CAPITULO 6
De volta ao santuário
A noite já havia chegado e os cinco cavaleiros estavam frente à primeira das doze casas zodiacais. Eles haviam passado por inúmeros campos de treinamentos e várias arenas de combates. Tudo destruído.
Da entrada da primeira da casa podia-se ver todas as outras em ruínas, algumas completamente destruídas.
- Mu... Cavaleiro de Áries... – sussurra Camus enquanto adentra a casa, seguido de seus discípulos.
Podia-se ver, espalhados pelo chão da casa, pedaços da armadura de Áries. Ainda havia manchas de sangue nas paredes. Algumas partes do local estavam cobertas de gelo. O corpo do bravo cavaleiro Mu não estava em sua casa.
A dor era grande em ter que passar por ali novamente, seu coração se apertava e as terríveis lembranças vinham-lhe à mente. Mas ele ia em frente, deveria chegar até a 13ª casa e reencontrar Athena. Não seria uma subida fácil, mas tinha que ser feita.
Os discípulos de Camus seguiam-no em silêncio, respeitando a dor de seu mestre.
A segunda casa estava em estado tão lastimável quanto a primeira. Eis uma surpresa ali: parte do capacete da armadura de Touro ensangüentada, caída no chão. Uma batalha feroz entre Aldebaran e um guerreiro gigante que acompanhava Polarius se desenrolara ali. As crateras por toda a casa revelavam a violência daquela batalha.
Quando houve o ataque o Santuário estava com todos os Cavaleiros de Ouro presentes. Athena reviveu todos eles ao ser alertada por um misterioso cosmo que certa noite havia sido sentido em seus aposentos. Mas veio cedo demais, o ataque aconteceu muito depois do alerta, quando os cavaleiros já relaxavam em seus treinamentos.
Firme em seu caminho, Camus seguia os degraus e ia passando casa por casa. Mu, Aldebaran, Saga, Kanon, Máscara da Morte, Aioria, Aioros, Shaka, Dohko, Miro, Shura e Afrodite. Todos lutaram e todos foram assassinados pelos quatro cavaleiros de Polarius.
Enquanto passava pelas casas podia-se ver o sangue que ainda manchava as paredes, as colunas congeladas e as paredes repletas de crateras. Era extremamente angustiante e doloroso para Camus percorrer este caminho novamente.
Naquelas casas deveriam estar doze cavaleiros que deviam proteger a todo custo Athena, mas eles falharam, todos eles, inclusive Camus.
A pior das lembranças ainda estava por vir: A 11ª casa zodiacal.
- Este é o templo de Aquário, mestre? – pergunta Jacob.
Camus apenas acena com a cabeça, respondendo que sim. Solta um suspiro profundo e adentra sua casa.
A fachada estava toda rachada e as pilastras congeladas. Lá dentro, havia crateras nas paredes e muito sangue manchando-as. A casa de Aquário fora palco de muitas batalhas. E túmulo de muitos guerreiros.
Pedaços de armaduras podiam ser vistos espalhados pelo chão. Camus podia ouvir gritos de dor dos cavaleiros de prata e de bronze ao tentarem atacar os guerreiros de Polarius ecoando incessantemente em sua mente, martelando dolorosamente sua consciência.
Os cavaleiros de Athena, usando de todo seu poder, mal conseguiram tocar os inimigos. A maioria deles sucumbiu com um único golpe.
Ali se podia ver cacos do indestrutível escudo do Dragão de Bronze, pedaços do mortal escudo da medusa da armadura de Perseu, e até a indestrutível armadura de Fênix de Bronze totalmente destroçada.
Nenhuma esperança, nenhuma força tirada dos sentimentos, nenhuma determinação, e nenhum sentimento valoroso ajudou naquele momento. Tudo que os guerreiros seguiam como ideal foi destruído.
Os corações vazios dos guerreiros de Polarius venceram os corações cheios de amor dos guerreiros de Athena.
Depois daqueles instantes que pareciam não mais terminar, finalmente Camus viu a saída de sua casa logo à frente. Mas antes que pudesse sair e deixar para trás todo aquele mundo de lembranças dolorosas, eis que surge em seu caminho um crucifixo. O crucifixo que Hyoga carregava no peito. Camus abaixa para pegá-lo. Ao tocar o objeto um flash de memória lhe vem à mente.
- "Mestreee!"
Hyoga gritando desesperado, pedindo socorro a Camus enquanto um dos cavaleiros de Polarius atravessava seu peito com as próprias mãos.
Camus fecha com força seus olhos, que começavam a se encher de lágrimas. Com força, ele recolhe o crucifixo e parte para a saída de sua casa.
Seus discípulos seguiam Camus em absoluto silêncio.
Finalmente, depois de atravessarem as doze casas zodiacais, Camus e os outros chegam à estátua de Athena. A estátua, toda fragmentada, ainda estava de pé, em cima do altar, olhando todo o Santuário.
Descendo o olhar, aos pés da estátua, via-se uma jovem vestindo uma túnica branca, sentada com os joelhos levantados e com a cabeça abaixada entre eles, chorando. Seus longos cabelos pretos, encaracolados e brilhosos lhe caiam pelas costas. Seu cosmo era extremamente melancólico, tão deprimente quanto o choro de uma mãe que perdera os filhos.
