteira. Seus olhos fitaram o quadro negro sem animação e ela começou a copiar as instruções para a entrega do trabalho conclusivo na próxima semana.
Será que ela também notou?
Aquela noite no Salão Principal me preocupou um bocado. Draco não parava de lançar olhares furtivos a Potter, e, a partir do momento em que consegui me concentrar na análise dos mapas, percebi que havia muito em comum em seu comportamento. Tudo piorou quando apanhei um de meus livros de pesquisa e li a compatibilidade de Gêmeos com Leão, que de acordo com Granger, era o signo de Potter:
Estes dois costumam adivinhar a verdade um sobre o outro. Leão tentando provar a si mesmo e aos demais que é tão corajoso no íntimo como aparenta externamente enquanto Gêmeos tenta mostrar a todo mundo que está correndo para adiante, em vez de, realmente, correr em círculos. Quando se unem, prometem encontros intensos e descobertas inesquecíveis, mas isso só acontece quando uma das partes é capaz de dar o primeiro passo.
"O primeiro passo..." divaguei, rindo da possibilidades absurdas que se passavam em minha mente.
"Disse algo, Parkinson?" Granger perguntou, tirando os cadernos da mochila.
"Não, nada." Ela rolou os olhos, descrente "O que achou das comparações?" De repente, fingiu não ouvir e voltou a encarar o quadro negro. "Notou algo estranho?"
"Nada preocupante." Cruzou as pernas por debaixo da cadeira, a pena rabiscando o pergaminho freneticamente "Achei um pouco estranho o aumento de afinidades, mas isso deve ser bom."
"Por que bom?"
"É uma previsão livre de brigas..." Respondeu simplesmente, e sem desviar o olhar do próprio pergaminho.
Ela tinha razão sobre isso. Depois do episódio na cabine do trem, Draco sequer fez questão de provocá-lo. Ainda que passasse mais tempo em seu quarto, ele parecia desviar de Potter toda vez que o via nos corredores. Mas algo me dizia que Granger não havia percebido algo ali.
"Não acha que a falta de brigas pode se referir a outras atividades desenvolvidas por eles? Juntos?" Sua pena escorregou pelos dedos.
"O que quer dizer?"
"Não sei, mas eles parecem ter muito em comum." Ela apanhou a pena, indiferente.
"Faz sentido" falou, "Afinal, eles são mutuamente intuitivos e inclinados à amizade, a despeito de quaisquer diferenças entre eles, de tempos em tempos."
Céus! Granger era mesmo um livro ambulante.
"Amizade?" Indaguei, com o máximo de sarcasmo que minha voz permitiu. "Duvido muito."
"Pelo menos foi o que entendi."
"Qual é a tarefa que anda ocupando tanto a mente de Potter?" perguntei de repente, lembrando que o caderno dizia que o grifinório andava obcecado com algo que mais ninguém parecia se interessar.
"Ele..." ela hesitou. "Não tenho certeza." Bufei, contrariada. "Malfoy também tem um projeto desafiador... Você sabe qual é?" Dei de ombros.
"Não."
Mentira.
Draco havia me contado sobre o episódio com Montague o ano passado e como havia descoberto sobre o gabinete que poderia permitir a entrada no castelo através do armário da loja Borgin & Bukes. Por enquanto, estávamos tentando encontrar uma maneira para ele poder entrar na sala de requisição sem riscos e consertar o gabinete, mas seria muito suspeito se Crabbe e Goyle montassem guarda ali por tanto tempo.
Quando a aula finalmente terminou, a mocréia da professora pediu para Granger me entregar os cadernos, pois minha análise não estava tão completa quanto a dela. Apanhei a material, irritada, e saí da sala antes que meu temperamento vingativo de escorpião me impulsionasse a estuporá-la. Cheguei rapidamente ao salão comunal da Sonserina, e notei que Draco estava debruçado sobre um pergaminho em uma das mesas.
"Como foi a aula?" Ele perguntou quando me aproximei.
"Muito produtiva." Respondi, jogando os cadernos sobre a mesa "Dois meses da vida astrológica de Potty" ele fitou o caderno longamente, pensativo. E então, como se tivesse dado conta de que eu o observava, afastou-se.
"Poderia ser pior..." disse, rapidamente "O Weasel, por exemplo."
"Tem razão." Ri em seguida, lembrando das instruções passadas por Sinistra antes das férias "Granger é apaixonada por ele, daí o motivo da escolha." Ele riu fracamente e apanhou o mapa de Potter em seguida, hesitando um segundo antes de abri-lo.
"Tem algo interessante aqui?" Perguntou, folheando o caderno "Do que o cicatriz conseguiu escapar essas férias? Ou seria de quem?"
Pensei um momento antes de responder. Deveria dizer a ele sobre as semelhanças que Granger e eu havíamos encontrado no mapa? Seu olhar se demorou em uma página especifica antes de fechar o caderno, jogando-o sobre os demais livros sobre a mesa.
"Tenho um plano sobre como Crabbe e Goyle podem guardar a entrada da sala para mim." Cochichou, inclinando o corpo na minha direção e apoiando os braços nos joelhos "Zabini disse que Slughorn tem um estoque de poções em sua sala, e vai utilizar numa das aulas da semana que vem."
"Algo útil?" questionei, acompanhando seu raciocínio.
"Poção Polissuco."
"Já sabe como pegar?"
"Sim, mas preciso de você para me ajudar a convencer Crabbe e Goyle de que é segura..." ele fitou o canto onde os garotos cochilavam no mesmo sofá, parecendo estranhamente amigáveis.
"Fácil." falei, ainda fitando a dupla de brutamontes que tiravam uma soneca "Por quem eles vão se passar?"
"Pensei nas garotas do segundo ano..." respondeu, fitando as sonserinas baixinhas próximas à lareira "O que acha?"
"Um alvo fácil para conseguir um dos ingredientes" Fios de cabelo não faltariam jamais. "Crabbe vai ficar muito mais agradável na pele de Abigail Straim, não acha?"
Mentalizei a cena, gargalhando em seguida. Draco acompanhou meu riso até Zabini chegar, suas sobrancelhas levantadas.
"O que é tão engraçado?" Perguntou em tom de ironia.
"Nada." Draco falou, o sorriso esvaecendo "Preciso subir, tenho dois tempos de Transfiguração depois do almoço." Apanhou os pergaminhos e correu em direção aos dormitórios dos monitores.
