Nota do autor: Faziam séculos q não atualizava esta fic né? Mas também agora este é o capitulo mais importante do fic. Mostro aqui a verdadeira história de Kamus. Boa leitura! E reviewem!
Pinguim.Aquariano
CAPITULO 14
O homem que recusou o Paraíso.
Ele flutuava livre. Não havia o peso do corpo, e sua alma não pesava mais do que uma pena. E se deixava levar pela correnteza, uma suave força que o encaminhava para algum lugar.
Seus olhos ora se fechavam, ora se abriam. Quando se fechavam revivia momentos agradáveis de seu passado – na verdade não se tinha certeza se algum daqueles instantes que vivia quando piscava seus olhos realmente aconteceu, era uma sensação parecida com um deja vu. Mas não importava. O importante é que finalmente ele vivia momentos felizes depois de uma vida tão sofrida. Melhor recompensa não haveria. E quando seus olhos se abriam quase tudo era negro. Algumas poucas estrelas pontuavam o que parecia ser o céu. Mas durava pouco, logo seus olhos se fechavam e sua consciência migrava para um outro instante do que parecia ser sua feliz vida do passado.
Uma conclusão que poderia parecer aterradora para qualquer um, sequer o impressionava. De fato ele estava morto e sua alma ascendendo ao Paraíso. Uma conclusão que lhe soou muito confortável.
Ao longe uma estrela parecia brilhar mais que as outras. Seu brilho ia aumentando lentamente – ou talvez seja rapidamente, não sabia, pois a noção de tempo havia se perdido. O brilho se abria como um portão, convidando-o para atravessá-lo. Através dele podia-se ver silhuetas de pessoas, e com a proximidade se enxergava algumas árvores plantadas sobre um belo campo verdejante e sob um maravilhoso céu azul.
Seus olhos se abriam para enxergava o que havia através do portal, e as lembranças de quando piscava ficavam para trás – afinal eram só lembranças.
Uma sensação indescritível o atingiu, algo divino e celestial. Uma energia tomou conta de sua alma e o fez parecer estar sobre a mais alta das montanhas admirando todo o mundo. Uma energia capaz de lhe abrir novamente os sentidos, e lhe dar outro tanto deles para experimentar sensações que jamais sonhara, dando a nítida sensação de onipresença.
Eis que, cortando todas estas sensações divinas, um agoniado gemido de dor lhe vara os ouvidos, fazendo-lhe virar para trás e observar o caminho de estrelas que havia percorrido: Ao final dele enxergava-se o mundo.
O que vê em nada lhe agrada. O mundo que havia deixado estava terrível. Não havia campos verdes nem céu azul. A terra estava coberta de gelo e sangue e o céu tapado por mórbidas nuvens tempestuosas.
Onde devia haver sorriso havia choro. Sobre a terra fértil havia túmulos. Sobre a felicidade a amargura. E onde devia haver esperança... Não havia nada.
Seria justo que adentrasse o Paraíso deixando todo aquele caos para trás?
Não. Suas convicções não o deixariam fazer isso. O sentimento de culpa o torturaria pelo resto da eternidade.
Mas não há como voltar. A correnteza que trouxe sua alma através das estrelas não corria ao contrário. Todas suas forças se empenhavam em voltar, e não saia do lugar.
E então, às portas do Paraíso, ele cai de joelhos e chora. Lamenta por não voltar e corrigir seus erros, por não poder assumir a responsabilidade pelo que fez.
Em meio às lágrimas, que caiam rasgando o céu como estrelas cadentes, uma voz o chama, lhe soando extremamente paternal. Uma voz que pareceu que lhe apontar a solução.
- Camus... Volte!
E no mesmo instante todo o Paraíso se desfez. Os campos verdejantes e as árvores se transformaram em um fino pó brilhante que se fundiu às estrelas. E o céu azul escureceu e se transformou no nada que preenche o espaço.
E em todo esse espaço só se viam duas figuras: Camus e Articus, o dono da voz paternal.
- Camus... Tua alma ainda vive... Faça com que viva com esperanças...
Por um momento sua voz não saiu. Pois de fato não havia voz ali. A comunicação era através de cosmos, nem era o corpo de Articus à sua frente, e sim uma projeção espiritual.
Emanando o cosmo de sua alma, Camus então pôde responder.
- Esperanças? Mantive-me vivo com elas por todo o tempo e de nada adiantou... Meus discípulos estão à beira da morte, posso sentir seus cosmos agonizando. Em breve serão eles que encontrarei por aqui...