Camus caminhou com passos serenos até se aproximar da jovem. Seus lábios apenas sussurraram:
- Athena...
A jovem levantou a cabeça revelando um belíssimo rosto, pele alva, um pouco pálida, de traços delicados e maravilhosos olhos verdes, que brilhavam enquanto olhavam para Camus. Ela ficou paralisada por alguns instantes e depois o abraçou com força enquanto uma lágrima escorria por sua face.
- Graças aos Deuses ainda piedosos que existem no Olimpo... Camus, você sobreviveu!
- Sim Athena... Estou aqui!
Enquanto a deusa da sabedoria chorava em seus ombros, Camus não pôde conter uma lágrima que teimou em descer pelo seu rosto. Era uma lágrima pura, de pura esperança.
Aos pés da estátua de Athena
O dia seguinte já havia chegado. Camus estava sentado aos pés da estátua quando Athena chega para lhe fazer companhia. Ela estava bem diferente da noite anterior, podia-se ver um sorriso em seu rosto. Na noite passada Camus explicou os seus planos e o que pretendia fazer para derrotar Polarius. Falou-lhe também sobre os novos discípulos e sobre o potencial deles.
- E então Athena... Como está? – pergunta Camus.
- Ora... Eu que devia lhe perguntar isso! Foram vocês que passaram pelos cavaleiros de Artemis...
Os dois sorriem.
- Camus, como estão os cavaleiros?
- Estão melhores... Aleck e Jacob já estão de pé. Fritz e Kolckier ainda estão muito feridos.
- Sim... Logo a primeira batalha deles foi contra cavaleiros tão poderosos como os Guerreiros das Estações... Devem realmente ter se ferido muito.
- É...
Os dois se entreolham por alguns segundos até que Athena diz:
- Eu pensei que todos vocês estavam mortos... Esses dez anos eu passei sofrendo por ter sido a culpada pela morte de todos os humanos... Se não fosse imortal eu teria morrido de tanta angústia...
- Foi tolice de Polarius achar que um dia eu me uniria a ele... Ele deixou que eu e apenas algumas pessoas das vilas siberianas pudéssemos viver na Terra. Fora nós, Polarius dividiu todo o nosso mundo entre os deuses!
- Sim... – Athena suspira profundamente – eu estou presa neste território... Não posso sair daqui, senão já teria ido até ele... – seus olhos se enchem de lágrimas – Não acredito que ele matou todos que havia na Terra! Como pude sucumbir a ele? Já enfrentamos tantos outros inimigos poderosos! Como? Como!
Camus abraça Athena confortando-a.
- Calma... A culpa foi nossa, nós cavaleiros é que devíamos protegê-la! Nós falhamos e todos pagaram pelo nosso erro... Mas Polarius terá o troco! Nós nos encarregaremos de expulsá-lo e ter o nosso mundo de volta! Não se preocupe... Confie em nós!
Sua expressão estava carregada, percebia-se uma profunda revolta que queimava dentro de Camus, queimava e intensificava cada vez mais a chama que alimentava sua sede de justiça e de vingança. Seus olhos se enchiam de água.
Nos campos de treinamento do Santuário
Na mesma manhã, Aleck e Jacob estavam andando, sem suas armaduras, admirados com santuário.
- Então aqui eram treinados os cavaleiros... – comenta Aleck.
- Lembro-me de Hyoga falando daqui... Ele me disse que um dia ia me trazer aqui para eu conhecer... – diz Jacob enquanto suspira.
- Vamos treinar? Aqui é bem grande...
- Não... Agora não... Outra hora fazemos isso... – Jacob se vira e continua sua caminhada.
- Agora sim!
Aleck dá um salto e parte pra cima de seu amigo com uma voadora. Jacob se vira e trava o chute com seus braços. Enquanto estava no ar, Aleck gira o corpo derrubando Jacob, que antes de cair se apóia no chão com os braços e ataca com um chute com os dois pés juntos. Aleck se defende com o braço em X e toma distância.
Os dois ficam de frente, se encarando por alguns segundos. Um corre na direção do outro e ao se encontrarem trocam chute e socos em alta velocidade. Depois os dois se distanciam novamente.
- Vai ter que ser mais rápido se quiser me acertar! – fala imponente, Jacob.
O outro cavaleiro estava ofegante, pois havia tomado alguns socos no abdômen.
- Quem vai ter que ser mais rápido é você, Jacob!
Sem que ele percebesse, Aleck havia congelado as pernas de seu amigo enquanto trocavam golpes. Jacob se impressiona.
- Está de parabéns... Desta vez eu deixo você ficar com a vitória...
- Ah é, é? – Aleck parte pra cima de Jacob novamente trocando soco e chutes.
Os dois ficam ali treinando como se brincassem, por mais algum tempo.
Alguns dias se passam desde a chegada de Camus e dos cavaleiros ao Santuário.
Aos pés da estátua de Athena
Era uma manhã serena no Santuário. Camus estava sentado olhando uma flor que havia crescido ali do lado, em uma rachadura no chão. Athena chega e senta-se ao seu lado.
- Camus... Eu enviei através do arco-de-íris as cinco armaduras para Hephaesto consertá-las...
- Que ótimo! Elas estavam fora de condições de uso... Não agüentariam mais nenhum combate! Muito obrigado Athena!
- Não foi nada...
