CAPÍTULO 7

A face do demônio

A escadaria central dava em um grande descampado de solo rochoso. Os corrimões em estilo gótico terminavam com duas estátuas de demônio em seus ápices. Eram duas criaturas medonhas, como gárgulas, como se tivessem rugindo para os visitantes.

As escadarias terminavam em um grande descampado. Um campo aberto, mais parecia uma arena de combates. Os muros que cercavam o local eram bem altos e tinham estacas pontiagudas na borda. Havia também cabeças de demônios encravadas no muro, como se saíssem dele. Um lugar realmente sinistro.

Ao fundo ouvia-se música. Uma espécie de blues, profundamente melancólico. Trazia um sentimento angustiante, tal qual quando se executa a marcha fúnebre.

Camus e Jacob permaneceram parados por alguns instantes no topo das escadarias. Nenhum cosmo era sentido. De som, havia apenas o triste blues, tocado por uma gaita de sopro. E via-se um cavaleiro no centro da arena.

Os dois começaram a andar em direção ao centro do local. De repente, um cosmo poderoso começou a ser emanado. Pertencia ao cavaleiro que estava mais adiante. Ele era também quem estava tocando a música, e aumentou a velocidade da melodia.

Era uma energia difícil de se definir. O cosmo parecia se fundir à música, as sensações que ambos refletiam eram idênticas. Era como se a música fosse uma expansão do cosmo, ou vice-versa.

A música geralmente está atrelada a um sentimento, mas essa era diferente. Ela provoca sentimentos, mas não os expressa. Provoca uma tristeza, melancolia e até medo, mas não expressa absolutamente nenhum sentimento. E talvez seja exatamente por isso que era tão assustadora. É algo muito difícil de se explicar. Não se percebe nenhum sentimento – amor, paixão, compaixão, raiva, amizade – mas sentia-se outra coisa mais poderosa: uma energia pura de crueldade. Uma energia que transmitia um vazio de sentimentos, de fraquezas humanas e até de escrúpulos. Aquele homem tinha apenas sua força negra, encharcada de crueldade como única alternativa. Seu cosmo transmitia algo tão ruim que penetrava fundo no coração de quem o estivesse sentindo.

Camus e Jacob continuaram a caminhar, até pararem a alguns metros do misterioso guerreiro. Era um homem alto, usava uma armadura azul-escura, quase preta, que cobria todo seu corpo, e por cima uma capa branca que se agitava incessantemente pelo vento gelado do local. As ombreiras da armadura eram grandes e pontiagudas, nos punhos havia pequenos espinhos, como garras de uma criatura, assim como em seus cotovelos e joelhos. A armadura vestia o cavaleiro com perfeição, como se fosse sua pele. O que chamou atenção foi sua cabeça: o elmo era como uma tiara, com grandes garras saindo da parte superior que se ajeitavam perfeitamente à cabeça do guerreiro; seu cabelo era negro e volumoso, lhe caindo pelas costas; mas este cavaleiro usava um detalhe incomum: uma máscara. Não como aquelas usadas pelas amazonas, era uma máscara do metal da armadura, com um desenho em alto-relevo da face de um demônio que se assemelhava a um lobo, a um canino, com grandes presas saindo de sua boca e uma expressão extremamente agressiva. Uma máscara que estava um pouco levantada para que pudesse tocar sua gaita. Quando os cavaleiros se aproximam ele deixa exibir um leve sorriso, guarda sua gaita e abaixa a máscara.

O cavaleiro dá um passo para o lado, abrindo caminho. Camus passa em silêncio. Depois de alguns passos, o cavaleiro volta a sua posição inicial, ficando de frente para Jacob e de costas para Camus.

- Jacob... Lembre-se de meus ensinamentos... Lembre-se de minhas palavras...

Camus continua caminhando e sobe a próxima escadaria, depois some de vista.

No local ficam apenas o cavaleiro de Cisne e o misterioso guerreiro.

- Qual o seu nome cavaleiro! – grita Jacob enquanto põe-se em posição de luta e aumenta seu cosmo.

- Nome? – finalmente responde o misterioso cavaleiro, com uma voz grave, abafada pela máscara – Não preciso de nome, não preciso que me chamem...

- Todos têm um nome! Diga qual é o seu! Ou prefere não dizer e continuar se escondendo atrás desta máscara? Tire-a e mostre seu rosto, covarde!

O homem permanece em silêncio. Depois de alguns segundos ele bota a mão sobre o rosto da máscara de demônio e começa a falar.

