CAPITULO 11
O cavaleiro mais próximo de um Deus.
Fritz ia saltando os lances de degraus. Há pouco ele deixou seus companheiros no grande salão das quatro escadarias. Ele estava ansioso e confiante, talvez até demais. Tal ansiedade não lhe deixou perceber que as escadas estavam todas rachadas, faltando lascas. Quando chegou no seu final, Fritz parou, assustado.
- Mas... O quê?
Era um enorme campo. O solo de rocha bruta, o céu escuro com nuvens negras e agitadas, a mesma paisagem do resto do santuário. Mas o que havia assustado o cavaleiro de Kraken era algo no centro do campo: um pequeno círculo de grama verde onde, sobre um lótus gigante, um homem com as pernas cruzadas flutuava, parecendo meditar. Com cautela Fritz vai se aproximando, e começa a observá-lo. Era um cavaleiro, vestindo uma armadura dourada que cobria todo seu corpo com perfeição, muito semelhante à uma armadura de Ouro de Athena. Seu elmo tinha na frente o desenho de um triângulo com algumas inscrições, que não pareciam ser de nenhuma língua conhecida. Seus longos cabelos loiros, que lhe caiam pelas costas, movimentavam-se lentamente com a força do cosmo que era emanado.
- Guerreiro! Mostre-se em guarda! – grita Fritz, colocando-se posição de combate e intensificando seu cosmo.
No mesmo instante, um fenomenal cosmo se expande. Era forte, intenso, intimidador. Seu poder era tão imenso que não se podia comparar com nada. O cosmo de um deus podia ser mais poderoso, mas não seria tão intenso, tão complexo, cheio de luz como este. Era algo único, diferente de tudo que já havia sentido e ouvido falar antes.
O cavaleiro se suspende no ar, até que pudesse esticar as pernas. Quando seus pés tocam a flor de lótus, ela se desfaz em um pó brilhante que se espalha por todo o campo. Todo o lugar se transforma. Uma grama verde cresce, cobrindo todo o solo rochoso, as nuvens dissipam-se mostrando um lindo céu azul, ensolarado. O ambiente torna-se um paraíso, uma paisagem lindíssima, palco de inspirações para grandes romances. Mas estranhamente o maravilhoso local passava uma terrível sensação de morbidez, de medo e insegurança. Talvez fosse o contraste entre o poderosíssimo cosmo e o ambiente paradisíaco.
Fritz fica confuso, olhando espantado para a transformação que se deu em segundos. Mas depois, corrigindo-se, volta à posição de ataque. Seu inimigo permanecia imóvel, de pé, com um leve sorriso esboçado e os olhos fechados.
- Eu sou Mahatimahn Furhento No Mastiuhr, discípulo de Buda, Guerreiro do Triângulo Austral, sob juramento de lealdade à Polarius. E você, dono de cosmo insignificante, quem é? - Disse afinal o misterioso guerreiro dourado.
Fritz permaneceu imóvel, estranhou a atitude do Guerreiro do Triângulo. Surpreso, e até um pouco intimidado, ele responde.
- Pois bem Mahati não sei o que... Sou Fritz, Guerreiro de Kraken, visto uma armadura que não é minha nem da minha deusa, mas sirvo com lealdade à Athena! Até pediria passagem, mas devo matar-lhe não importando as condições...
- Quer me... Matar? – Mahati fala com calma, enquanto faz menção de começar a caminhar. Antes que seu pé tocasse o chão para dar início ao primeiro passo, ele já estava há poucos centímetros de Fritz.
- Pois tente!
- Aah! Como! – Assustado Fritz salta para trás impressionado com a velocidade de Mahati.
- Impressionado? Tudo que fiz foi dar alguns passos na velocidade da luz, e te impressiono? Que tipo de guerreiro medíocre é você? – indaga, ainda de olhos fechados.
Sua habilidade era realmente admirável. Fritz já dominava a velocidade da luz, mas não conseguia mover-se em curtos espaços com movimentos simples nesta velocidade. Uma vez na velocidade da luz, não é fácil controlar ou cessar o movimento. Quando os cavaleiros lutam a esta velocidade, eles a usam por um período considerável de tempo, de pelo menos alguns segundos, e não de frações.