Ela fica quieta por alguns segundos. Mesmo sendo Athena em sua forma espiritual, ela ainda tinha as memórias de quando estava em Saori Kido, e o Camus que ela havia conhecido era muito diferente deste que estava à sua frente. Um impulso de curiosidade a consumia por dentro durante todos estes dias até ela não resistir mais e perguntar:
- Camus, você está diferente... O que aconteceu?
- Eu? Diferente como?
- Você está... – ela para um pouco para buscar palavras – Humano! Está mais humano... Não está mais tão frio quanto antes, está mais sentimental... Está mais humano mesmo.
Como se já esperasse por aquela pergunta, ele responde:
- É... Eu mudei mesmo... Passei a conviver mais com as pessoas, isso fez com que se aflorassem alguns sentimentos em meu coração... Pude sentir aquilo que você defendia, e que conseqüentemente eu também defendia: o amor! Eu pude sentir das pessoas a esperança que tinham em ter o mundo de volta... Foi movido por esse amor e por essa esperança que eu resolvi treinar outros jovens e ir enfrentar Polarius.
Athena escuta as palavras de Camus com atenção, demonstrando uma certa satisfação em seu sorriso.
- Camus, você passou a lutar pelo amor e pela esperança depois que conheceu esses sentimentos... Mas e quando você lutava para me proteger, você os conhecia?
- Não... Eu não me permitia sentir aquilo como cavaleiro, e ainda não me permito... Mas antes era sempre um Cavaleiro de Ouro e sempre devia estar pronto para batalhar. Se me deixasse envolver por sentimentos, não seria o cavaleiro que fui, e provavelmente não teria resistido aos cavaleiros de Polarius... Nunca tinha sentido falta de sentimentos, nunca precisei deles... Nunca os tive...
- Nunca? Nunca mesmo? Nem mesmo antes de se tornar cavaleiro?
Camus pára por alguns segundos, pensativo, em dúvida, depois responde com uma voz trêmula:
- Não...
Havia sido uma resposta incerta. Algo no fundo do coração de Camus fez com que aquele "não" saísse incerto. Athena percebeu sua incerteza, mas preferiu não questiona-lo mais. Pelo menos não por enquanto.
Nos campos de treinamento do Santuário
Aleck, Jacob, Fritz e Kolckier estavam sentados numa arena conversando sobre os oponentes que enfrentaram, até que Kolckier pergunta a Fritz:
- Como conseguiu derrotar Inverno? Primavera havia dito que ele seria o mais forte dos cavaleiros de Artemis.
- Talvez fosse... Ele escondia seu cosmo e só o manifestava antes de atacar, era impossível prever qualquer reação dele!
- E como o matou? – pergunta Jacob.
- Bom... Ele conseguia prever meus movimentos então fiz algo que não faria. Em um momento eu me vi envolto por uma tempestade de gelo e minha armadura estava sendo destruída, se eu não o atacasse lá de dentro eu não teria chances de atacá-lo de fora. Então disparei um Trovão Aurora de dentro da tempestade. Eu sabia que ele poderia escapar com certa facilidade e provavelmente iria pular, já que direcionei o golpe em linha reta. Quando ele pulou, eu formei a Rajada Boreal, que como vocês sabem é uma rajada de cosmo que vem do céu, como um relâmpago, para cima do oponente. Não sei se o acertou em cheio, mas o desequilibrou, e ele então caiu em cima das estacas de gelo que eu ergui.
- E então ele morreu? – pergunta Aleck.
- Não... Depois de caído o covarde ainda me atacou. Novamente frustrei as previsões dele, ao invés de me desviar joguei duas esferas de cristal com a energia da Explosão Aurora em cada uma delas. Ele morreu com as explosões delas.
Os outros cavaleiros ficam impressionados. Até que Aleck faz um comentário:
- Eu não matei Outono...
Os seus amigos se impressionam mais ainda e perguntam a ele por que o deixou vivo.
- Eu me coloquei no lugar dele, – começa a responde Aleck – aquele guerreiro realmente amava sua deusa. Ele se sentia honrado em servir a Ártemis. Eu ia deixá-lo caído no chão de seu bosque. Mas ele tentou me atacar pelas costas, então o prendi num caixão de gelo... Ele não morreu, Artemis poderá tirá-lo de lá com facilidades...
- Sempre piedoso... – diz Fritz discordando de seu colega – O mestre já cansou de nos dizer que temos que saber manter nossos sentimentos longe de nós enquanto lutamos. Os sentimentos são bons apenas quando não estamos sendo cavaleiros. Lembre-se disso!
- Sim... Eu sei disso! Nas próximas batalhas não terei sentimentos... Não terei...
Algumas semanas já haviam se passado. As armaduras já estavam prontas, como foram consertadas por Hephaesto elas passaram a ser tão poderosa quanto a de um deus. Os jovens cavaleiros estavam maravilhados enquanto as testavam. Camus também admirava o trabalho que havia sido feito na armadura de Aquário, ela agora estava mais resistente, mais poderosa e até mais bonita.
Aos pés da estátua de Athena
- Muito obrigado Athena, Hephaesto fez um trabalho maravilhoso com nossas armaduras, estão ótimas!
- Ora, Camus. Era meu dever dar-lhes um traje de combate descente, né!
