CAPITULO 3

As folhas do Outono

Enquanto a luta de Jacob se desenrolava, Camus e os outros passavam pelo bosque do Outono. Não caminharam muito e logo se depararam com um cavaleiro de armadura marrom que descansava sob a sombra de uma árvore. Ao ver os cavaleiros do gelo se aproximando, Outono se levantou e, com um leve sorriso no rosto, foi até eles.

- Então vêm de vocês os cosmos que senti...

Aleck toma a frente e começa a falar:

- Estamos em paz. Precisamos ir ao território de Athena, e somente passando pelo território de Artemis podemos chegar lá. Deixe-nos passar ou terá que lutar!

- Não. Eu acho que não irei deixá-los passar. E acho também que vou matá-los... – diz Outono com grande sarcasmo.

O cosmo de Outono aumenta intensamente e de forma agressiva. Algumas folhas começam a rodar em volta dele formando um pequeno tornado de folhas.

- Ora... Se quiser lutar, então venha! – desafia Fritz, colocando-se em posição de luta e aumentando seu cosmo.

- Não Fritz! Não adianta mover-se por um impulso... Só facilitará as coisas para Outono... Vá em frente e deixe-o comigo. - diz Aleck.

Ele estava confiante. Sentia que era Outono que deveria ser seu inimigo. Um guerreiro que havia se mostrado muito sábio: provocar o adversário e faze-lo mover-se por impulso. Mas este truque não funcionaria com Aleck, e ele sabia disso.

Camus e Kolcier concordavam com ele, Fritz então assentiu. No bosque ficaram apenas Aleck e Outono.

- Garoto corajoso... – começa a falar Outono – Admiro sua coragem, garoto.

- Não sou um garoto... Sou um cavaleiro, forte o suficiente para lhe matar! E assim farei.

Um sorriso irônico surge no rosto de Outono, que olha profundamente para Aleck.

- Realmente acha que pode me vencer... Talvez possam derrotar o arrogante Verão, mas a mim não... Não mesmo.

Outono que estava envolto por um pequeno redemoinho de folhas, levanta seu braço com os dedos apontados para cima. Seu cosmo explode intensamente no mesmo instante que abaixa o braço, apontado-o para Aleck.

- Sinta o poder das Folhas Sagradas de Artemis!

Uma poderosa rajada de cosmo, como lâminas no formato de folhas parte de Outono, indo em altíssima velocidade rente ao chão, na direção de Aleck. Ele, assustado com o golpe repentino, faz rapidamente uma defesa em X e cria um escudo de cristais de gelo na frente de seus braços. Mas é ineficiente, o golpe passa direto pelo escudo e o atinge em cheio, jogando-o vários metros para trás. Sua armadura fica bem rachada, com muitos cortes, partindo algumas lascas.

Com certa dificuldade, Aleck se põe de pé. Sua expressão havia mudado. O vento que soprava levantava as folhas secas que cobriam o chão do bosque do outono e também soprava seus cabelos lilás, encobrindo parcialmente seus olhos, escondendo sua expressão e tornando-a indecifrável.

- Por que não me deixa passar? Seria tudo mais fácil... Não precisaríamos estar lutando...

- É um dever impedir que estranhos passem por aqui... E já que não quer lutar, basta se entregar e lhe darei uma morte rápida...

Aleck não responde, apenas aumenta seu cosmo intensamente atingindo o zero absoluto. Os ventos que sopravam no bosque ficam mais frios e as folhas que caiam no campo de seu cosmo se congelavam, e ao tocaram o chão se desfaziam em cacos.

- Pois bem... Se quer assim, assim será. – Aleck fecha os punhos e aumenta seu cosmo de forma explosiva.

Outono, tomado de surpresa, arregala seu olhar e instintivamente dá alguns passos para trás.

- O quê! Todo esse cosmo vem desse garoto?

Em volta do guerreiro de Artemis forma-se um círculo de gelo que começa a rodar em volta dele.

- Hã?

- Prove de meu poder... Explosão Aurora!

O círculo vai se fechando, e ao tocar Outono ele explode violentamente jogando-o com extrema força para cima. Enquanto ele estava no ar, Aleck prepara-se novamente: afasta suas pernas para dar firmeza ao corpo, ergue seus braços com as mãos juntas mirando Outono. Seu cosmo se concentra de forma incrível.

- Trovão... Aurora! – O golpe o atinge em cheio, jogando-o mais pro alto ainda. Enquanto Outono caía, o cavaleiro de Cristal aponta as mãos para o chão, com seu cosmo ainda muito intenso.

- Estacas de Cristal! –várias estacas de gelo se erguem do chão e Outono cai bem em cima delas, quebrando-as com seu corpo.

Depois dessa seqüência de golpes Aleck estava ofegante, com as pernas firmes, os punhos fechados e erguidos na altura peito em posição defensiva, olhando para o corpo de Outono caído no meio das estacas, que estava com sua armadura muito trincada.

O cosmo de Outono, que estava inerte, explode repentinamente. Ele se levanta.