- Não diga isso Camus! Não é agonia que eles emanam. É tristeza... Uma infinita tristeza e amargura... Mas se o seu cosmo voltar a se emanar na Terra o deles também acenderá novamente!
- Mas como voltarei à vida? Minha alma já abandonou meu corpo. A menos que haja uma intervenção divina ou...
- Que uma outra energia se funda à sua...
- Mas quem?
- Eu... Eu tenho poder para isso...
- Você, Edgar?
- Sim, Camus... Minhas últimas energias fluirão para a tua alma... Mas antes que possa voltar é necessário que conheça a verdade sobre si mesmo, para que Polarius não a use contra você...
- A verdade... Por muito tempo fugi dela... Agora a busco com todas as minhas forças...
- É a hora de conhecer sua própria história, Camus de Aquário...
Na Terra...
Em seu Templo, Polarius olhava para o corpo de Camus estirado no chão. Os olhos do semideus estavam tapados pela touca que usava, pois eles expressavam sentimentos que não deviam existir.
A cena tinha um poder de comoção muito maior do que a frieza que qualquer coração poderia ter.
O corpo de Camus parecia ter sido arremessado contra o chão como se fosse algo inanimado, como um animal batido. Quase nu, estava coberto de ferimentos que antes havia sangrado, agora estavam cauterizados pelo frio.
Apenas um ferimento em sua face ainda derramava seu sangue, que escorria como lágrimas. E o sangue descia abundante pelo chão, em dois veios semelhantes a rios. Vez ou outra se deparavam com uma rachadura, enchiam-na e voltavam a correr pelo chão gelado em direção ao trono.
E Polarius admirava a cena, envolvido por um tenebroso e absoluto silêncio, com muito pesar. Lágrimas poderiam encher seus olhos, se houvesse quantidade suficiente para isso.
Seu cosmo estava inquieto, e em sua mente toda a batalha se repetia. De tantas mortes que já presenciara, nenhuma lhe doeu. Apenas a de Camus, que foi como uma lança de ouro varando seu peito.
E em silêncio continuava a olhar o corpo de seu discípulo, remoendo-se em amarguras e tortuosas lembranças do passado. E dos planos que tivera para aquele fora chamado de filho pelo semideus. E de Príncipe por todos os demais.
No plano celeste
- Ouça, veja e sinta o que lhe contarei... E enxergue a verdade...
- Sim, Edgar...
As duas almas são levadas para um mundo real. Eram as lembranças de Edgar, que agora passavam aos olhos de Camus, seguindo sua narração.
Eu sou Articus, irmão de Polarius. Somos semideuses e a nós foi dado o poder das forças naturais do gelo. Somos gêmeos, filhos de um caso de Zeus com uma mulher mortal. Fomos carregados para o Olimpo para vivermos ao lado dos deuses. E assim foi por eras.
O que mais gostávamos de fazer era observar o mundo destas criaturinhas, os humanos. Eles cresciam, constituíam famílias e morriam. Algo novo e surpreendente para nós imortais. Ambicionávamos o controle destes humanos, pois víamos que eles não faziam por merecer a terra maravilhosa que lhes foi dada.
E desafiamos nosso pai. Roubamos uma lasca do martelo de Thor que Zeus guardava sob seu trono. Com este pedaço de rocha podíamos criar trovões de energia tão poderosos quanto os de nosso pai e fazer temer a todos os mortais. Mas fomos descobertos. Tomado de ira o pai de todos os deuses nos arremessou à terra dos mortais. A maior das humilhações. Nosso prestígio entre os imortais reduziu-se a nada. E não poderia ficar assim.
Mas por eras ficou. Cresciam e morriam gerações e mais gerações de mortais, e ainda estávamos confinados nesta terra. Tentamos de todas as maneiras, mas nenhum de nossos poderes poderia nos levar de volta.
Foi então que observamos algo. A cada trezentos anos, na contagem dos mortais, uma guerra era iniciada entra os deuses. Vimos Ares, Poseidon, Abel, Éris, Ártemis, Apolo e até mesmo Hades desafiar Athena e tentar tomar o controle deste mundo. E todos eles sucumbiam ao poder de seus protetores.
Estava aí a chance de recuperar o prestígio entre os imortais e ascender de volta ao Olimpo. Se por um lado tínhamos em mãos um incrível poder, o Trovão de Zeus, por outro estávamos sós. Precisaríamos de um exército de guerreiros que trajassem armaduras divinas capazes de enfrentar Athena e seus cavaleiros.