- Por que tanto quer saber meu nome? Para ter a quem gritar enquanto pede misericórdia? Não vai adiantar... O quanto você suplicar não vai alterar absolutamente nada o seu destino... – ele desliza os dedos pela máscara suavemente e depois volta a falar – Esta máscara... Não me escondo atrás dela, uso-a para combater meus inimigos. Para instigar neles o medo, o mais infantil dos sentimentos... E quando estiverem no inferno lembrarão, pela face de minha máscara, que foram assassinados pelo próprio demônio.

Aquele guerreiro falava com uma serenidade admirável, o que dificultava imaginar que tipo de expressão aquela máscara escondia.

- Então é este seu nome? Demônio?

- Já disse que não tenho nome... Mas me chamam de Demônio... Demônio da Tormenta!

Ele então retira a máscara e revela seus belos traços, sua pele alva como a neve e os olhos de azul profundo. Ilustrada em sua estava uma expressão absolutamente sinistra, simples ao que se via e extremamente perturbadora ao que se sentia. Nenhum, absolutamente nenhum sentimento estava expresso em seu rosto. Via-se refletido em seus olhos e estampado em sua face a mais pura forma da maldade e da crueldade, uma indiferença única em relação aos sentimentos humanos. Era horrível, chegava a causar ânsia em Jacob sentir aquele cosmo, que agora havia se expandido e se tornado mais intenso.

- Demônio da Tormenta? – Jacob agora pôde perceber que aquele guerreiro era exatamente como um demônio, desde sua armadura até seu cosmo.

- Sim... Como eu disse, o medo é o mais infantil dos sentimentos. A mente perturbada das minhas vítimas criou em mim uma idéia de mítica. Esse nome é fruto do medo que elas sentiram antes de morrer...

- Para mim você já está falando demais de si mesmo! Pode ser assustador, pode provocar medo nas pessoas, mas não será páreo para o Cisne do Gelo!

Jacob prepara-se para lutar aumentando seu cosmo de forma agressiva. Demônio apenas o olhava com leve descrença.

- Realmente acredita que pode me derrotar?

- Eu irei lhe derrotar! Eu devo matar-lhe para que meu mestre derrote Polarius!

O guerreiro balança levemente a cabeça para os lados.

- Se pensa assim... Estava apenas curioso, pois mesmo que se redimisse não o pouparia! Devo obedecer meu pai... Se está tão confiante assim, tente me atacar! Tente ao menos me mover do chão! – Demônio saca novamente sua gaita e se põe a tocar.

Jacob fecha sua expressão, tornado-a carregada. A música pareceu perturbá-lo, sentiu uma relutância dentro si em atacar seu oponente, mas vencendo isso eleva seu cosmo, já dominando o Zero Absoluto e o Sétimo Sentido, e prepara-se para atacar, levantando os braços acima da cabeça.

- Tolo cavaleiro! Irei lhe derrotar! Todo o povo do gelo confia em mim! Tome isto por duvidar de meu poder! – o cosmo se intensifica de forma explosiva. A imagem de uma mulher segurando um jarro se forma pela emanação de seu cosmo.

- Execução Aurora!

Uma enorme rajada de energia congelante é disparada e atinge em cheio Demônio, que não faz nem sequer uma defesa. A música cessa por um instante. Uma nuvem de neblina é erguida e estilhaços de gelo são jogados para todos os lados.

- Mas o que está havendo!

Jacob dá alguns passos para trás completamente horrorizado. A música melancólica voltou a tocar. O cosmo do guerreiro não havia diminuído em absolutamente nada, e quando a neblina baixou pôde-se vê-lo de pé, com sua armadura congelada, soprando sua gaita e ainda no mesmo lugar. Não havia se movido um centímetro sequer.

- Eu lhe avisei que não iria sequer me mover... Mas você me surpreendeu, conseguiu congelar minha armadura. Poucos cavaleiros conseguiram isso, e os que conseguiram há tempos estão no inferno. – apenas expandindo seu cosmo transforma em pó o gelo que cobria sua armadura.

Jacob estava espantado com o poder daquele cavaleiro e de sua armadura. Seu ataque mais concentrado não havia nem sequer a arranhado.

Demônio, com toda a serenidade que mostrou até agora, guarda sua gaita. Em seguida começa a concentrar seu cosmo mais ainda e levanta seus braços sobre a cabeça, da mesma forma que Jacob havia feito. Seu cosmo começa a expandir e se intensificar. Uma aura negra encharcada de crueldade envolvia seu corpo e formava atrás dele a imagem de um terrível demônio.

- Guerreiro miserável!... Este seu último ataque é uma vergonha para as sagradas técnicas de meu mestre! Esta é a verdadeira execução... Execução Mestra!

