Dangerous

por Clara e Doom

— x—

Capítulo V

Ginny POV

— x —

Não sei bem explicar o que se passa na minha cabeça. Como descrever o que estou sentindo em relação a... aquela cena. Aqueles dois naquele corredor. Aquelas palavras e aqueles olhares sombrios. Insistentes. A maneira insistente como Harry puxava Malfoy pelo braço, afim de que ele não fugisse da discussão. A maneira íntima com que ele fizera aquilo.

Íntima, sim. Tanto quanto a de Malfoy em Harry.

Harry e Malfoy. Íntimos.

Pensar naquela equação embrulhava meu estômago. Era surreal demais...

Como eu podia imaginar uma coisa daquelas?

Imaginar não. Foi apenas o que eu vi.

Duas semanas se passaram desde então. Na maioria dos momentos – para não dizer todos – a cena não me saía da cabeça. Em minhas refeições em casa, nos banhos, nas conversas com papai – por vezes eu me perdia no que ele estava falando – e até mesmo quando Bill viera com a Fleuma nos visitar na quinta. Sem falar dos momentos em que eu estava por aí nas ruas, tanto sozinha como acompanhada.

Tanta reflexão e eu não cheguei a uma mínima resposta plausível que justificasse aquele comportamento bizarramente incomum de Harry e Draco Malfoy.

Falando em Harry, daqui a alguns dias ele fará aniversário. Estamos entrando no fim de julho, e antes que fôssemos embora naquele dia – aquele, sabem? O do famigerado flagra no corredor – o pessoal combinou de passar algum tempo na Ordem. Seria, afinal, uma maneira de Harry não passar a data apenas na companhia de uns eventuais adultos e de Malfoy. Iríamos ao sábado.

O sábado chegou. Era finzinho de tarde quando Ron e eu aparecemos por lá.

Neville, Hermione e Harry vieram da cozinha nos receber. Pelo visto estavam sozinhos. Nos cumprimentamos ­– o abraço de Ron e Hermione mais longo do que o normal, e iniciado com um beijinho mútuo no rosto. Ora, aquilo era novidade! Perguntei a Harry se Luna também fora convidada.

"Sim, ela está lá em cima".

"Ela chegou agora a pouco, Ginny", acrescentou Hermione com um sorriso, assim que terminou o abraço em Ron. "Uns dez minutos antes de vocês".

Luna surgiu das escadas no instante seguinte. Abraçou-me, cumprimentou Ron com seus sorrisos e acenos vagos, e se juntou a nós quando fomos para a cozinha.

"Vocês estão sozinhos aqui?", perguntei.

"É", Harry respondeu, sentando-se de frente para mim na mesa retangular. "Lupin e Tonks estavam aqui até a hora do almoço, mas depois foram embora".

"Sim, mas os outros provavelmente aparecerão mais tarde. Seu pai, por exemplo", disse Hermione, voltando-se para Ron.

"Não, hoje papai faz turno no ministério. Segunda-feira é provável".

Ouvi um gemido baixinho do meu lado esquerdo.

"Hmm, com licença", grunhiu Neville, cobrindo a boca com uma mão. Agora que eu vi. A cara dele estava meio verde.

Ele se levantou da mesa.

"O que foi Neville?", exclamou Hermione, fitando-o com o cenho franzido.

"Acho que aquela poção da minha... ugh!". Neville soluçou, cobriu a boca de novo e saiu correndo da cozinha.

Ron e Harry se entreolharam.

"Isso só pode ser coisa da avó dele", comentou Luna, fitando o ponto da porta em que Neville desaparecera.

"Provavelmente", concordou Hermione, os lábios crispados, também olhando para o mesmo ponto que Luna. Depois balançou a cabeça e se serviu de suco.

"Põe um pouco pra mim?". Ron aproximou seu copo enquanto Hermione ainda se servia. Ela segurou o copo dele quando o encheu de suco, a ponta de seus dedos por cima dos dedos de Ron.

Hm, espertinha. Ainda bem que lembrei de disfarçar meu sorriso.

"Harry", Luna chamou, ao meu lado direito.

Ele ergueu a cabeça para ela.

"E Draco Malfoy, onde está?".

A mesa, que já não estava muito barulhenta, ficou extremamente silenciosa após isso. Agora todos nós encarávamos Luna. Mas eu observei Harry logo em seguida.

Eu não consegui definir o que estava por trás daquele olhar fixo dele em cima de Luna.

"Em um quarto de hóspedes", respondeu, baixo e neutramente, e logo baixou o olhar para seu lanche.