"Então..." Zabini retomou de repente, enquanto eu me ocupava em guardar os cadernos na mochila "Do que estavam rindo?"
"Sua braguilha está aberta." Apoiei a mão na mesa, abaixando a cabeça por debaixo da mesma.
"Muito engraçado, Pansy." Ouvi sua voz abafada enquanto descia da cadeira, ajoelhando no chão "O que está procurando?"
"Um caderno." respondi, percebendo que não havia nada ali. "Droga! Onde será que..."
"Draco não pegou por engano?"
Levantei-me rapidamente, ajeitando a barra da saia e imaginando o que Draco pretendia fazer com o mapa astrológico de Potter.
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Não demorou muito para que Draco me devolvesse o caderno de Granger, dizendo que o pegara por engano e só havia percebido uma semana depois. Concluí o trabalho em dupla com a sangue-ruim e me livrei dos mapas, jogando-os de qualquer jeito no fundo do malão. Percebi o quanto me enganara, achando que qualquer informação extraída ali fosse verdadeira.
Draco sequer dirigia a palavra a Potter quando se cruzavam nos corredores, quanto mais convidá-lo, num gesto impulsivo a liberar suas energias físicas acumuladas numa partida de quadribol amigável. Ele continuava trabalhando no conserto do gabinete no sétimo andar, enquanto Crabbe e Goyle vigiavam "inocentemente" a entrada, na forma das alunas do segundo ano.
Eu fazia o possível para ajudá-lo, adiantando seus deveres para que não levasse outra detenção de Mcgonagall e cuidando das doses de poção polissuco que Crabbe e Goyle tomavam toda semana. Estava um pouco preocupada com o seu tempo gasto na sala da requisição, algumas vezes, até altas horas da noite e sem o auxílio dos vigias.
Com o queixo apoiado nas mãos, eu observava Draco atentamente, enquanto o loiro revisava um dos exercícios de Feitiços que eu havia feito para ele. Sua expressão demonstrava um enorme cansaço, e suas olheiras estavam mais profundas, dando-lhe uma aparência doentia. Bocejou, inclinado sobre o pergaminho e então Zabini preencheu todo o meu campo de visão.
"Pansy?" Ele me olhava como um ar estranho de preocupação.
"O quê?"
"Slughorn vai dar uma festa para comemorar o Natal antes dos alunos saírem para o feriado. Quer ir comigo?"
O quê?
"Posso levar uma acompanhante..." explicou-se, com certo entusiasmo.
"Você não estava saindo com a Madeline?" Indaguei, confusa.
"Ela terminou." falou, fazendo pouco caso "Mas não disse o motivo. Então... Aceita?"
Eu estava atônita. Jamais imaginei que Blaise pudesse me convidar para um evento do clube Slug, principalmente depois de tantas zombarias feitas pelos garotos, das quais eu participava. Analisei o pedido, pensando se valia à pena aceitar. Zabini não fazia o meu tipo, mas uma festa viria a calhar naquele momento.
"Claro."
"Ótimo! Esteja pronta às sete, certo?" Já ia se afastando, mas voltei a perguntar.
"Quando?"
"Amanhã." Respondeu, simplesmente.
"E você deixou para me avisar só agora?" Ele pareceu levemente desconcertado "Ou sou a última que você convidou?"
"Claro que não." ele respondeu, mentindo descaradamente.
"Conta outra, Blaise." Levantei-me, seguindo em direção à poltrona de Draco, que parecia ter finalizado a leitura.
"Te compro um presente." Falou de repente, fazendo-me parar no caminho.
Ele realmente devia estar desesperado. Por outro lado, aparecer desacompanhado numa festa era algo extremamente frustrante. Será mesmo que eu era última opção? Virei-me para ele, sustentando seu olhar furtivamente.
"Nos encontramos às oito na entrada do salão principal." Falei, dando-lhe as costas em seguida.
"O que ele queria?" Pediu Draco quando sentei no braço da poltrona.
"Me convidou para a festinha de Natal do Slug."
"Você vai?"
"Ainda não decidi." Respondi, sentindo aquela pontada vingativa tomar conta de mim. "Vai precisar de mim amanhã à noite?"
"Divirta-se na festa." Levantou-se em seguida, e apanhou o material para a aula de Feitiços "Te vejo na aula... Obrigada pelos exercícios."
"De nada." Ele caminhou até a passagem secreta e deixou a sala.
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"Você está ótima." Bajulou Blaise, enquanto subíamos as escadas até o local da festa.
"Trouxe o meu presente?" devolvi, sorridente.
Ele não respondeu, apenas segurou meu braço e parou de andar, tirando uma caixinha de veludo do bolso interno do casaco em seguida. Entregou-a para mim, que a analisei antes de abrir. Um belo colar de ouro deslizou preso apenas por um ganchinho à almofada. Um pingente em forma abstrata pendia no cordão reluzente.
"Gostou?" Indagou, depois de alguns segundos.
"Sim, obrigada." Sorri, sem fitar seus olhos castanhos.
"Quer usar agora?"
Acenei positivamente, desprendendo o cordão e entregando a ele. Virei-me de costas, levantando o os fios soltos no meu coque. Blaise demorou a acertar o fecho, seus dedos roçando no pescoço e descendo pelas minhas costas, onde o vestido era relativamente decotado. Senti um arrepio involuntário quando ele aproximou os lábios de meu ouvido.
"O corredor está vazio." Informou, num sussurro.
"E daí?"
Não sei o que ele pretendia, mas acabara de me ocorrer que Blaise poderia ser sim, o meu tipo. Sua mão esquerda deslizou novamente pelas minhas costas, subindo até o ombro e descendo novamente, dessa vez pelo braço.
"Eu estava pensando..." voltou a dizer, mais baixo do que antes "Quer ir mesmo à festa?"
Hesitei um momento, enquanto ele segurava minha mão e contornava meu corpo, ficando de frente para mim. Inclinou-se na minha direção, os lábios entreabertos. Recuei, mas percebi que havia um espaço mínimo entre minhas costas e a parede. Quando cheguei ao limite, decidi imitar o gesto de Blaise e então nossos lábios se tocaram levemente. Fomos interrompidos pela voz de Draco.