Após a última batalha contra Hades apenas dois guerreiros sobreviveram, todos os outros sucumbiram, e suas armaduras foram espalhadas pelo mundo para que novos homens pudessem vesti-la séculos adiante. Se obtivéssemos algumas destas armaduras poderíamos banhá-las em nosso sangue e torna-las invencíveis. Sabíamos que havia quatro delas nas terras gélidas da Sibéria. E para lá rumamos. Tínhamos trezentos anos para encontrar as armaduras, banha-las em nosso sangue, presenteá-las à jovens capazes e atacar o Santuário de Athena antes que ela voltasse à vida.
Chegamos à Sibéria como forasteiros, e em poucas décadas éramos como reis. Tínhamos um castelo e o controle sobre toda a região, tendo assim liberdade para recrutar jovens e treina-los para encontrar as armaduras. E assim fizemos por outro tanto de décadas, que logo se transformaram em séculos. O tempo passava e não se encontravam as armaduras, os jovens não resistiam ao treinamento e não conseguiam despertar o cosmo. Talvez fosse por que, obcecados pelo poder, nos desviamos um pouco de nosso objetivo entretidos com as festanças ébrias que se pode promover quando se é rei.
Outro fator me distanciou de meus objetivos: Os sentimentos. Algo que não conhecia me atraiu como se fosse um feitiço. Era uma mulher de nome Ingrid, a mais bela das mortais. Doce Ingrid que me deixava as noites acordado e os dias pensando em teu belo semblante sorridente. Mais nada queria com armaduras, exércitos ou guerras, tudo que poderia desejar já tinha nas mãos: Minha doce e amada Ingrid. Com ela queria ficar e formar uma família, e para não passar pela dor de vê-la morrer, abriria mão de minha imortalidade.
O ódio de Polarius foi despertado, pois sozinho seria muito mais difícil atingir o objetivo. Era inútil tentar convencê-lo a desistir da guerra e do Monte Olimpo e que deveríamos nos conformar com a Terra e usufruir o poder que tínhamos aqui. Ele estava cego. É uma pessoa rancorosa, que mesmo depois de eras ainda não havia se conformado com seu banimento da terra dos imortais.
Foi então que houve o naufrágio do navio francês. E apenas Polarius testemunhou. Ele viu uma pequena criança estirada na areia, encharcada pelas águas gélidas do Mar do Leste, à beira da morte. O que parecia completamente improvável aconteceu: Polarius se solidarizou e começou a cuidar e tratar dos ferimentos da criança.
Sim, o pequeno garoto era você, Camus. Foi na mesma época que minha filha com Ingrid havia nascido.
Seus primeiros anos de vida se desenrolaram dentro das paredes de nosso palácio, com todos os luxos de um príncipe. Quando se tornou um garoto, velho suficiente para andar, falar e pensar sozinho, Polarius não hesitou em colocá-lo sob duros treinamentos. O levava para o deserto gelado e voltava dias depois lhe carregando no colo, quase morto. Já não mais se importava em cuidar tanto de seus ferimentos. Já não mais o via como um filho, e sim como um discípulo.
E isso se estendeu por anos. Apenas não morreu por que tinha o afeto de minha filha Aurora, então uma moça, que lhe cuidava os machucados e ordenava aos criados fazerem o mesmo.
A pequena Aurora lhe estimava demais. E a estima cresceu. Tornou-se admiração, que se tornou amor. E vocês dois se amaram. Incontáveis foram às vezes que fugiu dos treinamentos de Polarius para se encontrar com Aurora, que fugia de meus cuidados. E incontáveis também foram às vezes em que você foi pego por seu carrasco e submetido a treinamentos cada vez mais árduos. E eu nada podia fazer, pois cada vez mais minha imortalidade e meus poderes iam se esvaindo. Havia me entregue à vida mortal. E com ela soube o que era a dor quando ouvia os gritos de Aurora implorando-me para fazer algo quando Polarius o carregava para o deserto.
Foi então que certa manhã acordei com um pesadelo. Nunca havia tido um. A sensação foi terrível. Corri para seu quarto e não o encontrei. Os criados diziam que meu irmão havia saído com você na noite anterior para treinarem. Uma sensação agonizante me tomou a alma.
Era seu aniversário de dezoito anos.