Numa atitude de reflexo, Fritz havia saltado para trás, e agora se encontrava a alguma distância de seu oponente.
- Eu sou o guerreiro que vai te derrotar! E se duvida venha lutar!
- Lutar? Creio que o que teremos aqui não poderá ser chamado de luta. Não pretendo me demorar... – ele começa a abrir os olhos, e Fritz surpreende-se novamente.
- O que... O que há com seus olhos?
Seus olhos eram brancos, completamente brancos. Não havia pupilas ou íris, era apenas o globo ocular em branco. Era como se fossem falsos, como duas pérolas.
Seu rosto era pálido, seu sorriso era bem arqueado, repuxando sua pele plástica. Esta expressão pavorosa, somada a seus olhos brancos e lisos, como de porcelana, davam a Mahati uma imagem extremamente sinistra. Seu aspecto como um todo passava uma conotação angelical. Mas tinha-se a impressão que a imagem angelical não passava de um disfarce. Seu cosmo transmitia uma energia mórbida e assustadora, embora fosse iluminado. Seu sorriso plástico mais parecia uma máscara de anjo escondendo o rosto do demônio. Algo realmente assustador.
- Meus olhos? – Mahati sorri de modo sinistro – Onde treinei, e me formei cavaleiro, não se precisa enxergar. Se pudesse ver alguma coisa lá, só iria enlouquecer mais ainda! Existem coisas tão terríveis que é melhor não ver...
Fritz permanece parado. Apenas encarando-o, ele tentava não demonstrar o grande temor que estava sentindo. Mas Mahati na certa estava percebendo, e aproveitava-se disso.
- Curioso para saber que lugar é este? Eu sei que está... Em breve irá para lá! – com as palmas das mãos viradas para frente, e os braços esticados, ele continua falando – Quando atacamos o santuário de Athena, mandei quase todos os cavaleiros de bronze para lá junto com um tanto de pratas, com um único golpe. Mas preciso de muita concentração. Matarei primeiro teu corpo, depois o enviarei já sem vida para o inferno!
Seu cosmo começa a se intensificar de forma assustadora. Ele fecha os dedos, deixando esticados o indicador e o dedão. Depois os aproxima, formando um triângulo com os dedos.
- Não há matéria que resista ao Sharááááá... Hiei!
- O quê! Argh!
Por uma milésima fração de segundo, uma energia cinética colossal se formou no triângulo formado pelos dedos de Mahati. Tal energia foi disparada em forma de um concentrado raio, que varou a poeira que se ergueu e foi direto para o peito de Fritz.
Num rápido e perfeito movimento, o cavaleiro de Kraken, joga seu corpo para o lado escapando do raio de cosmo. Quando ele cai no chão, rola mais uma vez, coloca-se de pé e com a energia que já estava concentrada, dispara seu golpe na fração de segundo seguinte.
- Execução Aurora!
A rajada de cosmo e gelo vai certeira para cima de Mahati. Que até poucos centímetros de ser atingido não faz um movimento sequer. Bastou erguer as mãos, e segurar todo o ataque de Fritz, como se pegasse um objeto que havia sido lançado em sua direção. A energia explodiu em torno de seu corpo, e uma densa nuvem gelada se ergueu.
Fritz permaneceu parado. Assombrado. O cosmo do Guerreiro do Triângulo Austral em nada havia diminuído. À medida que a nuvem se dissipava, seu assombro aumentava: Mahati permanecia em pé, vindo em sua direção, com a armadura sem nenhuma rachadura, ou qualquer sinal de que havia sofrido um ataque.
- Patético... Até o mais poderoso dos golpes parecerá patético diante a Armadura do Triângulo Austral!
- Mas como? O que quer dizer? Está dizendo que é invencível!
- Sim... Estou dizendo por que realmente sou invencível! – Mahati ri de forma estrondosa – Se existe algo para definir a palavra indestrutível é a minha armadura! Nunca sequer vai arranhá-la!