Os dois sorriem, e conversam mais um pouco sobre as armaduras. O papo seguia descontraído, quando Athena pergunta:
- Camus... Como conseguiu a sua armadura de Aquário?
Ele fez menção de responder, mas depois parou. Ficou pensativo por alguns segundos e depois respondeu, até um pouco surpreso:
- Pode parecer estranho... Mas não me lembro. Aliás, não tenho lembranças do tempo que passei treinando na Sibéria, isto é, sei que alguém deve ter me ensinado e devo ter tido um mestre... Mas me lembro apenas do que aprendi lá... E de nada mais...
As palavras de Camus estavam vagas, ele mesmo achava estranho o fato de não se lembrar de mais nada da Sibéria. As suas palavras saiam dispersas enquanto ele tentava buscar alguma lembrança.
- Mas como não se lembra... Isso não é coerente. Qual a lembrança mais próxima de uma pessoa que você tem? – Athena se curva e se aproxima de Camus para perguntar.
- Pessoa...?
Quando Athena se aproxima, ele sente o cosmo de sua deusa na forma mais pura possível. Um sentimento estranho começa a invadir seu coração, algo que o confunde. Como se viessem no embalo do cosmo de Athena, lembranças estranhas vêem à sua cabeça.
O flash de memória é estranho, carregado de sentimentos.
"Uma figura jovem e melancólica se arrastava por uma caverna escura e fria. No fundo dela havia uma urna dourada e brilhante, mas ele mal podia vê-la, não conseguia nem mesmo sentir seu próprio corpo. Não sabia se estava vivo ou morto, sua alma pendia entre os dois mundos. Mas algo o mantinha firme no caminho até o fundo da caverna. Era o cosmo vindo da urna. Tudo que o garoto sabia é que devia chegar até ela, pois então tudo ficaria bem. Do lado de fora uma fortíssima tempestade castigava o lugar, os sinais em seu corpo mostravam que o jovem havia passado muito tempo vagando em meio a ela. Sua roupa toda rasgada, seu corpo ferido, sua pele congelada e seu cosmo quase extinto. Sim, o jovem tinha um cosmo, não estava forte, mas era muito determinado, e vazio de sentimentos. Algo incomum para um rapaz como ele. Na certa foi a vida que ele levara até ali que o fez desacreditar nos poderes do sentimento e bani-los de sua alma e de seu cosmo...".
Camus havia ficado em completo silêncio enquanto via as imagens em sua mente. Seu olhar havia-se perdido no nada, era como se seu espírito tivesse deixado seu corpo.
Athena começa a se a assustar com a situação, achando que ela possa ter provocado algo.
- Camus! O que aconteceu! Fale comigo!
Ele não a ouve. As imagens continuam em sua mente.
"... Era um esforço descomunal cada vez que se arrastava alguns centímetros no chão. O tempo parecia não passar. Mas passava, e ele conseguiu chegar até a urna. Quando estava próximo, sua ultima força foi usada para tocá-la. Bastou um único toque e todos os sentimentos ruins desapareceram, todas as condições desfavoráveis sumiram e a chama de sua vida se intensificou como nunca. Um cosmo maravilhosamente forte e poderoso se uniu ao dele no instante em que a armadura se uniu ao seu corpo. Um cosmo tão acolhedor como ele nunca havia sentido, um cosmo que havia salvo sua vida. Era o cosmo, sem dúvida, de uma deusa. Agora ele sabia o que deveria fazer com aquela armadura. Deveria ser usada para agradecer ao ser que havia emanado o cosmo que o salvou.
Vestindo uma armadura dourada, com seu vigor completamente recuperado e seu cosmo forte e poderoso, o garoto sai da caverna. E começa a seguir um rumo, o caminho que seu cosmo lhe indicava ser o certo a seguir. Assim ele foi, seguindo em frente, caminhando com passos firmes e decididos, até sua silhueta se perder no horizonte branco..."
Camus começa a balbuciar algumas palavras vagas, como se estivesse em transe.
- O garoto...
- Garoto? Que garoto, Camus? – pergunta Athena preocupada.
- Aquele garoto... Aquele garoto sou eu?
- Como assim? Camus, fale comigo! Você está me assustando!
- Sim... Sou eu!
Os olhos dele, que antes eram vagos e olhavam para o nada, agora se voltam para Athena, cheios de vida e de sentimentos. A sua expressão muda, agora estava sorrindo, quase eufórico.
- Athena! Foi graças a você que eu estou vivo! – Ela fica sem entender muito, mas continua a ouvi-lo – Eu vi um garoto que estava sofrendo para chegar até uma urna dourada. Este garoto era eu, e a urna é a que guarda a minha armadura! Agora me lembro. Estava sozinho, a tempestade estava forte, mas eu continuava por que algo me chamava, eu sabia que se chegasse onde eu estava sendo chamado tudo ficaria bem. Vinha de dentro da caverna, já não tinha mais forças físicas, eu quase não sabia se estava vivo ou morto, sequer sentia meu corpo se mexer, tudo que sentia era uma forte ligação com aquela urna que brilhava tanto!
- Então... A armadura salvou sua vida?
- Sim Athena! Quando toquei a urna, todas as dores, todo o frio, todo o sofrimento e toda angústia que sentia desapareceram, e eu passei a sentir um calor que me manteve vivo. Tudo que deveria sentir então, era gratidão, uma eterna gratidão e amor àquele maravilhoso cosmo. E aquele cosmo, Athena, era seu!