Vi que Luna crispou os lábios com indiferença. Mas seus olhos fitando o nada denunciavam que ela estava mais pensativa do que já era normalmente.

"Ainda é difícil para mim", ela comentou depois de um tempo, ainda fitando o nada. "chamar um colega que estudou com a gente de Comensal da Morte".

"Não, Luna, ele não estudou exatamente com a gente", replicou Ron. "O maldito era sonserino, e isso faz toda a diferença. Além do mais, ele é um Malfoy. O que você pode ver de estranho nisso?".

"Não sei", ela respondeu, encarando meu irmão com seus grandes olhos que não piscam. "Apenas que, bem, eu não o conheci pessoalmente. Eu disse isso apenas por teoria".

"E você precisa conhecê-lo para saber que ele não presta?", acusou Harry, excessivamente incrédulo e sarcástico. "Você participou da AD, Luna, não se lembra como foi quando aquela Brigada Inquisitorial nos encurralou naquele dia?".

"Sim, me lembro", respondeu Luna, com uma calma que me fez arregalar os olhos. Eu não teria essa calma toda se Harry viesse falar naquele tom comigo. "Mas ainda assim, não é suficiente. Ele era membro de um grupo naquele dia, Harry, não era somente sua personalidade falando. Sabe, acho que o problema dos grifinórios é exatamente este: todos vocês fazem um julgamento prévio e emocionado de qualquer estudante de Hogwarts que usasse a gravata verde".

Todos nós, à exceção de Luna, nos entreolhamos, as sobrancelhas crispadas. Quis dar uma resposta a ela, mas não consegui encaixar palavras. Harry abriu um sorrisinho de lado e balançou a cabeça.

"Olha... admito que a rivalidade de grifinórios e sonserinos seja um tanto irracional, mas é como você mesma disse", ele fixou os olhos nos dela. "você não conheceu Malfoy pessoalmente. Nós, sim. Muito até, mais do que o suficiente".

"É". Ron suspirou, o olhar perdido. "Não tivemos a sua magnífica sorte, Luna, e você não sabe quanto eu a invejo por isso".

"Pode ser", Luna admitiu, depois de um breve silêncio, trocando seu anel de vidro cor-de-rosa de dedo. "Mas pelo menos, eu não dei o tremendo azar de me apaixonar por ele que nem a Padma Patil".

"Quê?", engasgou-se Hermione. E eu também. Encarei Luna como se de repente ela estivesse chorando sangue.

Harry também a mirou de supetão.

"Padma Patil, apaixonada pelo Malfoy?". Hermione repetiu a pergunta que eu me fazia mentalmente. "Tem certeza disso?".

Ron começou a rir.

"Bom, pelo menos ela foi", respondeu Luna, dando de ombros. "Me contou isso no ano retrasado".

"Mas Padma... Padma era tão", balbuciava Hermione, gesticulando com as mãos.

"O que tem de tão extraordinário nisso, Mione?", Ron questionou, ainda risonho.

"Tem que eu sempre pensei que Padma Patil fosse uma garota centrada, muito responsável e... bem, se Luna dissesse que era Parvati ao invés de Padma, eu até entenderia".

"Também não acho tão extraordinário", Luna palpitou, com sua voz sonhadora. "Draco Malfoy pode ser o que é, mas é um rapaz atraente".

Houve um arregalar de olhos generalizado pela mesa.

"Você acha, Luna?", perguntei horrorizada. Logo em seguida, vi Harry crispar as sobrancelhas quando olhou para ela.

"Você não acha?".

"Não! Digo, ele é todo branquelo e... bem, tem aquela cara de antipático nojenta dele–".

"Ah, eu não vejo assim, sabe? Ele tem sobrancelhas bem desenhadas", Luna se voltou para mim, como se iniciasse uma conversa de comadres. "Você nunca reparou? Pena que a franja dele tenha crescido tanto no ano passado, porque ele fica muito bem quando ergue uma das sobrancelhas", ela fez uma pausa. "Eu pensei que você reparasse nesse tipo de coisa, Ginny".

Pelo canto do olho, percebi que Harry, Ron e Hermione nos encaravam cada qual mais boquiaberto que o outro.

"Sim, mas eu não ia–".

"O sorriso dele também é legal", Luna me interrompeu. "Ele tem uns dentes bem pontudos, sabe? Eu reparava às vezes, quando me sentava de frente para a Sonserina no Salão Principal. Me lembrava dos vampiros que eu via nas revistinhas infantis de bruxo, porque alguns eram bem assim, loiros e brancos como neve".

Eu balancei lentamente a cabeça em contestação para Luna.