- Isso é impossível... Tudo pode se partir... Sua armadura é feita de átomos, como a minha. Está mentindo! Claro que posso parti-la! Mas... Aaaargh!
De repente, uma terrível dor toma conta do braço esquerdo de Fritz, e quando ele o toca, a armadura dali se pulveriza.
- O que está havendo! Eu nem sequer fui atingido no braço! O que fez!
Mahati continua rindo. E com seu sorriso demoníaco, responde com graça.
- Aí está a diferença, cavaleiro medíocre! Sua armadura é feita de átomos! As ligações entre eles podem se desfazer! Quando você se desviou para a direita, escapou de ser atingido pelo raio Shará no peito, e ele ainda passou a uma distância considerável de seu braço esquerdo. A sua armadura se desfez apenas pela energia do rastro de meu raio. Não é fantástico! Apenas o rastro de meu poder desfez sua armadura! Imagine se ele o tivesse atingido em cheio!
- Pelos... Deuses...
Fritz estava cada vez mais assombrado. Se ele não estivesse vivenciando aquilo, era impossível de se acreditar. Sua armadura, refeita por Hephaesto, o ferreiro dos deuses, se desfez apenas no poder emanado pelo rastro do raio daquele cavaleiro.
A cada instante ficava mais difícil de se ter esperanças. Um cavaleiro que se não fosse tão poderoso quanto um deus, sem dúvida era o mais próximo de um.
Fritz encarava-o, sua expressão estava carregada, sobrancelha arqueada, dentes cerrados com força, olhos atentos. Como um cão examinando sua presa, esperando o momento oportuno para atacar.
Mahati vinha em sua direção, a passos calmos, com seu perturbador sorriso estampado na face.
- Pra falar a verdade, sua armadura durou mais que eu esperava. Bastava o rastro de energia para que ela se desfizesse por completo. Esta escama que veste passou por reformas, não foi? Sim... Creio que passou...
- Cale-se! Vim aqui para matar-lhe e não para ouvir-lhe! Seaaaahhhh!
Com um salto de vários metros, Fritz paira no alto, concentrando seu cosmo com extrema intensidade. Um brilho forte em torno de suas mãos se forma, até que ele estica seus braços e dispara vários raios brilhantes.
- Luzes do Norte!
Várias rajadas de cosmo atingem em cheio Mahati, que nada faz além de colocar o braço na frente do rosto.
Por um instante, Fritz , que ainda estava no alto, encheu-se de esperança. Mas ela logo se esvaiu. Todos os raios se desviaram ao tocar a armadura dourada, sem causar nenhum dano a ela. Mahati nem havia se movido. Uma de suas técnicas mais poderosas sequer arranhara a armadura. Será que ele estava realmente falando a verdade sobre ela ser indestrutível? Mesmo vendo aquilo diante de seus olhos, recusava-se a acreditar nisso.
Antes que pudesse tocar o solo, aterrissando, Mahati o acertou em cheio com um gancho. Mas Fritz não retornou para o alto, pois antes que isso acontecesse, Mahati o puxou pelo pé, afundando-o no chão, abrindo uma enorme cratera. Seu corpo ficou lá caído, sem nenhuma reação imediata.
Os dedos do inimigo voltavam a formar um triângulo, apontando para Fritz, que ainda não havia conseguido se levantar. A energia estava se concentrando. Estava pronto para disparar.
- Morra, verme! Shará Hiei!
- Só se te levar comigo! – grita Fritz ao saltar da cratera, instantes antes do raio atingi-lo.
Sua agilidade havia surpreendido a Mahati. Mas o que realmente o surpreendeu foi o fato dele conseguir lhe atingir. Com a velocidade da luz, Fritz havia saltado da cratera e, enquanto o raio Shará viajava até seu alvo, ele o atingiu com uma voadora certeira na cabeça, fazendo-o recuar alguns passos.
O raio iria acerta-lo em cheio, e abriu uma cratera ainda maior quando tocou o solo.