As duas faces se enchem com um contagiante sorriso e os dois se abraçam forte.
- Que bom! Isso é maravilhoso, Camus! Eu sabia que um dos meus cavaleiros não podia ficar sem ter nem sequer um pingo de sentimento dentro de si. Sabia que você tinha amor em seu coração!
- Sim... E é por isso que eu não me lembrava de nada. Por que procurei esquecer tudo que me mantinha ligado a qualquer tipo de sentimento... Por isso mantive tudo isso longe da minha consciência... Para que pudesse ser forte.
Athena olha para Camus com um grande sorriso, um sorriso de admiração e de respeito. Antes, quando estava em Saori, ela o admirava apenas como um grande cavaleiro, como um poderoso cavaleiro disposto a tudo para defender o Santuário. Mas Saori era muito jovem, e às vezes ingênua suficiente para não perceber as reais qualidades dele, e mesmo que fosse mais madura seria quase impossível percebê-las.
Agora as coisas estão diferentes, Athena está em sua forma pura, em seu próprio corpo, não há intervenção de outra consciência como antes.
Camus também havia mudado muito, ele está muito mais humano, mais flexível, e passou a ver as coisas com outros olhos, com os olhos do coração. Ainda é um mestre severo que não tolera sentimentos em uma batalha, mas aprendeu a importância dos sentimentos fora delas. Isso tudo era admirado por Athena, e admirava mais ainda que um homem com tantas qualidades e com sentimentos puros como ele, fosse sentir tanto amor por ela. E era um amor verdadeiro, um amor muito além da atração física. Era atração cósmica.
Os dois continuaram se olhando profundamente. Eram olhares que emanavam um amor sincero e verdadeiro, tanto dele quanto dela.
Camus aproximou seu rosto do dela, enquanto dizia lentamente:
- Athena... É estranho o que sinto... Difícil de entender...
Ela se aproximou mais ainda e respondeu:
- Certos sentimentos não se entendem... Apenas se sentem...
Os dois se aproximam de uma vez e se beijam, enquanto os braços de Camus envolvem Athena em um confortável e amoroso abraço. Um beijo caloroso e apaixonado, fruto de um amor sincero. Um amor com poder para emanar uma energia tão intensa e pura que seria capaz de fazer brotar a vida.
Seus cosmos se uniam de forma intensa, quase que num só.
E os dois ficam ali, desfrutando do amor como se o tempo estivesse a favor.
No quarto de Athena
As estrelas se mostravam nítidas no céu. A noite estava excepcionalmente bela. Quase se podia tocar cada uma das constelações. Athena estava sentada à janela, escovando seus cabelos enquanto admirava o céu.
Ela se sentia feliz e confortável com a presença de Camus e dos garotos. O sorriso em sua face demonstrava a alegria que sentia. Ela realmente depositava suas esperanças neles, tudo o que poderia querer é expulsar os deuses da Terra e devolvê-la aos humanos, para então reerguer a humanidade.
Por outro lado ela tinha medo da partida. Mais alguns dias Camus e os meninos partiriam para o confronto final. Era temor o que Athena sentia. Ficaria sozinha novamente, e podia apenas orar e desejar sucesso para os cavaleiros. Nada mais. A sensação de potência era total, e incrivelmente sufocante. E se eles não voltassem?
Por alguns instantes ela pensou apenas em si própria. Talvez fosse melho reles viverem ali mesmo. Ela e Camus seriam felizes ali, apenas os dois. Nunca mais ela choraria por estar sozinha, nem despertaria de pesadelos ou teria medo de ver novamente a face de Polarius exibindo seu sorriso obscuro. Se Athena se limitasse ao seu território ele a deixaria em paz. Esse temor todo é uma seqüela deixada por Polarius, ainda quando estava no corpo de Saori Kido. Após ver Seiya ser alvejado pela lança de um dos guerreiros que seguiam o semideus, Saori pôs-se a implorar por sua própria vida. Polarius sequer deu ouvido à suas súplicas. Atravessou seu peito com as mãos nuas.
- Tola... Ainda perceberás que os humanos não são merecedores de suas lágrimas... Mas não agora. Já é tarde... – foram as últimas palavras dele para ela.
De súbito despertou de suas lembranças pelo som das batidas na porta de seu quarto. Sentiu-se aliviada por não mais remoer aqueles momentos terríveis. Foi até a porta atender, imaginado o que poderia ser.
- Athena... – disse Camus, à porta.
- Sim...?
- Eu... – ele hesitou por alguns momentos, procurando as palavras – Eu...não consegui...então... Ahn... Dane-se!
De forma brusca adentrou o quarto da deusa, puxou-a pelo pescoço e colou sua boca à dela. Com o pé fechou a porta à suas costas. Athena cedeu alguns instantes, seu corpo amoleceu, embriagada pelo calor atraente do corpo de Camus, mas logo soltou sua boca da dele, num rompante, como se despertasse..
- Não faça isso... Vai dificultar as coisas depois... Não podemos...
Camus pôs o dedo indicador sobre os lábios da deusa, como se pedisse silêncio a ela.
- Quem diz o que podemos ou não fazer somos nós mesmos. Devemos apenas sentir, sem tentar entender, certo?