"Ah, acho que não era somente a Padma que costumava gostar de doninhas quicantes, hein?", Ron debochou, rindo alto em seguida. Hermione balançou a cabeça em censura, mas tentou esconder o riso.

"Pare Ron, não seja idiota", eu disse, com tédio.

Ron continuou rindo, mesmo depois de Hermione ter-lhe acertado um tapa estalado no ombro.

Harry estava sério. Seu olhar fixava o próprio copo enquanto Ron apenas ria, e eu percebi seus maxilares mais rígidos do que o normal. Ele levou o copo aos lábios, ingerindo o suco de um só gole.

"Ah, Luninha! Pena que o – hahahah - Malfoy não estava aqui", ele se esquivava dos tapas de Hermione, "para ouvir você falar dos dentes pontiagudos!".

"Ron, já chega, francamente!", censurava Hermione. Mas em seguida, Ron, gargalhando baixo e ofegante, virou-se para ela e enterrou a cabeça em seu ombro. Hermione começou a sacudi-lo pela manga da roupa, enquanto lhe sussurrava coisas ríspidas.

"Harry, tudo bem?", perguntou Luna, após desviar o olhar de Ron e Hermione.

"Ãnh?", ele levantou o olhar para ela, as sobrancelhas crispadas. "Por quê?".

Luna não respondeu. Apenas o encarou sem piscar.

Ron e Hermione, voltando às suas posições iniciais, agora discutiam aos sussurros.

"Hm", eu pigarreei. "Licença gente, vou ao banheiro".

"Eu também", disse Harry, para minha surpresa. Ele se levantou em seguida.

Antes que cruzássemos a soleira da porta, Neville apareceu. Ele avistou Ron e Hermione ainda discutindo, e em seguida dirigiu o olhar para mim.

"Eu perdi alguma coisa?".

— x —

À beira de subirmos às escadas, Harry e eu nos entreolhamos. Ele desviou o olhar e sorriu, sem graça.

"Você também não estava agüentando aquela conversa, não é?".

"Receio que sim", eu sorri também. "E espero que isso não se repita no dia do seu aniversário".

"É, bem pensado!" Harry começou a subir os degraus, e eu o acompanhei. "E, por favor, nem dê idéias, Ginny. Principalmente se a Di-lua estiver presente".

Di-lua. Fazia muito tempo que eu não ouvia Harry chamá-la assim.

Fizeram-se uns segundos de silêncio.

"Não a leve a mal, Harry", eu disse, quando estávamos prestes a chegar ao patamar. "Ela não disse tudo aquilo porque queria aborrecer vocês".

"Eu sei", ele respondeu baixinho. "Eu sei que é o jeito dela. Só fiquei um pouco mal humorado porque o assunto era Draco Malfoy, só por isso".

Eu é que sei.

"Entendo. Harry?"

Ele estava se desviando para a direção contrária, quando parou.

"Ainda não perguntei... Como foram suas duas últimas semanas?".

Ele piscou, desviou o olhar de mim e umedeceu os lábios.

"Tranqüilas", suspirou. "Normais, foi como se Malfoy nem estivesse aqui".

"Ah. Que bom", assenti, dando o sorrisinho mais forçado da minha vida. "Que bom, então ele não te perturbou?".

"Não". Um breve silêncio. "Não", ele disse de novo, suspirou, e em seguida fez um sinal com a mão de que voltaria ao seu caminho.

Eu sorri em assentimento, e segui o meu.

Escolhi o penúltimo banheiro do corredor. Abri a porta automaticamente – os banheiros ali geralmente não eram trancados com magia quando estavam desocupados. É, só desocupados. Porque, no caso em questão, quando eu abri a porta, fui recepcionada com uma avalanche de vapor quente que ocultou absolutamente tudo ao meu redor.

"Quem diabos...? Ah. Claro. Weasley".

A fumaça úmida se diluiu. Mas não foi preciso reconhecer a silhueta que se recortava contra ela, porque eu senti arrepios de susto assim que ouvi aquela voz.

"Ah, eu... eu", gaguejei, terrivelmente patética. "Me desculpe, vou sair".

"Era o mínimo", ele debochou, agora completamente nítido em meio ao vapor. Minhas faces esquentaram. Eu estava diante de um Draco Malfoy molhado da cabeça aos pés, seminu e enrolado em uma toalha preta. "Mas agora que entrou, fique. Eu já estava de saída".

Ele passou por mim sem cerimônias, e eu me esgueirei contra a parede mais energicamente do que o necessário.