- Argh... Verme maldito! – berrava Mahati, colocando a mão sobre a boca enquanto limpava um veio de sangue que escorria.
Fritz abriu um sorriso de satisfação. Um golpe finalmente havia atingido-lhe.
- Pode achar que sua armadura é indestrutível. Mas seu corpo ainda é de um mortal! Tão frágil quanto o meu. E pode ter certeza que o matarei e mandarei sua alma ao inferno!
Ouvindo as palavras com certo desprezo, Mahati cospe um pouco de sangue no chão. Depois levanta a cabeça e o encara com seus olhos sinistros.
- Quer mandar minha alma para o inferno? Não me faça rir, guerreiro medíocre. Se quiser posso manda-lo para lá com corpo e alma!
- Esta mentindo! Se pudesse já teria feito! E mesmo se conseguisse, eu voltaria e lhe arrastaria para lá...
Mahati então gargalha, como se acabasse de ter ouvido uma piada.
- Não sabe o que diz. Já estive lá... Fui mandando para lá por meu próprio mestre, Buda. Atirou minha alma com tanta força que fui parar nas profundezas do inferno! Foi lá que aprendi a ser forte! Foi lá que me tornei o guerreiro que sou hoje!
A firmeza de sua voz transmitia uma sensação terrível de que ele realmente estava falando a verdade. Não havia como discordar, ainda mais depois de ter sentido seu cosmo e provado de sua força. Realmente, um cosmo tão intenso, poderoso e cruel só poderia mesmo ter sido alcançado no inferno. Fritz estava impressionado. Permaneceu em silêncio.
- Quando eu digo que minha armadura é realmente invencível não estou brincando. Quando Polarius tirou minha alma do inferno, ele drenou toda minha ira, que sufocava minha sabedoria, e moldou a armadura sob a luz da constelação do Triângulo Austral.
Mahati se interrompeu por um instante. Seu sorriso então esboçou a satisfação que sentia em ser o mais próximo de Deus. Sua expressão apenas se diferenciava da de um anjo pela sensação aterradora que seu sorriso transmitia. Seus lábios rosados subiam vertiginosamente em direção a orelha, passando ao observador todo o temor que o guerreiro realmente impunha. A expressão apavorante, e simples, se completava com seus misteriosos olhos sem pupilas nem íris.
- Cada membro de minha armadura é de apenas uma única partícula de matéria. É como se fossem feitas de um único átomo, completamente indivisível. Não se pode arranhá-la, racha-la e muito menos parti-la! É impossível qualquer tipo de ataque atingir meu corpo!
- Mas... Você está sangrando. Seu corpo é de um mortal, como o meu!
- Sim... Realmente ainda sou um mortal. Mas para que atinja meu corpo é preciso que vare minha armadura. E isto, dentro de qualquer conceito, é completamente impossível! Vê por que sou realmente mais próximo de um deus! Vê por que jamais poderá sequer chegar perto de realmente me atingir! Guerreiro medíocre!
- Não! Não pode ser!
Fritz berrava, inconformado. Todo o mundo parecia estar desabando sobre sua cabeça. A responsabilidade de fazer com que seu mestre pudesse vencer Polarius estava nas suas mãos e nas de seus companheiros. Não podia perder assim. Sua vida se perderia em vão. Se ao menos pudesse carregar seu inimigo consigo para o inferno, mas nem um ataque suicida surtiria efeito. Nada vararia aquela armadura.
Suas esperanças haviam se esvaecido, mas mesmo assim não havia desistido. Partiu para cima de Mahati novamente. Com um salto, voou com uma voadora mirando sua cabeça.
Mahati não cairia novamente no mesmo truque que o pegou desprevenido. Com uma agilidade superior, travou os pés de Fritz antes que pudessem atingi-lo, e o girou em 180 graus arremessando-o no solo, concluindo o contra ataque.
Fritz nada pôde fazer e afundou no chão, abrindo outra enorme cratera. Sua armadura já não agüentava mais. Várias lascas já haviam se soltado, as rachaduras a cobriam e por elas seu sangue escorria. Tentava levantar, mas as dores não permitiam que seu corpo se movesse. Eram apenas limitações físicas, seu cosmo estava inteiro, ainda forte e concentrado. Uma explosão dele se seguiu, e finamente pôde se pôr de pé.