- Certo, mas... hum! – Athena é interrompida pela boca de Camus, que a cobre com um ardente beijo.
Camus a jogou na cama. Avançou em sua direção olhando-a bem nos olhos. Seu olhar firme exalava seus desejos, sua íris azul refletia a face de Athena que, já entregue ao desejo, mordia seu lábio chamando seu amante. Ele atirou-se sobre o corpo da deusa, percorreu cada centímetro dele com os dedos para enfim puxar o cordão de sua camisola. Camus deixou que a ceda corresse todo o escultural corpo feminino que cobria, para então arrancar suas próprias roupas. Um sopro fez a luz das velas se apagar, e os dois corpos enveredaram-se por debaixo das cobertas. Seguiram a noite inteira por entre gemidos e suspiros, os dois colados um ao outros como se fossem um só, incansavelmente amaram-se movidos apenas pelos desejos, quase animalescos, selvagens. Abençoados pelas estrelas, como se o tempo estivesse a favor.
No dia seguinte haveria dois corpos sobre a grande cama no quarto de Athena. Ambos exaustos, satisfeitos e confortados um pelo amor do outro. Aquele dia Camus e Athena dormiriam até mais tarde, sem precisar explicar nada para ninguém.
Nos campos de treinamento do santuário
Na arena, Kolckier e Fritz treinavam. Em um canto mais reservado, Aleck meditava de pernas cruzadas, concentrando seu cosmo. E Jacob estava sentado no chão olhando para a urna da armadura de Cisne.
- É uma grande responsabilidade, tenho em mãos a armadura que Hyoga usou. Devo honrá-la! Serei tão forte quanto ele foi!
Para Jacob, Hyoga havia sido muito importante em sua vida, ele era como um pai e um irmão. O dia mais triste de sua vida foi quando ele recebeu a notícia de sua morte. A única pessoa que o confortou foi Camus, mostrando-lhe que não adiantava entrar em desespero, e a única forma de não deixar que sua morte fosse em vão era treinar e se tornar um cavaleiro. Assim poderia expulsar de uma vez por todas Polarius da Terra e vingar a morte de todos os cavaleiros de Athena que haviam se sacrificado. O garotinho que era amigo de Hyoga, hoje é um poderoso cavaleiro, seu forte é a determinação. Ele já havia jurado para si mesmo que nunca iria desistir de lutar, fosse o inimigo que fosse.
Aleck olhava com curiosidade para sua urna. Ele não havia conhecido o Mestre Cristal, cavaleiro do qual herdou a armadura da Coroa Boreal. Camus havia falado muito deste cavaleiro, e disse que os dois eram muito parecidos na personalidade. Cristal era sábio, sempre tentava formas alternativas de se resolver um conflito. Muitas vezes foi tachado de "tolo sentimental" pelo próprio Camus, mas este era o jeito de Cristal e de Aleck, isso não iria mudar e eles seriam tão poderosos quanto qualquer outro cavaleiro. Ambos eram sábios cavaleiros que tinham o seu modo de serem poderosos.
Fritz também era muito semelhante a Isaak, seu antecessor com a armadura de Kraken. Aquela era a única que originalmente não havia sido uma armadura de Athena, antes ela havia sido uma escama marinha dos Generais Marinas de Poseidon, que em determinado momento do passado entrou em confronto com Athena. Quanto este confronto aconteceu Camus ainda estava morto – logo depois ele foi ressuscitado definitivamente por Athena. Mas foi muito tempo depois que ele foi saber que seu discípulo Isaak estava vivo, pois até então pensava que ele havia morrido durante o treinamento, quando tentava salvar seu amigo Hyoga. O encontro de Camus e Isaak havia sido difícil, eles brigaram e acabaram lutando. Camus se sentia traído por seu discípulo, pois ele estava servindo à Poseidon.
Foi quando Polarius atacou que os dois tiveram que se unir para derrotar um inimigo comum, mas não foram suficientemente fortes e Isaak morreu. Tudo que Camus pôde fazer foi recolher sua armadura e consertá-la com seu próprio sangue. Agora a escama marinha de Kraken estava em ótimas mãos, com um cavaleiro igualmente poderoso ao seu dono original.
A única armadura que não tivera um dono no passado é a armadura de prata de Yeti. Esta armadura estava guardada nas geleiras da Sibéria esperando por algum discípulo que fosse digno de merecê-la. Nem Camus, nem Cristal tiveram tempo para treinar um outro discípulo para herdar esta armadura de prata. Se Isaak e Hyoga tivessem terminado seus treinamentos, um deles receberia a armadura de Cisne e o outro a de Yeti, mas isso não aconteceu e somente Hyoga recebeu a de Cisne. Esta armadura de prata era muito poderosa. Além de ser extremamente resistente, ela tinha os punhos mais poderosos e destrutivos de todas as armaduras de Athena. Kolckier era de fato, o mais apto a usar aquela armadura, ele tinha a força necessária para desferir os socos destrutivos, e a agilidade para manter-se veloz com uma armadura grande como aquela.