"Ei. Malfoy", chamei, quando ele já se encontrava quase do lado de fora, sem pensar. Ginevra, sua burra. Por que perde as melhores oportunidades de ficar calada?

Ele se voltou, uma de suas piores expressões de desprezo estampada no rosto.

"Suas roupas", eu disse, sem olhar para Malfoy, apontando para um canto da parede onde um amontoado de pano preto estava pendurado.

Ouvi-o produzir um risinho debochado. Então, voltou a cruzar o banheiro. De costas para mim, próximo do jeito que estava, eu reparei que ele tinha várias cicatrizes nas costas e braços, de diferentes profundidades.

"Pronto, Weasley. Faça bom proveito".

Ha. Garoto folgado.

Ele estava cruzando a soleira da porta, quando fui até ela para fechá-la.

"Ginny, eu ouvi sua voz e...".

Minha mão parou na metade do caminho até a maçaneta. Malfoy parou na metade do caminho até atravessar completamente a soleira da porta.

"Que está acontecendo aqui?".

Meu pai. Era Harry.

— x —

"Que você acha que está acontecendo?".

"Malfoy estava tomando banho aqui, Harry", apressei-me em explicar. "Daí eu entrei por engano, mas ele já havia terminado e estava de saída".

"Hohô!", Malfoy debochou, e em seguida avançou contra Harry – que não se mexera um centímetro para ceder espaço para o outro sair. Passou por ele esbarrando no seu ombro. "Por que você também não pede pra ela bater continência, Potter?", ele parou no corredor, cruzando os braços sobre o peito desnudo, virando-se para Harry. "Vem cá, você não acha que pega mal para o maravilhoso Garoto-Eleito demonstrar tanto ciúmes em público?".

"Eu não falei com você!", gritou Harry.

Malfoy soltou uma risada curta. "Ha, não diga. Por que estava olhando para minha cara então, quando perguntou 'que está acontecendo aqui?'?".

Meio de perfil para mim, vi o rosto de Harry corar intensamente.

"Porque eu não vejo muitas pessoas dessa casa desfilarem por aí praticamente nuas". Harry respondeu com a voz cheia de veneno.

Malfoy sorriu calmamente.

"Primeiro", disse. "Eu estava dentro de um banheiro, onde imagino que as pessoas normalmente tomam seus banhos. Portanto não sei de onde você tirou este 'desfilando'Segundo,sim, realmente, você não deve ver muitas pessoas desfilarem por aí seminuas, uma vez que elas provavelmente tenham suítes em seus quartos, coisa que, para o seu azar, não é o meu caso".

Vocês sentiram uma ênfase estranha neste "para o seu azar"?

Harry abriu a boca para replicar.

"E antes que você recomece com suas chorumelas", Malfoy o cortou, dando-lhe as costas. "Experimente conversar com a porta do meu quarto, Potter. Garanto que ela é muito mais simpática do que eu".

Olhei para Harry. Ele me retribuiu. Seus lábios estavam crispados de ódio.

"Harry. Harry, não, deixe-o!". Mas não adiantou. Ele seguiu a largas passadas até o quarto em que Malfoy entrara.

Oh, deus. O que eu podia fazer? Que encruzilhada!

Ah, não. Não, chega de tantas divagações e dúvidas! Eu quero, eu tinha que descobrir o que estava se passando com aqueles dois. Ou até mesmo para ajudar em alguma coisa, caso acontecesse mais um duelo como aquele primeiro. Sem pensar mais uma vez, saí correndo do banheiro. Harry estava abrindo a maçaneta da porta de Malfoy com violência.

Corri um pouco mais.

"Potter!", ouvi a voz abafada de Malfoy. A porta do quarto estava entreaberta. Aproximei-me com cuidado.

Harry estava de costas; Malfoy, parado ao pé da única cama de solteiro existente. Ele fixava Harry com uma expressão tão estranha… Seu rosto estava corado.

Mas corado por quê?

Não, melhor deixar as perguntas para depois.

"Potter", disse o corado Malfoy, estendendo o braço lentamente. "Cai fora".

"Eu estou cansado de você, Malfoy", Harry disse baixinho.

O outro franziu o cenho. Harry levou as mãos ao rosto, e atravessou o quarto até o lado oposto. Malfoy acompanhou-o com o olhar, e eu vi que ele segurava firmemente a toalha enrolada na cintura.

"Cansado de quê?", ele perguntou, sem energia, sem ânimo, e pela primeira vez, sem aquela dose exagerada de malícia típica dele. "O único que tem o direito de falar isso aqui sou eu".

