CAPITULO 10
Lembranças do inferno de gelo.
Polarius gargalhava enquanto rodeava Camus.
- Então... Está se lembrando de nosso treinamento na Sibéria? Não era o máximo? – indagava, extremamente sarcástico.
Camus ainda caído estava ofegante. Todas as suas lembranças que por anos estavam enterradas voltaram de uma única vez quando o cosmo de Polarius foi sentido.
- Desgraçado! Foram os piores anos de minha vida! Nem no inferno eu sofreria tanto!
- Ora... Não exagere! Eu o treinei com excelência... Ou acha que se não tivesse sido daquela forma você sobreviveria ao meu ataque ao Santuário?
- Ora! Eu tornei-me forte por que tratei de apagar todas as lembranças terríveis! Minha mente apagou tais lembranças, pois seria impossível para um mortal viver com aquilo em sua mente! Guardei apenas os conhecimentos, as técnicas... Se não fizesse isso eu viveria perturbado por pesadelos! Isto é uma prova do tamanho da minha vontade de vencer, de tornar-me forte!
Polarius olhava para ele com indiferença.
- O importante é que conseguiu tornar-se forte. É uma pena que me traiu... Traiu teu próprio pai! Não posso perdoar-lhe, meu filho...
Camus explode em raiva, e o agarra pelo colarinho, gritando.
- Nunca! Nunca ouse me chamar de filho! Monstro!
Polarius expande seu cosmo com violência, jogando Camus para trás, derrubando-o no chão.
- Argh!
- Continua rebelde...
- Como ousa me chamar de filho? Nunca nem sequer me disse de onde eu vim. Apenas usava-me, me punha a treinar incansavelmente, nem um herói resistiria como eu resisti! Você queria me matar da forma mais dolorosa possível!
- Você não precisava saber de onde veio! Bastava me obedecer, estava fazendo o melhor para você, para lhe tornar o melhor guerreiro!
- Cínico... – dizia Camus por entre os dentes, demonstrando repulsa a Polarius.
- O que é isso? É assim que me agradece? Tornei aquela criança chorona o mais forte guerreiro do gelo. Se quiser saber, você era pouco mais que um bebê quando o encontrei na praia gelada, as gaivotas estavam por te devorar. Não sei como, talvez por milagre de um dos deuses, você sobreviveu ao naufrágio do navio francês. Mas eu o recolhi! Cuidei de você, dei tudo que precisava!
- Menos o fundamental: carinho, amor paterno!
- Ainda não aprendeu? Um cavaleiro não precisa de sentimentos! Eles são inúteis, são obstáculos!
- Mas eu era uma criança!
- Não reclame, podia ter te abandonado lá na praia, seria devorado pelas gaivotas!
- Seria melhor! Não sofreria tanto! Você só queria alguém para usar!
- O tempo te deixou mais esperto... – começou a gargalhar – Era até engraçado te ver. Vinha correndo a mim, pedindo atenção ou carinho, sei lá... E tudo que eu fazia era ordenar-lhe novas tarefas. – ri novamente – Era uma criança tola, acreditava em minhas promessas e fazia tudo que eu mandava.
A ira de Camus crescia cada vez mais. Nunca havia imaginado que podia sentir tanta repulsa de uma pessoa. Frente a ele estava toda a fonte da desgraça em sua vida. Todo o sofrimento que passou era culpa dele. Camus não se conteve, fechou os punhos e acertou-lhe um murro.
- Desgraçado!
O sangue de Polarius mancha o chão do Templo Central.
Ele mantém a cabeça virada, enquanto lentamente passa os dedos pela boca, depois leva frente à seus olhos, verificando que estava sangrando.
- Ingrato!
Com uma rajada de cosmo, ele arremessa Camus contra uma pilastra de gelo, quebrando-a em pedaços.
- Argh! Maldito... Você só queria um guerreiro pra te servir cegamente... Eu seria o primeiro de seu exército para tomar a Terra e dividi-la entre os deuses. Pois seu prestígio entre eles era nulo, não passava de um semideus banido do Olimpo por desobedecer a Zeus...