Kolckier sempre foi o mais calado do grupo. Quando fala, são sempre palavras sábias e pensadas, o que contraria a primeira impressão que um jovem alto e musculoso como ele passa. Todo seu tamanho e força são resultado de muito sofrimento do passado. Tudo que se sabe sobre seu passado é que Kolckier na verdade é nórdico, filho das terras geladas de Asgard, e foi um dos únicos sobreviventes do ataque de uma besta mitológica enviada por Odin. Deste ataque apenas alguns velhos e crianças foram poupados, e ainda foram expulsos de suas terras pela criatura.
O grande poder de Kolckier vem de sua vontade de acabar com o mal e fazer justiça, e de uma herança deixada por seu pai. Apenas sabe-se que seu pai foi um grande Guerreiro Deus morto no dia em que Asgard foi atacada pelo monstro. Um dia trágico que ficou conhecido como o Dia da Punição, o tão temido Ragnarok.
Enfim a noite chegara. O céu límpido revelava todas as constelações. Vez ou outra uma estrela cadente cruzava os céus.
Mais alguns dias passaram-se.
No quarto de Athena
Camus estava sentado na cama, ainda desfeita, enquanto seu olhar se perdia no nada. Athena se trocava em frente ao espelho, preocupava-se em esconder com a túnica uma marca de mordida na barriga e com os cabelos outra marca no pescoço.
- Não poderemos demorar muito mais que alguns dias. Os garotos já se recuperaram por completo, e já treinaram o suficiente. Creio que estão prontos. – diz Camus à Athena, que volta-se a ele.
- Sim... Compreendo que devas partir. Saiba que tenho toda minha confiança em você e nos garotos, sei que irão conseguir!
Aquela confiança era mesmo verdadeira, mas Athena não estava nem um pouco contente pelo fato de Camus e dos outros terem que ir lutar contra os guerreiros de Polarius. Ela ainda se lembrava com tristeza de quando viu seus cavaleiros serem todos derrotados. Uma tristeza da qual ela tentava se manter longe, mas nem a felicidade do momento conseguiu afastar as lembranças.
O mais cruel dos quatro cavaleiros era um com uma armadura escura. Ela se lembra que ele usava uma máscara com a face de um demônio e deixava à mostra seus cabelos bem negros. Ele era chamado pelos outros de "Demônio", e não manifestava qualquer expressão que demonstrasse um mínimo traço de sentimento. Este cavaleiro mascarado foi o responsável pela morte de Shyriu, Ikki, Shun e Hyoga. Isso além de matar outros cavaleiros de ouro.
Seiya tinha sido morto por um cavaleiro que vestia uma armadura cinza e manejava uma grande e pesada lança, de fato não havia sido uma batalha fácil, mas Pégaso acabou sucumbindo ao poder daquela magnífica arma. Este mesmo cavaleiro ainda matou uns três cavaleiros de ouro e mais um tanto de cavaleiros de prata.
Logo no início do ataque ao santuário, há dez anos, um poderoso cavaleiro com uma armadura dourada, e um triângulo na testa de seu elmo, matou todos os cavaleiros de bronze com exceção de Cisne, Fênix, Dragão, Andrômeda e Pégaso com um único golpe. Foi assustador. O seu cosmo era extremamente poderoso e concentrado, algo nunca visto antes. Foi este terrível cavaleiro que matou, numa batalha sangrenta que se arrastou até o inferno, Shaka, o cavaleiro de Virgem, considerado o mais próximo de Deus.
Outro poderoso cavaleiro era um gigante. Muito maior que os outros homens comuns, ele conteve todos os Guerreiros Deuses sozinho. O poder de seus golpes era extremamente destrutivo. Nem mesmo o poderoso Aldebaran, ou a invencível parede de cristal de Mu puderam conter esse cavaleiro gigante.
No início, Poseidon e seus marinas ajudaram o Santuário, mas depois eles traíram Athena e se uniram a Polarius. Isaak de Kraken havia sido o único General Marina que desobedeceu seu deus e continuou lutando ao lado de Athena. Os Guerreiros Deuses de Hilda tentaram ajudar o Santuário, mas seus esforços não foram de grande valia, pois todos os guerreiros de Asgard foram derrotados e as vilas dizimadas.
Todas essas lembranças eram amargas e doloridas para Athena. E diante de tantas dores, ela temia que nem Camus nem seus discípulos voltassem desta batalha.
Os dias iam passando. Para amenizar a angústia e o temor pela batalha Camus e Athena confortavam um ao outro. Isso talvez tornaria as coisas mais dolorosas, pois estariam cultivando algo que poderia, em breve, se desfazer. Os dois tinham consciência disso, que poderiam estar criando uma relação de dependência afetiva um do outro, mas não se importavam. Preocupavam-se em aproveitar o momento, amar cada momento como se fosse o último.
Tudo um dia chega. E o dia da partida chegou.
- Mestre! Estamos todos prontos! – grita Jacob, já com sua armadura.
- Tudo bem... Despeçam de Athena e me esperem lá embaixo...
Todos os garotos dão um abraço confortante em Athena, como gratificação por tudo que ela havia feito por eles. Todos estavam encantados com sua maravilhosa presença, e se voltassem desta batalha, com certeza continuariam servindo e protegendo-a, como fizeram seus antigos cavaleiros.
- Cuidem-se garotos... Quero muito vê-los de volta! – Algumas lágrimas escorrem de seu rosto que ilustrava um tímido sorriso.
Os cavaleiros já esperavam por seu mestre na primeira das doze casas. Camus ainda estava na 13a se despedindo de sua deusa.