Harry o encarou, sarcasticamente. "Ah, é?".

"É, Potty. Vocês todos estão me cansando com essa palhaçada de me manter prisioneiro. E pior, pensando que vão obter alguma vantagem com isso".

"Eu soube que os aurores não fizeram muitos progressos com você".

"É claro que não! Vocês pensam o quê? Que basta ter um crânio tatuado no antebraço para saber todos os segredos do Lorde das Trevas?".

"Pelo menos você trará menos prejuízo se não ficar do lado dele. Esse é o espírito da coisa, Malfoy".

Eles se encararam sob um pesado silêncio.

Vi Harry piscar, e depois correr o olhar do rosto de Malfoy para baixo... Seus lábios estavam vermelhos e entreabertos. Depois ele fechou os olhos e abaixou a cabeça.

Por Merlim. Eu não quero interpretar o que foi aquilo.

Malfoy fixava Harry também. Suas mãos não paravam de torcer nervosamente o nó da toalha enrolada na cintura.

"Potter, eu-".

"Malfoy–".

"­–eu preciso me trocar", continuou Malfoy, em tom baixo.

"Ok", Harry murmurou após suspirar; ainda cabisbaixo, adiantou-se para sair.

Ele passou por Malfoy, mas não pode continuar sua trajetória. O garoto o segurou pelo pulso.

Harry se voltou imediatamente.

Os dois estavam respirando fundo. E não só Harry, como também Malfoy estava corado. De novo.

Eu estou imaginando coisas, eu estou imaginando coisas!

Harry rapidamente se aproximou de Malfoy, e seus rostos ficaram inacreditavelmente próximos.

Não! Não é o que você está pensando, não pode ser! Não, não, não, pode haver uma explicação para aquilo! Pode...

Uma mão de Malfoy tocou o cotovelo de Harry, e as mãos deste se embrenharam lentamente pela cintura nua do outro.

É ilusão de ótica, por Merlin, não pode ser real! Oh, deus...

Eles se encaravam nos olhos o tempo todo.

"Malfoy, eu-".

"Não, cale a boca". Então, o rosto de Malfoy avançou para frente e seus lábios cobriram os de Harry.

Não.

Eles se beijaram.

Harry e Malfoy realmente se beijaram.

Eu quase não consegui ficar ali para ver Harry entreabrindo seus lábios e beijando Malfoy com tanto desejo, com uma avidez que eu jamais vi nele – nem mesmo quando estava comigo, e pensar nisso doía mais ainda. Ver suas mãos se arrastando por aquele corpo branquelo e magro, tórax, costas e braços, e ver como Malfoy retribuía, com igual fervor, suas mãos se entranhando pelos cabelos e nuca de Harry, enquanto o beijo ficava cada vez mais profundo, mais intenso.

Mais grotesco, mais aberrante, mais nojento!

Harry quebrou o beijo, os rostos de ambos em chamas, e eles ofegavam ruidosamente. Malfoy aproximou o rosto do outro e eles colaram suas testas, os narizes se encontrando. De olhos fechados, vi Harry abrir um pequeno sorriso.

Chega. Era demais.

Malfoy abriu os olhos, seus dedos acariciando os cabelos da nuca de Harry, e mordiscou o lábio inferior dele. Ouvi Harry gemer baixinho, e logo em seguida eles estavam se beijando ferozmente de novo.

Deixaram-se cair sobre a cama. Levei um susto quando vi a toalha de Malfoy se desprendendo do quadril, mas o garoto estava de cueca. Ainda.

E eu não agüentei mais.

Deixei o batente da porta, a mente vazia demais para lembrar de disfarçar as lágrimas caso alguém topasse no meu caminho.

— x —

Os dias seguintes foram os piores desde minha primeira estadia nessa casa, há dois anos atrás.

Eu havia corrido direto para o meu quarto naquela tarde do flagra. Fiquei lá, trancada, sem conseguir pensar, falar ou chorar. As lágrimas verdadeiras só vieram uns quinze minutos depois. Eu estava em choque. Ainda estou. Foram lágrimas de dor, de incredulidade, de ciúmes, de angústia.

Não contei a ninguém sobre o que vi. Mesmo que muitas vezes Luna e Hermione tivessem lançado olhares tortos e insistentes para minha pessoa, eu resisti bravamente. Resisti sim, porque a tentação foi grande de aliviar aquela coisa que estava atravessada na minha garganta. Mas enquanto a coragem não vinha, as horas iam se passando, os dias iam se passando, e eu estava completamente sozinha quando avistava os objetos do segredo que eu vinha guardando.