"Blaise?" Zabini se afastou num pulo, o rosto lívido.
"Não é o que você está pensando, Draco..." falou, em tom aflito.
Draco rolou os olhos, imitando minha reação. Encarou Blaise, que parecia recuar cada vez mais em direção à parede e depois à mim.
"Tem um minuto, Pansy?"
"Claro." Desencostei da parede, indo em sua direção "Te vejo na festa." Disse à Zabini enquanto me afastava, ele apenas acenou positivamente.
Draco andou na frente, e abriu a porta de uma sala de aula qualquer. Sentou em uma das carteiras, mas eu permaneci em pé, próximo à porta.
"Pensei que Zabini não fosse o seu tipo." Ele falou, amargurado.
"E não é." Ele bufou, e colocou os pés na cadeira "O que houve?" Retomei, notando seu olhar preocupado.
"Vai continuar com ele?"
Por que ele estava insistindo naquele assunto?
"Talvez, mas o que isso..."
"Ele não serve para você."
Se não conhecesse Draco, poderia até dizer que estava com ciúmes. Mas como nunca cobrei nada além de amizade, achava sua atitude muito estranha. Quero dizer, jamais havíamos feito uma declaração em público, mesmo que toda a escola achasse que estávamos envolvidos.
"E quem serve?" Em breve silêncio, sem resposta "Você?" Ele riu, e foi quase impossível não acompanhá-lo.
"Nós bem que tentamos." De fato, era verdade. Pelo menos durante o quarto ano. "Você é muito melhor como aliada do que namorada."
"Não há dúvidas nesse ponto." retomei, um pouco impaciente. "Então... Quer ir à festa?"
"Não fui convidado."
"Isso pode ser resolvido facilmente."
Ele sorriu levemente, e seguimos até a sala de Slughorn em silêncio. Localizei Blaise entre os convidados, ele já conversava amigavelmente com uma corvinal que logo em seguida, notei ser uma das gêmeas Patil. Draco me fitou, as sobrancelhas pareciam desenhar as palavras "Não disse?" e antes que eu pudesse me defender, uma terceira voz me interrompeu.
"O que faz aqui, Malfoy?" Filch perguntou, ranzinza como sempre.
"Estou acompanhando a Parkinson." Draco falou rapidamente.
"E a Srta. Parkinson está acompanhando Zabini, certo?" Ele hesitou, assim como eu "Venha comigo."
Draco obedeceu, seguindo Filch por entre os convidados até parar numa rodinha composta por Slughorn, Snape e Potter. Amaldiçoei o professor por ter convidado aquele velho asmático para vigiar os penetras e só depois notei que Draco fora o único pego. Não me lembrava de Blaise ter dito que Padma fazia parte do clube do Slug e duvidava que seu namorado — que também não estava presente — permitisse que fosse sozinha, ou acompanhando alguém.
Caminhei até o grupo, disposta a livrar Draco de uma possível detenção, mas percebi que Snape já o acompanhava para fora da sala. Estava seguro, pensei e então vi Potter sair na mesma direção olhando por cima do ombro.
O que o cicatriz aprontaria dessa vez?
Demorei alguns minutos para me livrar de Filch, fazendo perguntas sobre outros penetras que eu poderia ter ser infiltrado na festa, mas consegui sair assim que o informei sobre Patil. Procurei qualquer sinal de Draco ou Snape no corredor vazio, só para notar um garoto com o ouvido pregado à porta da sala de Slughorn.
Aproximei-me com cautela, ficando a poucos metros de Potter, que sequer parecia notar qualquer movimento à sua volta. Ocultei-me atrás de uma tapeçaria antiga e apurei os ouvidos.
"Eu teria Crabbe e Goyle comigo se você não os tivesse posto em detenção!" Ouvi a voz clara de Draco, levemente alterada.
"Controle sua voz!" Snape ordenou.
Potter era surdo por acaso? Eu podia ouvir tudo claramente de onde eu estava e... Silêncio. Potter se moveu, inquieto. Bem... Nem tudo, talvez.
Consegui captar alguns trechos a mais, em que Draco parecia zombar de Snape enquanto este dizia que ele devia ter mais cuidado.
"...se for pego,... "sua confiança em assistentes como Crabbe e Goyle."
"Eles não são os únicos, tenho outras pessoas a meu lado, pessoas melhores!" dessa vez, ouvi claramente e não pude deixar que um sorriso satisfeito se formasse em meus lábios.
"Você quer roubar minha glória!"
Houve outra pausa, então a voz de Snape quase imperceptível.
"Eu entendo totalmente que a prisão de seu pai o transtornou, mas..."
Apurei os ouvidos novamente, e então Potter se jogou para fora do caminho quando a porta se abriu com um estrondo e Draco deixou a sala em passos firmes. Snape veio em seguida, e Potter desapareceu por trás de uma armadura. Percebi que seria mais seguro vê-lo partir antes de sair do meu esconderijo. Não demorou nada até que ele esticasse a cabeça para fora da sombra escura da armadura, certificando-se de que o corredor estava livre.
Achei que voltaria para a festa, ou iria para a torre da Grifinória relatar tudo aos seus amiguinhos idiotas. Porém, ele correu na direção contrária, onde Draco desaparecera segundos antes.
Segui-o, correndo o mais rápido que meus sapatos permitiam. Notei uma sombra desaparecer no fim das escadas que desciam para as masmorras, e, quando finalmente alcancei o patamar, percebi Potter parado fitando algo à sua frente. Saiu do meu campo de visão, então me aproximei da dobra no corredor, bloqueado por um pilar muito conveniente.
"Aonde vai, Malfoy?" disparou Potter de repente, de costas para mim.
Draco se virou rapidamente para ele, surpreso. Mas não respondeu a pergunta, ignorando completamente o moreno e continuando seu trajeto. O grifinório apertou o passo, alcançando o loiro e puxando seu braço repentinamente. Draco recolheu o braço de volta, a mão livre voando até a varinha no bolso, mas Potter já tinha a sua em mãos.
"Expelliarmus!", gritou, arremessando a varinha de Draco alguns metros à distância. Este permaneceu imóvel, uma expressão descrente em seu rosto.
"Você só pode ser insano mesmo." Ele falou, manso, indo em direção à sua varinha e apanhando-a do chão, sem se importar com o fato de Potter seguir seus movimentos com o pulso levantado "Ou por acaso esqueceu que sou monitor?"
