CAPÍTULO 8

O inimigo surge...

Familiar...

Após subir as escadarias, deixando Jacob para lutar contra o estranho guerreiro mascarado, Camus pôde ver o templo central. Com passos firmes e decididos ia se dirigindo a ele.

- Aquele cavaleiro... O cosmo dele é muito diferente de qualquer um que eu já senti... Um cosmo confuso... Ora! Devo confiar em Jacob e nos outros! Sei que eles irão vencer!

O Templo Central se assemelhava no aspecto geral a um Pathernon grego, um grande salão com uma cobertura majestosa sustentada por pilastras. As pilastras se pareciam com grandes estacas de gelo, e o teto era uma grande placa um pouco disforme, também de gelo. Mas não era como se fosse um templo em concreto que havia sido congelado, era como se fosse gelo puro, como se tivesse se esculpido aquele templo majestoso num gigante bloco de gelo.

- Impressionante...

O sol no santuário de Polarius era bem fraco, ocultado pelas nuvens agitadas que tapavam o céu. Dentro do templo, a luz era mais escassa ainda. O chão era coberto por uma neblina rasa até a altura dos tornozelos. No final do templo havia um grande paredão onde se encostava um trono com um homem nele sentado. Na parede estava esculpida uma bela, porém perturbadora imagem: Um gigante imponente aponta para o que aprecia ser o Monte Olimpo, onde os deuses se encolhiam e se protegiam uns aos outros, demonstrando medo e submissão ao gigante.

Camus não havia reparado direito na figura, ele fixava o ser obscuro que estava sentado no trono. E ele também o fixava. Alguns metros separavam-no da luz. De repente ele se levanta, e caminha até ela.

O ser surge. Camus permanece imóvel.

- Polarius... – diz com firmeza, enquanto encarava-o, apesar de não ver seu rosto.

Tratava-se de um homem alto e magro. Uma armadura prateada cobria seu corpo por cima de peças de um casaco de peles. Uma touca, que era extensão de sua capa, feita de pele de urso, tapava seu rosto. Mas percebia-se cabelos acinzentados. Nenhuma manifestação de seu cosmo se notava.

- Quanta frieza Camus... – diz Polarius com sua voz um pouco rouca, enquanto expandia seu cosmo.

Um assombro tomou conta de Camus, que se tornou explícito em sua expressão.

- Mas que cosmo... É esse! Não!

Um sorriso surgiu na face de Polarius, que tira sua touca revelando seu rosto afinal. Era um homem de aparente experiência, traços fortes e firmes, cabelos acinzentados e bagunçados, mas que não faziam perder seu ar de superioridade e dominância que impunha respeito.

- Espantado...Camus? À que meu cosmo lhe remete? Parece-lhe... Familiar? – Polarius solta uma gargalhada ecoante.

- O que... O que isso significa!

O cosmo era intenso, poderoso, concentrado, capaz de inundar todo universo e ser sentido e temido por todos. Se um cavaleiro pudesse senti-lo, com certeza entenderia por que Athena e seus guerreiros foram derrotados Era algo majestoso, extremamente imponente. Mas nada disso havia surpreendido Camus, o que lhe chamou atenção foi a incrível familiaridade com aquele cosmo.

Com palavras vagas, Camus balbucia perplexo.

- Na Sibéria... Meus sentimentos... Você!

- Sim Camus! Eu! Quem lhe fez esquecer todos as fraquezas sentimentais! Quem fez com que se tornasse forte! – Polarius estava com aparente empolgação, e de súbito sua expressão muda, tornando-se séria – E quem foi traído... Por você!

- Não! Está mentindo! O que está havendo! Argh... Minha mente... Não pode ser!

Camus cai de joelhos no chão, com as mãos sobre a cabeça e um grande sofrimento psicológico. Todos seus conceitos entraram em colapso naquele instante. De um lado a razão consciente, que ele sempre seguiu cegamente, insistindo em apontar Polarius como inimigo, alguém com quem estaria fora de cogitação alguma relação sentimental, algum laço de consideração ou respeito, afinal ele foi o assassino de todos os humanos, de sua deusa, de seus companheiros; de outro o sentimental , um lado pouco conhecido por ele, que ainda aflorava-se e desenvolvia-se em sua alma, que talvez não poderia se confiar ainda, mas que demonstrava extrema clareza, este lado ligava Polarius à seu passado, ao seu treinamento, aos seus primeiros laços sentimentais e à perda deles, ligava-o ao seu conhecimento, à tudo que ele havia enterrado no fundo de sua mente, muito além da inconsciência. O pior, que o abalava mais, é que em certo ponto a razão entrou em acordo com o sentimento, diante os fatos, diante da volta de suas memórias em claras imagens, era impossível negar que Polarius era... O mestre de Camus.

- O filho pródigo retorna aos braços do pai! – As palavras de Polarius fluíam, com claro sarcasmo.

- Não! Pare com isso! Está me deixando louco...!

Camus sofria como nunca, caído de joelhos, com a mão sobre a cabeça. Seu grito ecoava pelo templo, sendo tão profundo teu sofrimento que podia varar as dimensões, chegando a ser sentido pelos deuses do Olimpo e da Terra, inclusive por Athena.

No santuário, a deusa da Justiça orava com toda sua força, com seu cosmo tão forte como nunca havia estado. Com a mão sobre o peito, ela sofria enquanto pedia proteção para o homem que amava e para os corajosos garotos que partiram com ele.

- Camus... Agüente...