Jacob, sem ação, cruza os braços fazendo uma defesa em "X", na frente do peito. Não adianta muito. A rajada de Demônio é muito maior e mais concentrada e ao tocá-lo arremessa o cavaleiro para longe, atirando-o violentamente contra o muro. Sua armadura se racha muito e o muro se destroça, abrindo nele uma cratera.

- Hunf... Surpreendo-me em ver que aquela armadura ainda não se desfez em pó...

Em outra ocasião a armadura de cisne já se desfizera em meio ao golpe de Demônio, e por este motivo ele se surpreendeu desta vez.

Jacob tenta se levantar com dificuldades. Debaixo de seu elmo descia um veio de sangue que escorria por sua face.

- Maldito... Você conhece com perfeição as minhas técnicas! Este seu golpe foi idêntico ao Execução Aurora... Mas em uma intensidade surpreendente.

Demônio mantém uma expressão séria no rosto.

- Não compare nossas técnicas. É como comparar um gato a um leão. Ambos partilham das mesmas características, mas entre seus poderes há um abismo. Esta técnica foi criada por meu pai, o que o seu mestre fez foi destorcê-la.

- O quê! – Jacob é tomado por um súbito espanto. Por um momento pensou que não havia compreendido as palavras de seu inimigo, afinal do que aquele guerreiro estava falando? Como Polarius poderia ter criado as técnicas de Camus?

- O que foi? Acha que aquele guerreiro medíocre que chama de mestre é mesmo o autor destas técnicas divinas? Não seja tolo... A verdade não está ao seu alcance, e não serei quem irá mostrá-la.

Demônio estende seus braços e estica seus dedos na direção de Jacob. Seu cosmo se intensificava mais ainda.

- Fúria de Tormenta!

Em meio a um clarão de energia milhares de raios de cosmo começaram a atingir o cavaleiro de cisne, que logo se viu cercado por eles, sem poder fazer uma defesa eficiente. Ele até teve oportunidade para tanto, mas havia uma energia negra parasitando seu cosmo que lhe tomou a força de vontade. Era o medo, a aceitação da inevitabilidade.

Os raios eram como pequenos relâmpagos frios, onde atingiam a armadura era quebrada por uma potente descarga elétrica, ao mesmo em que, gradativamente, ia congelando-a.

A velocidade e a quantidade dos raios ia aumentando com rapidez, e chegou um instante em Jacob foi completamente encoberto por uma luz forte. Apenas se ouviam seus gritos de dor.

- Verme...

Após alguns segundos de sofrimento, os relâmpagos cessaram, mas não antes de um último e mais forte o atingir em cheio no peito e o jogar novamente contra o muro. Seu corpo fica caído no chão, coberto de sangue. Seu cosmo ainda queimava com intensidade.

- Estou enganado, ou ainda não morreu? – Demônio, com os mesmos passos incrivelmente serenos, caminha até o corpo de Jacob e o ergue pelo pescoço. Olha-o com certa curiosidade – Está vivo cavaleiro?

Uma explosão violenta de cosmo acontece. É o cosmo de Jacob que aumentou com força e fúria, arrastando Demônio alguns metros para trás.

- Não ouse me tocar!

Jacob concentra seu cosmo e prepara-se para usar seu ataque. Em uma explosão cósmica Jacob vencera a energia que lhe tinha tomado. Agora ele estava certo que ia acabar com o cruel oponente.

Um círculo de energia de gelo começa a se formar em volta de seu inimigo, de repente ele se fecha. Ao tocá-lo explode com incrível violência.

- Explosão Aurora! – A violenta explosão arremessa com força seu inimigo para o alto.

Antes que Demônio pudesse aterrissar, Jacob concentra seu cosmo novamente e ergue as mãos sobre a cabeça. Estava a ponto de disparar, quando algo terrível invade seu coração.

Era o cosmo maléfico de seu oponente. Quando ele olha nos olhos de Demônio – ainda no ar – sente um terrível pavor em sua alma e ao invés de enxergar seu inimigo, vê uma enorme criatura demoníaca se contorcendo no ar. A sensação era apavorante, como se tudo aquilo de ruim que o cosmo de seu inimigo emanava estivesse corroendo sua alma por dentro, capaz de travar todos os seus músculos e lhe fazer suar frio.

- Aaahh... Não!

Jacob dá alguns passos para trás, com uma expressão de pavor estampada claramente em sua face. Demônio se endireita no alto, e desfere um poderoso golpe no ar. Um fortíssimo turbilhão de vento carregado de cristais de gelo e energia cósmica é formado.

- Tormenta de Cristais!

O imenso turbilhão atinge em cheio Jacob, que afunda no chão.