- Não vou... Não posso desistir... – sussurrava para si mesmo por entre os dentes cerrados com força. Depois gritou, explodiu o ar de seus pulmões num brado intimidador. Aliviou sua tensão, ou pelo a expôs, enquanto explodia também seu cosmo, fazendo-o crescer de forma majestosa. E o foi com tanta força que todo o ambiente fora transformado. As ondas de energia cósmica iam congelando tudo que iam cobrindo, o solo, as flores e até mesmo o ar, que começou a cair em forma de neve.
- Aaaaaaahhhh! Agora vai morrer! Execução Aurora!
Mahati sentiu o acréscimo surpreendente de cosmo e finalmente tomou uma atitude defensiva. Afastou as pernas para ter maior sustentação, pois o impacto seria grande, e cruzou os braços para proteger a cabeça e o peito, e ali permaneceu, esperando receber toda a força do ataque.
- Tente novamente! Guerreiro medíocre!
Em cheio. O golpe de Fritz atingiu seu oponente em cheio. A rajada atingiu-o exatamente nos braços, que estavam à frente, e o foi arrastando por vários metros para trás, deixando um rastro no solo, enquanto cobria todo seu corpo de gelo e congelava tudo à sua volta.
Fritz mal pôde se agüentar de pé depois disparar tal golpe. Usando sua última chama de força física ele foi caminhado, quase se arrastando, até o que foi seu inimigo. Agora era uma estátua de gelo. Nenhuma alegria se expressava em seu rosto, pelo contrário, uma tristeza profunda o tomava, uma decepção e sensação de derrota. Apesar de ver seu inimigo congelado, imóvel, Fritz quase se considerava derrotado. Quase, pois ainda estava pronto para continuar lutando.
- Saia logo daí! Venha lutar! – gritava enquanto se colocava em posição de luta frente a seu inimigo congelado.
O cosmo de Mahati sequer havia se abalado. Permanecia na mesma intensidade, e com a mesma assustadora intensidade.
O gelo começa a rachar. Por entre as rachaduras feixes de luz dourada saíram poucos instantes da grande peça de gelo explodir, jogando pedaços para todos os lados. Da explosão de sua própria estátua Mahati revela-se, de pé, sem nenhum dano a sua armadura. Sem qualquer posição de luta ele permanecia imóvel, com seu sorriso de satisfação na face.
- É muito insistente. Na certa não mais duvidava do fato de minha armadura ser indestrutível, mas ainda assim me atacou. Vejo que não quer morrer sem ao menos tentar me derrotar. Pensa que sua alma ficará mais tranqüila no inferno?
Fritz apenas o encarava. Seus pensamentos eram realistas, e condiziam com a descrição de Mahati. Realmente era visível sua incapacidade diante o inimigo. A armadura era indestrutível, seu poder comparável a de um deus, e os poderes impossíveis de se superar. Não havia como derrota-lo. Mas ele não desistiria. Nem se sua alma fosse parar no inferno, ele seria capaz de voltar de lá para novamente atacar seu inimigo. Mas nada disso seria admitido.
- Você fala muito... Vai me atacar ou eu me deixar ataca-lo?
Mahati aumenta seu sorriso perturbador ainda mais. Seus lábios se esticavam como se fossem plásticos. Seu sentimento de glória parecia ser infinito.
- Vou acabar logo com isso!
Ele coloca suas mãos uma com a palma voltada para a palma da outra. Devagar vai abaixando seus dedos até que se alinhem. Uma espécie de fio brilhoso, muito fino e transparente se percebia estar formando. Esticando suas mãos, os fios ficavam evidentes. Eram quase transparentes, e só se via por causa da luz do sol que se refletia. Eram como se fossem de cristais. E de fato eram.
- Teia de Cristal!
Como se obedecessem a um comando, os fios vão para cima de Fritz, rodeando todo seu corpo.