- Muito bom, garoto... Provou ser muito poderoso. Mas não é poderoso o suficiente para me derrotar!

- Não seja tolo em pensar que gastei todo meu poder nesta seqüência de golpes, cavaleiro... Ainda tenho energia suficiente para lhe derrotar!

Outono mantém-se em silêncio, olhando para Aleck com um certo desprezo. Repentinamente ele vira de costas. Quase que num sussurro diz algumas palavras.

- Minhas queridas raízes... Peguem-no!

Aleck estranhou a atitude de Outono, por um momento até pensou que seria um sinal de desistência. Estava muito enganado. Antes que pudesse tomar qualquer ação, o chão começa a tremer, a terra se removia, como se algo ou alguma coisa corresse por baixo dela.

- Mas que diabos é isso! Aaaah!

Dezenas de raízes surgem da terra em torno de Aleck. Como se fossem serpentes, começam a enroscar em seu corpo com uma força surpreendente. Em alguns segundos ele já estava completamente preso nas raízes e imobilizado. Elas começam a apertá-lo com uma força extrema. Estralos se ouviam. Era o som da armadura de Cristal se quebrando, junto com seus ossos.

- Largue-me! – seu cosmo aumenta intensamente – Estacas de Cristal!

As estacas de gelo novamente se erguem do chão rente a ele, cortando grande parte das raízes. Mas em frações de segundo elas se regeneraram e voltaram a apertá-lo com mais força ainda.

- O quê? Argh!

Outono solta uma leve gargalhada e se vira para Aleck:

- Não vai se livrar de minhas raízes... Sempre que as cortar elas se regenerarão, vão apertá-lo até que todos os seus ossos se quebrem e você morra. Só depois de morto te soltarão! Então trate de morrer de uma vez e evite sofrer... E perder meu tempo!

- Argh... Não pode ser... Tem que haver um jeito de me livrar disso...

- Encare a realidade! Você está morto! Não há modo se sair vivo daí! – Outono começa a rir.

Aleck começa a ficar parcialmente inconsciente enquanto sufoca no meio das raízes. Seu rosto começa a empalidecer, sua cabeça pende para o lado enquanto seus olhos iam se fechando e sua respiração diminuindo. Seus pensamentos vagos se perdiam dentro de sua cabeça.

"É assim que termina? Este é o fim? Será que... Não! Não será assim... Mestre Camus, ele confia em nós, nos confiou as armaduras de seus antigos discípulos... Não posso decepcioná-lo! Devo resistir! Todo o povo do gelo depende de nós... O futuro da Terra esta em nossas mãos! Não posso morrer! Não posso me permitir morrer! Não vou morrer!"

O cosmo de Aleck explode com uma intensidade admirável, capaz de assustar Outono. Uma camada de gelo começa a cobrir as raízes, o cosmo de Aleck estava se concentrando. Um círculo de gelo começa a se formar envolta de seu corpo, envolvido pelas raízes, e se fecha. Ao se fechar ele explode com violência, rasgando e despedaçando as raízes que o prendiam. Seu corpo é jogado longe. Sua armadura se parte quase toda em pedaços, e seu corpo se cobre de sangue. Caído, imóvel no chão, seu cosmo se torna inerte.

- O que é isso! – exclama Outono – Ele... Ele acabou de se matar. Aquele garoto ficou louco! Ele usou o seu golpe em si mesmo. Conseguiu se livrar das raízes, mas ele... Matou-se! Coitado... O garoto era corajoso...

Outono se vira e começa a partir, deixando o corpo de Aleck estendido no chão de seu bosque.

- Não estou morto...

Uma expressão de assombro surge no rosto de Outono. Seus olhos arregalam-se e um frio desce por sua espinha. Agora ele podia sentir que estava diferente, em sua voz sentia-se toda sua determinação, que até poderia ter sido uma mera impressão de Outono, poderia se ele não estivesse sentindo aquele grandioso cosmo.

Lentamente ele vira para a direção de onde vinha a voz. Seus olhos viram a imagem mais impressionante de sua vida: Aquele garoto, considerado tão fraco pelo próprio Outono, estava com o seu cosmo incrivelmente intenso, que fazia formar atrás de si a imagem de uma mulher segurando nos braços um jarro. Colocado em posição característica, com as pernas afastadas e os braços erguidos com as mãos unidas, ele preparava-se para disparar.

- E também não sou um garoto! Execução Aurora!

Outono, completamente perplexo com a resistência de Aleck, mal pôde se defender e é acertado em cheio pelo golpe. Sua armadura se despedaça no peito e seu corpo é violentamente jogado contra as árvores, quebrando-as completamente.

- Quem você chama de garoto é o homem que vai lhe matar!

Aleck gritava enquanto aproximava-se do corpo caído de Outono. Ele não percebeu que enquanto andava as folhas secas caídas no chão estavam se comportando estranhamente. Elas começaram a se movimentar para um lado e para o outro, como se fossem um único organismo vivo, suas superfícies estavam se enrijecendo.

- Lâminas Naturais!