Demônio aterrissa com perfeição no chão, exibindo um leve sorriso na face.

O cavaleiro de Cisne tentava se levantar com dificuldades. Sentia que seu corpo havia sido moído, todos os seus ossos doíam. Sua armadura se cobriu de rachaduras, e por elas escorria muito sangue.

- Por que não conseguiu me atacar? Teve medo... Pavor?

Jacob estava completamente perplexo. A sua incapacidade havia sido provocada pelo cosmo extremamente profundo e intenso daquele guerreiro. Ele conseguia fazer temer qualquer um, invadindo sua alma com sua energia demoníaca. Dava até medo imaginar o que ele poderia fazer em seu poder máximo, imaginar quais seriam seus limites para a crueldade. Qualquer um ficaria sem ação ao sentir o poder daquele cosmo, ao sentir o que Jacob havia sentido.

O cisne então respira fundo e encara seu oponente. Porém não conseguia esconder o pavor que sente da sua figura.

- Agora eu vejo...Vejo como matou todos seus inimigos. Você os faz acreditar que é realmente a personificação do Demônio... Criatura diabólica!

Demônio olha-o com uma expressão absolutamente indiferente, porém, desta vez, com um brilho sanguinário no olhar. E responde com palavras secas.

- Parece que percebeu... O que a mente humana acredita passa, apartir daquele instante, a ser de fato verdade. Se os que matei acreditavam que eu sou um demônio, eu de fato sou. Mas o que nenhum dos meus oponentes jamais conseguiu enxergar foi a inevitabilidade da morte. Uma vez que se cruzou meu caminho você irá para o inferno, seja uma alma boa ou má. Pelas minhas mãos, não há outro caminho senão o inferno... Isso é um fato concreto e imutável.

Demônio parte em alta velocidade, com os punhos fechados, para cima de Jacob.

Jacob fica sem ação novamente frente à seu inimigo. O temor era real, nada podia ser feito, ele sentia na sua alma que seu destino seria o mundo dos mortos. A imagem que via não era de um cavaleiro, e sim de uma criatura do inferno, sedenta de sangue vindo em sua direção.

O soco o acerta em cheio no abdome, e quando o atinge provoca uma explosão violenta de cristais de gelo.

- Tormenta de Diamantes!

Seu corpo é jogado violentamente vários metros para trás e então se espatifa no chão como uma peça inanimada. Seu corpo fica estirado por alguns instantes. Logo ele tenta se levantar. O peito da armadura estava completamente danificado, e apesar de estar completamente trincada, ainda não havia se partido. Seu sangue escorria com abundância por entre as rachaduras.

- Hunf... – começa a falar Demônio – Esta armadura passou por grandes reformas... Ela foi restaurada por Hephaesto, não foi? Meu mestre irá saber que aquele deus medíocre ajudou Athena...

- Como... Como sabe disso? De onde conhece esta armadura? – pergunta Jacob, com dificuldades em falar e em manter-se de pé.

- Já a vi antes. É uma das armaduras de Athena. Eu matei o guerreiro que a trajava.

Jacob é tomado por surpresa. Seus olhos se arregalam e ele permanece em silêncio por alguns instantes. Depois explode.

- Você! Você matou Hyoga!

- Quem?

- Hyoga de Cisne! Maldito, você o matou! Como pôde?

Jacob berrava de ira enquanto Demônio o olhava com certa confusão.

- Do que exatamente está falando?

- Do cavaleiro de Cisne! O último portador dessa armadura! Vai morrer por causa disso! – Jacob levanta-se e parte, à passos tortos e cambaleantes, rumo a Demônio, visando-lhe um murro.

- Mas o que você quer? – Demônio explode um tapa na face de Jacob e joga-o alguns metros para longe. – Está louco cavaleiro?

Jacob continua no chão, chorando.

- Hyoga... Era meu amigo, irmão... Você o matou...!

- Ah... O cavaleiro de Cisne. Não sei o quanto ele representava para você, cavaleiro... Mas para mim, não representava absolutamente nada. Não mais que um inseto no meu caminho, mais um esmagado entre tantos. Sequer lembro do rosto dele. Não o olhei muito, a nossa luta demorou apenas alguns segundos. Bastou um golpe... Ele nem teve reação, nem seus companheiros puderam fazer absolutamente nada para salvá-lo... Não há o que fazer quando se está paralisado pelo medo.