"Sei que não é apenas isso, Malfoy." Respondeu o outro, com ar de acusação.
"Ah é?" devolveu o loiro, sem erguer a varinha "E o que mais eu sou para você, Potty?"
"Um Comensal da Morte" Draco gargalhou e Potter recuou dois passos antes de baixar a própria varinha.
"Por Merlin, de onde tirou essa teoria estúpida?"
"Madame Malkin sequer tocou seu braço esquerdo para você pular daquele jeito." Draco franziu as sobrancelhas, confuso e então pareceu lembrar-se de algo.
"Já contou a alguém?" seu teor debochado acentuou-se.
"Não tenho provas." Draco soltou uma exclamação de falsa surpresa "Mas estou tentando..." a voz de Potter morreu antes da frase terminar.
"Sem muito sucesso, obviamente."
"Seria mais fácil você admitir." Antes que Draco pudesse dar uma nova resposta sarcástica àquela sugestão, Potter continuou. "Confessar que Voldemort está usando você para algum trabalho sujo que o imprestável do seu pai foi incapaz de fazer."
O loiro esperou o cicatriz terminar a frase para avançar sobre ele. Xingou alto e empurrou o outro violentamente contra a parede, acertando um soco certeiro em seu rosto, o que o fez cair no chão. Potter ergueu os olhos para Draco, que avançou novamente, puxando o corpo do grifinório do chão e prensando-o contra a parede.
"Acha que pode falar assim só porque é o protegido da escola, Potty?" Potter engoliu em seco, o rosto do loiro a centímetros do seu "Você não sabe nada sobre mim, mesmo que se esforce muito para isso!" Potter permaneceu imóvel, as sobrancelhas arqueadas, claramente confuso. "Será que acertei ao deduzir que o assunto que ocupava sua mente durante todo o verão era eu? "
"Do que está...?"
"Pensa que não notei sua sombra me seguindo por todo o castelo?" Ele pressionou Potter mais firmemente contra a parede "O que pretende?"
"Provar que foi você o culpado por Katie Bell estar na ala hospitalar."
"Então foi você quem me acusou?" pediu, sorrindo em seguida "Infelizmente, para o seu azar, sua teoria é furada. Eu estava cumprindo uma detenção e não visitei Hogsmeade naquele dia."
"Mas pode ter mandado alguém entregar." Insistiu o grifinório "Pansy Parkinson por exemplo, já que estão sempre juntos."
"Acho que já está ficando obcecado por mim, Potter" um breve silêncio tomou conta da discussão.
"Sai de cima" resmungou o grifinório finalmente, empurrando Draco para longe sem muito sucesso.
"Como quiser."
Draco se afastou. Porém, antes mesmo que pudesse se virar, Potter agarrou seu braço novamente. Os rostos voltaram a ficar próximos, os narizes há apenas um palmo de distância. Ofegavam juntos, a mão do grifinório parecia querer esmagar o pulso de Draco.
"Aonde você pensa que vai?" rosnou Potter, sem fitar os olhos de Draco. Fixando-os em um ponto mais baixo, talvez em seus lábios.
"Me solte." Draco falou simplesmente, olhando para seu pulso algemado pela mão do moreno.
"Ainda não terminamos" devolveu o outro, incapaz de deixar o loiro escapar mais uma vez.
Talvez achasse que podia arrancar alguma informação que confirmasse suas suspeitas ou quisesse revidar o soco que havia levado do loiro, já que alguém poderia aparecer a qualquer momento e Potter adorava chamar atenção... Draco não lutou por liberdade, ao invés disso, ele apenas o encarou.
E então algo extremamente perturbador aconteceu. Potter avançou impulsivamente, empurrando Draco até a parede contrária da que ele se encontrara preso momentos antes. O loiro soltou um gemido de dor. Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Potter pôs as mãos na parede, cercando-o e então lacrou ambos os lábios, num beijo desesperado.
Para a minha total surpresa (e leve indignação), Draco encorajou o gesto, quase tão intensamente quanto Potter. Este parecia não ter controle algum sobre suas mãos, deslizando-as pela parede até os ombros do loiro e subindo até sua nuca em seguida, puxando-o para mais perto e aprofundando o beijo.
Ainda atônita, eu refletia a situação. E, por um motivo completamente inexplicável, voltei a pensar no mapa astrológico dos garotos. Continuei observando Potter dissolver toda a sua energia física acumulada nos lábios de Draco. Ela parecia não ter fim. Ouvi um ruído, imaginando se deveria interferir de alguma forma, antes que alguém mais aparecesse no corredor.
Foi quando o moreno se afastou, com um olhar de espanto. Seus lábios estavam vermelhos e inchados e sua respiração extremamente ofegante. Ele olhou para o chão, parecendo desacreditar no que acabara de acontecer. Draco também tinha a mesma expressão, mas não parecia ter se arrependido de nada.
"Você definitivamente enlouqueceu de vez." falou, em tom irônico "O que diabos te levou à..."
Novamente foi interrompido por um gesto rápido de Potter, prensando o corpo de Draco o máximo que pôde contra a parede. Ele segurou o rosto do loiro firmemente, com as duas mãos, deixando marcas vermelhas na pele que contornava seus dedos. Inclinou a cabeça devagar, os lábios muitos próximos aos do loiro. As respirações se confundiam agora.
"Não conte isso a ninguém, Malfoy" Ele disse, num sussurro carregado de ameaça.
"Já pensou em se internar no St. Mungus?" Zombou o loiro, fazendo Potter sacudir seus ombros com violência.
"A ninguém!" Repetiu, a voz alterada "Está ouvindo?"
Draco não se intimidou, ainda que parecesse sentir suas costas em frangalhos pela força sobrenatural que Potter parecia ter naquele momento.
"Acha mesmo que alguém acreditaria se eu contasse?"
"Não importa." O grifinório cuspiu as palavras, os olhos vermelhos de raiva "Se disser uma palavra... Acabo com você." e então se afastou. "Isso jamais aconteceu."
Virou as costas, permitindo que Draco se desencostasse da parede. Este parecia achar tudo muito engraçado. O moreno seguiu na minha direção, em passos firmes que não me convenceram muito. Ele estava muito abalado, provavelmente achando que Draco tinha acertado quando disse que enlouquecera por completo. Poderia até entender a atitude do grifinório, jamais fora do tipo que pensa antes de agir.