Outono, que parecia estar inconsciente, explode seu cosmo fazendo erguer-se contra Aleck um turbilhão de folhas secas afiadíssimas em alta velocidade. O golpe o joga para o alto e para longe, enquanto sua armadura se despedaça. Ele cai no chão e o que havia de armadura nas suas costas se quebra por completo. O peitoral e costas da armadura de Cristal estão completamente destruídos, dos braços só resta a parte dos cotovelos para baixo e ainda assim toda despedaçada, e as pernas estão completamente rachadas e trincadas.

- Garoto insolente! Já brinquei demais com você! Morra de uma vez por todas! Lâminas Naturais!

Um novo turbilhão de folhas se ergue em sua direção, mas antes de ser atingido, ele levanta-se e expande seu cosmo mais uma vez.

- Espada de Cristal! – uma espada de gelo forma-se em seu braço, como uma extensão deste.

Com sua espada ele corta todas as folhas do turbilhão. Depois corre na direção de Outono. Ao se aproximar ele salta e desfere um golpe com sua espada no peito do cavaleiro de Artemis.

Outono não tem tempo de fazer nada, a não ser uma simples defesa em X. Defesa esta que foi ineficaz, pois a espada atravessou-a e ainda perfurou seu peito.

- Aaargh!

O cavaleiro cambaleia para trás com seu peito perfurado e sua armadura quase completamente destruída.

- Argh... Não posso ser derrotado por um garoto!

- Não pode... Mas foi! Teria sido mais fácil me deixar passar, mas se prefere assim... Terei que lhe matar!

O pânico puro passa a ilustrar a face de Outono. Agora ele sentia realmente medo. A sua morte era eminente. Não tinha mais forças para reagir, o cosmo de seu inimigo mostrava-se surpreendentemente superior. Seu peito apertava-se, em breve iria morrer, deixar sua deusa, e ter descumprido seu juramento de protegê-la.

- Não, por favor! – Outono cai de joelhos implorando. Agora seu olhar é de alguém desesperado, que não tem mais alternativa a não ser implorar por sua vida.

– Passe! Siga em frente e encontre seus amigos... Mas deixe-me viver! A única alegria que tenho em minha vida é poder servir a Artemis... Por favor, não a tire de mim!

Aleck ficou tocado com tais palavras, ele pôde sentir que Outono estava sendo sincero, aquele cavaleiro realmente gostava e sentia-se feliz em servir sua deusa. Por um instante sentiu-se em seu lugar, e através de seu olhar ele enxergou no coração de Outono um amor verdadeiro por sua deusa, algo tão forte que foi a única coisa que o havia motivado a ter encarado a vida até ali. Era o sentido de sua vida proteger Ártemis. Aleck não tinha o direito de tirá-la de um guerreiro honrado como Outono.

- Pois bem... Fique vivo então... – Cristal passa por ele começa a caminhar em direção ao próximo bosque, deixando Outono caído no chão.

Outono respirava com certo alívio. Uma indignação começou a surgir em seu coração, começou a crescer e tomar conta de todo seu corpo.

- Não posso deixar assim... – sussurra para si mesmo enquanto aperta com força um punhado de folhas e terra do chão – Ele foi piedoso... Mas meu dever é protegê-la... Eu não vou conseguir detê-lo, mas... – seus olhos se enchem de água, uma lágrima desce por sua face – Eu devo tentar... Eu tenho que arriscar! Meu amor... Perdoe-me se eu não voltar para lhe despertar de seu sono...

Outono fica de pé novamente. Aleck não percebe e continua a caminhar.

- Garoto, foi muito honroso de sua parte ser piedoso comigo... – Outono falava como se fosse com Aleck, mas fala sussurrando – Mas não posso aceitar tal piedade!

Então começa a gritar enquanto explode seu cosmo com intensidade. Uma lágrima rolava por seu rosto, e seu olho se enchia de água.

- Eu jurei a Artemis protege-la, e ao seu bosque sagrado! Não posso deixá-lo partir!

As folhas do solo começam a se movimentar. Ergue-se um turbilhão de folhas afiadas que partem para cima de Aleck.

O cavaleiro de Cristal se vira rapidamente, assustado, ao sentir a explosão de cosmo de Outono. Seu cosmo que ainda estava concentrado se intensifica mais uma vez, congelando o solo à sua volta.

- Ataúde de Gelo! – Uma fina rajada sai de seu dedo, atravessa o turbilhão congelando todas as folhas, e finalmente atinge Outono em cheio, no peito.

Um enorme bloco de gelo se forma em volta dele, prendendo o cavaleiro de Ártemis num esquife de gelo eterno. Sua expressão, lá dentro, era de dor, de uma dor do coração.

- Cavaleiro de Outono... Sinto ter que fazer isso... Ou era minha vida ou a sua... É uma pena que não pôde compreender minhas motivações, não quero ferir sua deusa, desejo apenas passar pelo território dela... Sinto muito ter travado esta batalha inútil... – suspira profundamente – Sua deusa poderá tirá-lo daí...

Aleck faz o sinal da cruz. Então parte do bosque do Outono em direção ao próximo.