A expressão de Polarius mantém-se séria e carregada. Parecia que seu sarcasmo havia desaparecido.
- Hunf... Sim, está certo. Você seria o meu primeiro cavaleiro, o meu filho. Mas abandonou o futuro prestigioso quando partiu ao santuário de Athena e foi servir a ela! Podíamos estar juntos agora, dominando a Terra! Logo tomaríamos o Olimpo! Aqueles deuses medíocres sentirão meu poder! Não voltarei ao monte sagrado como mais um filho de Zeus, e sim como o Deus dos Deuses! Todos mortais e imortais deverão obediência a mim!
Pára alguns instantes e volta encarar Camus.
- Sua traição atrasou meu plano em anos. Pretendia atacar o Santuário antes da encarnação de Athena, mas meu primeiro discípulo uniu-se ao inimigo. Você desandou todos os meus planos! Mas o que importa é que agora estou no comando do mundo dos mortais!
- Não foi traição! Foi lealdade. Lealdade ao cosmo maravilhoso que me salvou! Athena me salvou quando seu cosmo, vindo da armadura de Aquário, aqueceu meu corpo e devolveu-me a vida. Devo tudo a ela, e coloquei todos os meus conhecimentos a serviço dela.
- Os conhecimentos que eu lhe passei! Você me traiu! Dediquei-me a ensinar as mais poderosas técnicas de combate e você a usa a favor de meu inimigo! Isto é traição, desgraçado!
A ira imperava nas palavras de Polarius. Camus encarava-o com firmeza, finalmente seu passado estava se revelando, e agora ele podia entender melhor a si mesmo e compreendia algumas atitudes suas do passado.
- Você me obrigou a viver sem meus sentimentos! Graças a isto pude ser forte, mas também não conheci a felicidade. Permaneci frio como o gelo por toda minha vida, era um cavaleiro a todo o momento, pronto para dar minha vida pelo santuário e por Athena. Foi o desconhecer dos sentimentos que me proporcionou tal dedicação à minha função. No final, todos os anos que passei no inferno de gelo me valeram, pois lá conheci a força desconhecendo os sentimentos.
Enquanto Camus falava, a expressão de Polarius se amenizava. Ele sabia de algo, tinha certeza que Camus se vangloriava de ter vivido sem sentimentos erroneamente.
- Tem certeza que os desconhecia, Camus?
Suas pupilas se dilataram. Novas lembranças lhe vinham à cabeça, novos fatos que ocorreram na Sibéria. Fatos trágicos, tão terríveis que haviam sido jogados no mais fundo de sua mente, que mereciam ser esquecido mais que tudo.
- O... O quê? Não! Ainda há mais em minha mente! Não quero lembrar! Não quero! Aaaaaahhhh!
Camus colocava as mãos sobre a cabeça, enquanto sofria. Polarius parecia se divertir.
A imagem de uma bela jovem vinha-lhe à cabeça, ligando momentos bons e prazerosos. Uma doce voz feminina chamava:
- Kamyuuuu...
A voz doce torna-se um terrível grito de pavor.
- Aaaaah! Kaaaamyu! – ecoava o grito em sua mente, com a mesma voz feminina. No templo, Camus balbuciava palavras vagas, como se estivesse em outro lugar.
- Não... Não...
Associada ao grito, uma cena vinha-lhe a cabeça: um jovem de cabelos azuis segurava nos braços a bela jovem cuja voz o chamara. Ela estava imóvel, sua pele tão pálida quanto a neve que os cercava, parecia estar congelada. E de fato estava, ela havia morrido nos braços do rapaz, que chorava desesperado segurando a amada.
- Nãããão! Auroraaaaaaa! Perdoe-me... Perdoe-me...
O jovem que chorava era Camus.
As memórias insistiam em permanecer em sua mente. As cenas se alternavam entre o doce chamado e o pavoroso grito de desespero. Ressaltando mais ainda a perda.
