CAPITULO 13
Desenterre suas lembranças.
- Desgraçado!
Camus partia para cima de Polarius com seu cosmo inflamado como nunca esteve. Toda sua dor estava convertida em força, todas concentradas em seu punho, num poderoso soco que viaja à velocidade da luz contra o peito daquele que era seu inimigo, e seu mestre. Um golpe que desobedecia aos princípios do próprio Camus, pois ele estava sendo movido pelos seus sentimentos. Que aquela altura se afloravam todos de uma vez.
Apenas com a mão direita Polarius segurou o punho de Camus, e o partiu em pedaços, e ainda rachou o antebraço da armadura de Aquário.
- Não seja tolo... Quer morrer mais rápido? Será que esqueceu também o que aprendeu comigo? Ou me obedeceu e se livrou apenas das lembranças de seus sentimentos? Vê se aprende...!
-...
Camus sequer pôde responder, quanto mais reagir. Com um movimento do braço, Polarius arremessou-o ao teto do templo, há pelo menos quinze metros de altura. Seu corpo ficou pregado por alguns instantes na cratera aberta no teto, enquanto lascas de gelo misturadas a seu sangue e a pedaços da armadura caiam no chão.
A queda brusca partiu quase que por completo a armadura de Aquário. O sangue escorria por todo o seu corpo, se acumulando em uma poça ao seu redor. Apesar disso nenhuma dor era sentida. Não a dor dos golpes em seu corpo, acima disso estava a terrível dor de descobrir a verdade de si.
Por toda a sua vida Camus pensou que estava livre dos sentimentos. Por todo esse tempo ele trazia toda a glória de seu poder exclusivamente para si, orgulhando-se de ter aprendido tudo sozinho. Mas não passava de um artifício de sua mente, como um mecanismo de defesa para que pudesse se manter sã. Tanto sofrimento passado na Sibéria não poderia ser carregado, ele voltaria em forma de lembranças, pesadelos, que o atordoariam pelo resto de sua vida, que o tornariam uma pessoa perseguida pelos seus temores, assustada, traumatizada. Carregando tudo isso consigo não conseguiria ser um bom cavaleiro, quanto mais atingir o zero absoluto. Era necessário abandonar tudo que podia tornar-lhe fraco e distanciá-lo de seu objetivo. As lembranças da Sibéria, dos momentos passados lá, das condições a que foi submetido, os sentimentos que desenvolveu, os laços, o amor... Tudo que se referia ao seu passado devia ser apagado de sua mente, pois qualquer lembrança lhe remeteria novamente a todo sofrimento. Inclusive a lembrança reconfortante do amor daquela jovem de nome Aurora, pois ao se lembrar a imagem de sua morte e o desespero de Camus viriam junto, deixando-o cada vez mais atordoado.
Mas agora tudo estava voltando. Polarius estava desenterrando pouco a pouco cada dor que Camus havia sentido, e todas as suas fraquezas vinham juntas, tirando qualquer esperança de sua alma, qualquer motivação que pudesse mover seu corpo a lutar. Ao pouco seu espírito ia se perdendo, num universo frio, escuro e distante.
- Há momentos em que um homem deve ser honroso e admitir a derrota. É inaceitável que um discípulo vença seu mestre... É contra as leis da natureza. Agora que não tem mais motivações para viver, agora que descobriu que sempre teve sentimentos em seu coração – tudo aquilo que renegou – sua vida perde o sentido... Não sente que tudo que passou foi em vão? Sim, eu sei que sente... Nem um instante de sua vida vazia teve sentido... De nada serviu. Uma vida em vão, sem motivação nenhuma...
Cada palavra tocava o fundo da alma de Camus, e causavam uma dor insuportável. Estava ruindo em sua frente toda uma estrutura de conceitos de vida. Tudo vinha abaixo. As palavras de Polarius soavam como verdade, por que realmente eram.
Mas não se podia aceitar tudo isso, mesmo estando tão claro como estava. Camus ainda tinha forças para pôr-se de pé e enfrentar Polarius. Na verdade era um desperdício de energia, pois no fundo de sua razão ele já havia acreditado, já havia enxergado que sua vida não teve nenhum sentido. Mas sua natureza lhe obrigava a negar. Não aceitaria a derrota tão logo.
- Não é verdade o que diz... Não! Não posso ter desperdiçado toda minha vida acreditando ter uma força que nem de longe eu tinha... Passei acreditando que era forte por conseguir manter-me longe da influência dos sentimentos, mas na verdade era fraco, pois me escondia deles... Será verdade...?
- Não sou eu quem está tirando as conclusões... É você mesmo, Camus. Apenas mostrei-lhe a verdade.
- Não! Cale a boca! Você é um monstro, o motivo de todo meu sofrimento! Morra!