Mas Draco permitir tudo aquilo era realmente estranho. Por que deixou Potter ameaçá-lo daquela maneira?
Só consegui concluir que a prisão de seu pai o afetara muito mais do que eu poderia imaginar. Encolhi-me um pouco mais contra o pilar quando Potter passou por mim, prestes a dobrar o corredor e então a voz de Draco ecoou no vazio.
"Hey, Potty!?" o grifinório parou no lugar, virando apenas o pescoço na direção contrária "Feliz Natal." Desejou, um sorriso cínico enfeitando seu rosto pálido.
Potter bufou, e Draco continuou gargalhando até vê-lo desaparecer de suas vistas.
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Eu jamais havia passado um feriado em Hogwarts, mas podia admitir que não era tão diferente de casa, tendo um ponto positivo e um negativo em cada situação. Em Hogwarts, não ganhei nem a metade de presentes do que estava acostumada, mas pelo menos não tinha de aturar os parentes chatos que só sabiam fazer comentários idiotas sobre quem morreu no último verão.
Draco também preferiu ficar na escola, bitolado em seu quarto e no conserto do gabinete do 7º andar. Estava começando a se desesperar e, para piorar, não conseguia pensar numa maneira de contatar o Borgin no Beco Diagonal. Não nos falamos muito, porque eu tinha deveres o suficiente para me manter ocupada durante todo o feriado, uma vez que estava cobrindo todos os exercícios atrasados de Draco.
Ele não havia mencionado nada sobre Potter e dei graças a Merlin por isso, ainda perturbada pela constante lembrança dos dois se beijando ferozmente naquele corredor. O cicatriz havia passado o Natal com os Weasley e isso pareceu aliviar Draco, não tendo mais que se preocupar com o grifinório perseguindo-o pelos corredores do sétimo andar. Ainda que eu achasse que isso não voltaria a acontecer, mesmo quando Potter voltasse da casa dos Weasley.
Ao fim de fevereiro, Draco já esgotara suas esperanças de consertar o gabinete. Passou uma semana sem deixar o dormitório, fingindo estar doente e saindo somente para as aulas mais importantes. Por vezes, Snape o chamava para sua sala, tentando convencê-lo a tomar uma poção para melhorar seu estado. Draco recusava sempre, dizendo que não estava doente e sugerindo para que o professor desistisse de oferecer sua ajuda.
No dia 1º de Março, Snape pediu que eu o acompanhasse até sua sala depois da aula. Ele perguntou sobre os planos de Draco e insistiu muito no assunto. Até ouvir minha resposta definitiva de que não sabia de nada. Por um momento, ele pareceu me analisar cuidadosamente. Tive medo que lesse minha mente, então usei qualquer desculpa e deixei a sala o mais rápido que pude.
Precisava contar a Draco o que ocorrera com Snape, mas ele não havia voltado da aula de História da Magia ainda. Quando finalmente chegou, estava com uma expressão muito estranha no rosto. Sentou-se na poltrona próximo a janela, expulsando Crabbe e Goyle assim que começaram a chateá-lo. Hesitei um instante antes de me levantar, ouvindo uma conversa paralela sobre um garoto que fora envenenado na sala de Slughorn.
"E como ele se salvou?" Uma das garotas perguntou.
"Parece que o Potter estava lá também..." respondeu a outra, num tom carregado de desprezo.
"Só podia ser o escolhido mesmo." Zombou uma terceira.
Aproximei-me da poltrona em que Draco sentara, ele não desviou o olhar da janela.
"Então Slughorn estava com a garrafa de veneno?" Ele revirou os olhos, impaciente. "Eu pedi para não executar aquele plano, Draco." Cochichei, de forma que só ele pudesse me ouvir.
"Foi idéia sua!" Retrucou, irritado.
"Eu sei, mas depois desistimos não é?"
"Slughorn já estava com a garrafa."
"Você falou que ia recuperá-la." Ele deu de ombros "E se alguém desconfiar? Potter pode muito bem te acusar de novo!"
"Como você sabe que foi ele?" ele interrompeu.
Droga!
"Quem mais poderia ser?" tentei disfarçar, mas ele continuou me encarando.
"Tem razão." Respondeu por fim, virando-se para a janela "Eu devia ter pegado a garrafa, só estive ocupado..." me sentei no braço da poltrona.
"Sei disso."
"Além do mais, o Weasley sobreviveu." Retomou, numa voz enjoada.
Pisquei, atordoada. O garoto era o Weasel?
"E tudo graças a Potter." Finalizou ele, e abriu um de seus livros de Transfiguração em seguida.
"Snape veio falar comigo de manhã." Ele voltou-se para mim, preocupado "Neguei que soubesse sobre seus planos, mas acho que ele não acreditou em mim."
"Ele leu a sua mente?"
"Acho que tentou, mas eu sai da sala bem rápido." Ele bufou, passando a mão pelos cabelos "Tem certeza que não seria mais fácil se contássemos à ele?"
"Está louca?" de repente, ele quase gritou. Alguns alunos olharam, mas Draco não se importou.
"Ele pode ajudar, Draco..."
"Já expliquei isso para você." Continuou, numa voz amargurada "Não quero Snape se metendo no meu trabalho."
"Mas se tivesse certeza que ia funcionar, não teria usado a o colar e nem a garraf..."
"Pode parar, Parkinson." Fechou o livro com violência e se levantou "Se também acha que eu não vou conseguir, pode deixar de me ajudar e espere para ver."
"Ótimo." Joguei minha mochila aos seus pés, lembrando que nenhum dos livros ali me pertencia. "Boa sorte com suas tarefas."
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Naquela noite eu deveria patrulhar os corredores junto com Weasley, mas como o ruivo se encontrava na ala hospitalar, Draco teve de substituí-lo. Sentia-me mal por ter discutido com ele, depois de todo o stress que passara com aquele maldito gabinete. Eu pensava nisso enquanto descia as escadas até o salão principal, onde Filch e Draco já estavam me esperando.
"Não corram, não gritem e não entrem nas salas de aula. Não cheguem perto das entradas ou das janelas maiores no segundo andar" falou, na costumeira voz asmática "Estão com suas varinhas?" Draco e eu apanhamos as varinhas. "Estejam em seus dormitórios antes das onze horas."