Quando, nas madrugadas, eu me levantava para ir à cozinha, e encontrava uma sombra se esgueirando até o quarto de Draco Malfoy. Quando, ontem mesmo ao amanhecer, eu ouvi vozes conhecidas dentro de um quarto, e no instante seguinte, as cabeças de Harry e Malfoy aparecendo para espiar o corredor. O primeiro saíra pela porta, sussurrara coisas que eu não entendi para o outro, e por fim, eles se despediram com um beijo rápido, mas perceptivelmente relutante ao se separarem.

E eu ficava me perguntando... Desde quando? Desde quando Harry Potter e Draco Malfoy eram amantes? Desde quando aquele ódio todo dera lugar a isso? E por quê? Por que, de todas as pessoas, Harry fora escolher seu próprio inimigo?

O que mais me doía não era nem o fato de ver Harry com outra pessoa. Eu já esperava por uma coisa assim, porque há muito tempo eu sabia que o lance que tivemos no passado realmente ficara no passado, que acabara, e que não tinha mais volta, independente de guerra alguma. O problema era a pessoa escolhida em si. Eu não estava nem remotamente preparada para uma coisa daquelas. E ciúmes mesmo não era bem uma palavra que caberia aqui. Era pior do que isto. Era perturbador.

Bom, pelo menos agora tudo fazia sentido. Minhas dúvidas a respeito do comportamento dos dois foram – terrivelmente – esclarecidas.

Merlin, eu quero morrer!

Estão batendo na porta.

"Entre".

"Ginny?".

"Oi, Luna".

Ela se aproximou de minha cama. "Ei, por que não foi almoçar?".

Por que não fui almoçar? Para quê? Para me deparar com aquela cara de felicidade mal disfarçada de Harry Potter? Não, obrigada. Acho que prefiro não regurgitar o meu almoço.

"Estou sem fome", grunhi, abraçada ao travesseiro. Não deixava de ser verdade.

"Sente-se mal?".

"Um pouco. Acho que estou para menstruar", menti.

"Se você quiser te trago alguma coisa".

"Não, Luna", sorri insossamente. "Não é preciso".

Ela suspirou, então apanhou meu mini-puff no criado mudo e começou a alisá-lo.

"E os outros?", perguntei.

"Neville e Ron estão jogando Snap Explosivo na cozinha, e Hermione estava conversando com Tonks a respeito de Inferis".

Fingi interesse quando ergui as sobrancelhas.

"E Harry?".

Eu não queria ter perguntado isso.

"Também estava conosco na sala, conversando com Olho-Tonto Moody, quando ele apareceu de passagem agora a pouco. Depois, subiu as escadas, e eu não o vi mais".

Pensar que ele estava, então, neste mesmo andar causou-me arrepios desagradáveis.

"Ginny, você não vai mesmo me contar por que está assim?".

"Só não me sinto bem, já disse".

"Você não fica desse jeito quando está para menstruar", observou minha amiga, sua voz mais firme do que o normal. "Geralmente fica arisca, nervosa ou estressada. Mas triste e murcha do jeito que está eu nunca vi".

"Tudo tem uma primeira vez, não?".

"Eu prefiro acreditar que existe um outro motivo. Bem menos evasivo do que este".

Às vezes eu me esqueço que Luna foi da Corvinal.

"Onde você está querendo chegar?".

"Na verdade, amiga", ela abriu um sorriso fraco, doce. "Talvez eu possa te ajudar".

Surgiu um mal-vindo nó em minha garganta. Engoli em seco, mas ele não saiu de lá.

"Não", isso foi o que acabei dizendo. Eu não devia e nem queria dizer nada. A ninguém.

A mão de Luna afagou meus cabelos caídos sobre a testa.

"Eu posso adivinhar, então?".

Sorri novamente, em descrença, e não tive coragem de encará-la nos olhos.

"É o Harry".

Aquilo foi uma afirmação. Eu fitei o fundo de seus olhos. Nenhuma espécie de hesitação lá.

"É ele, não é? É por que estava estranho ontem?".

"Não exatamente por isso", eu hesitei.

Eu deveria ter dito não somente por isso.

Luna me olhava, como se esperasse eu dizer mais alguma coisa.

"Mas é ele, sim", admiti com um suspiro doloroso. Não pude resistir. Aquilo estava me matando.

Ela suspirou. "Imaginei".

"Você sabe de alguma coisa?", perguntei.

"Você está perguntando se eu desconfio de alguma coisa? Bem, provavelmente".

Quantas pessoas mais estariam desconfiando também?

"Ginny, por favor, você está sabendo de alguma coisa. Está não é?".