- Mas o que é isso?
- Sufoque!
- O quê! Aaaargh!
Com uma força insuperável, os fios apertam o corpo de Fritz e o erguem no ar. Ele parecia um pequeno inseto enrolado na teia de uma aranha. Finos como lâminas eles se emaranhavam e formavam uma rede tão difusa ao prender o corpo de Fritz que era impossível se livrar. Eram rápidos e ágeis, quase que possuindo vida própria. Seu fio estava sendo capaz de dilacerar o que havia restado da armadura de Kraken e começar a rasgar a carne do cavaleiro. O sangue escorria abundante e pingava manchando a grama verde.
- Mais um que sucumbe ao meu poder! Sabe, guerreiro medíocre, esta vitória sobre você tem um sabor especial. Finalmente livro-me dos rebeldes para meu mestre.
- O que... argh! Esta falando...
- É quase tão saborosa quanto a vitória sobre meu irmão de criação Shaka. Aquela luta que se arrastou até o mundo dos mortos foi decisiva, pois agora sou o único discípulo de Buda! Sim, seu discípulo renegado, desconsiderado por ele e atirado ao inferno. Mas agora sou único! – Mahati ri. A típica risada de um demônio vitorioso. – E pensar que o tolo Shaka se considerava o mais próximo de Deus! Eu sou o guerreiro com os poderes mais próximo de Deus! Eu!
- Você... É louco! – diz Fritz por entre gemidos de dor, enquanto seu corpo começava a se desfazer, preso pelos fios de cristal.
- Hunf... Você ainda vive... Pois vou deixá-lo vivo, para que sofra com mais intensidade no inferno!
Quando fecha seus dedos, os fios de cristais se desmancham em pó, e corpo de Fritz cai no chão. Sua armadura já não cobria seu corpo, ela se desfez em pó no ar, e apenas a calça azul que vestia por baixo dela e seu próprio sangue cobriam seu corpo.
- O que... O que quer dizer, guerreiro louco!
Sem nada responder, Mahati estende o braço com a palma das mãos viradas para frente. Seu cosmo começa a emanar com mais intensidade ainda. Uma aura dourada começa a envolver o corpo de Fritz, que por ela é suspendido no ar.
- Mas o quê esta acontecendo!
- Logo verá...
Mahati fecha os olhos. Seu cosmo expande-se de forma impressionante. Era tão intenso que parecia ser maior que o próprio espaço, como se atingisse lugares que não se pudesse sentir. Como se varasse as dimensões. Simplesmente impressionante e aterrador.
Parecendo estar em estado profundo de concentração, e murmurando algumas palavras em um dialeto desconhecido, Mahati começa a erguer a palma de suas mãos para cima. Seu cosmo dourado brilhava em torno de seu corpo como se fossem chamas que o queimassem.
Uma expressão de pavor surgia no rosto de Fritz. Pela primeira vez um medo real atingia sua alma.
O ambiente começou a tornar-se turvo. Alguns detritos se levantavam no ar e simplesmente desapareciam. O solo tremia de leve.
Mahati interrompe suas palavras, que pareciam com orações, e começa a falar em alto e bom tom.
- Sou Mahatimahn Furhento No Mastiuhr, Guerreiro do Triângulo Austral. Aviso-te, ó senhor das trevas, que tal cosmo que invade teu inferno e abala os portais dos mundos é meu. – depois fica alguns instantes em silêncio, como se ouvisse uma resposta.
De súbito o cosmo de Mahati colore-se de um vermelho ardente. E logo após a energia que envolvia Fritz também assume esta coloração. Não havia dúvidas mais de que Mahati era de fato um demônio. Ele fazia parte do inferno, era uma de suas criaturas e agora mandaria Fritz para lá. Seus olhos flamejando e brilhavam no mesmo vermelho de seu cosmo. Seu sorriso e semblante nunca estiveram tão próximos ao de um demônio.
- Sente o meu cosmo? Sente a profundidade que ele alcança? Este nível é chamado de Arayashiki, o Oitavo Sentido!