O cosmo de Camus explode tomado de ira. Um discreto sorriso de satisfação surge nos lábios de Polarius enquanto se preparava para se defender.
- Execução Aurora!
Uma poderosa rajada de gelo parte de Camus. Polarius apenas precisou esticar o braço para se defender. Toda a energia do golpe se desviou para os lados, centímetros antes de tocar a palma de sua mão, como se tivesse sido repelida por um campo de força.
Surpreso com o resultado de seu ataque, que Camus julgava ter depositado toda sua força, uma onda de ira mais intensa o toma, e parte para cima de Polarius visando acertar-lhe murros e chutes.
- Seeeaaaah!
-...
Nenhuma dificuldade o semideus tem de defender os golpes de seu discípulo. Defendia com as mãos nuas todos os ataques, como se pudesse prever que parte de seu corpo seria atingida.
O último golpe foi um chute. Polarius segurou o pé de Camus e o girou cento e oitenta graus, arremessando-o longe. Seu corpo atinge uma pilastra de gelo, abrindo nela uma cratera, e fazendo o que restou de sua armadura de ouro se despedaçar.
- Não seja tolo. Entregue-se de uma vez e poupe sua alma do sofrimento...
- Não!
Camus engrandece seu cosmo novamente, fecha os punhos com toda a força e parte numa nova ofensiva contra Polarius, desferindo um soco na altura de seu rosto.
Mas o punho de Camus sequer toca seu alvo. Polarius o segura e aplica um contra ataque. O corpo de Camus descreve uma semicircunferência no ar e se estatela no chão, abrindo nele uma nova cratera. No ar voam estilhaços do piso em meio aos pedaços da armadura dourada.
- Argh!
- Não disse que é impossível vencer-me? Sou seu mestre! Aceite as conseqüências de suas escolhas!
- Será que... É este o fim? Acabo assim...?
- Sim Camus... Bastava não me trair e tudo seria diferente... Estaríamos nós dois reinando sobre esta terra ao lado dos deuses... Mas fez as escolhas erradas, então seu fim é este!
-...
Camus permanecia caído na cratera, sem poder reagir. Polarius distanciava-se um pouco, enquanto erguia seu braço no ar. Seu cosmo acrescia-se de um poder imenso, que fazia tremer todo o templo. Seu corpo se envolvia por aura branca tão brilhante que iluminava todo o local. Fragmentos do solo se levantavam no ar e a sua volta se desfaziam em pó.
- Meu discípulo... Terei de puni-lo... Acredite que se dependesse de mim tudo seria diferente... Mas foi você quem escolheu ser desta maneira...
Não há mais alternativas. Não há mais saída. É tolice crer numa salvação, não há mais lugar para a esperança.
A cabeça de Camus inclina-se para frente, como se estivesse pronto para receber o golpe final. O golpe que daria fim a tudo. Suas mãos apertam os fragmentos de rochas no chão, e sobre eles pinga uma lágrima. Uma lágrima de pesar, de sensação de fracasso. Era a última lágrima de Camus.
Uma expressão de pesar, parecida com a de Camus, tomava a face de Polarius. Por mais que ele tentava esconder sua consideração por Camus, ele sentia muito em ter que acabar com seu melhor discípulo. No fundo havia algo que ele nutria por Camus, algo muito próximo ao amor que um pai sente por um filho. E uma lágrima enchia seu olho.
As nuvens se agitam com intensidade.
- Matar-lhe-ei com o mais poderoso dos golpes, capaz de fazer temer o mais poderoso dos deuses... Por roubar esta técnica do deus dos deuses fui banido do Olimpo e negado por todos os imortais... Graças a ela derrotei meus oponentes e recuperei meu lugar de direito... E através dela eliminarei meu maior inimigo e meu melhor discípulo... Adeus, Camus! Trovão de Zeus!
O céu escuro torna-se claro. Um gigantesco raio de energia rasga os céus, iluminando todo o Santuário. E cai sobre Camus.
Uma outra gigantesca manifestação de cosmo parte para cima de Camus.
-...?
Nenhum dos dois raios o atinge. A segunda rajada havia sido disparada ao mesmo tempo contra Camus, e chocou-se com o Trovão de Zeus. Ambos se desviaram.
- Mas o quê!
Polarius é tomado de surpresa. Seu olhar então converge para a entrada de seu templo. Camus, levantando com muitas dificuldades, faz o mesmo.
A silhueta de um homem se mostrava na entrada do Templo Central. Apesar do cosmo brilhante do misterioso cavaleiro, não se podia identificá-lo. Podia-se ver uma armadura cobrindo seu corpo, uma armadura diferente de qualquer uma que Camus já havia visto.
Polarius sabia quem era, mas parecia desacreditado. Dando alguns passos para frente, ele aguçava a vista tentando confirmar suas suspeitas.
- É você... irmão?