O nó em minha garganta se apertando, o esforço para conter a umidade excessiva de meus olhos aumentando, mesmo assim, eu assenti com a cabeça.

Mas o que eu estava tentando esconder? Luna sabia que eu estava em pedaços.

A imagem da minha amiga estava borrada quando ergui os olhos para ela.

"Luna, Harry, ele– ele...".

Então, uma lágrima quente desceu de um dos meus olhos, ergui-me da cama e estendi meus braços para Luna. Ela me acolheu, afagando meus cabelos e permanecendo em silêncio para que eu ficasse a vontade para falar tudo o que estava me sufocando.

"Descobri que ele...", eu soluçava, tentando falar sob a emoção que me apossava. "ele e... Ele tem um caso".

"Merlin", ouvi a voz abafada de Luna murmurar.

"V-você já-", comecei.

"Não", ela respondeu. "Não, eu apenas desconfiei de Harry. Não me pareceu apenas aversão o que ele demonstrou quando falamos de Draco Malfoy na cozinha. Teve um momento em que ele fixou o olhar em mim de um jeito muito estranho, assim que eu falei que o achava bonito".

"Oh, Luna, por favor", funguei.

"Mas eu não havia pensado nada naquela hora", ela continuou, ignorando-me. "Então, comecei a observá-lo sempre que o grupo mencionava Malfoy. Não importava quem tivesse dito, ou qual momento era, Harry sempre se alterava. Ficava sério, ou calado, ou ríspido, ou então mudava rapidamente de assunto. Achei que ele e Malfoy tivessem algum segredo. Alguma coisa séria tivesse acontecido com eles".

"Foi o que pensei também!", repliquei, a minha voz trêmula, desfazendo-me do abraço para encarar Luna de frente. "Eu pensei nisso desde o dia em que ajudei Harry a trazê-lo para cá. Ah, Luna, eu pensei tantas coisas! Mas quanto mais o tempo passava, mais estranhos eles ficavam, e mais coisas estranhas eu via e ouvia". Outra lágrima desceu pelo meu rosto, e eu me calei.

Luna assentiu compreensivamente. "Ginny, quando exatamente você descobriu?".

Sustentei o olhar dela. "Descobri o…?".

"Sim, o caso. Harry tem um caso com o... Não é?"

"É. É com ele", suspirei. "Foi ontem que eu vi".

"Você viu mesmo, de fato?".

"Sim, Luna" Eu, de repente, quis que aquela conversa acabasse logo. "Eu vi. Os dois estavam brigando no corredor, Malfoy deixou Harry falando sozinho e foi para o seu quarto. Harry entrou lá, eu o segui, e acabei vendo tudo".

"Você não tem que se chatear com isso".

"Não é fácil".

"Eu sei. Mas é o que eu sempre digo... Você deveria dar uma chance ao Colin Creevey".

Ah, eu realmente não precisava ter escutado essa!

"Por favor, Luna".

"É sério, Ginny, porque-".

"Essas coisas não são assim! Não são, o que posso fazer? Você acha que eu gosto de sofrer por um idiota que é atraído pelo inimigo? Não, querida, não posso fazer nada. Não quando dei o tremendo azar de praticamente ter nascido apaixonada por ele".

Suspirei longamente em seguida. Um suspiro de dor, de conformismo, mas, principalmente, de alívio. Muito alívio.

Levantei-me da cama.

"Aonde vai?", quis saber Luna, observando-me muito surpresa.

"Diga que não demoro. Preciso de ar".

Com estas palavras, eu saí do quarto.

— x —

Uma chuva fininha começou a cair, o céu era cinza-chumbo. Cinza. Igual aos olhos do...

Ah, não comece!

Meus pés me levavam pelas ruas do largo, sem seguirem prévia direção, e eu observava distraidamente aqueles casebres feios. Um ou outro barzinho em cada esquina, cada um menos convidativo que o outro. No entanto, eu me sentia tentada a adentrar qualquer um deles.

Fui seguindo, a brisa gelada proporcionando-me uma sensação estranhamente agradável, quando meus olhos fixaram a calçada oposta. Eu parei. Era uma espécie de mini-restaurante, só que muito fechado, e muito escuro. Quem se importa? Fui até lá.

Um bom hidromel me cairia bem.

O local era quente, esfumaçado e realmente escuro. Tanto que as mesinhas tinham luminárias de fogo vivo. Suspirei e retirei o casaco.

Aproximei-me do balcão. "Um hidromel, por favor".