Os olhos de Fritz se arregalam, demonstrando toda sua surpresa.
- Oitavo... Sentido?
- Sim, guerreiro medíocre. O sentido que permite controlar a alma. Em instantes você cairá no inferno pelos portões que se abrirão. Seu corpo e sua alma irão juntos para lá, e lá ficará preso, sofrendo por toda a eternidade! Só se mantém vivo e se consegue sair de lá com o Oitavo Sentido, é condição essencial para que se utilize desta técnica sagrada!
- Vai me mandar para o inferno com meu corpo! Então faça logo, pois quanto antes for pra lá mais rápido eu volto! – berrava Fritz, aparentemente inabalado pelo poder de seu oponente.
- Deixe de ser tolo! Poucos guerreiros podem dominar o Oitavo Sentido! E apenas eu tenho um cosmo tão intenso capaz de abalar os portões dos mundos e abrir o portal! Agora, diga suas últimas palavras, guerreiro medíocre!
- Aproveite seu momento de glória... Por que eu voltarei...
Tanta teimosia já havia irritado a Mahati, e sua face tomou uma expressão de ira.
Abrindo seus braços, como se fossem asas, seu cosmo tornou-se mais intenso ainda. Todo o lugar se incendiou em chamas vermelhas. A energia que envolvia Fritz começou a englobar seu corpo, numa espécie de casulo, que ia se afinando devagar.
Seus gritos de dor eram abafados apenas pelo grito de Mahati numa última concentração, antes de pronunciar as palavras finais.
- Em nome do senhor das trevas! Vá para o inferno!
O casulo de energia transformou-se num raio que varou o solo, carregando a alma de Fritz para as profundezas do inferno. Apenas seus gritos ficaram a ecoar no mundo dos vivos.
O cosmo de Mahati diminui finalmente. O fogo se extingue.
A grama verde se desfaz em pó junto com as plantas e as flores. O céu volta a ficar escuro, carregado de nuvens, como no resto do santuário.
Apoiado em seus joelhos, ele fica ofegante e impressionado com a última explosão de energia de Fritz.
- Incrível... O cosmo daquele guerreiro resistiu até o último instante. Foi difícil manda-lo para o mundo dos mortos... – Mahati se endireita, tomando postura novamente – Mas eu o mandei. Está morto o desgraçado! Cumpri as ordens de meu mestre...
Sua respiração estava ofegante. Pela sua expressão via-se o cansaço em que se encontrava Mahati, seu olhar estava fixo no ponto onde Fritz havia sido mandado para o outro mundo. Havia uma tensão no ar naquele momento. Talvez fosse apenas impressão dele, mas era como se uma última chama do cosmo de Fritz pudesse ser sentido ali.
- Não... É apenas impressão...
De repente a sensação da última chama se extingue.
- ...
Mahati endireita sua postura e começa a baixar o ritmo de sua respiração, voltando ao normal. Passa a mão sobre a testa para limpar o suor. Um suspiro de alívio escapa. Ele se vira e começa a caminhar para a escadaria do outro lado da arena.
Antes de subir o primeiro degrau, ele pára. Olha para cima. Vê aquele céu tenebroso, com as nuvens pretas e agitadas. Um veio de sangue desce debaixo de seu elmo, escorrendo por sua testa.
- Hum? – passa o dedo sobre o sangue e o trás próximo ao nariz – Ele me feriu... Já não importa mais... – coloca o dedo na boca chupando o sangue.
Volta a olhar para frente. Percorre com o olhar toda escadaria. Seu pé direito suspende-se no ar e toca o primeiro degrau.
- Ahhhhhhhhhhh!
Quase que em pânico, Mahati se vira para trás ao ouvir o grito de Fritz, imediatamente se colocando em posição de combate, com os dedos na posição do Triângulo.
Nada, nem ninguém. Apenas o som do vento assoviando se ouvia, e nada mais. Havia sido apenas uma impressão.
Antes de voltar a subir as escadas, ele grita, como se Fritz o ouvisse.
- Sofra para sempre no inferno, guerreiro medíocre!