"Isso é mesmo necessário?" questionou Draco, sem muito ânimo.
"Ordens do diretor." Ele se virou para sair, e voltou-se novamente para nós. "Também vou estar vigiando, então não pensem em patrulhar corredores escuros juntos." E saiu se seguida, seguido pela sua gata.
"Draco...?" Hesitei, sem saber direito o que dizer.
"Certo, Pansy." Respondeu, compreensivo "Pode voltar a fazer meus deveres, se insiste tanto..."
"Assim você me faz sentir mal pelo Weasel" ele sorriu de leve, "Então, você cobre o sétimo andar?"
"Estou começando a me cansar dele." Falou, já indo em direção às escadas.
"Boa sorte." Falei, vendo-o sumir no patamar do segundo andar. "Não chegue perto das janelas maiores!" Consegui gritar, ouvindo sua gargalhada abafada distanciando-se.
Olhei em volta, para o saguão iluminado pelas luzes fracas dos castiçais. Ouvi um pigarro e me virei para Filch, que parecia extremamente aborrecido.
"O que eu disse sobre gritar?"
"É liberado?" arrisquei, já me afastando para a escadaria. "Acho que vou começar pelo quarto andar."
Apertei o passo, percebendo que a gata sarnenta do zelador ainda me seguia. Aquelas patrulhas eram extremamente desnecessárias, nenhum aluno seria burro de sair de sua casa com o risco de trombar com aquele zelador psicopata. Vi uma sombra passar pelo patamar do quarto andar, os cabelos negros e revoltos acusaram um aluno que com certeza não era Draco Malfoy.
Bem... Sempre havia exceções.
Não demorei muito para identificar Potter correndo na direção do sétimo andar, exatamente onde Draco estava. Sem conseguir explicar como ele adivinhara onde o loiro estava, apenas o segui. Ele não notou minha presença e continuou andando até parar em frente à Sala Precisa.
Não precisei de um pilar dessa vez, o corredor estava muito escuro e cheio de cantos sombrios onde Potter jamais me veria. Fitou a parede onde deveria haver uma porta e pareceu desistir de entrar depois de algumas tentativas. Já estava pronta para sair dali e chamar Filch para castigá-lo quando ele me surpreendeu, mais uma vez.
"Malfoy!" Chamou de repente.
Nas únicas vezes que Draco me convidou a analisar a sala, eu soube que, quando ele entrava, somente seu lado podia ouvir o exterior. O lado de fora não podia entrar sem sua permissão e também não ouvia nada que ocorresse ali.
"Malfoy, eu sei que está aí." Continuou Potter, o ouvido encostado na parede.
Eu tinha certeza de que Draco não sairia, mesmo que o grifinório continuasse chamando-o, tomando pelo menos o cuidado de não alterar a voz. Decidi chamar Filch para cuidar de Potter quando ouvi uma voz além da dele.
"Você não tem mesmo nada melhor para fazer, hein Potty?"
O grifinório já se afastara da entrada, então Draco atravessou, fechando a porta atrás de si. Não se falavam desde a festa de Slughorn, apenas alguns olhares furtivos no salão principal e as tão freqüentes (e mínimas) discussões entre uma aula e outra.
Potter permaneceu imóvel, como se alguém o tivesse estuporado. Acho que jamais lhe ocorreu que Draco pudesse realmente aparecer apenas porque ele o chamou. Para ser sincera, eu também estava um pouco surpresa.
"O que está fazendo aqui?" Conseguiu dizer, depois de encarar Draco intensamente.
"Por que não responde primeiro?" Devolveu o loiro, cruzando os braços enquanto sorria cinicamente para o outro "O que você acha que estou fazendo?"
"Usando a Sala Precisa." Respondeu o moreno.
"Mais uma vez, sua inteligência me surpreendeu, cicatriz." Zombou, batendo palmas.
"Certo..." o moreno pareceu fazer um enorme esforço para controlar a raiva. "É sua vez de responder a pergunta."
"O que faço aqui?" pediu. Potter confirmou com a cabeça. "Por que não perguntar ao seu amiguinho Weasel?" sugeriu, dando dois passos em direção ao outro. "Ah desculpe. Esqueci que ele não pode responder."
O grifinório bufou, mas continuou no lugar. Parecia se afastar de Draco conforme este avançava, como se temesse algo que talvez não pudesse controlar.
"Você não teve nada a ver com o envenenamento?"
"E tudo o que acontece de ruim nessa escola é culpa minha agora?" Perguntou num tom de falsa indignação. "Eu não faria isso sabendo que teria de cobrir sua patrulha idiota depois."
"Tenho certeza que está aproveitando muito esse período, Malfoy." Acusou o moreno "Nem precisa de vigias disfarçados e..."
"Não me venha com suas teorias idiotas." Interrompeu, e analisou Potter profundamente "Por que não o verdadeiro motivo de ter me seguido até aqui?" sua voz estava carregada de malícia e não fui a única a perceber isso.
"Vim descobrir o que está plan..." sua voz morreu quando Draco se aproximou, e inclinou o rosto na direção do moreno.
Ah, de novo não!
Potter também se inclinou, os lábios muito próximos aos do loiro. Ele pigarreou, e terminou a frase "Planejando."
"Vai sonhando." Draco respondeu, afastando-se e passando por ele até Potter agarrar seu braço "Que mania idiota de ficar me agarrando, Potter!" livrou seu braço com um puxão, notando que sua frase surtira outro efeito no grifinório, que voltou a segurar seu pulso. "Me solta! Ou eu..."
"Vai o que" interrompeu-o, em tom de desafio. "Me azarar?"
"Sabe que posso fazer muito mais que isso..." informou o loiro, e Potter hesitou um instante.
"Então mostre."
Draco o encarou, descrente. Puxou seu braço e agarrou Potter pela camisa, atirando-o contra a parede num movimento rápido, avançando em sua direção antes que pudesse reagir. Seus lábios chocaram-se violentamente, as mãos de Draco deslizaram pela cintura do moreno, enquanto Potter ocupava as suas nas costas do loiro, subindo uma para a nuca e puxando seus cabelos.
Não demoraram muito para se separar, as respirações arquejando e as feições coradas.
"O que..." começou Potter, ofegante. "Por que fez isso?"