- Você sabe... Não será fácil. – começa a falar Camus – Mas acho que talvez fosse melhor você não ficar me esperan...
- Não diga isso! – interrompe Athena – Pelo amor de Zeus, não diga isso! Sabe que te amo tanto quanto você me ama e não seria capaz de não lhe esperar! Não importa se sou uma deusa poderosa, filha de Zeus, mas tenho sentimentos como qualquer outro humano e sofro com eles! Tenho muitas esperanças de que você vai voltar, eu desejo com todas as forças de meu coração que você volte, e junto comigo você irá me ajudar a reerguer e proteger este mundo abençoado! Por favor, não diga que não voltará! Não diga!
Camus mantém-se em silêncio, com a cabeça baixa, ouvindo as palavras de Athena.
- Entendo... Também te amo muito. É deste amor que irei tirar minhas forças para a batalha. Só não queria lhe deixar sofrendo...
- Você só irá me fazer sofrer me pedindo para esquecer-lhe!
- Desculpe... Desculpe... – Camus toma sua deusa em um abraço confortante enquanto ela derrama suas lágrimas sobre seu peito.
- Você jura que irá voltar? Jura que estará aqui ao meu lado, me ajudando a proteger este mundo? Jure para mim! – diante do desespero de Athena ele fica em silêncio por alguns segundos, apenas olhando-a.
- Jure, por favor, jure!
Diante da lamúria de Athena, o coração de Camus se aperta, e com palavras firmes e decididas ele responde a ela.
- Sim... Eu juro!
- Ah! Graças aos céus, Camus. Orarei por você e por seus cavaleiros com todas as minhas forças! Esperarei por você... Como nunca esperei por alguém.
Os dois se beijam a se abraçam por alguns instantes.
- Não podemos adiar mais isso... Devo partir.
- Sim, vá... Deves ir mesmo. Só não se esqueça de seu juramento...
- Não se preocupe... Nunca esquecerei deste juramento! Agora... Devo ir.
Camus se vira e começa a deixar a 13a casa do Santuário.
- Adeus, Athena...
As doloridas palavras saem da boca de Camus enquanto ele parte ao encontro de seus discípulos.
Athena fica sozinha, vendo-o descer as casas enquanto sussurrava para si mesma:
- Não diga adeus... Eu sei que não devo me preocupar, afinal ele jurou. E cavaleiros sempre cumprem seus juramentos, sempre!
Seus olhos se enchiam de lágrimas que rolavam livres pelo seu rosto enquanto via seu grande amor partir.
O último confronto começa.
O território de Polarius era muito vasto. Ao longo de um grande campo de gelo viam-se algumas árvores congeladas, totalmente desfolhadas. Todos o solo estava coberto por uma espessa camada de neve, o céu era escuro e as nuvens se moviam rapidamente para todos os lados provocando alguns trovões ocasionais.
Ao longe se podia ver uma grande construção. Tratava-se do santuário de Polarius. Apenas em volta dele havia uma área gramada, toda ela branca, coberta de gelo.
Os cavaleiros adentraram rapidamente, passando por uma escadaria no começo que dava a um pátio a céu aberto, que tinha outras quatro escadarias. Uma delas começava bem no centro, e podia-se ver que ela estava na direção de um grande templo no centro de todo o santuário.
- Meus discípulos... – começou a falar Camus – Aqui começa o nosso último confronto na nossa jornada para retomar a Terra. Cada um de vocês irá subir por uma escadaria diferente, no final todas elas dão no Templo Central, mas antes de chegarem lá cada um passará por um dos guerreiros de Polarius. Vocês devem matá-los! Ouviram? Não podem deixá-los vivo, pois cada um desses guerreiros é uma parte do poder de Polarius, só assim podemos derrotá-lo! Não deve haver espaço para piedade, para sentimentos nem para o medo no coração de vocês neste momento! Devem usar tudo que lhes passei como ensinamento, devem usar toda a garra e vontade que há em vocês! E se a morte lhes surgir inevitável, se não houver forma de escapar dela, agarre-se a seu inimigo e carregue-o com você!
Os jovens erguem seus punhos e soltam brados de euforia.
- Então vamos, Legião dos Cavaleiros do Gelo!
Cada um dos punhos se choca no ar, provocando estalidos metálicos abafados pelos gritos eufóricos.
Camus e Jacob sobem pelas escadas centrais. Kolckier corre e sobe pela escada da esquerda. Aleck sobe pelas escadas da direita. Fritz vai pela última escadaria à direita.
Os cavaleiros estavam determinados. Cada um dos discípulos de Camus tinha confiança nos demais e sabiam que podiam vencer. Cada um daqueles guerreiros já dominava com perfeição as técnicas principais que podia lhes levar a vitória: o Sétimo Sentido e o Zero Absoluto. Tais técnicas foram passadas por Camus através de árduos e longos treinamentos. Várias vezes os garotos estiveram à beira da morte, mas resistiram e se tornaram bravos cavaleiros. Agora estava na hora de colocar em prática realmente tudo que eles aprenderam nestes dez anos. O último combate havia começado, e agora ou aqueles cavaleiros morreriam junto com a esperança de todos os humanos da Terra, ou sairiam vivos e vitoriosos libertando toda a humanidade, prisioneira em seu próprio mundo.