Dez minutos depois, o barman voltou com uma tacinha do líquido amarelo. Estava um tanto gelado demais.

Enquanto bebia, reparei que o barzinho estava praticamente vazio. A maior parte das pessoas se concentrava no balcão, como eu. E então, quando passei distraidamente o olhar pelas mesinhas, ele se demorou em uma delas.

Não era possível.

Parkinson?

Ela me encarou, estreitando seus olhos gradativamente. E então, em seguida, sorriu.

Fez sinal para que eu fosse até onde estava.

Hesitei. Muito. E respirei fundo. Eu não tinha nada a perder, afinal de contas.

E fui.

"Sente-se, Weasley", disse sua voz melodiosa, indicando o lugar à frente.

Sentei-me. "O que você quer, Parkinson?".

Ela sorriu de lado. "Aceita?". Era Whisky de Fogo.

"Não, eu já tenho bebida".

Parkinson se ajeitou na cadeira, suspirando, e cruzou as mãos sobre a mesa. "Eu sei que vocês prenderam o Draco".

Ha, eu sabia que seria algo assim.

"E daí?".

"Até quando?", sua voz perdera completamente toda aquela pseudo-educação que estava utilizando comigo.

"Até a guerra acabar, eu suponho, Parkinson. O que você queria? Guerras têm dessas coisas".

Ela baixou o olhar, remexeu o conteúdo carmim de seu copo e ingeriu-o de um só gole.

"Só me responda uma coisa, Weasley", ela disse, depositando o copo na mesa, seus olhos cravados nos meus. "Lá onde Draco está também está Harry Potter. Sim?".

Um arrepio gelado percorreu a minha espinha. Eu me senti congelar diante de Pansy Parkinson.

"Por que você quer-?".

"Apenas me responda. Sim ou não".

Silêncio.

"Sim".

Parkinson piscou. Olhou para baixo e sorriu, estranhamente.

"Por quê?" perguntei.

Ela fez que não com a cabeça, ainda sem me encarar, e tomou mais um gole de seu Whisky.

"O que você-?". Não, ela não iria responder nada desse gênero. Tentei de novo. "Você também sabe, então?".

Isso a fez me encarar. Eu sabia.

"Você também sabe que eles-?", comecei.

Parkinson sorriu de lado. "Você já me disse tudo o que eu precisava saber".

"Não, espere!".

"Só mais uma coisa", já de pé, ela se voltou para mim. "Diga ao Draco que lhe desejo um feliz aniversário atrasado. Não nos vemos desde maio deste ano".

Ela se virou de costas.

"Parkinson!".

Eu me levantei também. Ela me encarou.

"Há quanto tempo eles estão juntos?".

A expressão de Parkinson se fechou, ela umedeceu os lábios antes de responder. "Desde o ano passado. E não me pergunte mais nada".

Assenti, e voltei-me lentamente a mesinha. Parkinson, no entanto, ainda continuava lá.

"Acredite, Weasley", ela me disse, seus olhos vazios parecendo carregar nada mais do que sinceridade e tristeza. "Isso dói em mim também".

Ela me encarou por mais alguns segundos, um fio de compreensão mútua ligando nossos olhares, fazendo com que, pela primeira vez, eu me sentisse parecida com ela, com essa garota que eu mal conhecia, com a mais infame das ex-sonserinas do colégio.

E o vínculo foi quebrado quando ela se virou, sumindo pela porta do bar em seguida.

Eu fiquei, observando o copo vazio que ela deixara na mesa, e imaginado como era possível que um encontro daqueles pudesse me fazer sentir tão bem.

— x —

FIM

— x —

Agradecimentos especiais à:

– As duas betas lindas, maravilhosas, salve salve: Srta. Guta, que betou o POV da Ginny e Srta. Nati, que betou o POV da Pansy;

– Ao tão lindo Pinhão, que mesmo difícil de escrever, nos rendeu esse belo "monstrinho";

– Ao Depeche Mode, que serve de trilha sonora para qualquer slash, e nos ajudou a titular a fanfic;

– Ao Horóscopo Maldito, disponível nesse site: http (dois pontos) (barra barra) www1 (ponto) folha (ponto) uol (ponto) com (ponto) br (barra) folha (barra) ilustrada (barra) ult90u59687 (ponto) shtml – Sim, ele existe mesmo;

– A Srta. Camila, por ter criado um challenge com ítens tão apetitosos, e por ter uma paciência enorme com a nossa extensa dificuldade e complicação pra escrever este shipper...

– Aos leitores fofos – e doidos rs – que leram tudo isso. Nosso obrigada às vossas palavras de apoio. xD