"Você está louco e quer me enlouquecer!" Draco respondeu ferozmente, colocando as mãos na cabeça e olhando confuso para o moreno.
"Mas foi você quem..."
"Chega, Potter." Pediu o loiro, quase correndo para longe do corredor. "Me deixe em paz."
"Espere." Berrou Potter em vão, pois o loiro já estava prestes a dobrar o corredor "Draco, espere."
Draco paralisou, baixando os olhos para o piso e ouvindo os passos do grifinório, até que este o alcançasse. Potter contornou seu corpo, parando de frente para ele. Permaneceram em silêncio durante alguns minutos, sem saber o que dizer. Até que Draco se manifestou.
"Quando eu tinha nove anos, minha mãe dizia que eu era o retrato vivo do meu pai." Contou, parecendo lamentar o ocorrido "Hoje eu entendo perfeitamente o que ela quis dizer..."
"Por que está me contando isso?" Perguntou Potter, confuso.
Draco continuou fitando o piso de mármore, sem responder. Eu quase podia ler sua mente naquele momento. Achava que ia falhar com o Lorde, assim como aconteceu com seu pai. Talvez considerasse a possibilidade de desistir de tudo, e, encontrar outra maneira de salvar sua pele. Poderia até achar, naquele momento, que Potter o ajudaria com isso. Mas o medo prevaleceu sobre as demais possibilidades.
"Não vai extrair nada de mim, Harry... Potter." Avisou, numa certeza definitiva.
"Não importa."
— x —
Os encontros noturnos entre Potter e Malfoy se tornaram freqüentes. Não se falavam muito, mas sentiam uma necessidade extrema de estar perto um do outro. Às vezes, passavam uma noite inteira sentados apenas, lado a lado em uma sala de aula vazia. As outras eles usavam para liberar suas energias físicas acumuladas.
Não presenciei todos os encontros, mas podia contar nos dedos os dias que Draco não descia do dormitório durante a noite, para saciar sua sede insaciável com um copo d'água. Ou algo mais.
Não sabia explicar como Draco não se cansava das freqüentes perguntas de Potter sobre a sala Precisa ou das constantes crises sobre o comportamento deles estar confundindo sua cabeça. O loiro apenas ria, enquanto abotoava a camisa (jamais permitiu que Potter se livrasse dela completamente) e se despedia com um "boa noite, Potty", deixando o grifinório ainda mais confuso do que antes.
Continuei fingindo não saber de nada, me ocupando com as tarefas escolares e qualquer outra coisa que Draco me pedia em relação ao gabinete, que ainda não havia conseguido consertar. Parecia ter desistido parcialmente dele, visitando-o com menos freqüência durante o dia e nenhuma vez à noite.
Às vezes, preocupava-me com o que se passava em sua mente. Não tinha certeza sobre o que pretendia com Potter, mas isso parecia deixá-lo cada vez mais abalado. Mesmo que conseguisse disfarçar muito bem para os demais, a mim Draco não enganava.
O final do campeonato de quadribol se aproximou, e, então, Potter começou a se ocupar com os treinos, diminuindo a quantidade de encontros semanais e deixando Draco furioso (sem saber, é claro) todas as vezes que aparecia acompanhado pela artilheira do time, a irmã sardenta do Weasley. A partida final entre Corvinal e Grifinória aconteceria em duas semanas e só então Draco decidiu tocar nesse assunto específico.
Os dois estavam sentados num corredor escuro, em silêncio. Draco substituía Weasley em sua patrulha, já que o desespero e a ansiedade do jogo faziam com que o ruivo vomitasse a cada meia hora, impedindo-o de comparecer aos turnos designados por Granger. Potter respirava fundo, visivelmente cansado e Draco parecia não querer estar ali naquele momento.
"O que a Weasley é para você?" Disparou de repente, fazendo o grifinório prender a respiração.
"A irmã do meu melhor amigo."
"Só isso?" Insistiu o loiro, duvidando da resposta.
"É." Respondeu simplesmente. "Por que?"
"Foi uma simples pergunta, Potter." Draco falou, azedo "Já tenho minha resposta, obrigado."
"Você está com ciúmes?" Indagou, num sorriso debochado.
"Deveria?" Devolveu o loiro, ainda sério.
"Não." Potter encostou a cabeça na parede, um sorriso leve enfeitando o rosto "O que Parkinson é para você?"
"Não te interessa." Potter fechou a cara.
"Ela é sua namorada, não é?" Pediu, sua voz alterando-se a cada sílaba.
"Não é da sua conta." Draco repetiu, levantando-se sem seguida. Potter segurou seu pulso. "Quer parar com isso? Está começando a me irritar." Puxou o braço com força, livrando-se da mão de Potter.
"Então responda a pergunta." Ordenou o grifinório, levantando-se também.
"Não."
"Mas eu respondi!" Vociferou ele, já partindo para cima do loiro "Por que não quer responder? Ela é sua namorada, não é? O que diria se soubesse o que anda fazendo?"
"Deixei bem claro que não arrancaria nada de mim, Potty." O loiro respondeu, sarcástico.
"Isso não é bem verdade." Devolveu o grifinório, sorrindo de forma estranha. Draco franziu as sobrancelhas. "Há quanto tempo não visita o sétimo andar? Sozinho?"
"O que está insinuando?"
"Que você desistiu do que estava planejando." O loiro permaneceu em silêncio, estático. Virou de costas para Potter, afastando-se em passos largos. "Desistiu?"
"Pare de me seguir." Ordenou Draco, mas outro apenas o ignorou.
"Por que? Tem medo do que a Pansy pode fazer comigo?"
"Esqueça isso!" Continuou andando, Potter aos seus calcanhares. "Já disse que não é da sua conta."
"Pare de dizer isso!" Berrou o moreno, postando-se na frente de Draco, impedindo sua passagem. "E diga a verdade." Os dois respiravam fundo e com certa dificuldade.
"Quer saber a minha relação com Pansy, cicatriz?" O moreno acenou positivamente. Então Draco puxou a manga da camisa para cima, revelando o que Potter tentara provar o ano todo. "Ela é a única que entende o real significado disso."
Sim, eu sabia. Significava que Draco perdera sua sanidade por completo.