Muita coisa se esclarecia com as palavras frias de seu oponente. Seu cosmo negro havia invadido o coração dos cavaleiros do passado e os fez perder a razão, se deixaram tomar pelos sentimentos negros. As ansiedades tornaram-se temores que evoluíram para um pavor incontrolável. O grande trunfo do Demônio da Tormenta é provocar o medo, ele tira a reação de seu oponente e o deixa passivo. Era preciso muita sabedoria para se poder enxergar isso. E os cavaleiros do passado não a tiveram, pois ela estava abafada pela ira de um combate bruto como o que foi travado no Santuário, dez anos atrás.

Jacob cada vez mais mergulhava na mesma situação. Em seu peito ardia a dor de ter perdido seu melhor amigo, o homem que mais admirava. E justamente pelas mãos deste homem perverso e terrível que estava a sua frente. Tudo que sua mente desejava neste momento era morte, vingança. E com todas as suas forças ele odiava seu oponente.

- Já basta! Deve pagar por tudo que fez! Você matou Hyoga! E eu irei matá-lo, nem que para isso eu tenha que consumir todas as minhas forças!

Jacob explode seu cosmo como nunca, uma energia extremamente poderosa. Um poder fruto de muita raiva, de muito ódio, fruto de todos os sentimentos ruins que ele já havia tido, fruto de tudo que ele mais odiava no mundo. Um poder que nem sempre é saudável, e que contrariava os ensinamentos de seu mestre. Porém foi um poder forte o suficiente para conseguir romper a barreira do pavor e finalmente poder ter ação frente ao inimigo.

- Desgraçado, vou acabar com você...

- Hnf... Você não passa de um tolo sentimental amargurado pelas perdas do passado... Com um coração cheio de sentimentos impulsivos jamais vai sequer me ferir... – Demônio mantinha sua serenidade admirável, porém seu cosmo se intensificava cada vez mais – Morra de uma vez! Execução Mestra!

- Você que irá morrer, desgraçado! Execução Aurora!

As duas rajadas se chocam. Uma desvia a outra.

No mesmo instante Jacob dá um grande salto. No alto se concentra para disparar novamente.

- Execução Aurora!

O novo golpe sai com muito mais força e atinge em cheio Demônio, que faz apenas uma defesa em X. O golpe quase destroça os braços de sua armadura e causa rachaduras por toda ela. Ele afunda no chão, abrindo nele uma cratera.

Antes que Jacob pudesse aterrissar, seu inimigo salta da cratera e o pega pelo pescoço.

- Não vai me derrotar assim. – diz Demônio olhando no fundo dos olhos de Cisne, que agora, mais do nunca, sentiu o medo invadir sua alma com toda força, tomando-a por completo, tirando todo e qualquer impulso para qualquer reação.

– Não é com este cosmo cheio de sentimentos que irá me derrotar! Assim, só gastará suas forças, e meu tempo!

- Verme... – diz Jacob quase que num sussurro.

Depois de falar, Demônio acerta-lhe um soco na região abdominal, que explode com milhares de cristais.

- Tormenta de Diamantes!

- Aaaaahhh! Miserável!

Jacob é jogado violentamente contra o solo, e deixou no ar um caminho de cristais de gelo, como uma estrela cadente, até se enterrar no chão. Sua armadura se desfaz quase que por completo. Seu corpo fica caído, ensangüentado em meio a escombros, enquanto seu cosmo diminuía cada vez mais, até já não mais poder ser sentido.

Demônio estava parado, olhando o corpo inerte daquele guerreiro. Ele coloca sua máscara de demônio e vai até o corpo de Jacob. Levanta-o pelo pescoço e, olhando no fundo de seus olhos, que estavam semi-abertos, ele começa a falar, sem saber se o guerreiro de Cisne estava consciente.

- O medo é tua quimera, cavaleiro... É ele que lhe distorce a realidade, que anula todas as suas armas. E que me faz vitorioso... Teu medo me alimenta... É por isso que está agora indo para o inferno. Olhe ainda uma última vez minha face. Esta é a verdadeira face do demônio. É deste rosto que deve se lembrar quando arder no inferno...

- ...

Jacob dá ainda um último suspiro enquanto uma lágrima rola pela sua face. Um último suspiro de dor, de pesar. E de fracasso.

Demônio larga o corpo do cavaleiro sobre a neve e começa a rumar em direção ao grande templo. Saca sua gaita e começa a tocar o mesmo blues melancólico. Passos firmes e inalterados o conduziam, enquanto sussurrava um verso...

- Não há nada a temer senão o próprio medo... Ele nos faz invencíveis e também absolutamente suscetíveis...

A figura do cavaleiro some nas escadarias, mas a música permanece. O corpo de Jacob continuou imóvel. Seu cosmo não era mais sentido. Seu sangue escorria, manchando a neve de um vermelho intenso ao som da gaita do Demônio.