E os dias se passaram. E as semanas também se foram. Por todas as noites nossa terra era castigada por terríveis nevascas.
Um dia, de súbito, meu irmão retorna ao palácio. Ele estava sozinho. Voltou esbravejando, chamando-lhe de fraco e dizendo que para nada mais servia. Ele o havia abandonado no deserto de gelo. Para minha infelicidade Aurora ouviu, e se trancou em seu quarto, pondo-se a chorar com todas as suas forças. E eu, que já era um mortal, nada pude fazer. A cena de minha filha mergulhada em desespero e se debulhando em lágrimas foi a última para mim. Horas depois ela fugiu à sua procura. E nunca mais retornou ao palácio.
Nós só fomos nos encontrar novamente anos depois, quando você retornou para treinar cavaleiros para Athena. Mas então eu já estava velho e você não me reconhecia mais.
O que aconteceu no deserto só você pode dizer, Camus.
-...
- Não fuja de suas memórias... Traga-as à tona... Por mais dolorosas que sejam...
- Não fugirei... Elas me doem muito... Mas não fugirei delas...
Estava estirado no gelo, quase soterrado pela neve. Esperava a morte com paciência, quando ouvi os chamados de Aurora, numa voz tão melancólica que me doeu mais do que todos os dias que passei sob o vento gelado rasgando minha pele.
Aaaaaaah! Kamyyyyyuuuuu!´´
Então fui obrigado a acordar. Levantar-me. E encontrar Aurora mais uma vez. Então a abracei com força, e ela me abraçou também. Seria nosso último abraço.
Ela tossiu, manchando meu ombro de sangue. Há horas ela estava me procurando. Não poderia ter feito isso, ela não agüenta o frio, não possuía um cosmo para aquecer seu corpo. Já era tarde. Sua pele estava pálida. Era exatamente como a neve, quase se podia misturá-la a ela. E, enquanto me abraçava, seus braços iam se afrouxando. Meus olhos se encheram de lágrimas, um grito correu pela garganta e explodiu, rasgando o silêncio. Mas ninguém ouviu.
O coração de Aurora, que cheguei a sentir bater lentamente, já não batia mais. Seu corpo amoleceu em meus braços, e seus olhos se fecharam. Então pude ver seu último semblante: Um leve sorriso.
Uma dor insuportável me corroeu por dentro, e quase me fez enlouquecer enquanto cavava com minhas próprias mãos o túmulo de minha amada.
E a sepultei. No instante em que cobri seu rosto com o último punhado de terra e neve, senti o mundo desabar sobre minha alma. Tamanho foi o peso deste mundo que a desfez em pó e congelou meu coração. E meus sentimentos foram trancafiados na região mais profunda de meu ser. A crença neles e em seus poderes se reduziu a nada.
Não havia mais motivos para crer em sentimentos. Eu me pus a vagar pelo deserto, deixando que os deuses me guiassem. E Athena me guiou. Fui levado à armadura de Aquário, onde pude sentir a grandiosidade do cosmo da Deusa da Justiça, e sentir novamente uma razão para viver. Não uma razão que me levasse a viver por mim, mas sim para que outras pessoas pudessem ser felizes e sentir toda a grandiosidade do amor que senti ao lado de Aurora. E assim eu fiz, partindo para o Santuário de Athena.
E carreguei comigo uma seqüela que veio a me salvar a vida: Esqueci todo o sofrimento passado na Sibéria, e deixei para trás todos os meus sentimentos. Chegou a ser uma ironia, eu lutei para defender aquilo que desprezava: Os sentimentos... Agora os estou reavendo para despertar à vida.
- A verdade... Dói-lhe?
- Sim... Mas eu posso... suportar...
Camus ajoelha-se, colocando sua face entra as mãos. Suas lágrimas caiam no céu, e se transformam em estrelas cadentes que podiam ser vistas na Terra. As mãos de Articus repousaram sobre sua cabeça, dando-lhe conforto.
- Deves voltar e terminar o que começou... Carregue consigo toda a minha energia e minha sabedoria. Exploda teu cosmo além dos limites do infinito... E faça brilhar tua constelação para iluminar teu caminho para vitória...
Ambas as almas foram tomadas por um intenso brilho e logo se fundiram numa energia cósmica radiante. Era a pura forma da vida.
- Que nossas energias possam se fundir... E a esperança voltar... Desperte para a vida e para a vitória Camus!
E a energia explode no espaço.
Uma grande estrela cadente caia por entre as demais.
Continua...