Potter não disse uma palavra, extremamente pálido. Continuou olhando a marca negra parcialmente iluminada pelos archotes do corredor durando mais ou menos 10 minutos antes de conseguir dizer qualquer coisa.
"Que você é um comensal da..."
"Morte!" Completou, os olhos cinzentos arregalados "Acho que conhece o termo, não é?" Potter o encarou, perplexo "E é isso o que vai me acontecer se não cumprir..."
"Cumprir o que?"
"JÁ DISSE QUE NÃO VOU RESPONDER!" Vociferou o loiro, fazendo Potter recuar alguns passos quando avançou em sua direção. "Sabe por quê?"
"Por quê?" Repetiu, esperando a resposta.
"Você me fez a pergunta errada." Potter balançou a cabeça, visivelmente confuso.
"O que está acontecendo aqui?" Oh Merlin! Era Filch.
"Esse aluno estava bisbilhotando os corredores, Sr. Filch." Draco respondeu. "Acho melhor acompanha-lo de volta à sua casa." Sugeriu, quando Potter o encarava estranhamente.
"Farei isso, Malfoy."A voz de Filch parecia melodiosa. "Depois de dar uma voltinha na minha sala."
Não esperava nada mais daquele velho. Potter o seguiu em silêncio, sem encarar os olhos de Draco. Não houve mais encontros depois daquela noite.
— x —
Meu estômago estava gelado, um torpor parecia tomar conta de meus movimentos. Talvez por isso não conseguisse me levantar e obedecesse as ordens de madame Pomfrey, de esperar uma liberação para ver Draco, que estava desacordado na ala hospitalar.
"Terá de esperar até mais tarde para fazer visitas, Srta. Parkinson." Ouvi sua voz de repente e saltei do sofá num pulo.
"O QUÊ?" Quase gritei, desesperada. "Eu quero entrar agora!"
"Sinto muito, mas..."
"Não quero saber," interrompi, erguendo a voz a cada sílaba "Preciso ver como ele está."
"Desacordado." Ela respondeu, visivelmente irritada "E não grite aqui"
"Madame Pomfrey," de repente, ouvi a voz do meu salvador. "Preciso voltar para o banheiro e..."
"Snape!" Chamei, sem me importar se o que diria à enfermeira era importante "Como está Draco?"
"Ele vai se recuperar." Respondeu secamente, voltando-se para Pomfrey.
"Posso vê-lo?" Ele me encarou, muito sério "Por favor, não quero esperar até mais tarde."
"Eu disse à ela que ele está indisposto, professor."
"Acho que Parkinson não vai incomodá-lo, madame Pomfrey."
Eu poderia beijá-lo naquele momento, se soubesse que não levaria uma detenção por isso. A enfermeira suspirou, empurrando a porta da ala hospitalar e desimpedido minha passagem.
"Ele está na cama dos fundos." Avancei alguns passos, extremamente preocupada com o que veria quando me aproximasse.
"Com licença, preciso voltar para Potter." Ouvi-o dizer, antes de deixar o corredor.
Foi ele.
"Você tem cinco minutos." Informou-me Pomfrey, deixando o cômodo antes que eu pudesse protestar.
Aproximei-me da cama onde Draco estava deitado, notando que metade de suas vestes estava coberta de sangue. Engoli em seco quando percebi as diversas cicatrizes cobrindo seu rosto e pescoço. Puxei uma poltrona e sentei ao lado de sua cama, segurando sua mão esquerda.
Você está morto, Potter!
"Draco...?" Sussurrei baixinho, sentindo as lágrimas teimando por liberdade. "Draco...?"
"Pansy?" Falou, alguns minutos depois. Ele abriu os olhos devagar e fitou-me confuso.
"Por que você fez aquilo, Draco?"
"Fiz o quê?" Indagou, com certa dificuldade.
"Mostrou a marca para Potter." Respondi, sentindo que não deveria mais esconder que sabia o que ocorrera entre eles. Ele suspirou cansado e me olhou como se não tivesse contado um segredo.
"Você sabia..." Puxou sua mão devagar, soltando-a da minha. "...desde quando?"
"A festa do Slughorn." Respondi, o mais baixo que pude "Eu achei que ia me contar e..."
"Está tudo bem." Interrompeu-me, como se não ouvisse o que eu falava. "Preciso que me ajude com um feitiço para esconder a marca, porque madame Pomfrey vai me examinar."
"Acha que um feitiço simples de dissimulação vai funcionar?" Perguntei, já apanhando a varinha do bolso.
"Qualquer um que passe por um exame de dez segundos." Respondeu rapidamente, puxando a manga da camisa. "Não vou deixa-la olhar por mais tempo que isso."
"Certo." Agitei a varinha e executei o feitiço, que fez a marca dissolver vagarosamente na pele esbranquiçada de Draco, quase irreconhecível.
Permanecemos em silêncio durante alguns minutos, Draco fitava seu braço com um olhar preocupado.
"Não se preocupe com Potter, ninguém vai acreditar nele se tentar contar o que viu." Falou, depois de se certificar que o feitiço havia funcionado.
Ele estava certo. Potter tinha tentado provar isso o ano todo sem sucesso algum e provavelmente hesitaria antes de contar a verdade a qualquer pessoa, uma vez que isso desencadearia perguntas sobre como conseguira fazer Draco lhe mostrar a marca.
"É, suponho que não." Conclui por fim.
A porta da enfermaria se abriu e madame Pomfrey apareceu.
"Seu tempo esgotou, Srta. Parkinson." Ela disse, aproximando-se "Se não se importa, o Sr. Malfoy precisa descansar."
"Está bem." Respondi exasperada e com um desejo repentino de difamar Potter assim que saísse dali "Voltarei mais tarde."
"Pode dar um passada no sétimo andar?" Ele sussurrou, ao que eu respondi com um aceno positivo. "Obrigado."
"Vamos, vamos..." Dizia a enfermeira enquanto me empurrava para fora.
"Sei andar sozinha, obrigada." Desvencilhei-me dela, parando na porta e fitando o rosto abatido de Draco uma última vez antes de sair.
Não sabia mais o que ele faria em relação à Potter, mas duvidava que voltassem a se enfrentar aquele ano. De qualquer forma, não insisti muito naquele assunto.
Precisava consertar o maldito gabinete.
— x —
Próximo capítulo: O derradeiro, o último, o final!... E o triste encontro das protagonistas desta saga.
